29.9.09

Diário do México - 4

Painel de David Alfaro Siqueiros, retratando os mortos por ocaisão da invasão norte-americana


Monumento a los Niños Heroes, cadetes adolescentes heróis no episódio da tomada norte-americana da Cidade do México


Representação artística de indígenas aztecas, no Museu de Antropologia, um dos mais conceituados do mundo, na Cidade do México





.....Me chamou a atenção, na casa, a austeridade vivida (escolhida?) por Trotsky, os cômodos muito simples, bem como a mobília, a biblioteca com muitos volumes em diversos idiomas, a erudição de um dos mais presentes líderes da Revolução Russa de 1917.

.....Após subir ao poder, Stalin, paranóico e implacável, começou a perseguição a seus camaradas do Politburo, o comitê central do Partido Comunista da União Soviética. A partir desse momento caíram figuras de atuação eminente na revolução, como Kamenev, Zinoviev, Bukharin e Trotsky, considerado o herdeiro natural do poder de Lênin e que foi banido da antiga URSS e perseguido, tendo ao longo dos anos toda sua família sido assassinada aos poucos, filhos, sobrinhos, esposa, netos; após estar em constante rotatividade no exílio, passando por Cazaquistão, Noruega e França, Diego Rivera e Frida Kahlo intercederam junto ao então presidente mexicano Lázaro Cárdenas no sentido de conceder asilo ao perseguido revolucionário.
.....Após alguns ataques de agentes stalinistas, finalmente Trotsky foi assassinado em 1940 em sua casa por Ramón Mercader, um stalinista que havia se infiltrado no seio do restrito círculo de Trotsky, se envolvendo sentimentalmente com a moça que cuidava da casa. Mercader fingiu mostrar um documento a Trotsky e, enquanto este analisava-o, sacou de seu sobretudo uma picareta e cravou-a por trás do crânio de Trotsky.

.....Reavivadas estas memórias – no México, curiosamente – fomos caminhando pela calle Abasolo em direção à Plaza Hidalgo, que deve seu nome a Miguel Hidalgo, o padre que lançou a guerra pela independência do país.


# # #

.....Seguida da queda de Tenochtitlán – rebatizada de “México” pelos espanhóis – a América Central também foi conquistada na década de 1520 por forças mexicanas e do Panamá e na década de 1540 a subjugação da Península de Yucatán estava completa; na década de 1550 foi abolida a escravidão indígena, que foi parcialmente substituída pela escravidão dos negros.
.....O lugar de uma pessoa na hierarquia social da sociedade colonial do México era determinada pela cor de sua pele, parentesco e lugar de nascimento; colonos nascidos na Espanha (chamados peninsulares) eram uma parcela ínfima da população mas estavam no topo e eram considerados nobreza, por pior que houvesse sido sua situação social na Espanha; em segundo lugar vinham os criollos, de pais espanhóis mas nascidos no México. Pelo século XVIII alguns criollos haviam feito fortunas na mineração, comércio e agricultura. Abaixo dos criollos estavam os mestiços, indivíduos de ancestralidade misturada e, por último, vinham os indígenas e os escravos africanos.

.....Em 1810 o criollo Miguel Hidalgo y Costilla lançou o grito de independência “Morte aos espanhóis!” e a rebelião cresceu, tomando diversas cidades; Hidalgo, porém, hesitou em tomar a capital. Em 1811 Hidalgo e os líderes do movimento foram capturados e executados; Hidalgo é hoje um dos heróis nacionais, como Pancho Villa, Zapata e Cauthémoc.

.....José Maria Morelos v Pavón, ex-aluno de Hidalgo, assumiu as rédeas, bloqueando a Cidade do México por diversos meses e realizando um congresso onde foram debatidas as linhas gerais do movimento, mas em 1815 foi também capturado e executado.

.....Em 1821 o general das forças reais Agustín de Iturbide conspirou com os rebeldes e foi declarada a independência do México em relação à Espanha; Iturbide se tornou o primeiro e único rei do México, em 1822, pois logo em 1823 um exército rebelde liderado por Antonio Lopez Santa Anna o depôs. Em 1824 uma nova constituição estabeleceu o México como uma república federativa.

.....Santa Anna recebeu certa glória após rechaçar uma nova tentativa de invasão espanhola em 1829 mas é atualmente recohecido como o presidente que ajudou a perder vários territórios do México para os EUA; inicialmente foi o estado do Texas. Entre 1846-1848 ocorreu a guerra mexicana-americana e os EUA capturaram a Cidade do México. Ao fim da guera, o México cederia aos EUA não apenas o Texas mas a Califórnia, Utah, Colorado e grandes partes do New Mexico e Arizona. Santa Anna veio a cair em 1855.




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(Continua em 02.10.2009)

25.9.09

Diário do México - 3

fotos enquanto jovem de Trotsky, que foi assassinado no México em 1940.


Altar para Frida Kahlo







.....Na metade do século XV os Aztecas, também conhecidos como mexica, formaram uma tríplice aliança com outros dois estados do Vale do México – Texcoco e Tlacopan, a fim de guerrearem contra Tlaxcala e Huejotzingo, estados a leste do vale. Data desta época a tradição de oferecerem os guerreiros aprisionados ao deus Huizilopochtli em verdadeiros sacrifícios em massa, a fim de manter a ascensão do sol dia após dia, como era crença corrente.
.....A tríplice aliança, ainda que não tenha conseguido subjugar Tlexcala, atingiu o controle sobre uma população estimada em 5 milhões de indígenas; o propósito do império, voltado inteiramente para a guerra e culto de seus deuses, era coletar tributos como jade, turquesa, algodão, papel, tabaco, borracha e cacau, necessários para a glorificação da elite asteca.

.....À ocasião da chegada de Hernán Cortés na costa do Golfo do México, em 1519, o imperador asteca era Moctezuma II Xocoyotzin, um personagem reflexivo e supersticioso que acreditou, de forma fatal, que Cortés poderia ser Quetzalcoátl, o deus-serpente de plumas. Desse encontro traumático surgiu o México moderno.

.....Os espanhóis foram bem recebidos nas comunidades de Zempoala e Quiahuiztlán, ressentidas pelo domínio azteca. Cortés montou então o assentamento de Villa Rica de La Vera Cruz, onde deixou 150 homens, e rumou para Tenochtitlán.

.....No dia 8 de novembro de 1519 Cortés adentrou Tenochtitlán com 6.000 aliados indígenas; a capital do império Azteca era então maior que qualquer cidade espanhola. Foram recebidos com luxo e pompa de deuses, por um Moctezuma ainda hesitante, a despeito dos relatos de barbaridades dos espanhóis com povos locais e da destruição de ídolos aztecas pelos espanhóis.

.....Com os espanhóis há cerca de 6 meses em Tenochtitlán, chegou em Villa Rica uma nova esquadra, enviada pela Espanha para prender Cortés; este deixou 140 homens em Tenochtitlán e rumou para Villa Rica, onde destroçou os homens enviados por Diego Velázquez, cujos sobreviventes se juntaram a ele. Cortés retornou então a Tenochtitlán com seu novo contingente e pôde se juntar aos homens que havia deixado, sendo logo em seguida presos, todos.

