26.12.08

Zero a zero (um quase lamento) ou por uma cor com cheiro, sabor e movimento.

.............................................................................................. Pintura de Paul Gauguin.


Alta noite, cena reprisada.
Esta beleza exposta pelo simples prazer de um recuo a qualquer investida.
O espelho nas mãos.
O tédio estampado no rosto (pintado no limite entre o vermelho e o vulgar).
O corpo equilibrando-se na ponta da agulha.
Malvada carne, exposta em quase indecência,
salivando olhares.

Por onde andam os sorrisos que dizem sim?
O aceno de mão graciosa?
Um gesto sem escudo levantado?

Fecho os olhos e sonho com as tahitianas de Gauguin...

Será que alguém ainda se atreve a ir além das luzes da ribalta?


Hein?

André Luis Pontes, diário sem floreios, 1997.

15.12.08

Láudano

Que coragem podemos
Nós, de herança indigna e cauta empatia
Assemblar a estes terríveis poemas
Se o tempo é veloz e temos tanto medo um do outro?

Não subam mais degraus
Donzelas
Acabaram-se as sacadas
E o amor é só refúgio.
Não vêem que a promessa é armadilha
Não cumprida por princípio?

Não me deixe dizer-te a verdade, irmão.
Não a que tenho de mim.
Pois irás embora com ela
Sem saber que carrega um fruto legítimo.

É tempo para se possuir
Ainda que sejam só os segredos.

E
O poema se encerra em comprar
Papel e caneta, inúteis.
A tristeza fica guardada.

Irei a tua procura hoje à noite
Se estiveres pelos bares
Talvez unamos nossas bocas em silêncio e vergonha.
Senão
Ficará então esta última astúcia
Como a despedida que o fingimento não permitiu.



Vinicius Perenha, quinze de dezembro, 2008.

10.12.08

dentro de casa

..........................gulodices
..................................digo
.....................................sois
..................................digo
....................................sóis de maracujá
............................................pra nós dois

........................................**

................as árvores descortinam
.......................................................prédios
................eles atapumam
.......................................................nuvens
................elas desenroscam de
.................................adivinhar desenhos


[caros, boa noite, é meu primeiro dia nessa casa que eu já visitava; quero agradecer o teto e comemorar: brigado e vamos juntos, firmes e em versos]

6.12.08

Hierarquia

.....
. .................................................................................. Ilustração de Fábio Portugal....
........
.. .........
..............
A raiz sustenta o tronco

................Que cresce em galhos
..................Que produz ramos
..............Que alimentam as folhas
...............Que fazem fotossíntese
...............Que alimenta a árvore
............Que distribui os nutrientes
............ Que possibilitam os frutos
............... Que justifica os ramos
................ .Que vêm dos galhos
.......... ....Que se unem ao tronco,
...................Possível pela raiz
........................Que retorna
............ ....Na síntese axiomática
............. ..Da igualdade sintática:

............A raiz (se encerra) em a raiz


Isaac Frederico, do livreto absinto, Setembro de 2006.

30.10.08

Estranha beleza

..................................................................... Karel Teige


Ardido pelo querer que não se contenta
o banquete é rapa de panela que não enche o bucho.
É amor de noite inteira que não sacia.

Beber a água e ter nova sede.

Suar em desassossego.
Saber a dor da pancada e insistir assim mesmo.

Um segundo de sol que apaga dias de tormenta.

Sísifo rolando pedras.

Pequeno gozo das farpas que entram fundo.

Moto-contínuo.

Corpo de vida castigada
carregando alma serena.

Rosa com espinho.

Cigarra estourando de tanto cantar.

É quase morrer de dor
e ainda querer amar.

Do livreto Sem persona, 2006.

26.10.08

Sol rubro

Morri de susto,
Empalideci
No meu direito de ser fraco
Por dois segundos;
Vi o sol rubro
Tão real e raro,
O sol –
Não foi um rolls-royce
Nem um recorde mundial
De novos nanossegundos.
Vulcanizei-me
Vendo a ilha no mar,
A nuvem grossa
Ao pé do sol de fogo
No morro arredondado
De cinco bilhões de anos,
Calmo que imóvel;


.................................................A água, um mar
.................................................De moléculas de
.................................................Água, um mar
.................................................De moléculas de
.................................................Água, um mar
.................................................De moléculas de …


(Aos 21 de setembro de 2008)

16.10.08

Outras formas

Outras formas, técnica mista s/papel, 2008.

