7.6.10

Do tempo

....................................................................Pintura de Kirchner.

Enquanto esperas passa o trem.
A praça já foi maior,
e a alegria idem.
Ninguém leva todos,
quase todos já se foram,
ou ficaram,
na lembrança do tempo que passou
e esqueceste de vivê-lo.
É frio o teu olhar ou é fria tua coragem?
Haja medo ou bravura é a ação que vale a pena.
E tu não age , tu não arrisca,
e o dia passa mais uma vez.
----------------------
Dezembro de 2001.

1.5.10

Sombras


Há uma árvore na rua

Uns três poucos metros, sob a varanda.

Ela conforta serenamente

Um meu sombreado vizinho.

No andar de baixo.


Feliz homem

Que a vê saudável e forte

Crescer sem pressa

Na sombra que invade, mais cada vez

As pedras frias do assoalho.


Triste ideia

A de querer colher pra mim

A boa sorte de outro homem

Um irmão

Cuja varanda é mais fresca que a minha.


vila isabel, 01 de maio.

27.4.10

Tailande




Me vi desenferrujado
Jogando bahts nas feridas sarnentas
de cães em estradas poeirentas
que antecedem praias azuis,
Carros de som anunciando muay thai,
A face do campeão de Ko Samui
encontrando o cotovelo do oponente;





Não são só as boas sensações
que, à beira deste bom mar
Vão caindo, alheias, no puçá;
Gringos que acham que o local está
No ponto onde eles estavam há décadas,
Colocando uma batida em Haad Rin,
enchendo a cara de gim,
tentando, a todo custo, a paz.





Me vi sem idioma e tailande,
Fazendo wais, dsencanado,
conhecendo thais, furando tostões,
Desapertando botões,
torcendo para que pare
o tic-tac alucinado,
Procurando praias,
O tempo.




(Ko Samui, aos 26 de Abril de 2010)

17.4.10

Viagem de trem

........................................ Ilustração de William Galdino



Cruzam-se todos, na estação de trem,
Os mil destinos dos que estão ali,
Abençoando-os o deus Devir
Com as surpresas dos que vão e vêm.

Famílias, sóbrios, ébrios, andarilhos,
Caixotes, mochilas, sonhos distantes
Diluem nos trens quimeras errantes,
No longo trilho os mesmos estribilhos...

Nunca escutei passar locomotivas
Sem desejar, de formas emotivas,
Estar a bordo, com todos os demais

Tripulantes, todos desconhecidos,
Dividindo os ferroviários idos
Sobre os múltiplos caminhos metais.



(Bangkok, aos 17 de Abril de 2010)

16.4.10

Figuras do Presença

.....Durante os anos de atividade do Presença - 6 anos, a serem completados em Dezembro deste ano - e de lançamento dos livretos de poesia meus, do Vinícius e do William, algumas figuras ilustraram os livretos e o site; algumas foram efetivamente usadas, outras descartadas. Seguem algumas.






................................................Poeta sul-africano Afonso Nives









.............................Representação descartada do ferrenho Nives









.......................O poeta Isaac, num momento mais calmo







....................Capa do livreto "Jesus, o nazareno" (Isaac)






...O poeta Vinícius Perenha, num raro momento de descontração








......O poeta William Galdino, feliz em posar para o retrato

3.4.10

Fardos

Sou um sucesso
De bilhões de células, filha.
Você é o sucesso das oito?
Sustenta o café com açúcar ou adoçante?
Sustenta seu gosto por Truffaut ou Buñel?
Estamos num café em Del castilho, porra.
Mumbai, Buenos Aires, Maputo...
Com açúcar?
Inatingindo, engarrafando,
O vestido pro casamento do Leco,

Pára, porra.

Quando o casamento
da cuca com o tanque
do seu corpo?

Quando o encontro do pente com os cabelos
num aeroporto em Moscou?

Quando você volta?
Quando deixaremos de ser
escolhas entre açúcares e adoçantes?



(Aos 25 de janeiro de 2009)

25.3.10

Fragmentos asiaticos

O fim da infancia

Bancos despejando, a quilo,
Creditos de papeis inexistentes,
Uma imagem seria
Pra criancas jogando bafo
Com notas promissorias,
Chupetas de cigarros
E cafes com leite
Chamados "Latte",
Carrinhos Rolls-Royce
O meu maior que o seu,
Policia e ladrao
Com AKs-47;
Infantes jogando Green Beret.
Quando criancas brincamos de adultos,
Quando adultos...

= = =

Jogou as ancoras
No distante Oceano Indico
Pediu ajuda aos corais
Pois que os homens nao tem tempo;
Parou e sorriu
Que grande ironia sao nossas vidas,
Refletiu, consentiu,
Vendo todos seus atos
Distantes do que realmente
Tinha querido fazer.


(Siem Reap, 25 de marco de 2010)

22.3.10

E de repente muda

............................................................................................................Kandinsky

E de repente muda
..........................................................Para o marujo Isaac.

Dizem-lhe é isto
Agrada-lhe o ser aquilo.

O rosto não se encaixa no resto.
A estreiteza do uniforme lhe trava os movimentos.

Abre um botão
gira um pouco pro lado o pescoço

e eis que de súbito

o entorno
já é outro.


Do livreto Torres homem 278.

3.3.10

Fade

Uma barca, na areia
Cercada de areia e outras barcas, infinitas embarcações
Que não seguem, mas avançam
Expandem suas proporções, tocando, de leve
Umas às outras.

Estou de pé, numa delas
Imaginando até quando navegar será preciso
O que será preciso
Sendo em solidão, tantos
Minha própria barca.

Nessa terra
Que mistérios, tantos sons
E encontros
E areia.

Tão pouco é fundamental
Tão pouco é definitivo
No fim do caminho só há o caminho

E as barcas que não são barcas
Nem areia
Ou horizonte.


Vinicius Perenha, Março, 2010.

24.2.10

Tirolês

Saudações, Presença !
Chegamos a Hong Kong e, portanto, conseguimos driblar a censura do governo chinês a todos os blogs do Blogspot. Segue o "Tirolês", que compus numa Xi´an repleta de neve.
Grande abraço aos amigos leitores !