.....Encarcerado, Cortés convenceu Moctezuma a acalmar seu povo mas este foi logo assassinado, não se sabe se pelo povo descontente ou pelos próprios espanhóis. Os espanhóis foram varridos de Tenochtitlán em 30 de junho de 1520, quando muitas centenas de espanhóis e alguns milhares de indígenas aliados foram assassinados, no episódio cohecido como La Noche Triste.
Os espanhóis restantes se reagruparam em Tlexcala e prepararam o contra-golpe, contando desta vez com cerca de 100.000 aliados nativos, ressentidos pelo domínio azteca.

.....O imperador azteca então no poder era um dos sobrinhos de Moctezuma, o hoje herói nacional Cauthémoc que resistiu aos espanhóis mas foi mantido prisioneiro e torturado para que revelasse a locação de um suposto colossal tesouro azteca escondido.

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.....Chegamos à Cidade do México por volta das 0530hs após longa e cansativa rotina alfandegária, de imposição norte-americana em seu eterno pesadelo contra o consumo de drogas de seu próprio mercado interno, trocamos alguma plata e pegamos um taxi para o Hotel Bristol, na zona Rosa. Entre a apreensão pelo tenso momento da ida do aeroporto para o hotel, em virtude do medo do desconhecido, e alguns papos sobre a copa de 70, chegamos ao Bristol e ficamos aliviados pelo quarto limpo e agradável, após a noite de cansaço do vôo.

.....Arrumamos as coisas e após algumas dúvidas sobre pra onde rumar decidimos ir pra Coyoacán, bairro que abriga os museus que foram as casas de Frida Kahlo e Leon Trotsky.
.....Pegamos o metrô estação Insurgentes; o metrô cobre uma extensa parte da grande capital e recebe um imenso fluxo de pessoas, não tão sentido, porém, neste final de ano, com as férias e feriados. Os nomes das estações remetem a aspectos históricos do México, como Cauthemóc, Niños heroes e Balderas; os vagões e as estações não primam pela limpeza.

.....Ali pudemos ter um pouco mais de contato antropológico direto com o grosso da população; os traços são em sua maioria absoluta indígenas, em algum grau similares ao que eu já havia observado na Bolívia e no Peru. A maioria das pessoas têm uma constituição baixa e forte, atarracada. Notamos diversos vendedores ambulantes, de CDs de música local, lanternas, doces etc. A certa altura vimos também uma performance de salteado dentro do vagão onde estávamos, de um rapaz com uma pequena plataforma quadrada de madeira, que ficava na piso do vagão, na mochila um pequeno sound system e caixa de som. Foi muito tocante ver a performance e coragem do rapaz, que após a dança ganhou muitos pesos.

..... A cena me chamou a atenção pela relação do característico machismo latino com a elevada aceitação a gays e lésbicas, em especial na chamada zona rosa, dos bairros mais badalados da capital.

.....Em Coyoacán andamos um pouco e logo chegamos à casa onde Frida Kahlo viveu seus últimos anos de vida, em companhia de Diego Rivera.
A Lígia estava em estado de êxtase; o museu estava bem cheio, turistas europeus e orientais. Na casa, espaçosa e com jardins, pintada toda de azul e vermelho, hava alguns trabalhos da Frida (poucos), esboços, correspondências com Diego e personalidades como Einstein e Trotsky, objetos do casal, de forte inclinação socialista.

Em seguida rumamos para o museu da antiga casa de Trotsky. Foi então minha vez de cair numa espécie de torpor, relembrando a história incrível deste velho revolucionário, na acepção mais puramente bolchevique do termo.



(Continua em 29. 09. 2009)

22.9.09

Diário do México - 2



Ah Puch


Pirâmide do Sol, Teotihuacán


30 dez - parte 1

.....O México se apresenta como um país muito curioso em função de elementos insólitos de sua história, como o massacre levado a cabo pelo colonizador espanhol Hernán Cortés em seu contato com as civilizações indígenas que aqui existiam e como o contato próximo e as estreitas relações socio-econômicas com o todo poderoso vizinho do norte, os EUA.

.....Do início, surge naturalmente a pergunta: Como pôde uma tradição de quase 3 milênios, envolvendo Olmecas, Aztecas e Maias – todos intelectualmente sofisticados, ainda que alguns envolvendo tradições sangrentas – sucumbir ao contato com algumas centenas de aventureiros espanhóis?

.....A civilização ancestral do México, os Olmecas (termo cunhado em 1920, significando “povo da região da borracha”), prosperava na costa do Golfo do México, próximo à atual cidade de Vera Cruz. O primeiro grande centro olmeca floresceu nas proximidades de Vera Cruz entre 1200 e 900 BC. O segundo grande centro olmeca floresceu nas proximidades de Tabasco, entre 800 e 400 BC. Ambos os centros olmecas citados, San Lorenzo e La Venta, respectivamente, foram violentamente destruídos mas aspectos da cultura olmeca prosperaram, como a divindade da serpente de plumas, que perseverou por todo o período pré-hispânico.

.....A primeira grande civilização da região veio a ser o centro conhecido como Teotihuacán; durante seu apogeu, entre 250 e 600 AD, Teotihuacán contava com estimadas 125.000 pessoas. A maior das construções desta locação – a Pirâmide do Sol – foi construída cerca de 150 AD e a Pirâmide da Lua, quase tão grande quanto, foi construída em algum momento entre 250 e 600 AD.

.....Por volta de 400 AD provavelmente Teotihuacán adquiriu contornos imperialistas, focando no recolhimento de tributos em detrimento à conquista pela força. Por volta do século VIII Teotihuacán conheceu sua derrocada, tendo sido saqueada, incendiada e abandonada.

.....Na península de Yucatán floresceu a civilização maia, cujo período clássico foi de 250 a 900 AD, tendo atingido áreas da Guatemala e Belize. O colapso do império Maia começou no próprio século IX e pelo século X os diversos milhões de habitantes maias haviam virtualmente desaparecido, num cataclisma conhecido como o “colapso maia”.

.....Os principais motivos para este fenômeno ainda são debatidos mas acredita-se que a superpopulação causada pela explosão demográfica dos maias entre os anos 600 e 800 AD tenha levado à escassez de água, deflorestamento e conflitos políticos pela disputa dos recursos da região. Outra possibilidade pode ter sido uma seca desastrosa, hipótese respaldada por descobertas geológicas na região.

.....O conhecido calendário maia possuía perfeição a ponto de possibilitar aos maias a previsão de eclipses solares e movimentos da Lua e de Vênus. Era crença corrente que este mundo seria apenas mais um na sucessão de mundos fadados a terminar em um cataclisma e ser sucedido por outro. O caráter cíclico desta crença possibilitava a previsão do futuro através do estudo do passado.

.....Deuses maias incluíam: Itzamná, deus do fogo e criador; Chac, deus da chuva; Yum Kaax, deus do milho e da vegetação e Ah Puch, deus da morte.

