28.12.07

Heyk Pimenta

Dono de uma inconfundível poesia, misto de plástico-pena-gema-placa-de-metal, meio concreta e inteira sensível, não é a primeira vez que Heyk aparece aqui nas páginas do Presença.

Durante o lançamento do livreto-presente "Elementar", em novembro passado, recebi em mãos um exemplar de seu belíssimo "Neuronóseles", então recém-lançado em outubro de 2007, que traz gratas surpresas da chamada poesia de rua.

A melhor poesia do dito livreto, "O pop", já foi postada aqui, se não me engano em setembro ou agosto deste ano.
as poesias são bastante diretas em sua expressão mas ao mesmo tempo carregam conclusões fundas e desconcertantes.
é como se fosse um tiro. de plástico.

Posto aqui, do supracitado livreto do Heyk (por enquanto o único lançado deste poeta mineiro de 20 anos, residente no rio), o poema "O bicho a gente"

- - -

Na sala
e em roda
que se fecha o ciclo
respirar conjunto

........o todo é um novo ser vivo
o esqueleto do bicho é o violão e o
.........................poema escrito

papel petisco copo de plástico com vinho
......o olhar brilhoso é que esquenta
......risada é batida do coração do bicho
o fluido fio dourado da paixão bem dito
................é o pé batendo
........................a palma o bom ouvido

........É um texugo tamanduá bonito
........forte gordo enquanto não termina o rito

........depois esquartejado
..................não morto
...........para ser montado
...........um outro
ao som de um novo
....poema poema organismo


(Heyk Pimenta, outubro de 2007)

27.12.07

Gasolina

Aloha Presença!
Aos que têm falta de combustível - e isso é sazonal, acreditem - nunca é demais um galão de "gasolina". Feliz 2008 !

- - -

Um tom me chama –
Um tom ou um silvo?
Ora me encanta,
Ora me agita
Em todos os dissonantes palatáveis
Do viver calmo.

É a estrada, senhores,
A estrada é a vida e é ávida
E clama por mim, ordens expressas
E pouco dóceis.
"Desancora que és partícula no rio,
Abre os braços, vai ao céu
Que a vida é uma só"

E das pedras que rolam
Cria-se a fagulha
À deprê inflamável
Do sentar e aceitar,
Milênio a milênio,
A mesma carroça, o mesmo apego,
A mesma curva pra distrair,
A mesma cura
Da doença que não há,
E sentar e cansar,
Paciência de druida –
1 bilhão de existências
De inerte aceitar.

(Aos 21 de janeiro de 2006)

23.12.07

A tempestade filosófica

Após o post # 200 neste blog - a pérola reflexiva do velho batuta Pedro Lermann - começo eu mesmo a escavar algum material antigo, como este soneto presente no livreto "Viver e devir", de setembro de 2004.

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Em tempo, caros amigos:

desejo a todos boas festas e positivas vibrações pra 2008.

o momento da virada, tradicionalmente, nos inunda de reflexões, passa aquele filme na sua cabeça.
lembrem-se - e o digo sob o risco de parecer panfletário - a positividade interfere diretamente no curso dos fatos. se você pensar "que merda" mil vezes, então isso terá um peso na projeção do por vir, ainda que um "que bom!" posso anular de uma só tacada os negativismos.


feliz 2008 - cerveja gelada e poesia de calçada - Presença !

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A tempestade filosófica

Oh… lá vem a avalanche catastrófica
Das dúvidas que beiram a demência,
O vazio inerente à existência…
Mestres: a tempestade filosófica.

Do cerebelo, ligeira ela escorre
(E é tão bela, permita-me dizer),
A tempestade urgente de viver !
Instigante, como o olhar de quem morre.

Sou ? O QUE sou ? POR QUÊ ? Se sou, é vão?
Rebento do Acaso ? Uma chance ? Ou não ?
Desafia-me a leveza do Ser …

E eis a chave ! Meramente existir !!
Tudo é caos, a nevasca do Devir,
Ciclo infindo de viver e morrer.



(Aos 21 de fevereiro de 2003)

19.12.07

Meditação

De volta aos cadernos do embriagado profeta, uma meditação lermanniana.


Não aceito que acusem meus erros de não terem tentado.

Cada um deles teve a glória da tentativa

Enquanto houve a fantasia da possibilidade.

E cada um foi realidade

Enquanto a fantasia se dissipava.

