13.1.10
Barcarola nuvem
e não chove nem há sol
o lusco-fusco se põe entre os dias.
Hoje é quase dezembro
e o seu barco de madeira já não vejo.
As árvores de natal já não fazem sentido.
As ameixas reluzem em sumo sobre a mesa
e o sabor é uma memória que lateja.
Três vezes em guerra
a se debater
a empurrar
e a falar pros teus ouvidos
espirais coloridas
tulipas de algodão.
E o que poderás entender do que tenho visto?
Riscos de antemão.
Luzes incessantes percorrendo pautas musicais.
Segredos costurados nos travesseiros.
E o medo
e o mijo nas calças
ao ver os fantasmas do porão
e não havia porão em tua casa
e não havia porão em minha-tua-nossas casas.
e o eco te sobe pelas pernas
e o que verás?
Teus são teus olhos
e o que chamas de vermelho
para um outro talvez não seja.
Há uma mesma tarde no tempo
distinta para cada um de nós.
*verso roubado de algum poema que não me recordo
22.12.09
Lançamento do livreto " Torres Homem, 278 "
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Fala rapaziada
Arteiro que sou,
Um fanfarrote sênior,
tapeio meus versos
prometendo-lhes a vida num poema
tanto-sílabo e royal
E eis que agora moram
no albergue bufonal
deste texto escaleno –
que nem a boas rimas se presta!
Pagaram caro, queriam fama,
A escalada literária!
De boas penas tinham ganas…
Mas foram postos, à moda pária
Por este hadoque doidivanas.
10.12.09
agarrada às asas do boing
de gravatas grita: - Fica!
Côncava, plana,
central, estranha, via deserta.
Brasília é a Barra da Tijuca à noite,
embora não saiba.
Brasília desdentada de ônibus-trem-elétrico
voltando.
Brasília é moderna,
embora não caiba nela mesma.
Embora não saiba,
é luz de abajour intelecto
janela sóbria em pequenos prédios - púlpitos suicidas.
É astrofóbica, filosófica...
- É coisa-e-tal, saca?
Brasília é mais cedo,
bala de festa.
Mais-tarde deixa Brasília tonta;
gira Brasília sem braços.
E Brasília têm filhos
e pais separados.
Aguarda adoção.
Brasília ambidestra.
Fala alemão, engole facas.
Agarrada aos fios, é uma criança pedindo colo.
Brasília tem nome,
ora não tem.
O céu quer Brasília mais alta,
chama por ela, que
nem da janela pisca.
Brasília é uma curva desfeita.
Brasília é alcoólatra, posta por conveniência.
É uma prancha e dois pratos.
Brasília é ela.
Que vai embora e chega,
retorna do inferno pro inferno.
Pra outra Brasília
que nunca pisei.
Distinta dela mesma,
de seus detritos.
Brasília que nunca estive,
e já nem sinto o quanto a amo.
Brasília ruiva, hippie e bela.
Agora,
Brasília inteira
é uma curva.
(2007)
9.12.09
Andanças por Mangaratiba
1.12.09
O MANTO
Segue, meus caríssimos irmãos de armas, que o pesado manto rubro-negro será, mais uma vez, içado sob o cântico de uma nação e, novamente, milhões de olhos estarão postos sobre a realeza desta tradição de proporções bíblicas que é o Flamengo.
O Flamengo que superando todos os adjetivos possíveis, tal como uma vez previu o grande Nelson Rodrigues, já não se conforma mais à idéia de time ou mesmo de comunidade esportiva. A legitimidade que não pode ser comportada por nenhuma noção que não a de uma força da natureza. De outra forma, a atitude dessa paixão seria coisa sobre ou anti-humana. Mas qualquer um poderá perceber nos olhos de um membro dessa fraternidade a evidência absoluta dos mais elevados sentimentos , a característica cristalina da entrega ao júbilo mais absurdo e ao sofrimento mais indescritível com a mesma certeza de que é nobre pertencer a essas cores em toda e qualquer circunstância.
Cantemos sempre todos os hinos, que de certa forma, todos eles nos pertencem. O ente Flamengo, gigante bicolor sem forma que, na representação da armadura rubro-negra, enverga bravio todos os nomes e rostos, todas as paixões e violências que o amor mais fanático de todos pode conter.
Sejamos gratos, nação. Estejamos à altura. O apocalíptico Flamengo é maior que qualquer homenagem.