# # #


Respirava o ar, repleto,
Da areia vinda do deserto,
Sorrindo, pleno,
Suando, incendiário –
Plenipotenciário.
Bebia sementes e comia guardanapos,
Draconiano em seus atos,
Os populares estupefatos,
Enquanto cantava tirolesas,
Matando baratas com piadas,
Abrindo um olho e fechando o outro
A velocidades estúpidas,
Cobrava e amava com a mesma destreza,
Defendendo a vida em jogos de mahjong
Na Shanghai dos anos 30,
Insólita natureza,
Jogava dominó sozinho
Com caroços idênticos de cerejas,
A padres reservava arrotos,
A mendigos soluços
“Que desejas?”
Indagava, hirsuto,
Fornecendo a própria resposta,
Unitário, resoluto,
Idílico, sádico, arenoso,
Quando se perdia em adjetivos,
Geográfico em suas pizzas à francesa,
Fazendo piadas, sempre,
Sempre à tirolesa.


(Xi´an, China, aos 9 de fevereiro de 2010)

17.2.10

Ancestrais

Posto aqui um belo poema que me foi enviado pelo marujo-errante Isaac , fruto da sua mais recente expedição pelo continente asiático.

ANCESTRAIS


Canto mesmerizante do vagar,
A estrada une pontos,
Desvela os ancestrais milionares;
O primeiro medo surgiu
Antes do advento da memória,
Há incontáveis séculos
Nadando em um mar revolto e –
No topo de cada uma das ondas insanas
A visão noturna de mil baleias,
Todas de olhos amarelos brilhantes,
Faróis no impenetrável da noite.

Em Tokyo infinitos insetos
Se apinham do lado direito
Da escada rolante;
As lágrimas traçando o primeiro caminho
No rosto cansado,
Defronte ao cânion rubro-dourado,
Nasceu o primogênito da paz pela força,
Do amargo-arsênico
Da dor pela palavra.

Polegar articulado, macaco moderno,
Navalha em punho
Faço a barba com a mão esquerda ligeiramente levantada,
Cacoete ainda
Da música do monolito negro
E choro gotas de unificação.
Em Beijing não há egos,
Estarreço diante do Grande Irmão;
Faça o quanto antes
As ansiosas contas
Com seu próprio passado.

Isaac Frederico (5 de fevereiro de 2010)

11.2.10

O cobre das pombas

O sol não podia mais
comia a gordura rápida
do alto planeta inteiro

uma calculadora praguejava
seus salários que não davam conta
na mesma sombra
onde passarinhos de capuz
limpam um jardim antigo

cavadores se fantasiam
e correm tubos de uma névoa grossa
sob o chão macio

guardas e xamãs
brigam por tabaco
e seus olhos pintados
não veem o ninho de cobre
onde a videira canta seu mantra

pombas marcham sobre a grama
e os piolhos das penas
alimentam o terreno
eles são à prova de seus planos
e fazem desse barro branco
o palanque para seu silêncio



[03/02/2010, jardim da Casa de Rui Barbosa | Rio de Janeiro]

13.1.10

Barcarola nuvem

Hoje é quase dezembro*
e não chove nem há sol
o lusco-fusco se põe entre os dias.

Hoje é quase dezembro
e o seu barco de madeira já não vejo.

As árvores de natal já não fazem sentido.

As ameixas reluzem em sumo sobre a mesa
e o sabor é uma memória que lateja.

Três vezes em guerra
a se debater
a empurrar
e a falar pros teus ouvidos

espirais coloridas

tulipas de algodão.

E o que poderás entender do que tenho visto?
Riscos de antemão.
Luzes incessantes percorrendo pautas musicais.

Segredos costurados nos travesseiros.

E o medo

e o mijo nas calças
ao ver os fantasmas do porão
e não havia porão em tua casa
e não havia porão em minha-tua-nossas casas.

e o eco te sobe pelas pernas
e o que verás?

Teus são teus olhos
e o que chamas de vermelho
para um outro talvez não seja.

Há uma mesma tarde no tempo

distinta para cada um de nós.



*verso roubado de algum poema que não me recordo

22.12.09

Lançamento do livreto " Torres Homem, 278 "












Fala rapaziada
Teremos hoje o lançamento do livreto de poesias " Torres Homem, 278 " pelo Presença, lá na praça São Salvador, perto do Lgo do Machado.
O evento rola a partir das 1830hs, daqui a pouco na verdade.
O livreto contém 5 poesias inéditas de cada um dos 3 autores - William Galdino, Vinicius Perenha e Isaac Frederico e conta ainda com 5 ilustrações do William.
Serão 30 cópias, distribuídos pelos presentes por ordem de ordem nenhuma.
Então,
O quê @ Lançamento de mais um livreto do Presença, "Torres Homem, 278" -
Onde @ pça S. Salvador, próxima ao Lgo do Machado -
Quando @ Hoje, 22 de dezembro de 2009, às 18:30hs -
- - -
Enganador
Arteiro que sou,
Um fanfarrote sênior,
tapeio meus versos
prometendo-lhes a vida num poema
tanto-sílabo e royal
E eis que agora moram
no albergue bufonal
deste texto escaleno –
que nem a boas rimas se presta!
Pagaram caro, queriam fama,
A escalada literária!
De boas penas tinham ganas…
Mas foram postos, à moda pária
Por este hadoque doidivanas.

10.12.09

Brasília, 19 horas
agarrada às asas do boing
de gravatas grita: - Fica!

Côncava, plana,
central, estranha, via deserta.

Brasília é a Barra da Tijuca à noite,
embora não saiba.

Brasília desdentada de ônibus-trem-elétrico
voltando.

Brasília é moderna,
embora não caiba nela mesma.

Embora não saiba,
é luz de abajour intelecto
janela sóbria em pequenos prédios - púlpitos suicidas.

É astrofóbica, filosófica...
- É coisa-e-tal, saca?

Brasília é mais cedo,
bala de festa.
Mais-tarde deixa Brasília tonta;
gira Brasília sem braços.

E Brasília têm filhos
e pais separados.
Aguarda adoção.

Brasília ambidestra.
Fala alemão, engole facas.
Agarrada aos fios, é uma criança pedindo colo.

Brasília tem nome,
ora não tem.

O céu quer Brasília mais alta,
chama por ela, que
nem da janela pisca.

Brasília é uma curva desfeita.