Mas não carrego comigo cadáveres.

Fico apenas com a sorte da experiência

E a sensação boa do rastro.


Pedro Lermann - 1986

17.12.07

Pequeno

Praguejei assim ao vento
Palavras expectoradas e cuspidas
Na cara do santíssimo
Um desalento

E depois aceitado
Em desânimo demasiado
Sentei ao meio-fio
De todo resto destacado

Mas em pouco como deveria
Ser quebrada a monotonia
Ouvi o barulho das ondas do mar
E as aves que a esmo planavam

Então toda praga – o desencanto
Toda água que ao rosto é pranto
Secou-se pois me olhando descobri
Quão pequeno sou – não preciso ter pra onde ir

11.12.07

"Manhã expressa"

A espuma do café
risca a manhã
em teus lábios superiores.

Sopramos na ânsia
um beijo.

Toma-nos densa a espuma
frase em meus lábios - fica
e já não vejo
nos teus,
nem espuma
nem beijo.

Sopramos a manhã
no café.

Expressos,
passam por nós:
a ânsia, a espuma
e o desejo.

7.12.07

O nojo

E quando me canso
da enciclopédia de cumprimentos,
das rotinas estabelecidas,
niponicamente seguidas,
os hábitos que eu mesmo fiz

quando o caminho não mais é feito
de tijolos de ouro
e me deixo conformado
amargamente deitado
sob o sol de protocolos
onde, estático, me doiro

quando o bom-dia é peso-morto
lançado à revelia
nos peitos já sem resposta
dos pálidos colegas,
oitàscinco trajetórias
em escritórios glaciais

quando o cianureto não se faz
em cavalar tiro solucionático
mas de peça em cartaz,
pra todo sempre em cartaz,
em doses homeopáticas

e o orgasmo convulsivo,
outrora redentor,
passa sorrateiramente a ser
um mais-ou-menos prazer

aí então é fechado um ciclo,
o ciclo do nojo,
e ai de mim, irmãos,
não percebê-lo,
não acontecê-lo para, enfim,
renascer da abjeta lama,
o afiado mosqueteiro
trovador-fênix do eu a mim;

na esquerda o verbo,
na direita o rojão,
insolúvel como um anti
que se faz em paraíso
de mudança e levante.


(Isaac Frederico, aos 07 de dezembro de 2007)

6.12.07

Diálogos

- Vai sair?

- Sim, vou.

- E vai aonde?

- Descubro indo.

- Mas como assim?

- É.

- Mas fazer o quê?

- Continuar.

- E continuar o quê?

- Sendo.

- Mas que tipinho mais manjado esse... acordou dramático?

- Pensei nisso, mas acho que não.

- Algum problema, então?

- Os mesmos que aí já estavam.

- Não sei, isso tá estranho. Alguma coisa mudou?

- Claro; tudo.

- Tudo o quê, criatura?

- Tudo.

- Menos os problemas, que são os “mesmos”, certo?

- E com essa retórica se vai a algum lugar?

- Sim, claro.

- Aonde?

- Descobre-se indo.

[e continua, e continua, e continua...]

5.12.07

reflexões de um anfeta-jovem

O som da esperança é o barulho da mordida na maçã (18/12/2005)


Dezembro 2005
O fardo da atuação, vestido voluntariamente. Por quê a atuação? Por quê não só a contemplação? Que desejo tão intenso te levaria a sacrificar o corpo, a gastar tantas preciosas horas? É válido que haja tão intenso desejo?


- Envelhecer é perceber que qualquer sofrimento é possível. A vida pode te trazer desgraças, das formas mais intensas. Amadurecer é perceber que isso não é nada pessoal.

- A devastadora imensidão de palavras, de possibilidades de combinações de palavras... e, no entanto, são só palavras. Tão ineficazes em comunicar o que quero, e até isso: será que há um “eu” que quer comunicar algo, anterior à linguagem?


Posando para fotos
Que nunca veremos
Não temos tempo…

rumo ao chile !

