14.6.09

Um domingo de Agosto


Hoje fez um calor da porra como há tempos não fazia. Domingão sacal. Merda nenhuma pra fazer e punheta pra aliviar a tensão. Foi foda pra dormir na última noite, um monte de lembranças, uma angústia terrível e aqueles relâmpagos de lucidez que me fizeram ver o quanto estou só. Foi preciso abrir as janelas. Agora a tarde tá chegando ao fim. Nos ouvidos o som alto do vizinho, todo fim de semana o filho da puta sai de casa e deixa o rádio ligado no último volume. Pelo menos hoje não tão rolando os pagodes.

Só saí da cama pra comprar pão e dar uma volta de camelo. Não tava dando, tentei levar um som no violão, não consegui, me achei o fracasso absoluto, tentei ler, também não deu. Impossível me concentrar. A poeira atacou-me a garganta e fiquei escarrando a manhã inteira. Me revirando de um lado pro outro...

Me levantei, peguei o camelo e me mandei. Mesmo sujas pra cacete as águas da praia conquistavam alguns banhistas. Sentei minha bunda conformista no cais e pensei nas melhores maneiras de se cometer suicídio. Em casa me sinto um merda inútil e parto pra rua, na rua me sinto um merda inútil e volto pra casa. E pra dar uma acalmada na angústia barriga cheia. Vou chegar rapidinho aos cem quilos.

No som alto do vizinho uma grata surpresa, our house do Madness, nunca tinha ouvido essa música tocar numa rádio, um pingo dealegria no oceano tedioso desse dia.

Pensei na Lu de quatro com aquela bunda imensa pedindo pra ser comida. Puta que pariu o pau levantou e mais umazinha...

Essa semana decidi me lançar á leitura de Marx, não consegui chegar a trigésima página, leitura difícil pra caralho, nesses meus bodes filosofia não rola, fechei as páginas do barbudão comuna e parti pro Rubens Paiva, consegui engrenar no livro, simples e direto, sem ser banal. Batidas na porta, “tudo bem aí?’ é a vizinha Dona Ana, volta e meia ela aparece pra conferir se ainda tô vivo. Respondo“tudo bem”. A noite começa a cair. O que virá daqui pra frente?


André Luis Pontes, diário sem floreios, 1997.

9.6.09

Quieto

Se há que, um dia
O fim do mundo
Dar a prova real, de ser

Será o dia em que
Poderemos nós
Neste mesmo mundo que
Se acaba
Ficarmos todos a par
De que a felicidade existe

E ironicamente,
Talvez seja ela apenas termos um fim
Ao alcance da mão.

seis de junho, 2009.

5.6.09

Recomendações

Em Siem Reap agradeci;
O chá quente e as nuvens disformes,
Os dentes apodrecidos de alguns,
Os tantos mortos de Pol Pot
Viraram fantasmas,
Plantados em cada família.
Em Ha Noi a dureza dos anos passados,
A imagem onipresente de Ho Chi Minh
Também fizeram fantasmas
Nos países ricos.

As torneiras abertas e secas,
Nem todos têm água,
Páscoas achocolatadas,
Reformas ortográficas
Nem lembranças felizes,
Como que nasceram, viveram e morreram,
Já tantas vezes.

Voltando pra casa
Veja seus amigos com filhos,
Volte na primavera,
Um marco positivo no ano,
Não veja o jornal,
Não chore o que passou;
Obrigado, estou vivo, um abraço caloroso,
Desligue a sessão da tarde
E seja a próxima primavera
Não comprando todos os desejos.


(Aos 13 de abril de 2009)

1.6.09

Familiar

Esse, meus caros, é um texto que acabo de buscar no Maná Zinabre, espaço coletivo de idéias das mais absurdas, por assim dizer, que aqui, imagino, dispensa maiores apresentações. Texto de estrutura óssea e conteúdo veloz, ou vice-versa; merece não pouco caso, acho eu.

O autor se chama Berimba de Jesus e, entre outros, pode ser visto nas páginas do Maná.
http://manazinabre.blogspot.com/
_____________________________



Familiar


Meu pai tomou veneno de rato, enrolou a corda no pescoço e se matou.
Pra nós: só arroz.
Minha tia cansada do कासमेंतो, traiu meu tio com o vizinho, que deu o talento.
Se apaixonou.
Saiu de casa.
Desgraça é que nem banana, vem em penca. Apanhou na cara. Recebeu dois tiros na cabeça. Não morreu. Ficou triste.
Titio passou a ser freqüentador de boteco.
Meu irmão certinho que era conheceu a vida loca.
Eu conheci a pedra.
Minha mãe enlouqueceu.
De tudo que tínhamos um pouco, nada sobrou. Minha família deixou de ser.
Ficou osso.
Meu irmão se tornou periculoso, matou, roubou, estrupou…Tanto fez que mereceu, três tiros dados à gosto.
Foi pro saco.
Eu, bonitinha e rechonchudinha, fiquei só costela.
Rodei mais que nota de um real.
Engravidei. Enfiei citoteque garganta abaixo. Vagina acima. Mais do que o indicado. Minha vida passou por um fio.
O que não queria, era procriar.
Dar a vida é uma parada muito foda.
Tentei abortar diversas vezes.
Nenhuma deu certo.
O moleque nasceu. Perfeito. Dorme tranqüilo lá no berço, despreocupado. Tem a cara do meu irmão. Não o amo e quero matá-lo. Pode parecer mentira.
Chega de dar vida.


Publicado no blog-revista Maná Zinabre, aos 27 de maio de 2009.

23.5.09

Nos pés

..............

............................................................................................Gravura de Jens Birkemose


Subiram alto e queriam descer feito garça.

