29.1.08

Dentro

Alô PRESENÇA!!!
É com grande prazer que retomo às atividades!

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De pensar e falar
Não se faz binômio
Nem se conjulga um conjulgado
Pois cada força
Com cada qual intensidade
Empurra cada uma
Diametralmente para cada lado

Se a lixeira é o pai e destino
De todo pensamento reprimido
Para onde vai a fala
Senão ao descuidado ouvido
Dum outrem que então
Deixa o som passar
Desapercebido?

Portanto se pensa
E não se fala
Ou se fala
Aquilo que não se pensa
Pois viver das coisas que se tem por dentro
É sentenciar de morte
O invólucro que vêem de fora.



(Fábio dos Santos)

25.1.08

Enganador

Arteiro que sou,
Um fanfarrote sênior,
tapeio meus versos
prometendo-lhes a vida num poema
tanto-sílabo e royal
E eis que agora moram
no albergue bufonal
deste texto escaleno –
que nem a boas rimas se presta!
Pagaram caro, queriam fama,
A escalada literária!
De boas penas tinham ganas…
Mas foram postos, à moda pária
Por este hadoque doidivanas.


(Aos 24 de janeiro de 2008)

24.1.08

Heróis

São heróis
porque só versos,
desejosos
de preencher o alvo papel,
Antipáticos à idéia
De deixar passar
em branco
Mais uma folha
(que se for ano,
vai-se a vida
num vai-se que não-viu-se)


(Aos 10 de janeiro de 2008)

22.1.08

De volta

Retiro do baú um poema carregado de imagens e reminiscências da adolescência, esses tempos difíceis, de dúvidas e solidão que todos nós atravessamos, mas também tempo de grandes descobertas. Descoberta da amizade, do amor, da esperança e da possibilidade de transformar anseios e vendavais em poesia. Dedico este poema ao poeta e irmão Rafael Elfe, companheiro de presença, conversas Socráticas e porres de sabattini, que continua seguindo em frente carregando seu violão( máquina de matar fascistas)e sua mochila repleta de sonhos,vida adentro.
.

De volta

Na boca de Ella jaz a noite.
O copo vazio revala a embriaguez.
Nos ouvidos permanece a canção de um amigo,
de outros tempos,
outras noites.

Manhãs esquecidas entre livros não lidos.
Sorriso estilhaçados.
Poemas explodindo nos porres de sabattini.
Pés sutis pisando a areia suja,
filmes pra esquecera solidão,
e a triste arrogância pra fugir do desespero.

Amores ensaiados,
e inventados.

Tempos de sonho na mochila,
cola no banheiro,
conversas Socráticas no pedalar das bicicletas.

Restaram as lembranças
e um gosto estranho entre os dentes.
As cartas suicidas foram queimadas.
Colhemos o absurdo dos dias Kafkianos,
E também lírios,
tornando a vida suportável.
Despertando sorrisos do que outrora foram cacos.


Nesta escuridão de algumas luzes espaçadas,
o poema se encerra.
Inacabado,
indizível.
Um pequeno sopro de um eterno vendaval.

Se encerra sem fim.
Como a ânsia de um pintor,
que busca incansavelmente
o quadro definitivo.

Do libreto Entre tanto, fevereiro de 2004.

17.1.08

Nebuloso calendário do sono

Aloha presentes, segue novo poema da Luísa Muller, que já esteve por várias vezes nas páginas poéticas deste blog.
"Nebuloso calendário do sono" é poema recente da obra da Luísa, e chama a atenção pela sutileza e diversidade das sensações sugeridas. É um poema completamente palatável, sensorialmente falando.
Presença !

- - -

sentir o velho de novo –
sempre novo –
em forma de sonho
de bêbada noite.

como olhares que se cruzam
através de um castelo
que solidamente desmorona
por dentro e por fora
como mãos que se encostam
num copo esquecidas
aquecidas pelo encontro
que estremece o corpo inteiro
como os pés que tocados
arrepiam a alma
que sente o velho de novo
como se fosse novo –
e dorme feliz.

(e não se fala mais nisso)


(Luísa Muller, 2008)

13.1.08

Acampando

Acampando na relva
a tarde se fazendo valer
de suas gamas de tons de verde
.....do vivo
.....ao veste-se
do lindo
ao prefere-se,
a relva verde e o céu infinito
céu que cada hora um
e toda hora infinito.

Um brando lago azul
lindo que improvável,
de tal modo que
Mineralizar-se
.....é nele submergir;
acampado no meio
do meu acampando na relva,
o lago.