O triunfo aguarda os próximos dias na respiração ansiosa e entrecortada de todos os homens. Será com respeito e veneração que o grito explodirá hoje e sempre em todas as bocas e lugares. Entre o carnaval de sorrisos e lágrimas não haverá mácula ou infidelidade que resista. Todo e qualquer homem vivo saberá que o Flamengo é campeão.
Vinicius Perenha, 01/12/2009.
27.11.09
14.11.09
Aprendo
que a cabra
que a ferramenta na caixa
que o dobre d´água.
Sendo pior que eles,
não sendo nada.
Aprendo a reconhecer o mau
nas aranhas que me esquecem
nas pessoas-porta-retratos que os suportam
os porta-retratos, sendo pessoas.
O mau que urge nas silenciosas caras
que aflige famílias, doenças graves
Aprendo sendo melhor que ele - o mau,
existindo como pessoa
despregada de paredes.
Aprendo a ser mais forte
que o sino
que o mar na manhã trêmula
que a faca sobre o dedo da velha
sobre o peso das costas
que a corda bamba de mendigos
muro de alcançar baixios.
Aprendo a ser mais
sendo menos,
tênue fio que se estanca.
Aprendo a resolver o meu medo
no escuro
mergulhado num mar de cinzas sonoras
tubarões e sacis me perseguem
agonizando entre terreiros de macumba
capas negras e vermelhas sob a fumaça dos caximbos
a orca, o vizinho queimado vivo, o desenterro do amigo
olhos mortos na pele que devora o riso.
Aprendo a ter coragem
não tendo, deixando que o monstro me alcance
tornando-me algum tipo de monstro.
Aprendo meu delírio
vivendo-o
no duro concreto da mais absurda realidade
meu mastro fundo, falo!
no ácido que me toma
estrelas-irmãs
telefonemas solitários
tudo pra um dia que não existe
Aprendo a delirar delirando
rasgando o que me parece ter algum resto de delírio.
O irreconhecível mente
exatamente vivo
exatamente desesperado - como pareceu
exatamente eu.
Talvez fosse apenas um outro.
Um desconhecido de mim, de você.
Desapegado desse instante, desentranhado.
Talvez nem tenha sido assim
vai saber?!
E discreto, talvez, nem tenham percebido.
E este eu, qual desconheço,
poderia estar mentindo,
fingindo-se passar por um outro de mim
que ainda não me chegou o momento exato de ser.
11.11.09
Impontual
com meus dracmas,
suei, cheguei,
dúzias e destinos depois,
disse-te, viria,
dramático, dodecadividido,
Mas puma,
Pontual, todo presente.
Ilê, mas – cadê?
a sabendas não vens,
ou caminhas?
Impontualesces?
.....Fazes-me levêdo?
Estiveses e verias
Os caminhões atochados
de segundos, de sargaços,
de serviços e sonháculos
.....e outros levantiscos afins,
que nem eu sei mais o que são.
(Aos 6 de outubro de 2009)
4.11.09
A rua tempo
como eles
voluntário
há quanto tempo não me ligo
três nove setenta
quatro três sete cinco
mais que marginal
imaginário
ser a terceira margem do rio
**
Ao quererem-se nos Inválidos
invalidam-se e somem
e os sonhos bons
quem dera os fosse
são segundos
os primeiros
neles e no tempo
se acanham
e perduram
e perduram
e perduram
**
Os muros da escola atentos ao cego que voa
Nuvem bailarina no mar de eutanásia dos tempos
**
A Passagem aberta
doce
de portais de amêndoa
em raios da hora nova
é nos novos arranhões
o sono solda
tempos breves
e outubro passa
como música
no ônibus
poemas fruto das ruas Voluntários da Pátria, Inválidos e Passagem do Rio de Janeiro
27.10.09
Diário do México - final
Detalhes reveladores do Terrazo de los muertos, onde eram realizados os sacrifícios dos membros do time perdedor, no Gran Juego de Pelota, uma espécie de jogo de bola de pátio que existia
.....Conceito importante: na região da Cidade do México e arredores, os indígenas locais eram aztecas. Aqui na Península de Yucatán, não; aqui eram maias, outra raça, outra cultura, tudo diferente.
.....Os maias – inventores do conceito do zero, avançados astrônomos e matemáticos, artistas, filósofos e escritores sofisticados, arquitetos de alguns dos maiores monumentos conhecidos – criaram seus primeiros assentamentos no que hoje é a Guatemala, cerca de 900 a.C. Ao longo dos séculos a expansão maia se deu para o norte e por volta de 550 d.C. havia cidades-estado maias na parte sul da península de Yucatán.