......................"A alma quer mais do corpo. Quer que ele se gaste
..................... Quer que definhe, sem nada que lhe baste."
..............................................................................Donizete Galvão

Até então, livros lidos e canções ouvidas
(onde se omitiam as pedras).
Tentava encaixar o real no que as palavras tinham dito ser.
E ficava a dar pulos,
querendo alcançar o que um dia alguém chamou de nuvem,
cheio de idéias que me deram sobre o que eram nuvens.
Já não solucionava no corpo as desavenças,
e não havia ideal que desse conta.
A transcendência passava pela pele.
Tinha de ser sentida na carne.
Mais uma descoberta, afinidade também desafina.
Expresso romântico descarrilando,
dando vez as diferenças.
No fogo da paixão vulgar,
que queima enquanto há lenha.
.....................................................
Do livro Elementar, novembro de 2007.

9.10.08

Cessa o céu,
a chuva foge.
Resta o gosto úmido nas coisas.
Nenhuma estrela tem lugar no amarelo adrágio.
É um céu branco e raro.
Céu de chuva que termina contumaz,
gelada e leve;
lavrando o sopro extenso
que o mistral armou.

(tarde de outubro)

7.10.08

Intifada

Me conta o que viste
divide-te
versa-me tua perspectiva
abraça-me lenta
mas fatalmente,
intempestiva,
que as escolhas de toda tarde,
depois da soneca,
adormecem-te mais.

Um café quente
um ombro ardente
nunca o ombro de sempre,
graças a Sidarta,
Ganesha, Yeshua, Selassie,
Confúcio e Kerouac,
faz a mala
estala-me um beijo
tateia-me o hálito.
alopra a verdade que te foi dada
ama o caminho
de tua própria Intifada,

........................lá estou eu sorrindo
........................acompanhando-te ao sol
........................que nos carbura de volta
........................à redenção solta e sã
........................do indo.


(Aos 21 de setembro de 2008)

4.10.08

Fábio Portugal

Pintura de Joan Miró

Já havia postado algumas ilustrações e pinturas do Fábio aqui no presença, agora é a vez de apresentar o bom trato dele com as palavras.

Copo d’Água

Inclinou o copo d’água e surpreendeu-o o contato do líquido com os lábios. Pareceu-lhe algo absolutamente novo e irreal, como se fosse recém-nascido para a maciez do mundo. Sabia, por experiência, que estes estados de fascinação costumam passar rápido e este pensamento o entristeceu no mesmo instante intelectual em que a fascinação o deixou. Nestas horas lhe era inevitável lembrar que, realmente, pensar é estar doente dos olhos. Porém quanto mais evitava pensar mais mergulhava na escuridão fria das reflexões.Adentrou o banheiro sem acender a luz. Queria apenas as sensações. queria sentir mais, queria sentir-se vivo por mais alguns instantes. Girou apressadamente a torneira, encheu as duas mãos em concha e atirou água fria ao rosto. Mais e mais. E quanto mais atirava e se esforçava em sentir, menos sentia e parecia que se distanciava do próprio corpo, assistindo àquela cena patética de fora, como um espectador estupefato.Entrou novamente, lembrou de Teresa e do peso bom, do peso que o faz sentir-se vivo. E lembrou também de como ela se olhava, nua, no espelho por longas horas – a fim de ver aflorar a alma em seu corpo. Pensou em fazer o mesmo. Ergueu rápido a cabeça e mirou seu rosto no espelho. Sua expressão de pavor assombrou-o mais que o pavor em si. Afinal, do que se tratava? Seria loucura, epifania ou simples solidão? Que pensamentos absurdos, que agonia mais sem-propósito!Uma brisa passou por seus pés descalços no piso frio, e se fez sentir um suspiro em seu peito. Só então notou, sem assombro, que seu banheiro não tinha espelho. Que o Sol já estava alto e a luz acesa. Embuçou-se em sua sombra predileta e foi dormir. Os pensamentos mantiveram-se a uma distância respeitosa.

Fábio Portugal.

2.10.08

Deitado

Estou lá, deitado –

não estou esperando
nenhuma carta
não estou estudando
a saída do xeque
não estou pensando
em que vou comer hoje
não estou aqui sob minha pele
querendo ser só a pele,
desejando sumir pra sempre,
querendo parar de querer;
não pus o disco
pensando em levantar pra trocar de lado
não estou pagando
a prestação eterna
de nossas vidas entardecidas
nem querendo pôr ordem
na confusão deliciosa
que me ocorre
agora agora agora e agora outra vez
não morro, não puto, não teclo
não arrebanho abraços
de asseclas estupefatos
enquanto

estou lá, deitado.