Brasília é alcoólatra, posta por conveniência.
É uma prancha e dois pratos.

Brasília é ela.
Que vai embora e chega,
retorna do inferno pro inferno.
Pra outra Brasília
que nunca pisei.
Distinta dela mesma,
de seus detritos.

Brasília que nunca estive,
e já nem sinto o quanto a amo.

Brasília ruiva, hippie e bela.

Agora,
Brasília inteira
é uma curva.

(2007)

9.12.09

Andanças por Mangaratiba

Na pedra um corte
veio aberto a dinamite
vaga -lumes tateiam as folhas
e os postes põem suas lâmpadas pra dormir.
A serra desce sobre o mar.
O vento venta na contramão dos meus olhos.

Não há fala.
Não há gente.

Tenho dois pés
que me levam por um caminho em que nunca passei.
Um cão me late hostil
adiante outro me abana o rabo.

Sobre o asfalto um caracol lança-se à sorte
se for seu dia chegará ao outro lado.

A noite não tem hora
não tem ponteiros.

A pedra transpira.

Há um breve momento
onde o corpo se desfaz
instante em que desato de mim.

Sou uma ave sobre um mourão
uma assombração aos olhos do passante

diante de um rochedo e de um mar que se move.

Amanhã
ao nascer do sol
não haverá o que há.
Será uma outra baía
um outro eu.
.
Tudo fica aqui
e passa
.
e passará.
.
Outubro de 2009

1.12.09

O MANTO

Camaradas, foi irresistível.


Segue, meus caríssimos irmãos de armas, que o pesado manto rubro-negro será, mais uma vez, içado sob o cântico de uma nação e, novamente, milhões de olhos estarão postos sobre a realeza desta tradição de proporções bíblicas que é o Flamengo.

O Flamengo que superando todos os adjetivos possíveis, tal como uma vez previu o grande Nelson Rodrigues, já não se conforma mais à idéia de time ou mesmo de comunidade esportiva. A legitimidade que não pode ser comportada por nenhuma noção que não a de uma força da natureza. De outra forma, a atitude dessa paixão seria coisa sobre ou anti-humana. Mas qualquer um poderá perceber nos olhos de um membro dessa fraternidade a evidência absoluta dos mais elevados sentimentos , a característica cristalina da entrega ao júbilo mais absurdo e ao sofrimento mais indescritível com a mesma certeza de que é nobre pertencer a essas cores em toda e qualquer circunstância.

Cantemos sempre todos os hinos, que de certa forma, todos eles nos pertencem. O ente Flamengo, gigante bicolor sem forma que, na representação da armadura rubro-negra, enverga bravio todos os nomes e rostos, todas as paixões e violências que o amor mais fanático de todos pode conter.

Sejamos gratos, nação. Estejamos à altura. O apocalíptico Flamengo é maior que qualquer homenagem.

O triunfo aguarda os próximos dias na respiração ansiosa e entrecortada de todos os homens. Será com respeito e veneração que o grito explodirá hoje e sempre em todas as bocas e lugares. Entre o carnaval de sorrisos e lágrimas não haverá mácula ou infidelidade que resista. Todo e qualquer homem vivo saberá que o Flamengo é campeão.



Vinicius Perenha, 01/12/2009.

27.11.09

14.11.09

Aprendo

Aprendo a ser melhor
que a cabra
que a ferramenta na caixa
que o dobre d´água.
Sendo pior que eles,
não sendo nada.

Aprendo a reconhecer o mau
nas aranhas que me esquecem
nas pessoas-porta-retratos que os suportam
os porta-retratos, sendo pessoas.
O mau que urge nas silenciosas caras
que aflige famílias, doenças graves
Aprendo sendo melhor que ele - o mau,
existindo como pessoa
despregada de paredes.

Aprendo a ser mais forte
que o sino
que o mar na manhã trêmula
que a faca sobre o dedo da velha
sobre o peso das costas
que a corda bamba de mendigos
muro de alcançar baixios.
Aprendo a ser mais
sendo menos,
tênue fio que se estanca.

Aprendo a resolver o meu medo
no escuro
mergulhado num mar de cinzas sonoras
tubarões e sacis me perseguem
agonizando entre terreiros de macumba
capas negras e vermelhas sob a fumaça dos caximbos
a orca, o vizinho queimado vivo, o desenterro do amigo
olhos mortos na pele que devora o riso.
Aprendo a ter coragem
não tendo, deixando que o monstro me alcance
tornando-me algum tipo de monstro.

Aprendo meu delírio
vivendo-o
no duro concreto da mais absurda realidade
meu mastro fundo, falo!
no ácido que me toma
estrelas-irmãs
telefonemas solitários
tudo pra um dia que não existe
Aprendo a delirar delirando
rasgando o que me parece ter algum resto de delírio.

O irreconhecível mente

Talvez não estivesse
exatamente vivo
exatamente desesperado - como pareceu
exatamente eu.

Talvez fosse apenas um outro.
Um desconhecido de mim, de você.
Desapegado desse instante, desentranhado.

Talvez nem tenha sido assim
vai saber?!
E discreto, talvez, nem tenham percebido.
E este eu, qual desconheço,
poderia estar mentindo,
fingindo-se passar por um outro de mim
que ainda não me chegou o momento exato de ser.

11.11.09

Impontual

Estou aqui,
com meus dracmas,
suei, cheguei,
dúzias e destinos depois,
disse-te, viria,
dramático, dodecadividido,
Mas puma,
Pontual, todo presente.

Ilê, mas – cadê?

a sabendas não vens,
ou caminhas?

Impontualesces?


.....Fazes-me levêdo?

Estiveses e verias
Os caminhões atochados
de segundos, de sargaços,
de serviços e sonháculos
.....e outros levantiscos afins,
que nem eu sei mais o que são.