CORRENTEZAS SUJAS - I

Tudo bem mermão! Só não me encosta... - me estico na cadeira de molas espreguiçando um vácuo. Algum facho de pensar vai levar esse troço todo pra longe, eita peso danado! Já me fartei dessas contas. Nenhuma idéia é convincente até que passe gritando ao lado, no barco alheio, de calças-arriadas-mostrando-a-bunda-branca-de-fora, rabiscada em batom um - Foda-se! vermelho. Assim me veio na cara essa idéia do Chile, que me espera de alguma forma, por alguns segundos e dias e horas marchando por sobre ele - sem um tostão é claro - em qualquer uma daquelas bibliotecas antigas cheias de poetas novos mortos com olhos de tigres do Atacama. O caminho é o Chile! Até lá tantas coisas pra ver sem saber que vi ou sem entender pra que arregalar a tanto a vista. No fundo é me perder na américa mais latina que há – cansado des´ser tão latino. Porque latinidade é south mermão, tudo que é sul é pobre, tudo está pra baixo abaixo e debaixo de tudo, como se a bússola tomasse forma do dedo inquisitor de Cristo. Tudo bem mermão, já te falei! - devo parar de beber porque meu fígado resmunga mais que minhas tias juntas falando pelos cotovelos enquanto fumam entre dedos carnívoros e peles de puxar bochechas, um cigarro mata-rato desgraçado, e cospem sobre todas aquelas coisas de tias velhas e resmunguentas. Vou deixar de descascar abacaxis pros outros agora, e abrir minhas próprias portas, e quem sabe não me veja sorrindo pra mim mesmo numa delas, sentado à luz de Nietzsche, cheio de dentes concisos, cheio de pelos louros lindos entre os ricos colares de pedras de mármore do Casaquistão dos livos? Algumas revoluções começam no fígado. A minha tem começado, minha bílis começou a confabular um livro, talvez o novo manifesto, eu chamo de água barrenta. Ainda vivo me traindo, querer a morte por aqui é besteira, já se morre vivendo. E em que arte? A vida agora tem risco de maçã vagabunda, e temos qu´engolir na garganta sequinha. Qualquer coisa eu mudo de canal e fecho os olhos. Mas o Chile... é sim, o Chile ainda é o caminho.

29.11.07

“C o n v e r s a p o é t i c a”

(extraído de uma conversa via computador)

R. Elfe diz:
Vislumbras tão pequenas tíbias
R. Elfe diz:
que alfazemas cozem ante o céu majestoso.
R. Elfe diz:
Num redemoinho de cores
R. Elfe diz:
um jardim terno e bondoso.
R. Elfe diz:
Onde as cores vão surtir aos olhos
R. Elfe diz:
com o palatável aroma que percorre à brisa
R. Elfe diz:
e teus nomes são vários, comuns e tão plenos
R. Elfe diz:
quando nas flores, a flor assim me arrolho.
R. Elfe diz:
Vai bater tuas asas à gentil libélula
R. Elfe diz:
que repousa um beijo fractal ensimesmando
R. Elfe diz:
vai descer as lenhas dos afazeres, as crianças vêm arrancar-lhes as folhas.
R. Elfe diz:
Que o caule bom sirva aos pequenos de varinha que dança a fada
R. Elfe diz:
assim na magia podeis trazer teus olhos,
R. Elfe diz:
e em menina te formas, de flor os pés no barro
R. Elfe diz:
a voz que o vento alto vai cantar sobrevoando
R. Elfe diz:
assim algum toque divino e claro
R. Elfe diz:
das águas que rodeiam os vales
R. Elfe diz:
a flor que eras agora só em cores
R. Elfe diz:
traz o pensamento um riso que colores.

Segunda parte, “o agradecimento”:

R. Elfe diz:
tenro abraço terias de mim agora
R. Elfe diz:
sem vantagens do corpo
R. Elfe diz:
sem nada
R. Elfe diz:
queria voar pra longe
flor diz:
sem nada?
R. Elfe diz:
pr´algum monte cheio de luz
R. Elfe diz:
verde e céu baixo
R. Elfe diz:
para ter com o vento essas imagens
R. Elfe diz:
aqui onde pareço vivo
R. Elfe diz:
só morro.
R. Elfe diz:
e o morro que quero não me sustém
R. Elfe diz:
bateis as asas comigo se puderes
R. Elfe diz:
e leves nos deixemos como ventos de estação
R. Elfe diz:
o vinho mais novo, pisado por pés velhos
R. Elfe diz:
é esse o que quero ao coração.

Fantasmas

aloha presença !

após o sucesso do lançamento do "elementar", posto poesia do Rafael "grego", um dos poetas independentes mais talentosos de que tenho notícia, pelo conjunto virtuoso de sua obra.
segue o "Fantasmas". um grande abraço a todos.

