25.8.13

Ángelus!

..

Juan Ramón Jiménez
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Olha, Platero, quantas rosas caem por todos os lados: rosas
azuis, rosas brancas, sem cor... Se diria que o céu se desfaz
em rosas. Olha como me replenam de rosas o rosto, os om-
bros, as mãos... O que farei com tantas rosas?

Saberia você, talvez, de onde vem esta branda flora, que eu
não sei de onde vem, que enternece, cada dia, a paisagem,
e a deixa docemente rosada, branca e celeste – mais rosas,
mais rosas –, como um quadro de Frei Angélico, o que pin-
tava a glória de joelhos?

Das sete galerias do paraíso se acreditaria que atiram rosas
à terra. Igual a uma nevada morna e vagamente colorida, fi-
cam as rosas na torre, no telhado, nas árvores. Olha: a força
toda se faz, com seu adorno, delicada. Mais rosas, mais ro-
sas, mais rosas...


Do livro Poetas Hispânicos, Coleção Platero vol. 01.
Editora Cozinha Experimental. Tradução de Marcelo  Reis de Mello


18.8.13

Uns corpos são como flores

 ..............................LuLuis Cernuda

Uns corpos são como flores,
Outros como punhais,
Outros com fitas de água;
Mas todos, cedo ou tarde,
Serão queimaduras que em outros corpos se formem,
Convertendo por virtude do fogo, uma pedra num
..................homem.

Mas o homem se agita em todas as direções
Sonha com liberdades, compete com o vento,
Até que um dia a queimadura se apaga
Voltando a ser pedra no caminho do nada.

Eu, que não sou pedra, mas caminho
Que cruzam ao passar os pés desnudos,
Morro de amor por todos eles;
Dou-lhes meu corpo para que o pisem,
Ainda que os leve a uma ambição ou a uma nuvem,
Sem que nenhum compreenda
Que ambições ou nuvens
Não valem um amor que se entrega.


Do livro Poetas Hispânicos, Coleção Platero vol. 01.
Tradução de Marcelo  Reis de Mello

  

9.8.13

Breves desatinos


Zine  publicado em parceria com a Editora Cozinha Experimental que será lançado no próximo sábado na  PÃO DE FORMA, feira de arte impressa que reunirá livros, zines, publicações e produções editoriais independentes que dificilmente são encontradas dentro do circuito comercial.

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10 e 11 de agosto / 15 h às 22 h
Rua Martins Ferreira 22, Botafogo, Rio de Janeiro.
A entrada é franca. Traje de banho opcional.
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Abraços.






13.7.13

Julia Margaret Cameron


Começou a fotografar aos 48 anos após ganhar de presente uma máquina fotográfica de um de seus filhos. Sua vasta obra foi produzida  entre os anos de 1864 e 1875.
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                                         "Annie, my first success"
                                        
                                        O escritor Thomas Carlyle

        Alice Lidell ( para quem Lewis Carroll inventou e contou Alíce no país das maravilhas)

                                        Charles Darwin

                                        O poeta Henry Taylor



7.7.13

Tim Maia, Roberto Carlos e Rock and Roll, nos tempos dos Lps, k7 piratas e Locutores de Rádio.