(Aos 6 de outubro de 2009)

4.11.09

A rua tempo

Na Voluntários passo
como eles
voluntário

há quanto tempo não me ligo
três nove setenta
quatro três sete cinco

mais que marginal
imaginário
ser a terceira margem do rio

**

Ao quererem-se nos Inválidos
invalidam-se e somem

e os sonhos bons
quem dera os fosse
são segundos

os primeiros
neles e no tempo
se acanham

e perduram
e perduram
e perduram

**

Os muros da escola atentos ao cego que voa
Nuvem bailarina no mar de eutanásia dos tempos

**

A Passagem aberta
doce
de portais de amêndoa

em raios da hora nova
é nos novos arranhões

o sono solda
tempos breves

e outubro passa
como música
no ônibus

poemas fruto das ruas Voluntários da Pátria, Inválidos e Passagem do Rio de Janeiro

27.10.09

Diário do México - final


Detalhes reveladores do Terrazo de los muertos, onde eram realizados os sacrifícios dos membros do time perdedor, no Gran Juego de Pelota, uma espécie de jogo de bola de pátio que existia


Observatório astronômico em Chitzén Itzá, repare nas semelhanças com os observatórios modernos (domo redondo)


Detalhes da aquitetura maia, muito mais elaborada e detalhada que a azteca



Evidência clara do sistema de pontuação do Gran Juego de Pelota, no pátio, onde o time que mais vezes passava uma bola por entre o aro, mais pontos fazia



Detalhe da arquitetura maia
# # #


.....07 jan

.....Conceito importante: na região da Cidade do México e arredores, os indígenas locais eram aztecas. Aqui na Península de Yucatán, não; aqui eram maias, outra raça, outra cultura, tudo diferente.

.....Os maias – inventores do conceito do zero, avançados astrônomos e matemáticos, artistas, filósofos e escritores sofisticados, arquitetos de alguns dos maiores monumentos conhecidos – criaram seus primeiros assentamentos no que hoje é a Guatemala, cerca de 900 a.C. Ao longo dos séculos a expansão maia se deu para o norte e por volta de 550 d.C. havia cidades-estado maias na parte sul da península de Yucatán.
.....A última das grandes capitais maias, Mayapán, começou a colapsar por volta de 1440 devido a lutas internas pelo poder. Em 1540 o conquistador espanhol Francisco de Montejo utilizou as tensões internas do império maia para subjugar a península de Yucatán.
# # #

.....Acordamos às 4hs da matina para pegar o vôo das 0620hs para Mérida, no aeroporto internacional Benito Juarez. Acho que, nesse momento, não havíamos ainda nos dado conta da importância de conhecer não apenas a cultura azteca, a principal do México, mas também a maia, que floresceu em toda a península de Yucatán.
.....O vôo saiu na hora mas pousou antes – e inesperadamente – em Campeche, devido a condições adversas de visibilidade no aeroporto internacional de Mérida. Às 1130hs, entretanto, já estávamos vagando pelo centro histórico de Mérida, em busca de um bom hotel a um preço satisfatório.

# # #
.....Francisco de Montejo fundou Mérida em 1542 e utilizou os nativos maias como mão-de-obra escrava; quando o México se tornou independente da Espanha em 1821, o território de Yucatán foi utilizado como largas plantações de tabaco e cana de açúcar. Embora legalmente livres, os maias eram escravos devido ao sistema das dívidas que criavam com os latifundiários.
.....Em 1847, após quase 300 anos de opressão, os maias se sublevaram, assassinando cidades inteiras de brancos; foi o início da Guerra das Castas, a rebelião mais organizada em todo o período de dominação espanhola. Finalmente, em 1901, a paz foi obtida mas ainda passaram-se 300 anos até que o estado Yucatán de Quintana Roo passasse novamente ao controle do governo.
.....A cidade de Mérida é a capital do estado de Yucatán, que abriga antigas cidades maias como Chitzén Itzá e Uxmal, bem como as coloniais Izamal e Valladolid. Mérida – antigamente a grande cidade maia T´hó, foi a principal cidade de contato com a Espanha da região de Yucatán, durante o período colonial; durante a Guerra das Castas apenas Mérida e Campeche foram capazes de resistir ao assédio dos rebeldes; nessa época Mérida recebia ordens apenas da Espanha e não da capital da colônia, a Cidade do México. Foi apenas com ajuda da capital colonial que Mérida conseguiu evitar a submissão aos rebeldes, durante a Guerra das Castas.
.....Nos chamou a atenção o clima daqui, quente e úmido, completamente diferente do clima seco da Cidade do México. Na verdade isso foi um certo alívio, para nossos padrões cariocas.
.....Aqui há simplesmente uma enorme quantidade de turistas, pudemos logo perceber em nossa busca por um hotel. Posteriormente, conversando com as pessoas, viemos a saber que há poucos turistas brasileiros; a maioria dos turistas aqui são americanos, canadenses, alemães e franceses, tomando a cidade inteira (centro histórico) e movimentando boa parte de seu comércio.
.....Achamos rapidamente um hotel em conta, não tão longe do centro histórico, e saímos pra almoçar e caminhar pela cidade, a fim de relaxar e coletar as primeiras impressões. Estávamos exaustos, em um estado semi-onírico, em virtude da madrugação de ontem e do desgaste do vôo.
.....E nesse misto de cansaço e confusão, fizemos uma andança. Percebemos de imediato uma certa mudança na fisionomia das pessoas, em relação ao povo da capital: todas igualmente indígenas mas de compleição mais atarracada e rosto mais redondo. Achamos os nativos mais simpáticos também, mas difícil dizer se isso tem origem na raça, na cidade bem menor em relação à capital ou simplesmente no fato de ser um lugar completamente orientado para o turismo.

.....Passamos pela Plaza Grande, coração da cidade, e vimos a Catedral de San Ildefonso, o Macay – Museo de Arte Contemporanea Atheneu de Yucatán, a casa de Montejo, que abrigou os familiares descendentes de Francisco de Montejo até cerca de 1970, o Palacio Municipal e Palacio Del Gobierno, onde compramos nossas passagens para Chitzén Itzá para amanhã, às 0630hs; passamos também pela Iglesia de Jesús, Teatro Peón Contreras e Universidade de Yucatán.
Pela tardinha tiramos um cochilo inevitável e deois saímos para jantar e comprar protetor solar para a jornada de amanhã. De noite caímos, esgotados.
# # #
.....O diário que fizemos termina aqui; a partir de Mérida, fizemos a viagem até Chitzén Itzá, ilustrada em algumas fotos acima, ficamos mais alguns dias em Mérida e depois regressamos à Cidade do México e em seguida ao Brasil.
.....Ainda que breve a viagem, pudemos coletar dados sobre a história, informações antropológicas e artísticas deste país interessantíssimo que é o México. A compleição das pessoas, de que forma os movimentos anteriores de sua história desembocavam na situação de hoje, o caráter passional de muitas partes da história do país, a pouca mistura das raças, ao contrário do Brasil, a também imensa influência da Igreja Católica, a base alimentar assentada no milho, os museus impressionantes, a pimenta em todas as comidas, o assombro e pesar com o resultado do choque de duas das maiores civilizações à sua época, os pensamentos vagando sobre o que poderia ter acontecido, fosse preservado o legado indígena dos Aztecas e Maias... Poderia ter havido tal encontro pacífico, tendo em vista o caráter colonialista dos espanhóis e o caráter beligerante dos aztecas ?
.....Gracias México !