Mas tinham nos pés sapatos muito bem amarrados.

E dentro dos bolsos os dedos engessados.

Lamentaram-se do peso da sola.


Já vinham felizes a cantar, os que calçavam sandálias.


Do livro Elementar, novembro de 2007.

14.5.09

O peru (em processo)

O peru
faz roda
na jaula
o pavão se mistifica
a perua
não se
importa

esquenta o papo
a pluma infla
a careca azula
o peito inflama

o pavão só
voa em sonho
a calda paira
o emblema enlaça
em cobre o peso
da cobrança

no teto raso
a atuação do pavão
se encerra

em mais um
lugar
que fede

o peru não pára
o rito
nem desafina
o desafeto

roda e infla
e azula e inflama

a pluma do olho azul
esgarça
o que a ruga do olho murcho
escama

o6/05/2009

3.5.09


A sede do leito, esse meu peito
onde muito vago ajeito
e ponho-me a ver-te navegar.

Oh vida minha, pequena.
Nessa e noutras, tão cheia
dái-nos a brisa na areia,
leva estes brincos pro mar;

e neste vem e vai da lua
onde a maré verde recua
cala este braço de vento
traz os fantasmas do tempo
e os que há muito sumiram por lá.

Conta-nos que há o mistério da ida,
já que há outro na partida,
sempre por perto de chegar.

E que nenhuma carta avisa
e vai voando, rouba-me a saliva
e só, me sáio sem nem um i ou a.

Me conta como pará-lo agora
antes que a fúria da memória
devore do porto este corpo
e tudo que a contra-gosto
não o quiser acompanhar.

Oh vida, minha pequena.
Não vejo em nada a desgraça
mas a ventura é sentida
e eu já sem prazer na lida
ouço o mar em cuspidas
teu nome nos vir lembrar.

Então melhor é mergulhar com tudo
e jamais ter outro mais fundo
corpo, barco, mundo!
Nenhum naufrágio mais surdo
que este meu lance profundo
para feliz te abraçar.

1.5.09

Fernando Cuntin e Joana D´Arc


Joana D´Arc - óleo sobre tela

Bem, vi que virou uma boa moda aqui nas terras do Presença, um certo apadrinhamento de artistas visuais. Gostei da idéia. Tenho um amigo virtual que me emociona com as suas cores. Fernando é amigo de longa data. Ele conhece a banda, eu conheço as pinturas dele. Achei legal cruzar as informações, até porque ele pintou um quadro que se der, colocaremos em algum material da banda. Então, seguem abaixo as pinturas e os links para quem queira ouvir o som da Joana D´Arc ou conhecer o próprio Fernando Cuntin.


Wayne - óleo sobre tela



Farrell - pastel seco


Os links são:
Banda Joana D´Arc
Fernando Cuntin (Perfil Orkut)

21.4.09

O insubordinado

................................................................................Antonie Tapies

Prazer em revê-lo.
As asas negras não voaram alto.

Viras teu corpo para o lado do vento
e junto dele te sentirás livre.

O mundo e suas estradas não se abriram.
Estremeces de frio em terraços estrelados
junto aos amigos que não enlouqueceram.

Tocas o chão com teus pés de barro
pesados como pedra
enquanto a mente dinamita impérios.

E de repente surge uma doce voz de criança
- Pai
Diz ela te sorrindo.

Teus olhos de águia se enchem d’água
e desabas em lágrimas
Num misto de amor e ceticismo.



André Luis Pontes, 1999.


.

18.4.09

Marina Pachecco

...........................................................Desenho em luz e colagens



Em 2006 num encontro de estudantes de artes em São Luis do Maranhão tive a oportunidade de ver uma apresentação de dança da Marina no Teatro Arthur Azevedo. Fui laçado pela perfomance dela e depois de algum tempo as lembranças desta apresentação deram luz ao poema Bailarina do livreto Elementar. Até então não tinha trocado palavras com essa senhorita, só consegui entrar em contato com ela um bom tempo depois e descobri que além de se dedicar a dança a Marina também passeia pelas colagens/recortes/dadaísmos/fotografias e vídeos. Posto aqui alguns de seus trabalhos e o link de outros.

............................................................................... Involução

Mais da Marina em:

Suíte Dadá
Anestesia Efêmera
Fotos
;
.
.
.

16.4.09

Conserto

Pintura do autor

Eis a chave de fenda, amigo.
A bitola do teu peito,
A mudança de conceito,
Uma ferramenta sóbria,
Conserta-te óbvia,
Atende-te, feito.
O hidráulico coração
Diz-te tanto,
Por que não ouves,
Que fazes que somes ?
O suado rosto, tenso,
Um medo imenso,
Uma diarréia desidratante,
Teu processo errante,
Teus cigarros na banca,
Tua banca indecente;
Sai daí, tou contigo,
Te ponho uma toalha molhada
Na testa inchada,
A febre demente,
O corpo débil sente,
A flama acetilênica
Do conserto urgente.


(Aos 13 de abril de 2009)

14.4.09

"CTRL Z"

Editar
a sede.
Derivar do seu,
o todo.
Deles, o fruto lasso -
reles.

Editar o oco
no espaço branco do nada
elevar ao centro,
culminar abaixo
mais ainda,
naufragar o nulo.

Retesar o gosto
aplainar o rosto
gasto,
acre, doido, num rasgo de quase
e passar adiante o célebre
do recomeço,
sim
dizer não
sim
pra frente, sem pensar.

Editar o amor,
prensar
no plano do apago:
devorar, deletar o dano
acabar por causar todo descuido humano
e crivar do negro a fonte vaga
deriva-lá ao não-cursor,
o rio destro
abominável, lastro incompreensível
cega leitura
página aplural de universos grãos de milho
letras roídas, obesas
fontes novas, ovas, lidas, indo ao fosso
e o intestino fino,
delegado ao grosso, mal educado.