.....e tal o acontecer
que bastava ler linhas
do livro-de-dormir
para dormir e insaber
se estava despertando
ou, estranhamente,
indormindo.


(Aos 10 de janeiro de 2008)

12.1.08

Passional

E lhe beijava
com o fervor de cão em brasa
Era feito de véu,
Liso
E sem prumo.



Num momento romântico-dadaista de algum dia de algum ano.

11.1.08

"Numa caixa"

Cheia de funduras
ouro d´escuras aranhas
e o guindaste verde cheirando ouriços-arranha-céus...

ela-lá cheia de tralhas luminosas
fitando a bandeira de cal azul no topo
do armário,
aquele monstro negro que nunca escalei.

Esbarrava em clarões de pintar céus,
espinhos pra fechar feridas
Vasos de para-peitos nus
que o precipício vão de tuas mãos velhas
não trouxeram-na.
- Bença Vó!

Eu nascia lá dentro
pra recuperar o fôlego do café e o pão de outrora.
Fora, era lá fora, a tarde se fazia em pinho - zunia
noutras vezes, meu velho tio zé respirando
fazia barulhos de canoas barbeando sal
e eu que pensei nele tão morto - e realmente estava.
Sua morte havia morrido pra mim,
e percorrera a distância erma
do esquecimento.

Eu que não carrego vagões nos cílios colados
nem roupas largas de quem se foi
vejo minha infância num trem tardio
- apitando vago e cego
ninguém olhando pra trás enxergaria

dentro dela
estão meus pés
menores, sem pêlos
pequenos pés de cortar manhãs
que me vacilam nos olhos as cores sujas - rubras
ninguém olhando pra trás enxergaria

eu diria ao menos, se ouvisse
aquele menino chamando meu nome
e a casa não estaria morta nas mãos da árvore
nem o retrato mudo, respeitando o silêncio
eu crescia...

eu crescia pequeno, como franzindo olhos
pequenas tralhas encolhidas na caixa sobre o armário
aquele velho monstro negro que nunca escalei.

7.1.08

Perda, flor e espinho

As luzes do Vidigal
Chocam-se com a boca preta do mar.
O ácido foge sob a língua
O coração foge sob os panos
A mente procura por outros lábios
que abafam o frio de estar só.

Deixamos os rastros entre as palmas abertas do porvir.

Nos canteiros os espinhos abrem sorriso pro indefinido.

Surgem nuances absurdas
Ocre iluminado
Azul-marinho terroso
Magenta acinzentado.

O tempo assenta o disperso
E fica o que não conseguimos apagar.

O chão desloca-se
E deitamos sobre o passado

Distantes

Com os olhos úmidos do sereno.

Dezembro de 2007.

6.1.08

Valter Di Lascio

Conheci o Valter em Jericoacoara, um coroa bigodudo de seus 50 honestos anos, mediante a clássica abordagem "vocês gostam de poesia?"
Mas a figura que me abordava, nitidamente, não era nada "clássica".
Pés descalços, figura surrada, uma espécie de Dom Quixote com malícia. Após as apresentações iniciais, o velho me confidenciou que era retirante, mas no sentido filosófico do termo. Aos vinte e poucos, chutou o curso de História na UNESP, bicou o casamento, deixou mulher e 3 filhos, e pôs-se a andar, literalmente.
Fiscal de botequim, poeta e andarilho, Valter me trouxe um livreto chamado "Bis Coito Com Champagne" que me foi uma grata surpresa pelas poesias libertárias e carregadas de um espírito beat totalmente redentor.
De decepções com o amor, erotismo e rebeldia a juventude e versos lindos, o livreto foi uma bênção a minha pequena biblioteca de poesia de calçada - já naquele março de 2006.
Com vocês, o poeta.

- - -

Viagem derradeira

Os anjos hoje anunciaram a minha partida
E tu meu irmão de Meiota em punho caberá
................................. reunir nossos guerreiros
Em breve pegarei a estrada
................................. levando muitas saudades
E vocês, irmãos de sangue e som, cuja mãe
.................................. deu-lhes o mesmo ventre
Que ao me ver partir batam forte o tambor
e distorçam a guitarra
Toquem fogo no meu nome !!!
Reconheçam-me pelo cheiro,
...................pela ousadia e rebeldia
"- Todo louco te de viver pouco,
...........mas intensamente, o suficiente."
Quero declarar aqui, todo meu amor,
.................meu rancor, meu furor
Quero ver todas as veias
................saltarem de meu corpo
Em meu vaso sanguíneo quero flores
.................diversas e todas as ervas


(Valter Di Lascio)

5.1.08

Bem-te-vi lírico

O pássaro passou
Atravessou o poema concreto
Quis ir adiante
Além do que era dado
Buscava mais que o impresso
Ser mais que o momento exato

Quis ter com as nuvens
Onde as palvras não tinham chão

Em espirais voava
E era observado
Os olhos que lhe viam
Dançavam junto as suas asas
E assim enlaçados
Pássaro e observador bailavam
Em olho-vôo-asa
Milhas acima
Da palavra estática

NOVEMBRO DE 2007

1.1.08

Num dos vagões do trem negro

Ninguém sabe...
ele escondeu - como se soubesse.