23.10.09

Diário do México - 11


Av. Paseo de la Reforma, com el Ángel


Outra obra de Gustavo Monroy, desta vez um autorretrato


Painel com aspectos da cultura mexicana, como Quetzacoátl, o deus-serpente, e o milho, pilar da cultura alimentar azteca até hoje (saindo de sua boca) e o sol


Pintura pré-hispânica, nas ruínas de Teotihuacán



Virgem de Guadalupe, padroeira do México

# # #


.....06 jan
.....Acordamos imbuídos de decidir nossos próximos passos, sem maiores delongas, já que o dia da passagem de volta se aproxima, aos poucos. Ficamos entre algumas opções, como Tula, Puebla, Oaxaca, Acapulco, Cancún – no fim decidimos mesmo por partir amanhã para Chitzén Itzá, na península de Yucatán, e voltar sexta à noite; sábado à noite é nosso vôo de volta para o Brasil.
.....Decidido isso partimos para compra as passagens e ver algum filme no cinema, a fim de descansar um pouco as pernas, doloridas das últimas andanças. Caminhamos pela Paseo de La Reforma até o escritório da Aeroméxico e, compradas as passagens, partimos para o shopping da Plaza Delta, perto da estação de metrô Centro Medico.
.....No shopping almoçamos e vimos um filme; depois do filme recapitulamos as coisas que vimos na capital, os traços indígenas das pessoas, a maior presença de brancos descendentes de espanhóis dentro dos shoppings, o frenesi e a poluição da capital, os museus 5 estrelas, a vívida arte local e os renomados artistas, a intrigante história das diversas civilizações pré-hispânicas e seu choque bizarro com os espanhóis, notadamente com a chegada de Hernán Cortés em 1519, a cultura alimentar baseada no milho desde os tempos dos aztecas, as relações com o vizinho do norte, os EUA, o sentimento das pessoas com relação ao passado colonial do país etc.
.....Compramos algumas lembranças e partimos de volta para o hotel; amanhã teremos que acordar por volta das 4hs para conseguirmos pegar o vôo para Mérida às 0620hs.

# # #
(Última parte do diário a ser publicada em 27.10.2009)

19.10.09

Diário do México - 10

Teotihuacán


Detalhes aquitetônicos

Calzada de los Muertos vista do topo da Pirâmide da Lua


A impressionante Pirâmide do Sol



Pirâmide da Lua, ao final da Calzada de los Muertos, vista do topo da Pirâmide do Sol

# # #

.....05 jan

.....Hoje acordamos bem cedo para ir conhecer as pirâmides de Teotihuacán, a cerca de 50km a norte da capital. Pegamos o metrô até a estação autobuses del norte e de lá pegamos um ônibus até a entrada do parque, aproximadamente 1h de viagem e r$ 6,00 cada pra entrar.

.....Logo ao avistar a magnânima Pirâmide do Sol, das planícies de Teotihuacán, já sentimos a vibração desta que foi uma das maiores cidades pré-hispânicas, com sua população tendo chegado a cerca de 200.000 habitantes em seu auge.
.....A Calzada de los Muertos, cortando a cidadela no eixo norte-sul, é circundada por enormes espaços planos e qItálicouadrados, por sua vez perimetrados por escadarias. A imponente Pirâmide da Lua, ao final da Calzada de los Muertos, é linda em sua meticulosidade, ainda que de menores dimensões que a Pirâmide do Sol.
.....Subimos ao topo desta e descansamos um pouco, estarrecidos pela energia do lugar e imersos nas reflexões sobre como deveria ser a vida ativa, sócio-econômica e religiosa desta cidadela; o trabalho e a energia gastos na erição das pirâmides, a acentuada religiosidade e oferendas e Quetzacoátl, os escambos... Ficamos felizes por estarmos compartilhando a energia juntos, mais esta viagem, mais estas reflexões antropológicas, mais esta ciência do quão pouco somos, mais este brainstorming da mente inserida em novas geografias, liberta das amarras das rotinas, sondando outras eras, uma espécie de portal no tempo e a oportunidade quase grotesca de olhar para nossos atuais e questionáveis caminhos e nos perguntarmos que tipo de inserção queremos ter.
.....O sol abrasador, a areia, os cáctus também me trouxeram uma espécie de torpor, a insolação me castigou, arrastei os passos, agradeci mil vezes a Avalokiteshvara pelo vagar vago e pela fata morgana confusa e ondulante saindo da areia quente e sufocante, levantando vôo e entrando nos pulmões, cegando os olhos, a experiência ao mesmo tempo triste e fascinante de facear aquelas estruturas e sentir um misto milenar de culpa, devaneio, humildade e entrega nas mãos do Devir; ao meio-dia estavam presentes Inti, Tláloc, Ganesha, Selasié e o mártir dos mártires Yeshua, fundindo as lembranças inolvidáveis de Mescal, Sidarta, o despertar de si mesmo, de uma simples postura ereta a um plano maior absoluto, a compreensão disso no eixo do tempo, e um simples roer de unhas à entrega de uma vida no fluxo incessante do vir-a-ser.
.....Confuso, com fome e feliz, vaguei de volta, ao lado da Lígia, para a entrada do parque onde pegamos, por volta das 15:30hs, o ônibus de volta para o centro.
.....Precisamos decidir os passos finais da viagem, os próximos dias, já que nossa reserva neste hotel termina amanhã; pintam como opções idas a Tula e Chitzén Itzá, mas ainda não estruturamos o lance direitinho.
.....Ainda passamos no Zócalo para ver alguns murais na Secretaria Pública de Educação mas estava fechada já que hoje é véspera do dia dos Três Reis Magos, importante data nacional. Voltamos a pé para o hotel empreendendo a longa jornada pela Benito Juarez e Paseo de la Reforma, ainda passei para usar a internet, cheguei no hotel como um supliciado, exausto e feliz, bobo, ausente. O Devir seja louvado.