Editar o curto
alargar o vulgo - seu ânus casto da rolha
despe-te dos salmos tal enganos
andas e comes teu silêncio
de espaço em branco, e nada.
Nada, que o mar é amar sem saber de onde.

13.4.09

"A vida, éter-na-mente"

Não o que dança firmemente,
este sabe bem onde pousar os pés.
Pois basta que a lua tarde, e já se faz manhã dentro da pele.

Motivemos então agora,
o que de menos limpo e novo há nessas taças,
agora rasas, que antes moldaram o melhor do gole:
suaves paragens de andarilhos.

Gole hirsuto e largo, vasto - tão que o bocal partiu-se em pedacinhos
e foi-se como vão os passarinhos
em cada osso e vértebra aninhar.
São mais que peças que te pregam teus amiguinhos,
pois estas pequenas aves não te negam.
E mesmo tu sem penas, já te ensinam a voar!
Porque é preciso homem!
E impreciso como tudo, mas é preciso - sempre! - No fim saberás!
O rio está sempre a inventar os mares.
E mesmo que te esfarele a face num vôo tonto,
toma, podes tomar como tuas as filigranas deste sol por de mais gasto.
Ainda uma brasa assim quase que morta,
pode bem explodir em fogo um grande pasto.

Basta então amigo,
que te relembre desta ilhota de paixão!
Eis que seja teu único brinde talvez, que propôs a vida.
Mas verdadeiramente!
Nada pode ser mais dúbio que a verdade.
Estuda com tua alma, ela não pesa.
A calma é mãe do desespero, saiba.
Não temos tempo pra tantos mapas.
E quem se perde, há de achar novos caminhos.

Vai!
Estende-se pr´além do corpo.
E com grandes olhos busca teu troco,
mas não o contes enquanto o tomas.

Ali, no final deste reduto cristalífico, expande-te - posso e digo!
Verás teu corpo reduzido
ao corpo comum de qualquer homem.
E talvez, se assim conseguir e puder, faz como eu, chora.
Chora que a vida é mesmo breve,
tal este olor pequeno em cada gole.
A vida é éter e se esfuma leve de vento em popa;
é breve assim como este vinho e evapora.

9.4.09

Fluvial

Pintura do autor

Prendi a respiração,
Tranquei o peito inteiro,
Incluso os rios
e os risos arredios
De medo sincero
das maçãs apessegadas do teu rosto,
do meu todo amor –
O rio dos rios posto à prova seca
Da tua art noveau,
tuas frutas de labirinto,
tua louça vitoriana.

Abri o peito inteiro
Forçando o fluxo
de ser o tempo todo
O que quero ser,
Respirar não apenas necessidade,
Dar a mão sorrindo,
Expor a cara convicto
vencendo-me enfim,
Deixar-me para trás,
Superar os eus que não somos.

Não abrirás teu aeródromo
sob placas de sol sintético;
Deixa de ser
teus pontos pré-sorteados.
Aceno-te com os rios do meu peito,
Deixo de ser pra acontecer,
Sublimar minhas moléculas
e nossos egos loteados
Num mar de abril perfeito.


(Aos 7 de abril de 2009)

7.4.09

Gabardina

Sorvemos de gole inteiro
O cálice desses ventos noturnos
Visitando, profundos,
os goles e nós,
Ávidos de viver e partir,
Repartir e ir;

Não quero mais acordar sozinho.
Somos o quintal escuro desta casa
quando no escuro pensamos,
Escurecemos nosso “quando?”
nos pequenos detalhes
que vão passando desapercebidos,
Assoreando nosso fluxo,
Conjugando meus e teus,
Assassinando vidas com calculadoras
e julgamentos esquemáticos,
Presos em nossos próprios umbigos,
Na cicuta de nossas rotinas.

Não quero mais ser essa gabardina
De 30 anos, memórias falhas,
Ter peso de passado,
Películas de um futuro promissor,
Uma carcaça escorada
nos encontros desmarcados com todos,
Votando no candidato eu,
Tento após tento,
Uma carcaça escorada e um copo de rum,
Sempre isento
no quintal escuro dos ventos noturnos,
Sabendo, no fundo,
Um dia acordar sozinho,
Expulso,
como nascendo.


(Aos 5 de abril de 2009)

5.4.09

Saudade internacional

Estou fora.
Liga pra mim.
Penso em ti de Lisboa,
penso em ti de Saigon –
Que latinoamericano sou ?
De que raça sou ?
Não dá pra saber, comendo tacos em Tenochtitlán
ou vivendo o dharma em Vientiane,
Sendo o caos de um organismo,
a assembléia de uma mente,
Pensa em mim no Rio,
escreve um e-mail pra mim,
Me manda um beijo,
me manda um porto
Que chames erroneamente de teu
Porque pra lá da tua rua
És in-teu, és o cheiro
da maresia de Copacabana à noite,
Noturno andando,
Passando pelas putas,
desacontecendo no Rio
como em Montevidéu,
São só cervejas e pratos típicos,
Trens levando bois
pra trabalhar,
Deuses pedindo preces
para salvar,
Os chicletes que nunca sairão do asfalto,
Um quadro na parede,
Me manda um alô,
Me diz que ainda és
em Santa Teresa.