Em pequenos segredos -
os que sobrevivem

Pontes inteiras de amônia
cruzando espartilhos siderais
as irmãs menores observam -
ele atravessa devagar
cavalgando o furor de plástico
O que ficar, pode ser pra sempre.
Mas nada dura.

Um sobre o outro -
pequenos segredos,
os que sobrevivem.

O que ficar pode ser pra sempre.
Mas ninguém sabe.
No fundo, ninguém sabe.

(13:09)


Milhares de ingênuas razões
lagos de um sangue estranho
Era você! - agora mesmo...
já não é mais

O travesseiro afunda tua cara
nas margens sombrias.

O que é o silêncio?

É quando você acha que tem alguém,
e você já não tem.

O gigantesco trem-carruagem-cavalo atravessa os pesadelos
Desemboca na luz completa do sol,
onde Deus dá suas cartas
Quem blefa?

Eu quis voltar mais cedo
aprendi o que era tarde.

O que pode ser pior
que esse beijo quente?

A nuca espessa sente a ferrugem toda
destroços na luz.
São migalhas.

(13:13)

Guarda-chuva transparente

Ainda no resgate de alguns poemas antigos, serenidade pra 2008.
Abraços a todos.

- - -

Choro celeste vem em cheias gotas …
Milhões – infinitas! – elas explodem
Em contato com a sombrinha e eclodem
Em ondas de fantasia, marotas.

Sob a translúcida proteção olho
O exato instante em que se dá o toque;
Cada pingo e seu empolgado choque,
Tão sutil … me desconcerto e me molho !

Emana paz, o singelo espetáculo …
Subo e desço o solitário tentáculo
(O cabo) alternando a proximidade.

Até que cessa de chorar, o céu,
E eu recolho meu guarda-chuva-véu
Em desabrochada tranquilidade.


(Aos 13 de março de 2003)

28.12.07

Heyk Pimenta

Dono de uma inconfundível poesia, misto de plástico-pena-gema-placa-de-metal, meio concreta e inteira sensível, não é a primeira vez que Heyk aparece aqui nas páginas do Presença.

Durante o lançamento do livreto-presente "Elementar", em novembro passado, recebi em mãos um exemplar de seu belíssimo "Neuronóseles", então recém-lançado em outubro de 2007, que traz gratas surpresas da chamada poesia de rua.

A melhor poesia do dito livreto, "O pop", já foi postada aqui, se não me engano em setembro ou agosto deste ano.
as poesias são bastante diretas em sua expressão mas ao mesmo tempo carregam conclusões fundas e desconcertantes.
é como se fosse um tiro. de plástico.

Posto aqui, do supracitado livreto do Heyk (por enquanto o único lançado deste poeta mineiro de 20 anos, residente no rio), o poema "O bicho a gente"

- - -

Na sala
e em roda
que se fecha o ciclo
respirar conjunto

........o todo é um novo ser vivo
o esqueleto do bicho é o violão e o
.........................poema escrito

papel petisco copo de plástico com vinho
......o olhar brilhoso é que esquenta
......risada é batida do coração do bicho
o fluido fio dourado da paixão bem dito
................é o pé batendo
........................a palma o bom ouvido

........É um texugo tamanduá bonito
........forte gordo enquanto não termina o rito

........depois esquartejado
..................não morto
...........para ser montado
...........um outro
ao som de um novo
....poema poema organismo


(Heyk Pimenta, outubro de 2007)

27.12.07

Gasolina

Aloha Presença!
Aos que têm falta de combustível - e isso é sazonal, acreditem - nunca é demais um galão de "gasolina". Feliz 2008 !

- - -

Um tom me chama –
Um tom ou um silvo?
Ora me encanta,
Ora me agita
Em todos os dissonantes palatáveis
Do viver calmo.