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(Penúltima parte do diário a ser publicada em 23.10.2009)

16.10.09

Diário do México - 9

Eu e um vitral com o símbolo da gênese da civilização mexicana - a águia sobre o cáctus, devorando a serpente, no Castillo de Chapultepec.


"Las dos Fridas", um dos famosos quadros de Frida Kahlo, no Museu de Arte Moderno.


Painel retratando momento da História do México, no interior do Castillo.


Jardins no plateau superior do Castillo de Chapultepec.



Monumento a Los Niños Heroes, no bosque de Chapultepec.

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.....04 jan

.....Mais um dia na Cidade do México! Vamos dedicar o dia de hoje ao Bosque de Chapultepec, o “morro dos gafanhotos”, na língua Náhuatl, o maior parque da capital, com mais de 4km quadrados, com lagos, um zoológico e alguns excelentes museus. Pegamos o metrô por volta das 0930hs e descemos na estação Chapultepec, de onde adentramos o parque andando, em direção ao castillo.
.....O Castelo de Chapultepec, no interior do bosque, foi construído em 1785 como residência para os vice-reis da Nova Espanha. Após a independência o castelo se tornou a Academia Militar Nacional e foi tomado em 1847, durante a invasão norte-americana; nesta ocasião, mais de 8000 tropas ianques avassalaram o local, quando se forjaram los niños heroes. O general mexicano Santa Anna liberou os cadetes de resistirem, vislumbrando o massacre, mas seis cadetes, de 13 a 20 anos, preferiram a morte resistindo do que o rendimento.
.....Após a execução de Maximiliano de Habsburgo, marcando o término do chamado Segundo Império mexicano, o castelo se tornou residência dos presidentes mexicanos até 1939, quando o então presidente Lázaro Cárdenas o transformou no Museu Nacional de História.
.....No caminho para o impressionante castelo passamos pelo monumento aos seis niños heroes. Chegamos ao castelo após a agradável caminhada e logo nos impresionamos com a vista esplêndida do local, a ~45m acima do nível do resto do parque. O castelo está muito bem cuidado e seus jardins impecavelmente podados; no seu interior encontram-se mais alguns dos tão caracteristicamente mexicanos murais, como o Painel da Independência (de Juan O´Gorman) e Do porfiriato à revolução, de Siqueiros.
.....O restante do museu é repleto de uma explanação excelente da história moderna do México, aproximadamente da Independência à presidência de Lázaro Cárdenas; foi fera para decantarmos os parcos conhecimentos que adquirimos estudando a história do México nos últimos dias.
.....Do castelo partimos para o Museu de Arte Moderno, isso ainda dentro do bosque.
O Museu de Arte Moderno não possui um vasto acervo mas possui algumas jóias impactantes, como o internacionalmente pop Las dos Fridas, de Frida Kahlo. Vimos ainda mais quadros dos consagrados Dr. Atl, Rivera, Siqueiros, Orozco, Tamayo e O´Gorman, além de uma exposição de Remedios Varo de tirar o fôlego, a surrealista veterana mexicana, foi excelente. Pensei no William e em como certamente estes nomes obras o agradariam.
.....Prosseguimos o passeio dominical pelo bosque que, já pelas 12hs, estava agora completamente tomado pelas famílias mexicanas, aproveitando o sol para passear, consumindo todo tipo de comidas locais, maquiando os niños com pinturas dos lutadores mais famosos de lucha libre e confraternizando aos milhares.
.....Passamos ainda pelo zoológico mas fomos desencorajados a entrar pela romaria homérica de pessoas na fila, afluindo de todos os lados, aproveitando a generosa gratuidade do local.
.....A esta altura, sentindo fome e um certo cansaço acumulado dos dias, partimos para o shopping de Coyoacán, onde almoçamos e tomamos um expresso revitalizante. Depois regressamos para a Zona Rosa, compramos alguns víveres e encerramos a caminhada de hoje; amanhã partiremos para conhecer as ruínas de Teotihuacán, a norte da capital, e certamente precisaremos das energias renovadas.

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(Continua em 20.10.2009)

13.10.09

Diário do México - 8

Arte mexicana contemporânea


Exposição sensacional de lucha libre


Itálico As ruas da capital, vistas da Torre Latinoamericana


Subcomandante Marcos, retratado pelo artista contemporâneo Gustavo Monroy



Outro do Monroy


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.....03 jan

.....Acordamos mais ou menos à mesma hora de sempre, a Lígia não conseguiu dormir tão bem, eu dormi tranquilo. Um pouco difícil se acostumar ao ar extremamente seco, que aos poucos nos vai abrindo rachaduras nos lábios e dedos.

.....Decidimos voltar ao Centro Histórico, desta vez de metrô, para percorrer alguns locais que não conseguimos visitar ontem. Pegamos o metrô na Pino Suárez, de onde fomos caminhando em direção ao Zócalo.

.....Nossa primeira parada foi o Museo de la Ciudad de Mexico, um discreto museu se comparado aos medalhões que aqui existem; lá vimos uma amostra sensacional sobre a luta livre de personagens (estilo telecasting), aquela com lutadores mascarados, muito popular por aqui desde os anos 30. A exposição retratou a teatralidade carnavalesca e bizarra da luta, a carreira de diversos lutadores ao longo dos anos que se tornaram mitos, muitas das máscaras e pintura utilizadas, bem como as participações catárticas do público.

.....Ainda neste pequeno museu, do qual pouco esperávamos, vimos uma exposição sobre o aspecto cultural, ainda muito presente em cidades menores, do enfeite e celebração dos mortos, com grandes altares adornados de fotos, frutas e flores, verdadeiras obras antropológicas em homenagem aos respectivos mortos, frequentemente nos lares mais modestos e humildes possíveis.

.....Também havia uma pequena explanação sobre vida e obra do arquiteto mexicano Luís Barragán (1902-1988). Nascido no estado de Jalisco e educado engenheiro civil, Barragán foi auto-didata em arquitetura; recebeu em 1980 o Pritzer Price, a mais elevada honra (prêmio) da arquitetura nacional.

