................................................................................ Pintura de Marc Chagall
Trinta e três anos juntos
e um dia ela deixou de estar.
Só então ele percebeu
que não sabia
qual era a cor dos seus olhos.
Novembro de 2013
cerveja gelada e poesia de calçada
“ Passada
a surpresa de seu desaparecimento, sentimos o quanto essa figura se
singularizou por traços com que, via de regra, ninguém se impõe à
primeira vista no meio novo que elege para viver. Era despido de
maneiras espalhafatosas e de expansões retóricas. De uma
irreverência temperada de humour. Mas nos olhos ressaltados e
tristes, no seu talhe de toureiro e na máscara de contemplativo –
algo se exprimia que era um misto de revolta, doçura e gosto de
viver. Com as próprias mãos ilustrou, imprimiu e distribuiu de
graça A Sereia, um caderninho que (leia-se agora no imperfeito do
indicativo) “não pretende, não espera nem pede nada. Quer apenas
falar um pouco de poesia”.
A audição mais atenta dos discos
do Roberto Carlos se deu por volta dos 17 ou 18 anos, peguei os
vinis que tinha em casa e coloquei no toca-discos procurando as
músicas mais interessantes, fiz tudo isso depois de me certificar
que não tinha ninguém por perto, naquela época ninguém poderia
saber que eu andava ouvindo Roberto Carlos. Isso era imperdoável
prum jovem rebelde, fã de Iggy Pop, Bob Dylan, The Clash e Neil
Young. Até a primeira metade dos anos 70
Roberto Carlos produziu muita coisa boa, depois infelizmente acabou
virando uma espécie de Julio Iglesias brasileiro, abandonou seu
visual cigano-hippie, com seus cordões, jaquetas e cachimbos e
resolveu cantar pras gordinhas, baixinhas, míopes e nossa
senhora, e há décadas só faz lançar os mesmos discos e especiais
de fim de ano pra cumprir contratos.
Mas Roberto Carlos e Tim Maia não me
despertaram interesse na infância, foram descobertas
posteriores. Lembro da primeira música que prendeu minha atenção
quando criança. Estava tocando no 3 em 1 prateado da marca aiko que
tínhamos em casa, era uma tarde na Ilha do Governador na década de
80, fiquei ali prestando atenção naquela melodia e na história que
a letra contava. Fiquei esperando a música terminar com
papel e caneta nas mãos e assim que o locutor anunciou de quem era
aquela canção anotei no papel; Eduardo e Mônica da Legião Urbana. Então era essa a tal banda que o Geovane tanto falava.
Geovane era um amigo do primário que dizia pra todos que sua banda
preferida era a Legião Urbana, acho que todo moleque nos anos 80
que tivesse um irmão mais velho devia gostar da Legião, o
Geovane tinha um irmão mais velho que curtia a banda, como eu não
tinha irmãos e nem o hábito de ouvir rádio demorei um pouco
pra conhecê-los. Ainda levei algum tempo pra entrar em contato com
os álbuns da banda, foi por volta do 14 anos quando comprei no
camelô umas fitinhas k-7 piratas, numa dessas promoções de três
por não sei quanto, foram duas fitas da Legião e uma do Raul, e
essa foi a minha iniciação no rock. Legião Urbana e Raul Seixas
foram as portas de entrada. Neste mesmo ano, 1995, comprei meus
primeiros Lps; Planet Hemp, Raimundos, Pearl Jam e Nirvana, o típico
rock and roll de ouvinte da rádio cidade.