É a estrada, senhores,
A estrada é a vida e é ávida
E clama por mim, ordens expressas
E pouco dóceis.
"Desancora que és partícula no rio,
Abre os braços, vai ao céu
Que a vida é uma só"

E das pedras que rolam
Cria-se a fagulha
À deprê inflamável
Do sentar e aceitar,
Milênio a milênio,
A mesma carroça, o mesmo apego,
A mesma curva pra distrair,
A mesma cura
Da doença que não há,
E sentar e cansar,
Paciência de druida –
1 bilhão de existências
De inerte aceitar.

(Aos 21 de janeiro de 2006)

23.12.07

A tempestade filosófica

Após o post # 200 neste blog - a pérola reflexiva do velho batuta Pedro Lermann - começo eu mesmo a escavar algum material antigo, como este soneto presente no livreto "Viver e devir", de setembro de 2004.

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Em tempo, caros amigos:

desejo a todos boas festas e positivas vibrações pra 2008.

o momento da virada, tradicionalmente, nos inunda de reflexões, passa aquele filme na sua cabeça.
lembrem-se - e o digo sob o risco de parecer panfletário - a positividade interfere diretamente no curso dos fatos. se você pensar "que merda" mil vezes, então isso terá um peso na projeção do por vir, ainda que um "que bom!" posso anular de uma só tacada os negativismos.


feliz 2008 - cerveja gelada e poesia de calçada - Presença !

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A tempestade filosófica

Oh… lá vem a avalanche catastrófica
Das dúvidas que beiram a demência,
O vazio inerente à existência…
Mestres: a tempestade filosófica.

Do cerebelo, ligeira ela escorre
(E é tão bela, permita-me dizer),
A tempestade urgente de viver !
Instigante, como o olhar de quem morre.

Sou ? O QUE sou ? POR QUÊ ? Se sou, é vão?
Rebento do Acaso ? Uma chance ? Ou não ?
Desafia-me a leveza do Ser …

E eis a chave ! Meramente existir !!
Tudo é caos, a nevasca do Devir,
Ciclo infindo de viver e morrer.



(Aos 21 de fevereiro de 2003)

19.12.07

Meditação

De volta aos cadernos do embriagado profeta, uma meditação lermanniana.


Não aceito que acusem meus erros de não terem tentado.

Cada um deles teve a glória da tentativa

Enquanto houve a fantasia da possibilidade.

E cada um foi realidade

Enquanto a fantasia se dissipava.

Mas não carrego comigo cadáveres.

Fico apenas com a sorte da experiência

E a sensação boa do rastro.


Pedro Lermann - 1986

17.12.07

Pequeno

Praguejei assim ao vento
Palavras expectoradas e cuspidas
Na cara do santíssimo
Um desalento

E depois aceitado
Em desânimo demasiado
Sentei ao meio-fio
De todo resto destacado

Mas em pouco como deveria
Ser quebrada a monotonia
Ouvi o barulho das ondas do mar
E as aves que a esmo planavam

Então toda praga – o desencanto
Toda água que ao rosto é pranto
Secou-se pois me olhando descobri
Quão pequeno sou – não preciso ter pra onde ir

11.12.07

"Manhã expressa"

A espuma do café
risca a manhã
em teus lábios superiores.

Sopramos na ânsia
um beijo.

Toma-nos densa a espuma
frase em meus lábios - fica
e já não vejo
nos teus,
nem espuma
nem beijo.

Sopramos a manhã
no café.

Expressos,
passam por nós:
a ânsia, a espuma
e o desejo.

7.12.07

O nojo

E quando me canso
da enciclopédia de cumprimentos,
das rotinas estabelecidas,
niponicamente seguidas,
os hábitos que eu mesmo fiz

quando o caminho não mais é feito
de tijolos de ouro
e me deixo conformado
amargamente deitado
sob o sol de protocolos
onde, estático, me doiro

quando o bom-dia é peso-morto
lançado à revelia
nos peitos já sem resposta
dos pálidos colegas,
oitàscinco trajetórias
em escritórios glaciais

quando o cianureto não se faz
em cavalar tiro solucionático
mas de peça em cartaz,
pra todo sempre em cartaz,
em doses homeopáticas

e o orgasmo convulsivo,
outrora redentor,
passa sorrateiramente a ser
um mais-ou-menos prazer

aí então é fechado um ciclo,
o ciclo do nojo,
e ai de mim, irmãos,
não percebê-lo,
não acontecê-lo para, enfim,
renascer da abjeta lama,
o afiado mosqueteiro
trovador-fênix do eu a mim;

na esquerda o verbo,
na direita o rojão,
insolúvel como um anti
que se faz em paraíso
de mudança e levante.


(Isaac Frederico, aos 07 de dezembro de 2007)