.....Deste museu fomos em direção ao Zócalo e depois, tangenciando-o, viramos na conhecida calle Moneda.

.....Nossa primeira parada na Moneda foi o Museo de la Secretaría de Hacienda y Credito Publico, do qual, a julgar pelo nome, não sabíamos em absoluto o que esperar; o que vimos foi muito além do que esperávamos, um apanhado honestíssimo de artistas contemporâneos mexicanos. Logo na primeira sala havia uma excelente exposição de quadros de Gustavo Monroy, denominada Polítika-Ficción, com basicamente todos os quadros monstrando personagens da política mundial e nacional, como Osama bin Laden e o subcomandante Marcos, empunhando armas contra a própria cabeça, muitos dos quadros sendo autorretratos do pintor na mesma posição e secundando-o figuras e cabeças humanas cheias de chagas.

.....Este museu foi certamente um dos pontos altos do dia; também vimos uma exposição de Antônio Ruiz - el cuerzo - outro pintor mexicano contemporâneo de formas muito coloridas e proporções perfeitas entre as figuras, seus volumes e interações, ainda que de traços pouco fiéis à realidade estrita; sua obra me foi uma surpresa deliciosa, fiquei encantado com os quadros.

.....Vimos também uma pequena exposição de fotos de denúncia social de Ambra Polidori, com sua impactante frase "la infancia no es un juego para niños".

.....À parte disso havia as menos encantadoras mas igualmente agradáveis exposições de Maribel Portela (esculturas em cerâmica - "Jardim onírico" - retratando formas de vida imaginárias de plantas marinhas), Jorge Marín (esculturas fabulosas em bronze, de uma precisão estarrecedora) e também uma coleção menos atraente de ícones religiosos russos.

.....Saímos desanuviados do museu e, observando que nossa próxima parada - o Museo Nacional das Culturas - estava fechado para reforma, compramos uns sandubas (muito apimentados, claro, como fugir...) e comemos sentados na calçada, observando o incessante fluxo de pessoas comendo e consumindo, às vésperas do dia de los 3 Reyes Magos.

.....A quantidade de gente no Centro Histórico é algo surpreendente ao mais impassível dos observadores, algo como um Saara cheio (na Uruguaiana) multiplicado por 100; ali ficamos comendo quietos observando as romarias pra lá e pra cá.

.....Finda a improvisada refeição continuamos com nossa peregrinação de museus partindo para o Museo José Luís Cuevas, outro artista contemporâneo mexicano de grandíssima expressão.

.....Já passeando pelo museu, me peguei pensando nas diferenças de minhas viagens com a Lígia para minhas viagens em carreira solo, de antes. Jamais, nas ocasiões solo, eu ia a museus e exposições, uma vez que minha prioriade era sempre a interação franca com as pessoas, a conversa, o encantamento tête-a-tête, as conversas aleatórias com estranhos na rua, interações estas que me parecem pouco atraentes em ocasiões como a de agora; senti nostalgia mas não desejo de "regredir"; também tive lembranças da minha última viagem solo, ao Sudeste Asiático, onde senti uma árida solidão, em parte pelo momento que vivia, em parte pelas muitas vezes incontornáveis diferenças culturais - incluso o idioma - em relação aos locais.
As viagens-doideira de antes, dos meus 22 aos 26 anos, já não caberiam em meu ritmo atual - será forçoso admitir? Talvez, ainda que o devir atual, não o trocaria por nada.

.....Como descrever as obras de Cuevas? Sua posição na arte contemporânea mexicana é absolutamente merecida, seus traços simples mas inteiramente comunicativos nos tiraram o fôlego; as cores simples das obras e a parte erótica da exposição são sen-sa-cio-nais, muito viajantes, muito dialogantes, os rostos das figuras quase sem expressão, caregados de significado, entretano.

.....A outra surpresa fantástica deste museu ficou por conta de uma exposição de Pedro Friedeberg, uma espécie de cartesiano com aquarelas com detalhes e formas muito minuciosas e trabalhadas, de cores muito vivas e títulos das obras fabulosos; foi uma grande dádiva conhecer ao mesmo tempo, no mesmo museu, José Luís Cuevas e Pedro Friedeberg.

.....De lá partimos para outro museu, desta vez o Museo Nacional de Arte e, putasquiospariu, já estávamos um tanto de saco cheio de museus, a esta altura do campeonato !
.....O Museo Nacional de Arte possui um grande acervo de pinturas barrocas, pouco interessantes senão pelo legítimo aspecto histórico das obras; percorremos, abatidos, os corredores e mesmo os Velázquez, Siqueiros, Riveras, Orozcos, Tamayos e Montenegros que vimos não nos levantaram o ânimo.

.....Já exauridos, ainda passamos pela Torre Latinoamericana que, do 40 andar, oferece uma perspectiva bastante interessante de toda a Capital, uma mistura de megalópole com superlativos, com sua história tétrica e bonita, seu solo esponjoso, seu ar seco e poluído e seu trânsito inacreditavelmente congestionado, seus costumes hermosos.

.....Pegamos o metrô de volta e desabamos na cama, após um banho reconfortante; amanhã será a vez de explorar um pouco a área de Chapultepec. Obrigado, devir.


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(Continua em 16.10.2009)

9.10.09

Diário do México - 7

Águia sobre um cáctus, devorando uma serpente - o símbolo da bandeira do México, segundo a lenda, foi o sinal para a fundação de Tenochtitlán pelos aztecas.


Palacio de Belas Artes

Painel de Diego Rivera no Palacio Nacional, retratando a vida azteca em uma quantidade surpreendente de detalhes e beleza.