(Aos 20 de fevereiro de 2009)

23.3.09

Uma concha ao pé do ouvido


Daquelas águas que conforme os dias variavam suas cores
Verde
Vermelho
cinza, surgiam crinas, eram cabeças de éguas degoladas.
Porcos inchados, cães saciando a fome de urubus.
Cavalo morto atrapalhando o futebol dominical.
Susto de verão para banhistas
nos tempos em que suas areias eram invadidas por incontáveis guarda-sóis.
Mandalas reluzentes a beira-mar.

Jigogas.
Cobras de duas cabeças.
Minhas mãos revirando as surpresas trazidas depois da chuva.
Carrinho sem roda, boneco sem perna, espinha de bagre.
Baiacu sob o sol estufando até estourar.
Naquelas areias catei figurinhas de chiclete.
Roubei o doce da macumba pedindo respeitosa licença aos santos.
Lacei pombos pelos pés, os brancos valiam mais.
Um trocado no bolso

Champagne de reveillon virando ficha de fliperama.

Meu corpo estremecendo num mergulho de verão.
Era o bater das ondas misturado ao fremir das mãos.

Engravidando marés

Guerreei com amêndoas.
Vi um tubarão (depois descobri ser cação) pendurado numa árvore.
Tive pena dele, de bobeira veio se enrolar numa rede e foi morto a pauladas.
Fiquei um bom tempo sem entrar naquelas águas, medo de avistar barbatana.

Pequenas ondas
Hawaii de playmobil.

O barco de Iemanjá que carregamos pra casa e se tornou a nossa nau.
Trampolim pros mais acrobáticos mergulhos.

Siri no caniço, tainha no puçá, espada no arrastão.

Rabo de arraia chicoteando a memória.

No almoço uma fritada de marisco com limão.
Sem princesinha do mar, sem oceanos.
Naquelas águas escuras estão as minhas mais límpidas lembranças.
Praia da bica
da janela deste ônibus te vejo.

Penso no poeta Hart Crane e me lanço em tuas águas.

Onde tudo começa onde tudo termina.

Rio, 21de março de 2009.

22.3.09

"Meu último nome"

Me dera um tanto amarga, confesso,
tua ausência - e nem lembro.
Ficou nessa tua cara amarela,
a minha.

E o nosso jeito de deixar tudo apagado.
Pro meu peito, a faca da velha falta.
E tuas tralhas comigo,

carrego-as como coisas que enfeitam
a cômoda vazia.
E a infância, minha ilha incômoda.

Me propusera o gosto de saber
que o medo é o exato gosto de saber.
O que se sabe não apavora.

E eu sempre soube que não apareceria.

Fiquei em casa esperando:
tua voz,
o tênis,
o peixe,
as velas no bolo ainda te esperam comigo, um assopro -
e o abraço desativado.

Não tenho mais tua presença, é certo.
Mas meu filho terá a minha, a tua também.
No fim, aprenderemos de verdade.

A verdade é o que desaprendemos.

E de tudo que não tive,
só tua sombra pôde roubar os buracos
nas fotografias.

Nas manhãs de praia,
quando viajei pro gelo do teu riso estrábico.
Teu longo bigode escondia.

Só tua sombra aparece na porta da escola.
No campinho de barro, pra testemunhar
o único gol que eu fiz.

Eu lembro,
te desenhei com os cabelos compridos
- eras minha mãe,
pros dias eternos dos pais que não tive.

E fora todos eles.

E agora me presenteias.
Tua ausência me fará tão presente
que meu filho entenderá.
Saberá

o quanto temerei minha própria ausência
temendo a sua.
E no presente,
essa tua falta,

fará de mim teu pai - de alguma forma.
Ainda que ainda, nessa vida ao menos,
seja eu teu primeiro filho.

20.3.09

Voava e luzia

Meu corpo rouco
eu suor se esvai
oco
de remorso
no seu dorso
de serpentinas sensuais

O tom muda
no ritmo em
que o mundo
te circunda
E acalora
benfica
madruga

brontossauro comportado
o espelho te desvela
a renda fina
Acalora
e madruga
benfica

e por não ter outra de volta
não somos nós mas a carta
quem chora
e madruga
benfica
acalora

calibra
você é o centro e o passo
desloca marés nesse caso

pássaro
que morre no ar
e não percebe

não havia chão nem céu
mas morros salpicados
pretos de dourado

Você dançava e luzia
flores vagas no breu
era o umbigo
de toda barriga
Poemia!
Por ti zil regressos.
Por onde sempre recomeço,
sem ter jamais partido.

18.3.09

Viajando

Uma mão na frente,
Outra pra cima –
Veja as nuvens comuns, mas de outros céus,
Sonhos em pó
Salpicados pelos rios,
Cidades sem rumo, repletas
de uma esperança índigo-vã,
destinos em ingredientes exóticos,
Cervejas diferentes
mas de objetivos os mesmos,
Por quês iguais, favelas iguais,
Divindades diferentes
mas penosamente oni-tudos,
aconselhando governantes
das mesmas velhas guerras,
doenças que te matam um parente,
Poesias-dúvida dementes
Como os poetas de todos os lugares,
Incensos que duram minutos
e já deixam de ser,
Recendendo a eternidade no ar,
Engarrafamentos ou sim ou não
mas indriblável poluição –

Estou sentado numa escada,
Numa escala num aeroporto
qualquer, viajando qualquer,
Um porto nunca meu porque não o há,
Um café qualquer, como todos os quaisqueres;
É o que somos, não importa
o quão paciente esperes.


(Aos 25 de janeiro de 2009)

13.3.09

Passeio

Minha flor, eis pra você
um sucesso, um incenso,
um vestido,
um corpo cansado de se vestir !