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.....Passamos pela Plaza Grande, coração da cidade, e vimos a Catedral de San Ildefonso, o Macay – Museo de Arte Contemporanea Atheneu de Yucatán, a casa de Montejo, que abrigou os familiares descendentes de Francisco de Montejo até cerca de 1970, o Palacio Municipal e Palacio Del Gobierno, onde compramos nossas passagens para Chitzén Itzá para amanhã, às 0630hs; passamos também pela Iglesia de Jesús, Teatro Peón Contreras e Universidade de Yucatán.
Pela tardinha tiramos um cochilo inevitável e deois saímos para jantar e comprar protetor solar para a jornada de amanhã. De noite caímos, esgotados.
23.10.09
Diário do México - 11
Av. Paseo de la Reforma, com el Ángel
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19.10.09
Diário do México - 10
.....05 jan
.....Hoje acordamos bem cedo para ir conhecer as pirâmides de Teotihuacán, a cerca de 50km a norte da capital. Pegamos o metrô até a estação autobuses del norte e de lá pegamos um ônibus até a entrada do parque, aproximadamente 1h de viagem e r$ 6,00 cada pra entrar.
uadrados, por sua vez perimetrados por escadarias. A imponente Pirâmide da Lua, ao final da Calzada de los Muertos, é linda em sua meticulosidade, ainda que de menores dimensões que a Pirâmide do Sol.# # #
16.10.09
Diário do México - 9
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.....Mais um dia na Cidade do México! Vamos dedicar o dia de hoje ao Bosque de Chapultepec, o “morro dos gafanhotos”, na língua Náhuatl, o maior parque da capital, com mais de 4km quadrados, com lagos, um zoológico e alguns excelentes museus. Pegamos o metrô por volta das 0930hs e descemos na estação Chapultepec, de onde adentramos o parque andando, em direção ao castillo.
O Museu de Arte Moderno não possui um vasto acervo mas possui algumas jóias impactantes, como o internacionalmente pop Las dos Fridas, de Frida Kahlo. Vimos ainda mais quadros dos consagrados Dr. Atl, Rivera, Siqueiros, Orozco, Tamayo e O´Gorman, além de uma exposição de Remedios Varo de tirar o fôlego, a surrealista veterana mexicana, foi excelente. Pensei no William e em como certamente estes nomes obras o agradariam.
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13.10.09
Diário do México - 8

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9.10.09
Diário do México - 7
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.....Acordamos cedo e às 9hs já estávamos lentamente a caminho do centro histórico; a Lígia ainda sente dores no pé direito e eu ainda não estou 100% da dor das costas.
O Palácio Nacional é o local de trabalho do presidente da república (Felipe Calderón, por ocasião desta viagem), bem como do Tesouro Federal. O Palácio também abriga diversos murais pintados por Diego Rivera entre 1929 e 1935, retratando a civilização mexicana desde a chegada de Quetzalcoátl, o deus-serpente dos mexicas, até o período pós-revolucionário; os murais são um verdadeiro achado e a visão de Rivera da antiga Tenochtitlán é incrivelmente detalhada e bela.
.....Do Palácio, já um tanto esgotados pelas andanças e pela multidão atordoante, rumamos para o estarrecedor Templo Maior, as únicas ruínas aztecas ainda presentes na Capital. O templo é supostamente o local onde os aztecas avistaram a águia sobre um cáctus devorando uma serpente, o símbolo que hoje ilustra a bandeira do México, e que foi um presságio para a fundação de Tenochtitlán, segundo reza a lenda. Na crença azteca, este local seria, literalmente, o centro do universo.
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6.10.09
Diário do México - 6
.....Madero foi deposto em 1913 e com a ajuda da embaixada dos EUA foi empossado Victoriano Huerta; no mesmo ano os revolucionários se uniram contra Huerta no chamado Plan de Guadalupe: Venustiano Carranza, Pancho Villa e Álvaro Obregón; Zapata também estava lutando contra Huerta.
.....Rapidamente Huerta foi derrotado e estourou a luta das facções revolucionárias pelo poder, tendo Carranza saído vitorioso. Carranza assassinou Zapata em 1919 mas no ano seguinte foi, por sua vez, assassinado por ordens de Obregón; Pancho Villa foi assassinado em 1923.