.....Outras civilizações surgiram no local, com forte influência maia, como é o caso dos Toltecas. Acredita-se que Tula, 65Km a norte da Cidade do México atual, tenha sido a capital do império Tolteca. Tula foi abandonada no século XIII, aparentemente destruída pelos Chichimecs, em um período de intensa atividade bárbara. Posteriormente, porém, alguns povos mexicanos reverenciaram a era tolteca como uma época de abundância.

.....Posteriormente vieram os Aztecas, cuja capital Tenochtitlán foi fundada por volta de 1325 na região da atual Cidade do México


(continua)

- - - - -








18.9.09

Diário do México

Árvore da Vida, artefato tipicamente mexicano






Aloha Presença !



Darei início à publicação, em estilo folhetim, do diário de bordo da viagem que fiz ao México, em janeiro de 2008 com a Lígia.

Publicarei às terças e sextas, até o fim do diário, que não é muito longo, a viagem durou 3 semanas.


Grande parte dos apontamentos são de ordem antropológica e social, aspecto que de forma geral mais me interessa nas viagens, a relação dos indivíduos com seu governo, sua religão e com a posição no tabuleiro onde seus antepassados os deixaram.

Presença !



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29 de Dezembro de 2008


Chegou enfim o dia de partir para o México. Como é bom voltar à estrada outra vez...

Tínhamos marcado o vôo para Guarulhos (escala) às 2140hs mas chegamos com boa antecedência ao Galeão, a fim de conseguir fazer tudo com calma, e acabaram nos embarcando no vôo das 20hs.


Foi excelente, ganhamos mais tempo para fazer o check-in em Guarulhos, do vôo da Aeroméxico para Mexico City DF. Às 2330hs já estávamos no interior da aeronave, aguardando sua partida. Vôo cheio...

Viva México !

16.9.09

A ruta


Foto do autor, em Ago 2009.


A faculdade não me ensinou
O que fazer
Diante de um Zimbabwe,
diante de Cartoum desfalecida pela raiva;
Uma centelha seria suficiente
Para detonar esse nó no peito,
A culpa de sabermos consumidos
Tudo e todos fora das fronteiras
Do que chamamos metaforicamente de lar.

Em Adis Abeba tirarei a tampa
da pasta de dente mentolada?
Serei gigabytes no Chade?
Pendurarei um Hopper na parede, em Ruanda?
A faculdade me fez amigos,
A ruta me fez sonhos de cura,
Cicatrizantes,
Alhures.


(Aos 13 de abril de 2009)

8.9.09

O que somos



Perco-me no pouco que somos;
Porra, já nem dá pra saber
se somos muito ou pouco -
Somos muitos mas pouco,
Poeira mas muitos,
Planeta mas pouco,
Longe ou perto ?
Dormindo ou desperto ?
Sãos ou loucos ?
Muitos ou poucos ?
Na sala somos poucos mas muito
significativos em nossos versos, que são ...
Pequenos ou grandes ?
Imensos ou micros ?
Divinos ou pagãos ?
Somos poucos loucos ou sãos ?
Muito pouco ou muito loucos ?
Irmãos ?
Benção, poucos ? muitos ?
Alguém ?
(Aos 25 de janeiro de 2009)

22.8.09

TORRES HOMEM 278


EXPOSIÇÃO DE:

Ana Luísa Flores
Iuri Casaes
Júlio Ferretti
Luisa Schulze
Pedro Sánchez
Tahian
Tatiana Gardel
William Galdino


Sábado dia 29 de agosto
das 14 às 21 horas.

Pra quem não conhece o trabalho do pessoal, abaixo um pouco de cada um.
Abraços e até.



............................................Ana Luísa Flores, sketchbook



.....................Iuri Casaes, entre formigas e rotativas, montogravura.








........................................... ...Júlio Ferretti, intervenção urbana.






........................Luisa schulze, homem-pássaro, fotografia e interferência.





.................................Pedro Sánchez, a dama do cine shangai, xilogravura.






..............................................Tahian, verde rocka, acrílica s/papel.






........................................................Tatiana Gardel, téc. mista.




..............William Galdino, da série cabeça e mãos, aquarela s/papel.








9.8.09

Adeus

A parte mais difícil
Foi dizer-te adeus
que, de pra sempre ciente,
Bombeou-me lágrimas,
raciocínio coerente
mas vazio,
Um caminho sem coração.
Não consegui pensar em nada,
Os olhos ardendo,
As folhas varrendo a rua
ao lado da Biblioteca Nacional,
A realidade nua,
Acontecendo diante de nós
Como um fá diminuto
desencantando o ao redor,
A mão no teu ombro,
Um amanhã melhor
em cacos,
Um escombro sinistro,
Um sonho sépia;
Obrigado
e adeus.


(Aos 10 de abril de 2009)

7.8.09

Mapa mundi

Em Inchon uma plataforma
Em Buenos Aires um tango
Em Mumbai uma favela
Em Londres um Ipod
Em Pyongyang um míssil
Em Lhasa um monge
Em Santiago um vinho
Em Teerã um aiatolá
Em Meca uma mesquita
Em Nova Orleans um jazz
Em Bangkok um wat
Em Cairo uma pirâmide
Em Bucareste um cigano
Em Tóquio um rush
Na Carioca uma tarde aberta de verão,
Alguns sins, outros nãos.


(Aos 16 de abril de 2009)

5.8.09

Sonho cinelande

Feras passadas,
Os dentes gastos,
Flores em cestas,
Atras bestas
Em lençóis brancos,
Sujos de sonos
De outros outonos,
Portas estanques
Impedem avanços,
Semeiam prantos
Em bancos cinelandes,
Próximos ao metrô,
Melancolia e café,
Água com gás,
Crise retrô.


(Aos 13 de abril de 2009)

22.7.09


Imagem: Ben Vautier


"Piras"

Voando em becos
nossa velha alquimia
Soldados de elástico
apaixonados pelo crime
e de soldo a dúvida
sem ela nada.

Arrasto-te pra fora
levo tuas pirações
se um dia mortos
flores então!
e o sol no teu corpo
como velhas pixações.

Te arrasto pro esgoto
pouco esgoto-te.
Acaricio teu câncer
e a vida goza nessas dores.

Sombra da tua colher de chá pequena
medida mais curta
- meu muro de pular desejos
No fundo de caixas onde
a cicuta dorme
e o amor não é mais
que um breve beijo.

Voamos,
pequenos urubus
de volta ao ninho.

19.7.09

Da janela


.............................................................................Gravura de Goeldi.

Nesta manhã de novembro,
o céu desaba em cascatas.
Na Praia da Bica os peixes fogem das redes.
Em Viena um casal de namorados
passeia por uma praça bombardeada a décadas atrás.
E eu me pergunto:
pra onde vai a água daquela poça?

Para as raízes do capim,
pros restos de algum cão enterrado?

Quantas chuvas!
Quantos sóis!
Quantos detalhes.

Imersos em problemas,
não nos sobra tempo

pras nuvens,

pros dias,

pra vida.

Novembro de 2002, publicado no libreto Entretanto.