O que você dá, você se dá,
Os seios rijos, social,
cervejinha transiente
na ilusão de ser
permanente,
O sucesso de um projeto,
deixa eu te contar,
Depende de N-A-D-A !
Sejamos auto-críticos
descendo na Cinelândia,
marcando um encontro,
estudando Kierkegaard,
incompreendendo o ponto,
se espremendo na Linha 2
pra descer em Inhaúma,
Um passeio sem nexo
pelo Rio onde somos,
bebemos cafés e trepamos,
tiramos o lixo à noite,
Sonhando com o dia
em que o Flamengo será hexa,
Comendo um pão na chapa
Na Padaria das Famílias,
passeando pelo in-ser
achando ser,
Acontecendo em fragmentos.


(Aos 25 de janeiro de 2009)

9.3.09

O que é do tempo, ao tempo torna.

Vejo teus dentes. Competem
com tua boca. Repetem
o mesmo riso afável e amarelo
da pequena foto.
Grafada em cores um tanto velhas.
É você lá.
Quer dizer, tu fostes aquela menina loura.
Tinha uma praia amanhecendo nos olhos,
cercada pelo quarto que já não existe mais,
pelo menos não ali, agora.
Porque tudo se foi,
tragado, devorado por abelhas e mosquitos sazonais.

E no que não és mais,
apaga-se outra noite.

O amarelo fugiu dos teus cabelos.
Não é pra menos,
a vitória é ainda estar por aqui.
E algumas coisas vão se enrolando nos fios.
Também perdi o pequeno e solitário Rafael.
Nada que o traga, a não ser essas lembranças fracas.



A chaleira nos chama pro hoje.
Ferve a água posta.
Vamos à cozinha, enquanto te rodeio
ouço teu riso viver comigo o agora.
E estalamos juntos algumas costelas de março de dois mil e nove.

Ficou no quarto a pequena foto com você lá dentro,
sobre o livro, sobre a cama - sob a luz.
Sobre teu ombro, o mesmo pedaço de lustre não resistiu.
Nem você!
Loura num carnaval, sorrindo outra vez pra quem quer que seja,
que naquela noite, dia, ou tarde,
pediu-lhe uma pose,
e posou também com a máquina fotográfica entre as mãos.

Sobreviver é acompanhar.

Deixemos que tudo torne, se é pra ser.
Sem que saibamos, claro - mas não sabemos.
Tomemos o chá, que já esfria.
Uma coisa eu sei, ou pelo menos imagino que eu saiba:
somos apenas o que fomos.

2.3.09

Lara Leal

.........................................................Fotografia de Chema Madoz.

A Lara é uma companheira de escaladas em andaimes pelo mundo da restauro, estudante de artes e integrante do coletivo de artistas 13 numa noite, há pouco tempo descobri que além de todas essa atividades ela também se dedica às letras. Abaixo uma pequena amostra da boa poesia desta menina.



À noite prefiro sozinha

A madrugada é minha

Pensa assim
Quem caminha o dia lento
Passando através do vento
Sem prender suas migalhas
Sem apreender os traços que no rosto ele deixa

Truque do destino, do moinho mundo
Deixa-me assim queixando-me dele
Do seu encontro raso
Com minha aura rasurada
De alma velha, sempre à espera
De a sorte levar à calma tormenta
Me deitar

Estou lendo trabalhando os olhos
estou vendo trabalhando o senso
Estrategicamente, voce não sabe, estou sendo.

Que aborrecimento isso
Confunde e empaca o que aflito assiste
Calado o concentrado ego
Alheio ao entorno
Em seu deleite desarmado.

Enquanto isso sou esse arbítrio
Livre, preso de cabeça
Pra cima
Com os pés amarrados
Em nós de cadarço de sapato.

Lara Leal


Mais da Lara em:
http://laraleal.spaces.live.com
http://trezenumanoite.multiply.com/


19.2.09

à mão [fragmento]

à mão
...mar
..cado
..a car
....vão
.
o sol acendeu
ele próprio
seu primeiro fósforo
e se ateou no breu
.
e o céu pincelou
ele mesmo
o azul calcinha
com que coloriu o peito
.
à mão
cunho próprio
cria da própria criação
.
o sol
o céu
o mar
..cado
..a car
...vão

17.2.09

Fragmentos do imaginário



No último fim de semana lançamos mais um livro, o Fragmentos do imaginário meu segundo pelo selo/blog Presença, o primeiro foi o Elementar, um livreto coletivo com o Isaac e o Vinicius lançado em 2007. A tiragem do fragmentos foi bastante reduzida visto que todo o livro foi produzido por nós mesmos num esquema artesanal. Para aqueles que desejarem lê-lo é só me passar o e-mail que eu envio o arquivo.

Abaixo transcrevo uma apresentação escrita pelo Vinicius e um dos poemas do livro.
Abraços.
.....................................

É preciso se ter cuidado com os livros. Especialmente com os de capa preta. Sossegar um pouco antes de abri-los.
Mas é melhor não analisar, pensou uma vez Fernando Sabino. Analisar é procurar problemas. Concordo, em parte. E essa é a parte que se dá com Fragmentos do Imaginário, faz amizade. É essa parte que sintetiza; feito um fígado que protege a alma da lâmina intelectual.
E ele avisa – logo –, nos versos de Erri de Luca, que é muitos. Humanidade assim, só se encontra nos livros e nos seres humanos È a característica do louco; aquele que perdeu tudo, menos a razão. E o aviso é até simpático. Cria a ocasião de se servir o prato cru. É o recomeço do motim.
E depois é ver o mato se abrir a facadas. Nada de ismos. Só o poeta e seus botões, sem recuo nas horas de salto.
................................... ................... Vinicius Perenha

Modelato em segundo plano

Dos dedos e do barro
surge uma cabeça.

Rechaço de assopro

O ar é grosso

a crina
o crivo
e o escorço.