(Aos 21 de setembro de 2008)

29.9.08

Irmão

Um trevo à nossa amizade,
Meu melhor amigo,
A coluna zero
No terreno bélico
Do que já nascido somos,
Os sóis que juntos vimos,
Eles juntos, nós loucos,
Simultâneos todos,
Alheios aos tomos
Subcutâneos das regras,
Um trevo singelo,
Um aperto de mão,
Um abraço,
Uma reza no compasso de sempre,
De uma viagem,
Um filme, um dia de chuva
Dos copos afogando
Nossas famílias falhas,
Que parece que todas falham
Grosseiramente,
No incapaz global
De acolher ao invés de dar dinheiro.

Meu grande amigo
Pra sempre,

Seu irmão.


(Aos 22 de setembro de 2008)

25.9.08

Reino dos números

São três e quinze,
cinco, nove, doze, treze, trinta e três, quarenta e dois e cinquenta e nove,
que na mega-sena há sempre
números próximos,
onzes de setembro,
”quinhentos reais na conta, senhor”,
três a zero, dois a um e zero a zero,
que empates sempre vão existir,
duas colheres de sopa,
trigésima reedição,
raiz de dois, irracional,
trinta anos,
alguns dias de férias,
coca dois litros,
quinze do sete de setenta e oito,
dia em que nasci
no reino dos números.


(Aos 21 de setembro de 2008)

22.9.08

Setembro ou Nada

Coronel Aureliano, pintura de Fábio Portugal.


Setembro traz consigo a primavera,"expulsando o inverno". Uma nova estação carregada deste desejo de tudo abraçar, na "pressa típica dos nervos sensíveis" dos que admiram e anseiam pela calma e experiência que se encontra na velhice. Velhice dos que trazem a marca do tempo sobre a pele, e que num dia de cansaço suspiram ofegantes: Não foi em vão, tudo valeu a pena, visto que alma não era pequena.A vida na sua totalidade. Setembro e tudo mais.Este poema faz parte do livro levante que o Vínicius lançou em 2007 no bom e velho esquema do faça você mesmo . Mas a tiragem foi bastante reduzida, então já deixo registrado aqui o meu pedido por uma segunda edição. Ouviu Vinicius?

Setembro ou Nada

O que quero
É terminar todos os dias cansado
Porque fiz tudo
O que é preciso fazer
Pra não morrer num momento de tédio.

E saber de olhos fechados
Que de alguma forma estranha
Tenho as melhores pessoas
Do mundo
Por perto.

O que eu quero
É dizer as palavras que
Eu
Tenho por dentro
E ouvir mensagens quaisquer
Que possam me estimular o desprezo
E a devoção.

É morrer
Num outro dia qualquer
Mas que o seja!

Um dia qualquer.


Quero ter a pressa típica dos nervos sensíveis
e desejar a calma senil dos avós;

Quero ironia e astúcia de sobra
pra que ninguém reclame oportunidades
perdidas
e, se preciso,
calamidades que lembrem
o que é preciso ser lembrado.

Quero vitórias que não perdurem
Porque só assim os erros não significarão
derrotas.

Quero tristeza, sofrimento e controle
Pra discernir e celebrar os prazeres e liberdades.

Quero tanto
Que descobri por acaso
Que saber o que se quer
Não é tão difícil como parece;

Difícil, é viver com isso.

Vinicius Perenha,2007.

Presença

aos amigos Vinícius e William, este quase-poema
com amizade e adolescência !
abraços.

* * *

Este poema
Vai para meus amigos
William e Vinícius
Meus poetas prediletos,
Versos nem sempre retos,
Nem sempre inocentes,
Mas sempre bêbados,
Sempre sementes
De uma realidade que é
Nossa Presença,
Discutindo se somos astros
Ou zoroastros;
Se isto pode ser considerado um poema
Então somos ricos, meus irmãos!
Seremos violentos em nossa pretensão
De sermos sim
Mais que um não,
Mais que meio e menos que separados ?


(Macaé, aos 21 de setembro de 2008)

19.9.08

Instruções.doc

Ésquilo, aquarela de Fábio Portugal


Um poema do Isaac retirado do Absinto, livreto em parceria com o Vinicius lançado em 2006.

A ilustração acima é do Fábio Portugal, amigo da escola de belas artes que além de ilustrador é pintor, escultor, designer, fotógrafo e poeta.