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Fantasmas que fitais
na madrugada elétrica:
simples ruídos banais
que me cobrem de susto.
Em cada sombra, um rosto.
Em cada rosto, a dúvida.
Os passos baixos que oiço
decerto me perseguem.
Passos parar jamais
por becos becos becos
de um hálito sombrio.
Ai fantasmas tão sólidos
entre os dentes trincados!

24.11.07

Nada posso quanto ao poço.

Não aprendi acordar cedo. É uma prova da alma, lastimável até. Um vestibular completamente fora de hora, e eu sempre atrasado. Mas, como de costume, fui içado de sonhos abomináveis: chuvas torrenciais, enchentes, pessoas morrendo, trombas d´água, beijos afogados... Arregalei os olhos quando ainda lá, fui tragado por um poço travestido em poça d´água. Logo depois num golfo, como se voasse e voei, fui retirado. Foi quando percebi que a ponta do cobertor tocava o chão e, já tomada pela água da geladeira em degelo, intumescia. Um rio largo, desfilava do chão da cozinha, circundando o sofá sob a janela, até meus pés, agora quentes sobre o chão tenso e frio; como se toda aquela água tivesse jorrado de meus olhos, boca, ouvidos... Tive a leve impressão de que, se não acordasse àquele instante, morreria afogado pelas dobras úmidas do cobertor, como pequenos dedos enrugados.

Ainda tropeçava em sombras pela casa, quando percebi o ronco da sala, respirando, minha mãe ainda dormia. Meus irmãos estavam longe, no quarto. Um deserto se estendia até lá. Eu ainda era o filho, ainda era o irmão mais velho; de alguma forma me confortava saber. Estirei-me para o banheiro mais próximo. As sombras se multiplicavam pela casa. Meu medo era uma faca cheia de manteiga pronta a me acertar o pescoço. Nada demais pra quem, minutos depois, usou a mesma faca para abrir a caixa do leite e emplastrar o pão.

Com alguns livros prontos a serem devorados no parapeito da janela, reparei na cor da manhã. Repentina luz que rebentara, sem que meus olhos guardassem o ato. Cinza? Dentro do verde das eras que nervosas cobriam a janela, era branca e incisiva como o dedo escorregando até a virilha. E esfregava os olhos pra torcer o cinza e ajeitar um nome àquela luminosidade vaga. Nisso especulei sobre qual livro abriria meu dia. "Humilhados e Ofendidos" me veio à mente - saímos da confeitaria... o velho morrera, seu cão morrera; alugamos o quarto do velho. Não. Não queria àquela hora, adentrar o quarto do velho morto. Nem esperar por notícias suas em outros rostos. Abstive-me então em deixar o meu tocar o punhado de amarelo chumbo que brotava no cinza.

Meu irmão já acordara, rastejou pra dentro do breu, quase iluminado. Agora, cinco e trinta e cinco da manhã. Ele me pedira para acordá-lo quinze minutos depois dali. E estaria eu vivo? Sempre pensei em morrer como um Nosferatu, fulminado pelo sol sob a janela, com uma das mãos ao peito e outra tentando cobrir-me usando a inútil sobra que cinco dedos magros desenham. Preferi fechar um pouco a janela, o vento frio da madrugada ainda rasgava. Mas, rezei pra que a manhã soubesse como entrar pela casa. Pra garantir, deixei um fiapo de janela aberto. Um fiapo de morte pra mim. Como se esperasse algum amor tardio.

Entrei no quarto onde o computador se esconde, me escondi. Tornei a porta quase fechada. Na brecha, vi que o sol já cruzava toda a casa, tocando o vaso de vidro sobre o aparador antigo de madeira. Respirei aliviado. Coloquei Jeff Buckley pra cantar, junto dele "atravessei o jardim das meninas louras". Reli alguns textos. E com um gosto úmido e entre cortado de luz, escrevi este.

(O primeiro parágrafo do texto foi perdido entre o colar e o copiar do bloco de notas para o word. Mas reescrito às pressas, pra não deixar escapar uma imagem se quer, com o sabor das palavras ainda quentes sobre a língua rósea da mente.)

22.11.07

Frases que sobreviveram pra contar...

como foi o encontro do Presença!