O par de peitos conversa ranhura.

Coxas de alimentar rebentos
..............volume certo para o repouso.

Cordão trançado.

O desejo se faz do tamanho da fome.

Do tornozelo
até subir ao fosso.

Lírica
canta um anseio de vôo

que a leve
calmamente
.............para o cais de um outro porto.

9.2.09

"Romeu e Julieta"


Devoro ambos
num só espaço
cheio de estacas encobertas.
Confio-lhes meus ácidos.

Devoro-os nus, um sobre o outro.
Mastigo ambos - tenho afiadas facas de osso.
E a lua paira em meu esgoto,
desce a laringe - o amor perdeu seus óculos.
Atinjo em cheio o bolo do estômago.
Cegos se cobram delicadamente no baço,
o abraço
sem todo o pavor que aparentam.

Confiei-lhes a língua,
aquela que embalou meus golpes.
Confio-lhes então o soro da saliva, num pequeno mar revolto!

Engulo a lua desajeitada,
e os dois se afogam no esôfago.

Romeu branco, tal urubu raquítico e novo,
recolhe Julieta, beijada e despedaçada
em seus sanqüíneos trajes abjetos.

Ambos já estarão em meu reto! - sinto-os unidos novamente,
e nascerão para fora, já os exorto finalmente.

(num gole d´água desconfio ter apagado o sabor do gosto)

O amor é amargo diz meu rim direito,
diz que é doce o velho palato.

Mas Romeu e Julieta estão vivos!
E boiam no latrinal ninho intacto.

6.2.09

Fração de Segundo


Estava lá, nos óculos, no reflexo dos óculos de Mário Prata.
Entre as persianas da janela, escondendo a tarde clara de um bairro qualquer do Rio.
Enquanto isso, o câmera mudava o close, a sombra mexia o braço lentamente. Senti o prazer de suas mãos tocando o fundo do bolso esquerdo, um caramujo bolinando folhas no pequeno vaso sem plantas.
Estava na quina da tela agora, e escorregava para desaparecer. Quando
o rosto do cronista surgiu enquadrado à direita, já não era mais sua imagem negra no vidro iluminado, cercado por aros grossos - estava guardada tua existência. Fiquei com o pensamento na ponta dos dedos equilibrando, deixei aquele peso dobrar-me os braços. Avancei para o controle da tv, aumentei o volume, me senti um pouco mais sozinho.
A sombra esteve ali, alguns segundos antes daquela última pergunta. Milhões de pontos coloridos apagaram-na para sempre. Vou perseguir a reprise do programa de entrevistas. Talvez reavê-la - fração de segundo. Me apaixonei por uma sombra no relfexo dos óculos de Mário Prata. Não pela mulher, ou pelo sujeito escorado na janela, sem sexo aparente, mas pelo ardor que queimava àquela tarde em plenos 1997. Me pareceu preocupada, ou preocupado. Esperava por alguém, de relance, mirava a rua. Renegava a equipe de filmagem dentro da casa, Mário Prata, as câmeras, todo o burburinho que se deu, acendendo aquelas horas. E o autor, nem se atentara ao fantasma sob seus olhos, respondia algo sobre seu último texto. E o corpo permaneceu imóvel em meu registro imemorial dos últimos dias, delineado pela tarde branca que se consumiu por detrás da janela daquele apartamento, em plenos 1997, num bairro qualquer do Rio, dentro da minha sala, na tv, no reflexo dos óculos de Mário Prata.

1.2.09

Rarefeito

esqueci
tarde pra voltar àquela hora
não tinha sobras
a ponte, esquecida,
lembrou-se de errar meus passos
perdi-me
tão convencido que o real avançaria
e o mundo recolheu-se em minhas mãos,
pequenas arando hemisférios
o sol varava nos dedos,
chegava aos olhos, o sumo da castanha de caju
meu varal de lábios sentia o amargo
a ponte, esquecida, varejava minha sombra
estudava leve: balões não sopram oceanos
fui levado, soprei a pele
não tinha sobras pra catar,
nada que refizesse o nome
lembrei-me,
desfiz teu rosto, coberto de alagoas
o mar desceu teus ombros,
esqueci novamente
voltar o passado é sediar milhas de nada
volto para arrancar meu posto, vigília de planta
lacustres, os olhos naufragam
enxergar?
lembrei
a visão estava morta sob a porta,
e um batalhão de formigas marchava sinuoso
um menino espreitava o silêncio morto do avô
a rua respirava cheia, era o bloco secando os copos
as palavras, esqueci
fui rarefeito
numa caneca com sabão e água
flutuando segui, preso à goiabeira,
vôo translúcido, o vento me liberta
deixo o ar me segurar, a simetria circular dum fantasma menino
agora o estouro esperado e
ploc!
a ponte deseja meu peso, e eu passo
passo por passo tuas vertebras,
costela arqueada, logo toco o lado de lá
revejo as sobras, encontro meus filhos,
minha vida!
meu jardim está repleto de lembranças
começo o caminho pelo fim.

27.1.09

Alforria

Pintura do autor, 2004

- - -

Liberdade no sonho.
Guia de cego.
Sol ponteando nossos passos.
Os sonhos libertando do real,
O sucedendo o si-bemol,
Bengala do conhecido,
Capuccino sem açúcar,
Liberdade de escolha
Entre Coca e Pepsi,
O Globo ou Jotabê,
O drama de acontecer,
Perfumes que um gosta
Mas o outro não,
Um “por quê existo?” no 433
Vila Isabel vermelhinho,
Sendo ou não,
Sem troco pra dez,
Guia de cego.
Liberdade dentro do sonho.