16.7.09

trabalho

mas que tanto procuro
que coisa
que quem me espera
afoito na busca, correndo há tanto
espero e não espero mais porto.

haverá anistia
ou redenção pro amor
caminho de volta.
não haverá?

estrada pra paz, equilíbrio
pro desespero.
digestão pressa pressa.
não haverá.
se possível, continuar.

se possível, não curvarei.
se possível, ensinar o pouco que entendo.
e entendo que não posso parar.
apesar do fôlego.
apesar do corpo.
apesar do cansaço.

me vou apesar disso tudo.
serei preciso ainda um pouco.
um alvo por vez,
e calma.

Juro que tento, ser aos poucos.
E tudo o que posso e não posso,
correr.

8.7.09

"Acode o literário"

Gosto de dicionários
mas não vejo tão arbitrários
alguns que sem critério
como que se em doces deletérios
cuspissem os muros velhos
mistérios de simples explicação.

É que de ódio, comem sílabas,
ou coisas que a língua enrola, e
que o conhecer demais assola
pois importante mesmo É O QUE SE QUER DIZER;

tanto que se lê e se entende
e não se "surprneende"
quando enxerga-se o que não viu.

Ortográfico erro dos burro-cratas
que querem o acerto e não o triz
Tem mais, o cérebro é pacto feito nas tetas
e se assina sem trabalho, quase sempre o que nem quis.

Assim prefiro os sem-critério
pois dizem, mesmo que parcos, o que não lhes contentaram.

ainda mais nesses sítios clandestinos,
onde patrões comem-nos os fígados
e nos resta pra servir de armas o ensino púbico e o estadão,
arrendando a poucos súditos
o direito quase súplico de ingressarem ao escolão!

Faculdade - nada-sabe (hoje)
baixar-cabeça, seguir reto, o choque no muro é certo!
Mas dizem que para espertos
e lhe garantem um bom futuro.

Não passa de um barco sem rumo, nesse oceano escuro do que desenha a erudição
se não houver alguma guerra, melhor saber quem desterra
e mirar nele devoção.

Mais que procuro o incerto
já que na vida é só de tiro
liberdade não se faz fora,
mas por dentro e sem partido.

Então vamos camaradas arnarquistas, tomar o poder corrompido,
pra deixar sem governo o que nos toma
e nunca deveria ter sido.

Voltemos ao acorde:
- Acordo ortográfico e durmo otorrino - e "eu tô rino".

Quem contenta sentimento em palavras é padre, juiz, tabelião...
Somos réus, ratos - palatos no breu dessa alma, e ainda que nada nos fale o poema lido em vão
prefiro o vento na cara
pois é só o que exprimimos: a bílis e o esterco da razão.
Sentir é coisa mais séria!
Escrever como se pode ver,
é pura convenção!

14.6.09

Um domingo de Agosto


Hoje fez um calor da porra como há tempos não fazia. Domingão sacal. Merda nenhuma pra fazer e punheta pra aliviar a tensão. Foi foda pra dormir na última noite, um monte de lembranças, uma angústia terrível e aqueles relâmpagos de lucidez que me fizeram ver o quanto estou só. Foi preciso abrir as janelas. Agora a tarde tá chegando ao fim. Nos ouvidos o som alto do vizinho, todo fim de semana o filho da puta sai de casa e deixa o rádio ligado no último volume. Pelo menos hoje não tão rolando os pagodes.

Só saí da cama pra comprar pão e dar uma volta de camelo. Não tava dando, tentei levar um som no violão, não consegui, me achei o fracasso absoluto, tentei ler, também não deu. Impossível me concentrar. A poeira atacou-me a garganta e fiquei escarrando a manhã inteira. Me revirando de um lado pro outro...

Me levantei, peguei o camelo e me mandei. Mesmo sujas pra cacete as águas da praia conquistavam alguns banhistas. Sentei minha bunda conformista no cais e pensei nas melhores maneiras de se cometer suicídio. Em casa me sinto um merda inútil e parto pra rua, na rua me sinto um merda inútil e volto pra casa. E pra dar uma acalmada na angústia barriga cheia. Vou chegar rapidinho aos cem quilos.

No som alto do vizinho uma grata surpresa, our house do Madness, nunca tinha ouvido essa música tocar numa rádio, um pingo dealegria no oceano tedioso desse dia.

Pensei na Lu de quatro com aquela bunda imensa pedindo pra ser comida. Puta que pariu o pau levantou e mais umazinha...

Essa semana decidi me lançar á leitura de Marx, não consegui chegar a trigésima página, leitura difícil pra caralho, nesses meus bodes filosofia não rola, fechei as páginas do barbudão comuna e parti pro Rubens Paiva, consegui engrenar no livro, simples e direto, sem ser banal. Batidas na porta, “tudo bem aí?’ é a vizinha Dona Ana, volta e meia ela aparece pra conferir se ainda tô vivo. Respondo“tudo bem”. A noite começa a cair. O que virá daqui pra frente?


André Luis Pontes, diário sem floreios, 1997.

9.6.09

Quieto

Se há que, um dia
O fim do mundo
Dar a prova real, de ser

Será o dia em que
Poderemos nós
Neste mesmo mundo que
Se acaba
Ficarmos todos a par
De que a felicidade existe

E ironicamente,
Talvez seja ela apenas termos um fim
Ao alcance da mão.

seis de junho, 2009.

5.6.09

Recomendações

Em Siem Reap agradeci;
O chá quente e as nuvens disformes,
Os dentes apodrecidos de alguns,
Os tantos mortos de Pol Pot
Viraram fantasmas,
Plantados em cada família.
Em Ha Noi a dureza dos anos passados,
A imagem onipresente de Ho Chi Minh
Também fizeram fantasmas
Nos países ricos.

As torneiras abertas e secas,
Nem todos têm água,
Páscoas achocolatadas,
Reformas ortográficas
Nem lembranças felizes,
Como que nasceram, viveram e morreram,
Já tantas vezes.

Voltando pra casa
Veja seus amigos com filhos,
Volte na primavera,
Um marco positivo no ano,
Não veja o jornal,
Não chore o que passou;
Obrigado, estou vivo, um abraço caloroso,
Desligue a sessão da tarde
E seja a próxima primavera
Não comprando todos os desejos.


(Aos 13 de abril de 2009)

1.6.09

Familiar

Esse, meus caros, é um texto que acabo de buscar no Maná Zinabre, espaço coletivo de idéias das mais absurdas, por assim dizer, que aqui, imagino, dispensa maiores apresentações. Texto de estrutura óssea e conteúdo veloz, ou vice-versa; merece não pouco caso, acho eu.