"Somos muito pequenos pra tanta poesia."

"O vinho é uma navalha."

"Ainda há amor?"

19.11.07

Entre poetas...

R. Elfe diz:
é tu mesmo??????????????? rs
R. Elfe diz:
engraçado imaginar que eu possa estar falando com um cara que deu um estalo no meu cérebro
R. Elfe diz:
se for, ou se não for, é bom que saiba por mais uma pessoa que há aquela famosa compreensão da imagem que tu escreves
R. Elfe diz:
pois me espelhei
R. Elfe diz:
e sei que essa ponte pro autor é a maior coisa
R. Elfe diz:
também escrevo e estou me caçando há muito tempo, e teus rumos me deram maiores incentivos e melhores lumes surgiram nesse lodo
Fabrício Carpinejar diz:
obrigado, meu amigo
Fabrício Carpinejar diz:
lumes e lodo, bela combinação
R. Elfe diz:
é verdade
R. Elfe diz:
é de onde viemos né?
R. Elfe diz:
somos lumes no lodo
Fabrício Carpinejar diz:
a poesia fica cutucando
R. Elfe diz:
e vice-versa
R. Elfe diz:
demais
Fabrício Carpinejar diz:
tm um covelo largo de rio (deve ser: tem um cotovelo largo de rio)
R. Elfe diz:
rs
R. Elfe diz:
é verdade
R. Elfe diz:
e nos assombra
R. Elfe diz:
quando te li percebi o quanto te assombrava rs
Fabrício Carpinejar diz:
nunca farei uma queda-de-braço com o rio
R. Elfe diz:
pois estive nessas linhas
R. Elfe diz:
eheheh
R. Elfe diz:
nunca!
Fabrício Carpinejar diz:
prfiro boiar do que mostrar força (prefiro)
R. Elfe diz:
apesar de tentar ser uma pedra pra desviar às vezes os rumos
Fabrício Carpinejar diz:
risos
R. Elfe diz:
é mais sábio boiar
Fabrício Carpinejar diz:
vou lá, tenho que dar aula agora de tarde
Fabrício Carpinejar diz:
grande abraço
R. Elfe diz:
idem

18.11.07

Canção de Balthus

A ponta dos dedos
acende a boca de fala úmida

Abre-se o botão entocado

Desabrochar de flor vermelha

Torna-se fruto
Amadurece junto aoslábios

Faz-se roxa

Amora madura

Despenca em fuga
Um gemido

(corda esticada)

Prenúncio
do tenso e aberto sorriso.

Novembrode 2007.

17.11.07

Elementar

Caríssimos amigos e frequentadores das paragens do Presença, de volta ao blog depois de alguns meses fora do ar, anuncio com grande prazer um novo lançamento do coletivo, o livreto de poesias Elementar, com poesias minhas, de William Galdino e Isaac Frededrico.

A confraternização acontecerá no Arco-Íris da Lapa, a partir das 19h, na quarta (21/07) e todos estão convidados a comparecer e garantir seu exemplar, que tem tiragem limitada e custa o preço de uma gentileza - cerveja, é óbvio.

Reproduzo aqui o prefácio de Renata Dantas:

Este livro versa quatro elementos. Aqueles considerados desde a ciência antiga os componentes do universo físico. Água, fogo, terra, ar. Cada poeta – Vinícius, Isaac e William – nos apresenta sua versão sobre eles. De quebra, a introdução de André Gide, com um trecho de seu "Os novos frutos".

Dos quatro elementos, qual o mais essencial? A Terra, que dá chão, frutos, segurança? Destino final de toda raça humana. Terra que pode ser derrota, mas também bênção, como lembra Isaac. Terra que nos dá espaço para percorrer, mas nos mantém presos a esse solo. Pés fincados por "sapatos muito bem amarrados", diz William. Impedidos de alçar vôo (sonhar alto?), Vinícius lembra que "somos nada diante da firmeza de propósito do chão". O chão da Terra que bebe o ar.

Ar que relativiza. A pulverização. Fragmentação. Ou, segundo Vinícius, "a promessa do infinito". E, ao mesmo tempo, a frustração. O símbolo da incapacidade humana de levitar, de se ver "atravessado de ar", como sonha Isaac. O mesmo ar que nos ergue suspensos no espaço, faz a bailarina de William despencar no chão como pedra. Ar que alimenta o fogo.