Fui uma criança sem muito interesse por música, acho que o modesto acervo de discos dos meus pais também não contribuiu muito. Lembro de alguns desses discos; trilhas sonoras de novelas da rede globo, coletâneas internacionais de músicas românticas, Lps do José Augusto (que era o ídolo da minha mãe na sua juventude), alguns discos de sambas-enredos e outros do Tim Maia e Roberto Carlos, e estes dois são a herança musical que ficou. O gosto pelo Tim Maia só fez crescer de uns tempos pra cá, graças a era do download que me possibilitou entrar em contato com sua produção dos anos 70. Os Lps do meu pai eram da fase brega-romântica do Tim Maia (anos 80), toda vez que ele tomava umas a mais colocava esses discos no máximo e cantava junto os poucos versos que sabia, e para um moleque de uns sete anos não era a música mais interessante pra se ouvir.
A  audição mais atenta dos discos do Roberto Carlos se deu por volta dos 17 ou 18 anos, peguei os vinis que tinha em casa e coloquei no toca-discos procurando as músicas mais interessantes, fiz tudo isso depois de me certificar que não tinha ninguém por perto, naquela época ninguém poderia saber que eu andava ouvindo Roberto Carlos. Isso era imperdoável prum jovem rebelde, fã de Iggy Pop, Bob Dylan, The Clash e Neil Young. Até a primeira metade dos anos 70 Roberto Carlos produziu muita coisa boa, depois infelizmente acabou virando uma espécie de Julio Iglesias brasileiro, abandonou seu visual cigano-hippie, com seus cordões, jaquetas e cachimbos e resolveu cantar pras gordinhas, baixinhas, míopes e nossa senhora, e há décadas só faz lançar os mesmos discos e especiais de fim de ano pra cumprir contratos.
Mas Roberto Carlos e Tim Maia não me despertaram interesse na infância, foram descobertas posteriores. Lembro da primeira música que prendeu minha atenção quando criança. Estava tocando no 3 em 1 prateado da marca aiko que tínhamos em casa, era uma tarde na Ilha do Governador na década de 80, fiquei ali prestando atenção naquela melodia e na história que a letra contava. Fiquei esperando a música terminar com papel e caneta nas mãos e assim que o locutor anunciou de quem era aquela canção anotei no papel; Eduardo e Mônica da Legião Urbana. Então era essa a tal banda que o Geovane tanto falava. Geovane era um amigo do primário que dizia pra todos que sua banda preferida era a Legião Urbana, acho que todo moleque nos anos 80 que tivesse um irmão mais velho devia gostar da Legião, o Geovane tinha um irmão mais velho que curtia a banda, como eu não tinha irmãos e nem o hábito de ouvir rádio demorei um pouco pra conhecê-los. Ainda levei algum tempo pra entrar em contato com os álbuns da banda, foi por volta do 14 anos quando comprei no camelô umas fitinhas k-7 piratas, numa dessas promoções de três por não sei quanto, foram duas fitas da Legião e uma do Raul, e essa foi a minha iniciação no rock. Legião Urbana e Raul Seixas foram as portas de entrada. Neste mesmo ano, 1995, comprei meus primeiros Lps; Planet Hemp, Raimundos, Pearl Jam e Nirvana, o típico rock and roll de ouvinte da rádio cidade.
Depois, aos 15 anos, descobri o Trash Metal, Punk aos 16, Folk aos 17, aos 19 formei uma banda com os amigos Rafael Elfe e Odilon Soares que durou apenas seis meses (a minha falta de ritmo pra tocar bateria foi uma das razões pra curta vida da banda) . E daí pra frente o moleque que durante a infância não se interessava por música se tornou um aficionado, consumidor compulsivo, que baixa mais músicas do que pode ouvir,  que gastou durante muito tempo o dinheiro que tinha e o que não tinha comprando discos, e até hoje não consegue passar por um vendedor de vinis sem parar pra dar uma olhada.

Também não lembro qual foi o último dia que passei sem ouvir música.

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9.5.13

Cooper noturno


Em certas alturas
a locura
é a cura.

Em certos momentos
o alento
é lento.

09 de maio de 2013.

5.4.13

Fernando Rodrigues e seu "Manifesto"


Recentemente numa ida ao Centro do Rio encontrei com o Fernando Rodrigues divulgando seus livretos no bom e velho esquema faça-você-mesmo dos poetas de calçada. Fernando tem vinte e poucos anos é morador da Ilha do Governador e recentemente ingressou no curso de Filosofia do IFCS.
O poema a seguir foi retirado do livreto “Manifesto” e faz parte do livro de mesmo nome previsto pra ser lançado em breve.
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A cidade e seus contrastes na visão do poeta.
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“Manifesto”

Digestão escarrada dos séculos passados;
a realidade carioca, reflexo onírico dos
desejos feridos propagados em ecos de alcance
inestimável.

A maquinaria sinfônica dos sentidos desregrados,
enganados, descarnados, transcende ares
vezes tropical, vezes mórbidos, vezes os dois.