O autor se chama Berimba de Jesus e, entre outros, pode ser visto nas páginas do Maná.
http://manazinabre.blogspot.com/
_____________________________



Familiar


Meu pai tomou veneno de rato, enrolou a corda no pescoço e se matou.
Pra nós: só arroz.
Minha tia cansada do कासमेंतो, traiu meu tio com o vizinho, que deu o talento.
Se apaixonou.
Saiu de casa.
Desgraça é que nem banana, vem em penca. Apanhou na cara. Recebeu dois tiros na cabeça. Não morreu. Ficou triste.
Titio passou a ser freqüentador de boteco.
Meu irmão certinho que era conheceu a vida loca.
Eu conheci a pedra.
Minha mãe enlouqueceu.
De tudo que tínhamos um pouco, nada sobrou. Minha família deixou de ser.
Ficou osso.
Meu irmão se tornou periculoso, matou, roubou, estrupou…Tanto fez que mereceu, três tiros dados à gosto.
Foi pro saco.
Eu, bonitinha e rechonchudinha, fiquei só costela.
Rodei mais que nota de um real.
Engravidei. Enfiei citoteque garganta abaixo. Vagina acima. Mais do que o indicado. Minha vida passou por um fio.
O que não queria, era procriar.
Dar a vida é uma parada muito foda.
Tentei abortar diversas vezes.
Nenhuma deu certo.
O moleque nasceu. Perfeito. Dorme tranqüilo lá no berço, despreocupado. Tem a cara do meu irmão. Não o amo e quero matá-lo. Pode parecer mentira.
Chega de dar vida.


Publicado no blog-revista Maná Zinabre, aos 27 de maio de 2009.

23.5.09

Nos pés

..............

............................................................................................Gravura de Jens Birkemose


Subiram alto e queriam descer feito garça.

Mas tinham nos pés sapatos muito bem amarrados.

E dentro dos bolsos os dedos engessados.

Lamentaram-se do peso da sola.


Já vinham felizes a cantar, os que calçavam sandálias.


Do livro Elementar, novembro de 2007.

14.5.09

O peru (em processo)

O peru
faz roda
na jaula
o pavão se mistifica
a perua
não se
importa

esquenta o papo
a pluma infla
a careca azula
o peito inflama

o pavão só
voa em sonho
a calda paira
o emblema enlaça
em cobre o peso
da cobrança

no teto raso
a atuação do pavão
se encerra

em mais um
lugar
que fede

o peru não pára
o rito
nem desafina
o desafeto

roda e infla
e azula e inflama

a pluma do olho azul
esgarça
o que a ruga do olho murcho
escama

o6/05/2009

3.5.09


A sede do leito, esse meu peito
onde muito vago ajeito
e ponho-me a ver-te navegar.

Oh vida minha, pequena.
Nessa e noutras, tão cheia
dái-nos a brisa na areia,
leva estes brincos pro mar;

e neste vem e vai da lua
onde a maré verde recua
cala este braço de vento
traz os fantasmas do tempo
e os que há muito sumiram por lá.

Conta-nos que há o mistério da ida,
já que há outro na partida,
sempre por perto de chegar.

E que nenhuma carta avisa
e vai voando, rouba-me a saliva
e só, me sáio sem nem um i ou a.

Me conta como pará-lo agora
antes que a fúria da memória
devore do porto este corpo
e tudo que a contra-gosto
não o quiser acompanhar.

Oh vida, minha pequena.
Não vejo em nada a desgraça
mas a ventura é sentida
e eu já sem prazer na lida
ouço o mar em cuspidas
teu nome nos vir lembrar.

Então melhor é mergulhar com tudo
e jamais ter outro mais fundo
corpo, barco, mundo!
Nenhum naufrágio mais surdo
que este meu lance profundo
para feliz te abraçar.

1.5.09

Fernando Cuntin e Joana D´Arc


Joana D´Arc - óleo sobre tela

Bem, vi que virou uma boa moda aqui nas terras do Presença, um certo apadrinhamento de artistas visuais. Gostei da idéia. Tenho um amigo virtual que me emociona com as suas cores. Fernando é amigo de longa data. Ele conhece a banda, eu conheço as pinturas dele. Achei legal cruzar as informações, até porque ele pintou um quadro que se der, colocaremos em algum material da banda. Então, seguem abaixo as pinturas e os links para quem queira ouvir o som da Joana D´Arc ou conhecer o próprio Fernando Cuntin.


Wayne - óleo sobre tela



Farrell - pastel seco


Os links são:
Banda Joana D´Arc
Fernando Cuntin (Perfil Orkut)

21.4.09

O insubordinado

................................................................................Antonie Tapies

Prazer em revê-lo.
As asas negras não voaram alto.

Viras teu corpo para o lado do vento
e junto dele te sentirás livre.

O mundo e suas estradas não se abriram.
Estremeces de frio em terraços estrelados
junto aos amigos que não enlouqueceram.

Tocas o chão com teus pés de barro
pesados como pedra
enquanto a mente dinamita impérios.

E de repente surge uma doce voz de criança
- Pai
Diz ela te sorrindo.

Teus olhos de águia se enchem d’água
e desabas em lágrimas
Num misto de amor e ceticismo.



André Luis Pontes, 1999.


.

18.4.09

Marina Pachecco

...........................................................Desenho em luz e colagens



Em 2006 num encontro de estudantes de artes em São Luis do Maranhão tive a oportunidade de ver uma apresentação de dança da Marina no Teatro Arthur Azevedo. Fui laçado pela perfomance dela e depois de algum tempo as lembranças desta apresentação deram luz ao poema Bailarina do livreto Elementar. Até então não tinha trocado palavras com essa senhorita, só consegui entrar em contato com ela um bom tempo depois e descobri que além de se dedicar a dança a Marina também passeia pelas colagens/recortes/dadaísmos/fotografias e vídeos. Posto aqui alguns de seus trabalhos e o link de outros.

............................................................................... Involução

Mais da Marina em:

Suíte Dadá
Anestesia Efêmera
Fotos
;
.
.
.

16.4.09

Conserto

Pintura do autor

Eis a chave de fenda, amigo.
A bitola do teu peito,
A mudança de conceito,
Uma ferramenta sóbria,
Conserta-te óbvia,
Atende-te, feito.
O hidráulico coração
Diz-te tanto,
Por que não ouves,
Que fazes que somes ?
O suado rosto, tenso,
Um medo imenso,
Uma diarréia desidratante,
Teu processo errante,
Teus cigarros na banca,
Tua banca indecente;
Sai daí, tou contigo,
Te ponho uma toalha molhada
Na testa inchada,
A febre demente,
O corpo débil sente,
A flama acetilênica
Do conserto urgente.


(Aos 13 de abril de 2009)

14.4.09

"CTRL Z"

Editar
a sede.
Derivar do seu,
o todo.
Deles, o fruto lasso -
reles.

Editar o oco
no espaço branco do nada
elevar ao centro,
culminar abaixo
mais ainda,
naufragar o nulo.

Retesar o gosto
aplainar o rosto
gasto,
acre, doido, num rasgo de quase
e passar adiante o célebre
do recomeço,
sim
dizer não
sim
pra frente, sem pensar.

Editar o amor,
prensar
no plano do apago:
devorar, deletar o dano
acabar por causar todo descuido humano
e crivar do negro a fonte vaga
deriva-lá ao não-cursor,
o rio destro
abominável, lastro incompreensível
cega leitura
página aplural de universos grãos de milho
letras roídas, obesas
fontes novas, ovas, lidas, indo ao fosso
e o intestino fino,
delegado ao grosso, mal educado.

Editar o curto
alargar o vulgo - seu ânus casto da rolha
despe-te dos salmos tal enganos
andas e comes teu silêncio
de espaço em branco, e nada.
Nada, que o mar é amar sem saber de onde.