"Utopista, o fogo é alma, só alma", esbraveja Isaac. Sem amarras, sem limites, sem controle. "Hipnose, ira, magia". Energia vital, força propulsora, motor que impulsiona o homem a se manter em constante movimento – eterno queimar dos pés, mesmo quando um outro recomeço parece impossível, enfatiza Vinícius. E chama que queima os pés, também faz arder a pele dos embriagados de paixão, como escolhe William. Chama de fogo que esfumaça a água.

Água que, como elemento químico descrito por Isaac, sacia a sede e dá vida aos oceanos. A mesma água que desmancha castelos humanos feitos de areia e afoga. A profundidade turva que atrai pelo mistério do desconhecido e assusta pela tentativa irresistível de sedução – o canto da sereia, remete William. Água que dá vida à Terra.

Dos quatro, qual o mais primitivo? Nenhum. São interdependentes. Estimulam um ao outro. Se retroalimentam.

Ar, terra, água, fogo. Oposição. Equilíbrio. Contradição. Harmonia. Primitivo. Complexo. Seria o homem a união desses elementos? Talvez nem todos carreguem em si essa elaborada quádrupla mistura. Mas nossos poetas sim. São elementares – não elementais. Como cada poema dessa pequena obra.

12.11.07

Remendos

Eu não dobrei as roupas, nem fiz a cama atrasado de olho na janela esperando o ônibus. Nem abandonei o copo de café pela metade, com a colher mergulhada pra mexer ainda o açúcar morto no fundo do copo. Nem dobrei o pão pra morder em duas vezes, quiçá uma. Fui deixado pra trás naquela manhã cheia de rodopios. Eu não fitei de cima meu corpo lá embaixo queimando, deveras, eu era um balão cheio d´água descendo do sétimo andar. Eu não resumi num segundo o papo de um dia inteiro e disse tchau com as costas, mudo. Minha mãe não ressentiu minha não presença, acordando com o som do portão fechando às pressas, nem com o silêncio estranho que explodiu depois. Fui deixado pra trás naquela manhã aberta, uma ferida concisa cheia de luz, a ruidosa luminosidade inicial de tudo. Dentro daquela manhã pequena, fui deixado pra trás, como uma lesma remoendo pedras. Os relógios denunciaram minha morte, às 8 e 45. Demitiram meus olhos, incineraram minha cara. Fui largado no carrocel d´água na pia da área de serviço, junto as roupas de ante-ontem e aos desejos de vida e sorte. Fui deixado pra trás na luminosidade estranha daquela manhã. Meu corpo removia-se antecipando o coito celeste, em esquinas de tempo, cruzaram adeuses. E a manhã corria cheia de pressa, e pregado no sofá, morto como o açúcar no fundo do copo, eu denunciava o que nunca havia sido.

Impressões

Não tinha nada a ver com isso. Ninguém tinha. Mas elas estavam lá, no meio da manhã sem dia, no meio do pátio sem pátio, dentro deles, que estavam lá, no meio delas, fora dali, dentro do ciclo que, invisível, nos tangia. Não tínhamos nada a ver, mas tínhamos. Elas estavam lá, no meio da manhã, no meio do pátio, dentro, livres, presas... Eu estive lá no meio delas. E no ciclo delas no chão, de joelhos, rimos, livres ali dentro pra rir se quiséssemos. Outras não. Outras fumavam, desencadeavam encadeadas, falas que num ciclo menor se perdiam. Outras não. Outras desapareciam, dentro de pequenos rostos, outros tantos - sumiam. E eu não tinha nada a ver com isso, mas tinha. Estava dentro delas, ajoelhado, desencadeando risos, rindo - livres, se quiséssemos. Mas não tinha nada a ver com isso, mas tinha, nada a ver, mas via.

Depois de mais uma visita ao JLA.
(Instituto feminino de correção para as menores infratoras)

10.11.07

Imperatriz

De sol a sol é o jogo
Efervescente do dia.
Os paranóicos irrompem
Em seus gastos de energia,
O trabalho e sua filosofia –
O sol-yang é o dia.

A noite é o escoar fino
E a lua sua força motriz,
A musa integralmente perfeita
E sua égide de giz,
Os cílios grandes, a tez pálida
Dos mistérios mil e, gélida –
Na abóboda os passos lisos
Da yin-imperatriz.


(Aos 05 de novembro de 2007)