A cidade, esse monstro de energia que mastiga,
canta, olha, julga, deseja, rouba, mata, urra,
massacra, não para,
no movimento dos carros, olhos dos viciados,
gracejo dos privilegiados,
necessidade dos marginalizados;

é a poesia síntese não escrita de eras cíclicas
de membros mutáveis e estrutura estática,
correntes de toda humanidade não definida,
canalizada pra alguns pontos, como rios nos mares,

o Rio de Janeiro é um desses mares,
realidade confusa, duvidosa, com diferentes
perspectivas que se cruzam, se aproximam,
entrelaçam ao inconsciente, no irreal.

Os mendigos se revirando,
carros engarrafados buzinando,
as multidões ejaculadas dos prédios no
horário de pico,

os pirados berrando se borrando e comendo
em marmitas de alumínio doadas,
o exército de salvadores recolhendo almas
e as vertendo em cédulas sempre mais altas,

o voto comprado,
a cerveja gelada,
a cachaça barata,
as putas moribundas,

os reacionários esclarecidos
como vacas lobotomizadas,
os revolucionários com o grito estéril,
os que se acham mais sóbrios que os dois e
falam que mudanças são ferrugens intelectuais,

os traficantes transformados em ídolos
nas favelas
e pelos circos de playboys que desejam um dia
ser com os jogadores de futebol,

a Av. Presidente Vargas fervilhando e
a Uruguaiana em polvorosa,
fome,
engavetamento nos túneis,

a Zona Norte extensa, esquecida, movimentada,
parada, suburbana,
Baía de Guanabara sufocada com marés de lixo
a Zona Sul pros gringos, com suas pompas,
arrastões, edifícios caros amontoados, praias cheias
torrando banhistas aos sol,
uma Zona Oeste ignorada,
mas com uma Barra e Recreio novaiorquisados,

ritmo incessante dia e noite
do monstro de energia gerador de êxtase, euforia,
massificação, ilusão: transfiguração da
realidade irreal individual ou não.

Essa poesia não escrita, mas vivida, não acadêmica,
toma forma no campo da arte da mesma maneira
que no dia a dia:
digerindo e vomitando tudo de uma só vez;
um parto convulsivo e doloroso dessa existência
nervosa e desordenada do Rio.

Assim essa poesia pode agora ser parida
sobre o papel e encontrar seu espaço,
mesmo que seja no esquecimento
e no seu aborto enquanto literatura.

Fernando Rodrigues, Março de 2013.

16.3.13

Fricção # 03

























Zine Fricção ed. 03
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Texto de João do Rio & ilustrações de Iuri Casaes

7.3.13

Ana Torrie

Alguns trabalhos da amiga e grande artista portuguesa Ana Torrie.
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 Ana Torrie, nasceu em 1982, no seio de uma família falida de descendência aristocrática escocesa. Foi educada em regime privado pelo avô materno (homem de inúmeros ofícios, que ganhou a vida como sapateiro, técnico farmacêutico e ilustrador de postais de boas festas). Descobre muito cedo a sua paixão pela literatura macabra, tendo escrito e desenhado, ainda com 11 anos de idade, o seu primeiro conto ilustrado: “As Lágrimas Verdadeiras de um Crocodilo Destroçado”.
No dia 5 de Dezembro de 1999, pelas 7 da manhã, assiste ao nascimento de uma ninhada de gatos e emociona-se. Apaixonada pela obra de Piranesi, dedica dois anos da sua vida ao estudo da representação do céu na gravura europeia dos sécs. XVIII e XIX.
Nos dias de hoje, constrangida por grandes dificuldades financeiras, divide-se por trabalhos da mais variada espécie: retocadora de fotografias antigas de famílias aristocratas do Porto; tratadora de cavalos e vigilante de florestas.

Texto retirado do site da artista.