13.4.09

"A vida, éter-na-mente"

Não o que dança firmemente,
este sabe bem onde pousar os pés.
Pois basta que a lua tarde, e já se faz manhã dentro da pele.

Motivemos então agora,
o que de menos limpo e novo há nessas taças,
agora rasas, que antes moldaram o melhor do gole:
suaves paragens de andarilhos.

Gole hirsuto e largo, vasto - tão que o bocal partiu-se em pedacinhos
e foi-se como vão os passarinhos
em cada osso e vértebra aninhar.
São mais que peças que te pregam teus amiguinhos,
pois estas pequenas aves não te negam.
E mesmo tu sem penas, já te ensinam a voar!
Porque é preciso homem!
E impreciso como tudo, mas é preciso - sempre! - No fim saberás!
O rio está sempre a inventar os mares.
E mesmo que te esfarele a face num vôo tonto,
toma, podes tomar como tuas as filigranas deste sol por de mais gasto.
Ainda uma brasa assim quase que morta,
pode bem explodir em fogo um grande pasto.

Basta então amigo,
que te relembre desta ilhota de paixão!
Eis que seja teu único brinde talvez, que propôs a vida.
Mas verdadeiramente!
Nada pode ser mais dúbio que a verdade.
Estuda com tua alma, ela não pesa.
A calma é mãe do desespero, saiba.
Não temos tempo pra tantos mapas.
E quem se perde, há de achar novos caminhos.

Vai!
Estende-se pr´além do corpo.
E com grandes olhos busca teu troco,
mas não o contes enquanto o tomas.

Ali, no final deste reduto cristalífico, expande-te - posso e digo!
Verás teu corpo reduzido
ao corpo comum de qualquer homem.
E talvez, se assim conseguir e puder, faz como eu, chora.
Chora que a vida é mesmo breve,
tal este olor pequeno em cada gole.
A vida é éter e se esfuma leve de vento em popa;
é breve assim como este vinho e evapora.

9.4.09

Fluvial

Pintura do autor

Prendi a respiração,
Tranquei o peito inteiro,
Incluso os rios
e os risos arredios
De medo sincero
das maçãs apessegadas do teu rosto,
do meu todo amor –
O rio dos rios posto à prova seca
Da tua art noveau,
tuas frutas de labirinto,
tua louça vitoriana.

Abri o peito inteiro
Forçando o fluxo
de ser o tempo todo
O que quero ser,
Respirar não apenas necessidade,
Dar a mão sorrindo,
Expor a cara convicto
vencendo-me enfim,
Deixar-me para trás,
Superar os eus que não somos.

Não abrirás teu aeródromo
sob placas de sol sintético;
Deixa de ser
teus pontos pré-sorteados.
Aceno-te com os rios do meu peito,
Deixo de ser pra acontecer,
Sublimar minhas moléculas
e nossos egos loteados
Num mar de abril perfeito.


(Aos 7 de abril de 2009)

7.4.09

Gabardina

Sorvemos de gole inteiro
O cálice desses ventos noturnos
Visitando, profundos,
os goles e nós,
Ávidos de viver e partir,
Repartir e ir;

Não quero mais acordar sozinho.
Somos o quintal escuro desta casa
quando no escuro pensamos,
Escurecemos nosso “quando?”
nos pequenos detalhes
que vão passando desapercebidos,
Assoreando nosso fluxo,
Conjugando meus e teus,
Assassinando vidas com calculadoras
e julgamentos esquemáticos,
Presos em nossos próprios umbigos,
Na cicuta de nossas rotinas.

Não quero mais ser essa gabardina
De 30 anos, memórias falhas,
Ter peso de passado,
Películas de um futuro promissor,
Uma carcaça escorada
nos encontros desmarcados com todos,
Votando no candidato eu,
Tento após tento,
Uma carcaça escorada e um copo de rum,
Sempre isento
no quintal escuro dos ventos noturnos,
Sabendo, no fundo,
Um dia acordar sozinho,
Expulso,
como nascendo.


(Aos 5 de abril de 2009)

5.4.09

Saudade internacional

Estou fora.
Liga pra mim.
Penso em ti de Lisboa,
penso em ti de Saigon –
Que latinoamericano sou ?
De que raça sou ?
Não dá pra saber, comendo tacos em Tenochtitlán
ou vivendo o dharma em Vientiane,
Sendo o caos de um organismo,
a assembléia de uma mente,
Pensa em mim no Rio,
escreve um e-mail pra mim,
Me manda um beijo,
me manda um porto
Que chames erroneamente de teu
Porque pra lá da tua rua
És in-teu, és o cheiro
da maresia de Copacabana à noite,
Noturno andando,
Passando pelas putas,
desacontecendo no Rio
como em Montevidéu,
São só cervejas e pratos típicos,
Trens levando bois
pra trabalhar,
Deuses pedindo preces
para salvar,
Os chicletes que nunca sairão do asfalto,
Um quadro na parede,
Me manda um alô,
Me diz que ainda és
em Santa Teresa.


(Aos 20 de fevereiro de 2009)

23.3.09

Uma concha ao pé do ouvido


Daquelas águas que conforme os dias variavam suas cores
Verde
Vermelho
cinza, surgiam crinas, eram cabeças de éguas degoladas.
Porcos inchados, cães saciando a fome de urubus.
Cavalo morto atrapalhando o futebol dominical.
Susto de verão para banhistas
nos tempos em que suas areias eram invadidas por incontáveis guarda-sóis.
Mandalas reluzentes a beira-mar.

Jigogas.
Cobras de duas cabeças.
Minhas mãos revirando as surpresas trazidas depois da chuva.
Carrinho sem roda, boneco sem perna, espinha de bagre.
Baiacu sob o sol estufando até estourar.
Naquelas areias catei figurinhas de chiclete.
Roubei o doce da macumba pedindo respeitosa licença aos santos.
Lacei pombos pelos pés, os brancos valiam mais.
Um trocado no bolso

Champagne de reveillon virando ficha de fliperama.

Meu corpo estremecendo num mergulho de verão.
Era o bater das ondas misturado ao fremir das mãos.

Engravidando marés

Guerreei com amêndoas.
Vi um tubarão (depois descobri ser cação) pendurado numa árvore.
Tive pena dele, de bobeira veio se enrolar numa rede e foi morto a pauladas.
Fiquei um bom tempo sem entrar naquelas águas, medo de avistar barbatana.

Pequenas ondas
Hawaii de playmobil.

O barco de Iemanjá que carregamos pra casa e se tornou a nossa nau.
Trampolim pros mais acrobáticos mergulhos.

Siri no caniço, tainha no puçá, espada no arrastão.

Rabo de arraia chicoteando a memória.

No almoço uma fritada de marisco com limão.
Sem princesinha do mar, sem oceanos.
Naquelas águas escuras estão as minhas mais límpidas lembranças.
Praia da bica
da janela deste ônibus te vejo.

Penso no poeta Hart Crane e me lanço em tuas águas.

Onde tudo começa onde tudo termina.

Rio, 21de março de 2009.

22.3.09

"Meu último nome"

Me dera um tanto amarga, confesso,
tua ausência - e nem lembro.
Ficou nessa tua cara amarela,
a minha.