(Aos 25 de janeiro de 2009)

25.1.09

Por trás daquele monte

..............................................................................................Pintura de Rafael Betti

De repente é aqui
onde a vida parece apequenar-se.
Sem rumo a desbravar.
Sem vislumbre de curva desconhecida.

Há uma outra paisagem
um desvio a beira do caminho.
Nele adentro e chego lá
onde as ervas crescem sobre o barro.
E a manhã é límpida e sem tropeços.
Amarelo-céu
................branco
azul.

Ao cair da noite
o mar de estrelas
pousa sobre nós seu brilho fugidio.

E bebemos o sereno de peito aberto.

Sem disfarces a nos cobrir as horas.
Sem passo rápido para uma nova–velha fuga.

Lá.
Na curva da noite
onde a trilha corta o mato
e só há lua guiando o passo.

Coruja girando a cabeça.
Gavião descansando na cerca.



Onde quando um dia pesa muito
o outro é recomeço.

Janeiro de 2009.

14.1.09

Um cara de futuro

pintura do autor, 2000.



No jardim, na cadeira
Rasa, junto à grama,
num bloco febricitante de notas
Fabrico asteriscos,
fabris pois que muitos
e, feitos de três rabiscos,
tencionam explicar
meus foscos intuitos,
fortuitos e infinitos…

Um dilúvio de dilemas
na cabeça
e um chuvisco
quase chuva, quase seco,
molha o bloco,
ora chuva, ora seco,
desconcerto-me,
quase me destrona,
quase seco, quase físico,
de minha cadeira rasa,
rente à verde
grama.
Sigo alheio,
Rabsicando os *
Os chuviscos que os molham,
a cadeira rente
à grama verde,
os detalhes
que não me importo
se são tudo ou cem por cento
ou mesmo quase

“Que futuro…” penso
no dilúvio febricitante
de descompromisso
com aquilo ou com isso,
com o fim ou o início,
o apenas ao meu contento,
o cem por cento
isento,
rente,
àquela grama,
apenas isso.
“Um cara de futuro”,
seguro e brilhante
no que tange
aos issos, chuviscos,
parenteses
e asteriscos.



(Aos 24 de janeiro de 2008, do livreto "Iuri Gagarin - e outros poréns)

12.1.09

furnas de frutas doces

Estrelas acocoram-se nas pernas
e bisbilhotam furnas de frutas doces

são amantes a rondar prazeres
menores a desvendar cruezas

arredores de canções modestas
afibrilam peitos feitos de anis

e coloridos sonham com tardes poentes
bocas roxas de vento aproveitam laranjas
que apresentam paixões de verões inteiros

anoitecendo não é mais de areia que se constrói castelos
e as estrelas voam raso sobre as dunas nas luas de janeiro

10.1.09

"Colheita"

O galo amadurece a manhã.
O urubu amadurece a morte.
O peito amadurece a faca,
que amolada planta o corte.

O preto amadurece o nada.
O silêncio amadurece o vão.
Do não brota a palavra.
O corpo apodrece a larva.
Do amor se colhe o chão.

"à granel"

Tente de novo
antes que o novo
seja tentado
a se tornar passado
novamente
acontecido.

x

Meu olhos jovens não viram o que era rude.
Só enxergavam num todo a leveza.
Não restou nada além da certeza,
de que o tempo é sim, um afiador de gumes.

x

Ousei
fotografei o poema.
Tanajuras negras no reluzente monitor;
Que entre o dedo e o flash, por um suave tremor
foram esmagadas.
Na foto brilhava talvez um quadro
mudo, grave e desfocado.
Pensei no ato:
Um poema pintado.

Flávia Muniz

.....................................................................Pintura de Paul Klee


Nas minhas andanças pelo mundo dos blogs cheguei até a Flávia e gostei de muita coisa que li no seu blog Boa tarde, Senhor Smith, depois acabei descobrindo que ela era irmã da Ana Muniz amiga minha de longas datas da EBA.
Além de se dedicar a prosa e a poesia a Flávia também canta na banda Luisa mandou um beijo.

http://boatardesenhorsmith.blogspot.com/
http://luisamandouumbeijo.com/


A matilha

Quantas palavras cabem na boca do poeta?
Quantos poetas cabem diante do espelho?
Tantas perguntas servem aos pensamentos que empilho.
Faço colagens dadaístas - você pode dizer que é plágio.
Mas se fico calada ; podem achar que estou morta.
Muito prazer meu nome é Vivivinha da Silva.
Alguns me chamam de rabiola de pássaro.
Sou assim mesmo me apresento de um jeito sanguínea,
e não poderia ser de outra forma.
Aqui no planeta Terra tudo é muito engraçado
Desconfio até que o mundo é caixa de fazer gente maluca.
Poetas são loucos em eterno estágio
na fábrica onde:
ferramentas são as letras
idéias são as máquinas
produtos são os corações que afetam.
Minha fala é a mão de um gigante do espaço.
Eu tenho consciência disso e atravesso as fronteiras dos mundos.
Meu intuito é encontrar a essência intrínseca do uno
e a dita cuja está no outro quando não calo.
No final de tudo
Sou esta que pergunto
Quantas palavras cabem na boca do poeta?

26.12.08

Zero a zero (um quase lamento) ou por uma cor com cheiro, sabor e movimento.

.............................................................................................. Pintura de Paul Gauguin.


Alta noite, cena reprisada.
Esta beleza exposta pelo simples prazer de um recuo a qualquer investida.
O espelho nas mãos.
O tédio estampado no rosto (pintado no limite entre o vermelho e o vulgar).
O corpo equilibrando-se na ponta da agulha.
Malvada carne, exposta em quase indecência,
salivando olhares.