1.3.13

A Maravilhosa


Foi menina, mas um dia ela cresceu, cheia dos encantos, virou mulher desejada. Já não é mais aquela mocinha meiga e graciosa, cheia daquela inocência cantada e decantada pela fina e antenada bossa nova (que de nova só guarda o nome). Sua beleza encheu os olhos , perceberam ali um imenso potencial. Viram que muitos salivavam por ela . Os cafetões se aproximaram, foram cercando, bajulando e venceram pelo cansaço. Conseguiram o que queriam, virou garota de programa. Mas não qualquer uma, de luxo, só pra'queles que podem pagar pelos seus serviços. Os cafetões sorriem enquanto contam a grana, não imaginavam tamanho sucesso. Ela virou objeto cobiçado pelo turista endinheirado, se internacionalizou, entrou no topo da lista. Está a venda pra quem quiser e puder pagar... Me entristeço com o que fazem dela, já não vejo mais o brilho dos seus olhos. Pobre menina, envelhecendo sob castigos.

1º de Março de 2013, aos 448 anos da cidade de São Sebastião.

21.2.13

Navegabilidade

Lançou aos campos, o sojicultor
A soja aramaica, vinda em e-mail,
   importada em segundos
   de in-geográficos mundos.

Eis que desabrocha em girassol -
Solos infecundos ?
  Rimas em segundos ?
      por quê tão desnorteado ,
poema que planta soja
E o solo que lhe aloja
provê flor ?
Porra, sojicultor !

E o título,
Um tiro à tirolesa
no dicionário de mesa,
Ridículo.
Como que assim se chama
um poema rural ? Ó, pena pinel !


Aos 21 de fevereiro de 2013.

( ... em homenagem à Monsanto.. )

25.1.13

Poesias Pornográficas On Line.

 
Para aqueles que não tiveram a oportunidade de conferir o fruto da parceria entre o Presença e a a Editora Cozinha Experimental segue o PDF do livro, POESIAS PORNOGRÁFICAS!
É só clicar no link e baixar. Abraços.


20.1.13

Rafael Elfe


Você precisa resolver coisas
dar de comer aos bichos,
alimentar-se deles.

Ligar pra família, mentir pros amigos.
Mentir pra família, ligar pros amigos.

Único que prolifera remorsos
bicho que fuma escondido
chora quando nunca

nunca quando chora.

Diz que precisa resolver tudo
matar recibos vencidos
acimentar negócios
dar-se de abraços à cama
precisa fingir que ama
e ama fingir que precisa.

Único que vomita tempo
enforca pessoas, fabrica relógios
vive de tédio e pressa
ama quando nunca
nunca quando ama.

Bicho de guardar segredos
acha-se dono das coisas
e só uma gripe te derruba
uma paixão e diz poesia
que nunca foi tua, que nunca foi boa.

Único que literatura
e brinca de estragar o mundo
mastiga poeira, cospe parafuso
bicho de comer à mesa
nem a sete palmos de avareza
tira esse peso do fundo.

Poema publicado no blog Num vago lume...

31.12.12

Boas festas !

Aos nossos leitores e parceiros, que 2012 tenha sido produtivo e que 2013 se apresente com muitas realizações e oportunidades !

Abraços fraternais,

Equipe Presença.

17.11.12

Marcus Pereira e a paixão pela música

 
Revirando minhas caixas de papéis reencontrei esta matéria recortada de uma edição do Jornal do Brasil de agosto de 2006.

Marcus Pereira foi responsável pelo lançamento de discos de Cartola, Elomar, Quinteto Armorial, Arthur Moreira Lima entre tantos outros. Lançou nos anos 70 uma coleção de 16 LPs intitulada Música Popular, registro da produção musical de todas as regiões do Brasil, resultado de suas viagens pelo  país.

Os LPs lançados pela gravadora Discos Marcus Pereira têm um valor incomensurável para a música brasileira.

Como ele mesmo dizia “ um país que tem uma música como a nossa não merece dívida externa.”

Infelizmente Marcus Pereira nos deixou antes da hora, em 1981. Endividado e vendo-se impossibilitado de dar continuidade ao trabalho que tanto amava , suicidou-se com um tiro aos cinquenta anos.

O Homem se foi
mas suas realizações magistrais permanecem.