E o nosso jeito de deixar tudo apagado.
Pro meu peito, a faca da velha falta.
E tuas tralhas comigo,

carrego-as como coisas que enfeitam
a cômoda vazia.
E a infância, minha ilha incômoda.

Me propusera o gosto de saber
que o medo é o exato gosto de saber.
O que se sabe não apavora.

E eu sempre soube que não apareceria.

Fiquei em casa esperando:
tua voz,
o tênis,
o peixe,
as velas no bolo ainda te esperam comigo, um assopro -
e o abraço desativado.

Não tenho mais tua presença, é certo.
Mas meu filho terá a minha, a tua também.
No fim, aprenderemos de verdade.

A verdade é o que desaprendemos.

E de tudo que não tive,
só tua sombra pôde roubar os buracos
nas fotografias.

Nas manhãs de praia,
quando viajei pro gelo do teu riso estrábico.
Teu longo bigode escondia.

Só tua sombra aparece na porta da escola.
No campinho de barro, pra testemunhar
o único gol que eu fiz.

Eu lembro,
te desenhei com os cabelos compridos
- eras minha mãe,
pros dias eternos dos pais que não tive.

E fora todos eles.

E agora me presenteias.
Tua ausência me fará tão presente
que meu filho entenderá.
Saberá

o quanto temerei minha própria ausência
temendo a sua.
E no presente,
essa tua falta,

fará de mim teu pai - de alguma forma.
Ainda que ainda, nessa vida ao menos,
seja eu teu primeiro filho.

20.3.09

Voava e luzia

Meu corpo rouco
eu suor se esvai
oco
de remorso
no seu dorso
de serpentinas sensuais

O tom muda
no ritmo em
que o mundo
te circunda
E acalora
benfica
madruga

brontossauro comportado
o espelho te desvela
a renda fina
Acalora
e madruga
benfica

e por não ter outra de volta
não somos nós mas a carta
quem chora
e madruga
benfica
acalora

calibra
você é o centro e o passo
desloca marés nesse caso

pássaro
que morre no ar
e não percebe

não havia chão nem céu
mas morros salpicados
pretos de dourado

Você dançava e luzia
flores vagas no breu
era o umbigo
de toda barriga
Poemia!
Por ti zil regressos.
Por onde sempre recomeço,
sem ter jamais partido.

18.3.09

Viajando

Uma mão na frente,
Outra pra cima –
Veja as nuvens comuns, mas de outros céus,
Sonhos em pó
Salpicados pelos rios,
Cidades sem rumo, repletas
de uma esperança índigo-vã,
destinos em ingredientes exóticos,
Cervejas diferentes
mas de objetivos os mesmos,
Por quês iguais, favelas iguais,
Divindades diferentes
mas penosamente oni-tudos,
aconselhando governantes
das mesmas velhas guerras,
doenças que te matam um parente,
Poesias-dúvida dementes
Como os poetas de todos os lugares,
Incensos que duram minutos
e já deixam de ser,
Recendendo a eternidade no ar,
Engarrafamentos ou sim ou não
mas indriblável poluição –

Estou sentado numa escada,
Numa escala num aeroporto
qualquer, viajando qualquer,
Um porto nunca meu porque não o há,
Um café qualquer, como todos os quaisqueres;
É o que somos, não importa
o quão paciente esperes.


(Aos 25 de janeiro de 2009)

13.3.09

Passeio

Minha flor, eis pra você
um sucesso, um incenso,
um vestido,
um corpo cansado de se vestir !

O que você dá, você se dá,
Os seios rijos, social,
cervejinha transiente
na ilusão de ser
permanente,
O sucesso de um projeto,
deixa eu te contar,
Depende de N-A-D-A !
Sejamos auto-críticos
descendo na Cinelândia,
marcando um encontro,
estudando Kierkegaard,
incompreendendo o ponto,
se espremendo na Linha 2
pra descer em Inhaúma,
Um passeio sem nexo
pelo Rio onde somos,
bebemos cafés e trepamos,
tiramos o lixo à noite,
Sonhando com o dia
em que o Flamengo será hexa,
Comendo um pão na chapa
Na Padaria das Famílias,
passeando pelo in-ser
achando ser,
Acontecendo em fragmentos.


(Aos 25 de janeiro de 2009)

9.3.09

O que é do tempo, ao tempo torna.

Vejo teus dentes. Competem
com tua boca. Repetem
o mesmo riso afável e amarelo
da pequena foto.
Grafada em cores um tanto velhas.
É você lá.
Quer dizer, tu fostes aquela menina loura.
Tinha uma praia amanhecendo nos olhos,
cercada pelo quarto que já não existe mais,
pelo menos não ali, agora.
Porque tudo se foi,
tragado, devorado por abelhas e mosquitos sazonais.

E no que não és mais,
apaga-se outra noite.

O amarelo fugiu dos teus cabelos.
Não é pra menos,
a vitória é ainda estar por aqui.
E algumas coisas vão se enrolando nos fios.
Também perdi o pequeno e solitário Rafael.
Nada que o traga, a não ser essas lembranças fracas.



A chaleira nos chama pro hoje.
Ferve a água posta.
Vamos à cozinha, enquanto te rodeio
ouço teu riso viver comigo o agora.
E estalamos juntos algumas costelas de março de dois mil e nove.

Ficou no quarto a pequena foto com você lá dentro,
sobre o livro, sobre a cama - sob a luz.
Sobre teu ombro, o mesmo pedaço de lustre não resistiu.
Nem você!
Loura num carnaval, sorrindo outra vez pra quem quer que seja,
que naquela noite, dia, ou tarde,
pediu-lhe uma pose,
e posou também com a máquina fotográfica entre as mãos.

Sobreviver é acompanhar.

Deixemos que tudo torne, se é pra ser.
Sem que saibamos, claro - mas não sabemos.
Tomemos o chá, que já esfria.
Uma coisa eu sei, ou pelo menos imagino que eu saiba:
somos apenas o que fomos.

2.3.09

Lara Leal

.........................................................Fotografia de Chema Madoz.

A Lara é uma companheira de escaladas em andaimes pelo mundo da restauro, estudante de artes e integrante do coletivo de artistas 13 numa noite, há pouco tempo descobri que além de todas essa atividades ela também se dedica às letras. Abaixo uma pequena amostra da boa poesia desta menina.



À noite prefiro sozinha

A madrugada é minha

Pensa assim
Quem caminha o dia lento
Passando através do vento
Sem prender suas migalhas
Sem apreender os traços que no rosto ele deixa

Truque do destino, do moinho mundo
Deixa-me assim queixando-me dele
Do seu encontro raso
Com minha aura rasurada
De alma velha, sempre à espera
De a sorte levar à calma tormenta
Me deitar

Estou lendo trabalhando os olhos
estou vendo trabalhando o senso
Estrategicamente, voce não sabe, estou sendo.

Que aborrecimento isso
Confunde e empaca o que aflito assiste
Calado o concentrado ego
Alheio ao entorno
Em seu deleite desarmado.

Enquanto isso sou esse arbítrio
Livre, preso de cabeça
Pra cima
Com os pés amarrados
Em nós de cadarço de sapato.