.....Os 10 anos de violenta guerra civil haviam deixado um saldo de 1,5 milhões de mortos e a economia do país em frangalhos; assumindo como presidente em 1920 (até 1924), Obregón empreendeu o esforço de reconstrução do país; nesta época, artistas famosos como Rivera, Orozco e Alfaros foram comissionados para decorar importantes prédios públicos com grandes e vívidos murais contendo temas histórico-sociais. Álvaro Obregón foi re-eleito em 1928 mas veio a ser assassinado.
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.....Decidimos sair pra caminhar e tomar café mas logo notamos que as ruas estavam completamente desertas. Trocamos idéia com um coroinha taxista que estava em frente ao hotel – señor Juan – que nos informou que em Xochimilco as atividades estavam rolando normalmente; já vínhamos estudando um bom dia para ir a Xochimilco, a Veneza do México, e aí estava a oportunidade perfeita, no dia 1, onde não haveria mesmo muitas outras atividades.
.....A cerca de 30Km a sul do centro da Cidade do México, Xochimilco é uma espécie de rede de canais circundados por jardins “flutuantes”, onde indígenas xochimilcas, através de técnicas de mistura de lama e vegetação nas águas rasas do lago Xochimilco, produziam seus alimentos. Suas avançadas técnicas de cultivo os tornaram alvos cobiçados dos aztecas em sua expansão nos arredores de Tenochtitlán.
.....Nos canais pode-se alugar gôndolas simpáticas e multicoloridas para percorrer os estreitos canais circundados pelas chinampas (terras de plantio). Saímos numa gôndola simpática e logo nos maravilhamos com o habitat; Xochimilco é muito tradicional para as famílias mexicanas de todo tipo, que alugam gôndolas para fazer pic-nics, comemorar aniversários de 15 anos e até casamentos, com até 20 pessoas por gôndola.
.....Percorremos os canais por cerca de 2hs e compramos algumas músicas de uma gôndola de mariachis, uma experiência única de quase mijar nas calças de tão engraçados que as figuras eram, com alegria, jovialidade e riqueza cultural.
.....Mirávamos de canto de olho as diversas famílias em suas gôndolas, deslizando pelos canais, comemorando as bênçãos de seus devires; creio ter sido até agora nossa experiência mais mexicana – e mais engraçada, também.
.....Depois do passeio vi algumas fotos de Emiliano Zapata e Pancho Villa à venda e a Lígia comprou um vestido e uma camisa, bordados, bonitos e coloridos.
.....O longo caminho de volta me fez lembrar novamente do gigantismo da capital e o arder nos olhos pela poluição da megalópole, a despeito de as ruas estarem vazias por causa do feriado. Chegamos ao hotel por volta das 16hs e ainda demos uma volta na Paseo para tomar um café, comer alguma coisa e comprar água.
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3.10.09
Diário do México - 5
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31 dez
Peguei-a nos braços e coloquei-a sentada numa mureta próxima à calçada, quando senti uma fisgada fortíssima na coluna, acompanhada de uma dor aguda que eu nunca havia sentido antes. Doía intensamente, só de respirar, tivemos ambos uma dificuldade quase cômica para voltar ali do lado de fora do hotel para o nosso quarto.
Do hospital fomos à farmácia comprar alguns anti-inflamatórios e uma bengala ergométrica para a Lígia andar melhor.
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29.9.09
Diário do México - 4
.....Após subir ao poder, Stalin, paranóico e implacável, começou a perseguição a seus camaradas do Politburo, o comitê central do Partido Comunista da União Soviética. A partir desse momento caíram figuras de atuação eminente na revolução, como Kamenev, Zinoviev, Bukharin e Trotsky, considerado o herdeiro natural do poder de Lênin e que foi banido da antiga URSS e perseguido, tendo ao longo dos anos toda sua família sido assassinada aos poucos, filhos, sobrinhos, esposa, netos; após estar em constante rotatividade no exílio, passando por Cazaquistão, Noruega e França, Diego Rivera e Frida Kahlo intercederam junto ao então presidente mexicano Lázaro Cárdenas no sentido de conceder asilo ao perseguido revolucionário.
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.....Seguida da queda de Tenochtitlán – rebatizada de “México” pelos espanhóis – a América Central também foi conquistada na década de 1520 por forças mexicanas e do Panamá e na década de 1540 a subjugação da Península de Yucatán estava completa; na década de 1550 foi abolida a escravidão indígena, que foi parcialmente substituída pela escravidão dos negros.
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