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15.11.12

Fábio Alves


A Rua
I
Caminhamos pela rua
Sempre tentando
Olhando em volta
E vendo como as coisas se resolvem
Como se encaixam as peças do jogo
Sob o jugo da entropia do universo
Que faz com que tudo se acomode
O homem usa da preguiça
E se faz alheio à vontade
Impulsionada pelo dentro
De ao próximo amar

II
Tentando e olhando – vês?
Buscando o que realmente importa
Que talvez seja a pureza humana
Que anda nas entrelinhas
Esmagada pelas linhas
Do egoísmo em negrito
E da maldade inata sublinhada
A qual vai aperfeiçoando-se
Na école do tempo
Internato vitalício
No qual é impossível
Visitar os pais nos fins de semana

III
E a nossa pequenez
Canalizada e balizada pelo próximo
Que cria regras mesquinhas de convivência
Visa ao material – O concreto infernal
De pleitos e desejos abstratos
Os quais jamais serão conquistados
Deixam pelo caminho as minas
Que serão esquecidas
Até que um outro homem
Alheio a esses – talvez até um homem puro
Pise-as e carregue consigo a morsa
De mutilações e pensamentos pós-traumáticos
A vida segue...

IV
Onde será que está?
Aquilo que foi perdido
Ou que talvez nunca foi criado
O amor verdadeiro e puro
Nos faz umedecer os olhos
Só de pensar que ele existe
E nossos lábios tremem
Ao descobrir que é impossível
Compreendê-lo por completo
Somos reprovados à prova
Da lição que Jesus nos ensinou
Continuamos ignorantes
Dando cabeçadas nas paredes
Da rua por onde caminhamos.

                                           (Fábio dos Santos – maio de 2007)  

5.11.12

Iberê Camargo


Os escritos de Iberê Camargo estão à altura de sua pintura.
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Mistérios da vida


Astronauta de uma nave cultural, a Terra, pendurado de cabeça pra baixo ou para cima, sem teto nem assoalho, navego num espaço que a imaginação não consegue limitar. Como um marinheiro embarcado à força procura ler o livro de bordo, para descobrir o roteiro desta inquietante viagem, consulto o mar, as pedras que são os documentos mais antigos e os alfarrábios amontoados nos cantos da nave. Alguns são de uma clareza obscura, outros de uma certeza incerta. Há muitas rasuras nesses velhos escritos. Sempre lhes falta a última página. Pergunto então aos viajantes mais antigos, mas nenhum deles viu os sinais que, dizem, outrora no céu apareceram. Olho para aquela Lua pisada pelo homem. Penso que ela seja falsa. A Lua, a minha Lua, é aquela que traz sobre a face Nossa Senhora montada no burrinho, carregando nos braços o Menino Jesus. É a minha Lua e a Lua da Chata, minha irmã de criação. Se isso não for verdade, então os velhos mentiram para nós.
Inquietante é a viagem da nossa nave, correndo pelo espaço sem fim...Nesta viagem, neste meu durar renovam-se os passageiros. É um embarcar e desembarcar azafamado. Muitos não se preocupam em conhecer o roteiro da nave nem o seu próprio durar, considerando que essa indagação rouba o prazer da viagem. Comportam-se como turistas. Eu não estou entre esses. Embora saiba que, abrindo uma porta, encontro uma outra fechada, continuo a abri-las uma após outra, indefinidamente. O homem quer conhecer.
Esse mistério que veste as coisas está presente também na arte. Jamais consegui explicar a alguém o algo misterioso que existe na obra de arte. Esse mistério está no quadro, nos olhos do gato, nos olhos do homem e na vida. E a tudo envolve e a todos confunde. É o real na sua concreteza.
Quando à noite, na minha cidade, ouço o trotear de um cavalo no asfalto da minha rua, eu imagino um ser fantástico a galopar no escuro pelo céu, pela Via Láctea. Este pensamento, que talvez pareça absurdo e pueril, é menos fantástico do que o cavalo troteando por essa rua, desta nave.

                                           Porto Alegre, 6 de maio de 1970

Do livro gaveta dos guardados.