Catedral Metropolitana



Plaza de la Constituición - o Zócalo

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.....02 jan

.....Acordamos cedo e às 9hs já estávamos lentamente a caminho do centro histórico; a Lígia ainda sente dores no pé direito e eu ainda não estou 100% da dor das costas.
.....Tomamos um café quente na SevenEleven e pegamos a av. Paseo de la Reforma, rumo à av. Juarez, que nos levou até a Alameda, uma longa e gostosa caminhada. Chegamos por volta das 10:30hs à Alameda Central, um grande parque arborizado a menos de 1Km do Zócalo (o centro histórico – Plaza de la Constituición); criada no final do séc. XVI pelo vice-rei Luiz de Velasco, a Alameda é hoje um refúgio popular, particularmente aos domingos, quando fica repleta de famílias defeñas (da Cidade do México).
.....Da Alameda entramos no Museu Mural Diego Rivera, que nada mais é que um abrigo para o famoso mural de Diego Rivera entitulado “Sueño de uma tarde dominical em La Alameda”; pintado em 1947, o mural de 15m x 4m retrata diversos personagens-chave da história do México juntamente com figuras populares, como vendedores de doces e furtadores, bem como camponeses. A personagem central é o esqueleto Catarina, personagem de José Guadalupe Posada, o artista mexicano das famosas caveiras, de quem Diego foi admirador. O mural está muito bem conservado e o museu, por ser pequeno, proporciona uma experiência light.
.....De lá observamos o “Semi-círculo a Juarez”, um monumento na própria Alameda, a Benito Juarez. Varamos então a Alameda e chegamos ao Palácio de Belas Artes; o prédio que abriga o museu, uma construção absolutamente imponente cuja fachada inteira é de mármore, foi feito sob Porfírio Diaz, o ditador. Sua construção começou em 1905 e a situação começou a se complicar à medida que o elevado peso começou a afundar a construção no solo esponjoso da Cidade do México. Em 1910 estourou a Revolução Mexicana, de modo que o lugar ficou pronto apenas na década de 30.
.....O museu foi outro ponto alto da viagem, no dia de hoje, com obras belíssimas de Rufino Tamayo, David Alfaros Siqueiros, a obra de arte “A catarse”, de José Clemente Orozco e o mural absolutamente fascinante “El hombre em El cruce de caminos”, de Diego Rivera; este mural foi originalmente comissionado para o New York´s Rockefeller Center, mas os Rockefeller destruíram o original, pela forte temática socialista do mesmo, ilustrando o capitalismo acompanhado de suas guerras e o socialismo como opção de saúde e paz, com as figuras de Lênin, Trotsky, Marx e Engels. Posteriormente Rivera reconstituiu o mural, que agora se encontra aqui.
.....Ainda no Palácio minhas costas voltaram a doer, até que a dor se tornou bastante forte; tomei um tylenol mas não adiantou, comecei a ter novamente dificuldade em respirar fundo, estava mesmo incomodando. Senti tristeza de estar com esta dor durante uma viagem; passamos na farmácia e tomei uma injeção de neuroflax, que me aliviou.
.....Me sentindo melhor, rumamos para a Plaza de La Constituición, a famosa Zócalo, que significa “base”. A praça é uma das maiores praças urbanas do mundo, com seus 220m x 240m, e fica sempre abarrotada assustadoramente com milhares e milhares de consumidores, camelôs, performistas, turistas ou apenas cidadãos locais comuns. O formigueiro de gente impressiona até os mais acostumados, com todos recebendo uma espécie de bênção de uma bandeira hasteada do México, de proporções épicas.
.....Na face norte da praça fica a Catedral Metropolitana, cuja construção feita em cima de ruínas aztecas (por sua vez em cima das chinampas), faz com que o local afunde permanentemente alguns centímetros por ano, desde o início de sua construção, originando rachaduras no piso; há inclusive um prumo imenso, pendendo do teto da catedral, ilustrando o quanto a estrutura vem afundando, ao longo dos séculos.
.....Da catedral partimos para o Palácio Nacional, na face leste do Zócalo, outro prédio colossalmente imponente, como muitos do Centro Histórico da maior cidade do mundo.
O Palácio Nacional é o local de trabalho do presidente da república (Felipe Calderón, por ocasião desta viagem), bem como do Tesouro Federal. O Palácio também abriga diversos murais pintados por Diego Rivera entre 1929 e 1935, retratando a civilização mexicana desde a chegada de Quetzalcoátl, o deus-serpente dos mexicas, até o período pós-revolucionário; os murais são um verdadeiro achado e a visão de Rivera da antiga Tenochtitlán é incrivelmente detalhada e bela.
.....Não me sai da cabeça o processo histórico que se desenrolou nestas terras, desde o estabelecimento de grandes civilizações que, está provado, tiveram acentuados problemas com excesso populacional, escassez de água e desmatamento, e seu encontro absolutamente insólito com Hernán Cortés e sua trupe de bandidos... essa visão é mística, quase, pelo absurdo da coisa toda.

.....Do Palácio, já um tanto esgotados pelas andanças e pela multidão atordoante, rumamos para o estarrecedor Templo Maior, as únicas ruínas aztecas ainda presentes na Capital. O templo é supostamente o local onde os aztecas avistaram a águia sobre um cáctus devorando uma serpente, o símbolo que hoje ilustra a bandeira do México, e que foi um presságio para a fundação de Tenochtitlán, segundo reza a lenda. Na crença azteca, este local seria, literalmente, o centro do universo.
.....Cada imperador azteca que iniciava seu reinado deveria encetar uma ampliação do Templo Maior, retratando a expansão e magnanimidade da civilização; cada ampliação dessas era acompanhada de sacrifícios em massa de guerreiros capturados de outras tribos, em homenagem ao patrono azteca, o deus Huitzilopochtli.
.....Ao ver as combalidas ruínas, de importância histórica absurda, não pude deixar de fazer uma comparação – desantajosa para o Templo Maior – com Machu Picchu, a cidade sagrada dos Incas, no Peru. Talvez a comparação não faça sentido, pelos diversos processos históricos envolvidos, mas por aqui realmente não sobrou pedra sobre pedra dos infortunados aztecas.
.....Finda a visita ao Templo Maior iniciamos a cansativa caminhada de volta para o hotel. Fizemos boa parfte da andança já escuro mas não tivemos a sensação de insegurança, as ruas ainda estavam bastante movimentadas; chamou-nos a atenção o internacionalmente (e negativamente) conhecido trânsito da Cidade do México. Chegamos exaustos no hotel, os olhos ardendo pela poluição, o nariz doendo pelo ar seco da altitude de ~2300m – onde se encontra a capital – e a barriga roncando, por volta das 20hs. Tomamos banho, jantamos e desabamos.


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(Continua em 13.10.2009)