Para conferir outros trabalhos do Fábio acesse:http://www.fabioportugal.com/


Instruções.doc

Não sê Prometeu
Acorrentado a teus desejos,
Xeque-mateia teu ego
E seus sutis ensejos,
Enceta a compreensão
Do teu fundo interior
E salva o arquivo
No teu eu-computador

Isaac Frederico, do livreto Absinto, setembro de 2006.

Evolução

O abat-jour virou abajur, assim.
Fecho Éclair amanheceu fechecler, brutamente.
De mansinho, cinemático virou cinema,
Que virou cine
(Que em breve vira mero I …).
A modernidade
Simplificou o vocabulário.

O amor é o contrário.
Virou namoro,
Esticou pra namesmamorada,
Embarrigou de gêmeos,
Dois filhotes no quintal.


(Poema interante do livreto "Viver e Devir", aos 12 de março de 2003)

16.9.08

Breubraillebrilho

..Ciclistas, pintura de Iberê Camargo.



Palma passeando pela pele
deslizando pelo muro.
Tingindo
talhando
escrevendo no escuro.

Ponta de prego cavando sulcos.

Mão afundando no inverso
água em movimento

imagem fragmentada.

Carne acesa
...........a fogo
a ferro.

Pupila-paisagem dilatada
na face atenta
do homo faber

que habita o parapeito
da janela escancarada.

Agosto de 2008.

2.9.08

Márcia Maia

Aloha Presença !

Após algum tempo afastado devido a uma carga excessiva de trabalho, retorno às boas esferas destes posts e deste mundo da poesia "nossa".
Faz umas semanas andei fuçando alguns blogs e me deparei com esta grata surpresa que é a poesia de Márcia Maia.
Troquei um e-mail com a moça, uma pernambucana muito simpática, que me autorizou a postar aqui o soneto "dança comigo?".
O soneto é profissa, pra fazer um comentário absolutamente insuficiente. As aliterações embalam o poema sem os apelos fáceis da previsibilidade que este recurso geralmente carrega.
O decassílabo é uma pequena obra prima e segue abaixo; o blog da moça já se encontra nos favoritos deste espaço e é carregado de bons poemas, além do caminho das pedras para adquirir os livros que ela já publicou.

Cerveja gelada à tarde descompromissada !

- - -

que importa no compasso além do passo
se passo-a-passo passo além da porta
que encerra qual comporta o pouco espaço
e em marca-passo irmana passo e aorta -

retorta que destila o descompasso
do corpo quando lasso se transporta
e à porta aporta feito em sangue e laço
(nenhum estardalhaço se suporta)

comporta antes ousar unir o traço
ao braço que no abraço outro conforta
e à dança desentorta em novo passo

um passo e outro passo o chão recorta
rompendo o lacre à porta e ao compasso
ao qual além do passo nada importa


(Márcia Maia)

25.8.08

Rumo ao Chile

Uma letra em parceria com o Rafael, dos tempos da Geração Perdida, banda folk-punk que durou uns seis meses e fez um único show. Olhando hoje me parece bastante ingênua, mas tem seu mérito pela sinceridade dos versos (ingênuo é anagrama de genuíno). Familiar para todos aqueles que em algum momento de suas vidas foram tocados pelo espírito on the road , pelo desejo de outros rumos , no anseio de se encontrarem. Relendo essa letra pensei no personagem Supertramp do filme into the wild, pensei em Dylan e suas fugas inventadas, e também nos sábios-loucos-viajantes que nos encantaram nas leituras da nossa primeira juventude, Rimbaud, Jack London, Cassady, Kerouac...
Penso em André Luis Pontes o louco andarilho, e em todos aqueles que de alguma forma buscaram uma possibilidade de desvio, que desejaram outros caminhos pra fora dos trilhos.
A mudança é o caminho, mudar de lugar ou mudar a si mesmo .
Sempre aprendizes.



Eu não pertenço a esses lindos dias de sol
Eu vim do negro sujo das esquinas
Eu não espero o abraço triste da minha mãe
nem o beijo da minha menina

Eu admiro mais os loucos
que essa gente vazia
que enfeitam suas vidas
com essas falsas alegrias
Não posso mais ficar aqui a viver nessa incerteza
não suporto mais o riso da tua indiferença
Quantas lágrimas precisam os meus olhos derramar
pra que um dia eles percebam o quanto vale o meu sonhar?

Eu vou cair nessa estrada ver se encontro a minha vida
vou jogar de vez nessa parada já que não tem mais saída
E quando tudo tiver fim

E quando tudo tiver fim

Eu vou fazer uma canção pra mim

Rafael Elfe e William Galdino, 2000.