Lara Leal


Mais da Lara em:
http://laraleal.spaces.live.com
http://trezenumanoite.multiply.com/


19.2.09

à mão [fragmento]

à mão
...mar
..cado
..a car
....vão
.
o sol acendeu
ele próprio
seu primeiro fósforo
e se ateou no breu
.
e o céu pincelou
ele mesmo
o azul calcinha
com que coloriu o peito
.
à mão
cunho próprio
cria da própria criação
.
o sol
o céu
o mar
..cado
..a car
...vão

17.2.09

Fragmentos do imaginário



No último fim de semana lançamos mais um livro, o Fragmentos do imaginário meu segundo pelo selo/blog Presença, o primeiro foi o Elementar, um livreto coletivo com o Isaac e o Vinicius lançado em 2007. A tiragem do fragmentos foi bastante reduzida visto que todo o livro foi produzido por nós mesmos num esquema artesanal. Para aqueles que desejarem lê-lo é só me passar o e-mail que eu envio o arquivo.

Abaixo transcrevo uma apresentação escrita pelo Vinicius e um dos poemas do livro.
Abraços.
.....................................

É preciso se ter cuidado com os livros. Especialmente com os de capa preta. Sossegar um pouco antes de abri-los.
Mas é melhor não analisar, pensou uma vez Fernando Sabino. Analisar é procurar problemas. Concordo, em parte. E essa é a parte que se dá com Fragmentos do Imaginário, faz amizade. É essa parte que sintetiza; feito um fígado que protege a alma da lâmina intelectual.
E ele avisa – logo –, nos versos de Erri de Luca, que é muitos. Humanidade assim, só se encontra nos livros e nos seres humanos È a característica do louco; aquele que perdeu tudo, menos a razão. E o aviso é até simpático. Cria a ocasião de se servir o prato cru. É o recomeço do motim.
E depois é ver o mato se abrir a facadas. Nada de ismos. Só o poeta e seus botões, sem recuo nas horas de salto.
................................... ................... Vinicius Perenha

Modelato em segundo plano

Dos dedos e do barro
surge uma cabeça.

Rechaço de assopro

O ar é grosso

a crina
o crivo
e o escorço.

O par de peitos conversa ranhura.

Coxas de alimentar rebentos
..............volume certo para o repouso.

Cordão trançado.

O desejo se faz do tamanho da fome.

Do tornozelo
até subir ao fosso.

Lírica
canta um anseio de vôo

que a leve
calmamente
.............para o cais de um outro porto.

9.2.09

"Romeu e Julieta"


Devoro ambos
num só espaço
cheio de estacas encobertas.
Confio-lhes meus ácidos.

Devoro-os nus, um sobre o outro.
Mastigo ambos - tenho afiadas facas de osso.
E a lua paira em meu esgoto,
desce a laringe - o amor perdeu seus óculos.
Atinjo em cheio o bolo do estômago.
Cegos se cobram delicadamente no baço,
o abraço
sem todo o pavor que aparentam.

Confiei-lhes a língua,
aquela que embalou meus golpes.
Confio-lhes então o soro da saliva, num pequeno mar revolto!

Engulo a lua desajeitada,
e os dois se afogam no esôfago.

Romeu branco, tal urubu raquítico e novo,
recolhe Julieta, beijada e despedaçada
em seus sanqüíneos trajes abjetos.

Ambos já estarão em meu reto! - sinto-os unidos novamente,
e nascerão para fora, já os exorto finalmente.

(num gole d´água desconfio ter apagado o sabor do gosto)

O amor é amargo diz meu rim direito,
diz que é doce o velho palato.

Mas Romeu e Julieta estão vivos!
E boiam no latrinal ninho intacto.

6.2.09

Fração de Segundo


Estava lá, nos óculos, no reflexo dos óculos de Mário Prata.
Entre as persianas da janela, escondendo a tarde clara de um bairro qualquer do Rio.
Enquanto isso, o câmera mudava o close, a sombra mexia o braço lentamente. Senti o prazer de suas mãos tocando o fundo do bolso esquerdo, um caramujo bolinando folhas no pequeno vaso sem plantas.
Estava na quina da tela agora, e escorregava para desaparecer. Quando
o rosto do cronista surgiu enquadrado à direita, já não era mais sua imagem negra no vidro iluminado, cercado por aros grossos - estava guardada tua existência. Fiquei com o pensamento na ponta dos dedos equilibrando, deixei aquele peso dobrar-me os braços. Avancei para o controle da tv, aumentei o volume, me senti um pouco mais sozinho.
A sombra esteve ali, alguns segundos antes daquela última pergunta. Milhões de pontos coloridos apagaram-na para sempre. Vou perseguir a reprise do programa de entrevistas. Talvez reavê-la - fração de segundo. Me apaixonei por uma sombra no relfexo dos óculos de Mário Prata. Não pela mulher, ou pelo sujeito escorado na janela, sem sexo aparente, mas pelo ardor que queimava àquela tarde em plenos 1997. Me pareceu preocupada, ou preocupado. Esperava por alguém, de relance, mirava a rua. Renegava a equipe de filmagem dentro da casa, Mário Prata, as câmeras, todo o burburinho que se deu, acendendo aquelas horas. E o autor, nem se atentara ao fantasma sob seus olhos, respondia algo sobre seu último texto. E o corpo permaneceu imóvel em meu registro imemorial dos últimos dias, delineado pela tarde branca que se consumiu por detrás da janela daquele apartamento, em plenos 1997, num bairro qualquer do Rio, dentro da minha sala, na tv, no reflexo dos óculos de Mário Prata.

1.2.09

Rarefeito

esqueci
tarde pra voltar àquela hora
não tinha sobras
a ponte, esquecida,
lembrou-se de errar meus passos
perdi-me
tão convencido que o real avançaria
e o mundo recolheu-se em minhas mãos,
pequenas arando hemisférios
o sol varava nos dedos,
chegava aos olhos, o sumo da castanha de caju
meu varal de lábios sentia o amargo
a ponte, esquecida, varejava minha sombra
estudava leve: balões não sopram oceanos
fui levado, soprei a pele
não tinha sobras pra catar,
nada que refizesse o nome
lembrei-me,
desfiz teu rosto, coberto de alagoas
o mar desceu teus ombros,
esqueci novamente
voltar o passado é sediar milhas de nada
volto para arrancar meu posto, vigília de planta
lacustres, os olhos naufragam
enxergar?
lembrei
a visão estava morta sob a porta,
e um batalhão de formigas marchava sinuoso
um menino espreitava o silêncio morto do avô
a rua respirava cheia, era o bloco secando os copos
as palavras, esqueci
fui rarefeito
numa caneca com sabão e água
flutuando segui, preso à goiabeira,
vôo translúcido, o vento me liberta
deixo o ar me segurar, a simetria circular dum fantasma menino
agora o estouro esperado e
ploc!
a ponte deseja meu peso, e eu passo
passo por passo tuas vertebras,
costela arqueada, logo toco o lado de lá
revejo as sobras, encontro meus filhos,
minha vida!
meu jardim está repleto de lembranças
começo o caminho pelo fim.