Por onde andam os sorrisos que dizem sim?
O aceno de mão graciosa?
Um gesto sem escudo levantado?

Fecho os olhos e sonho com as tahitianas de Gauguin...

Será que alguém ainda se atreve a ir além das luzes da ribalta?


Hein?

André Luis Pontes, diário sem floreios, 1997.

15.12.08

Láudano

Que coragem podemos
Nós, de herança indigna e cauta empatia
Assemblar a estes terríveis poemas
Se o tempo é veloz e temos tanto medo um do outro?

Não subam mais degraus
Donzelas
Acabaram-se as sacadas
E o amor é só refúgio.
Não vêem que a promessa é armadilha
Não cumprida por princípio?

Não me deixe dizer-te a verdade, irmão.
Não a que tenho de mim.
Pois irás embora com ela
Sem saber que carrega um fruto legítimo.

É tempo para se possuir
Ainda que sejam só os segredos.

E
O poema se encerra em comprar
Papel e caneta, inúteis.
A tristeza fica guardada.

Irei a tua procura hoje à noite
Se estiveres pelos bares
Talvez unamos nossas bocas em silêncio e vergonha.
Senão
Ficará então esta última astúcia
Como a despedida que o fingimento não permitiu.



Vinicius Perenha, quinze de dezembro, 2008.

10.12.08

dentro de casa

..........................gulodices
..................................digo
.....................................sois
..................................digo
....................................sóis de maracujá
............................................pra nós dois

........................................**

................as árvores descortinam
.......................................................prédios
................eles atapumam
.......................................................nuvens
................elas desenroscam de
.................................adivinhar desenhos


[caros, boa noite, é meu primeiro dia nessa casa que eu já visitava; quero agradecer o teto e comemorar: brigado e vamos juntos, firmes e em versos]

6.12.08

Hierarquia

.....
. .................................................................................. Ilustração de Fábio Portugal....
........
.. .........
..............
A raiz sustenta o tronco

................Que cresce em galhos
..................Que produz ramos
..............Que alimentam as folhas
...............Que fazem fotossíntese
...............Que alimenta a árvore
............Que distribui os nutrientes
............ Que possibilitam os frutos
............... Que justifica os ramos
................ .Que vêm dos galhos
.......... ....Que se unem ao tronco,
...................Possível pela raiz
........................Que retorna
............ ....Na síntese axiomática
............. ..Da igualdade sintática:

............A raiz (se encerra) em a raiz


Isaac Frederico, do livreto absinto, Setembro de 2006.

30.10.08

Estranha beleza

..................................................................... Karel Teige


Ardido pelo querer que não se contenta
o banquete é rapa de panela que não enche o bucho.
É amor de noite inteira que não sacia.

Beber a água e ter nova sede.

Suar em desassossego.
Saber a dor da pancada e insistir assim mesmo.

Um segundo de sol que apaga dias de tormenta.

Sísifo rolando pedras.

Pequeno gozo das farpas que entram fundo.

Moto-contínuo.

Corpo de vida castigada
carregando alma serena.

Rosa com espinho.

Cigarra estourando de tanto cantar.

É quase morrer de dor
e ainda querer amar.

Do livreto Sem persona, 2006.

26.10.08

Sol rubro

Morri de susto,
Empalideci
No meu direito de ser fraco
Por dois segundos;
Vi o sol rubro
Tão real e raro,
O sol –
Não foi um rolls-royce
Nem um recorde mundial
De novos nanossegundos.
Vulcanizei-me
Vendo a ilha no mar,
A nuvem grossa
Ao pé do sol de fogo
No morro arredondado
De cinco bilhões de anos,
Calmo que imóvel;


.................................................A água, um mar
.................................................De moléculas de
.................................................Água, um mar
.................................................De moléculas de
.................................................Água, um mar
.................................................De moléculas de …


(Aos 21 de setembro de 2008)

16.10.08

Outras formas

Outras formas, técnica mista s/papel, 2008.

......................"A alma quer mais do corpo. Quer que ele se gaste
..................... Quer que definhe, sem nada que lhe baste."
..............................................................................Donizete Galvão

Até então, livros lidos e canções ouvidas
(onde se omitiam as pedras).
Tentava encaixar o real no que as palavras tinham dito ser.
E ficava a dar pulos,
querendo alcançar o que um dia alguém chamou de nuvem,
cheio de idéias que me deram sobre o que eram nuvens.
Já não solucionava no corpo as desavenças,
e não havia ideal que desse conta.
A transcendência passava pela pele.
Tinha de ser sentida na carne.
Mais uma descoberta, afinidade também desafina.
Expresso romântico descarrilando,
dando vez as diferenças.
No fogo da paixão vulgar,
que queima enquanto há lenha.
.....................................................
Do livro Elementar, novembro de 2007.

9.10.08

Cessa o céu,
a chuva foge.
Resta o gosto úmido nas coisas.
Nenhuma estrela tem lugar no amarelo adrágio.
É um céu branco e raro.
Céu de chuva que termina contumaz,
gelada e leve;
lavrando o sopro extenso
que o mistral armou.

(tarde de outubro)

7.10.08

Intifada

Me conta o que viste
divide-te
versa-me tua perspectiva
abraça-me lenta
mas fatalmente,
intempestiva,
que as escolhas de toda tarde,
depois da soneca,
adormecem-te mais.

Um café quente
um ombro ardente
nunca o ombro de sempre,
graças a Sidarta,
Ganesha, Yeshua, Selassie,
Confúcio e Kerouac,
faz a mala
estala-me um beijo
tateia-me o hálito.
alopra a verdade que te foi dada
ama o caminho
de tua própria Intifada,

........................lá estou eu sorrindo
........................acompanhando-te ao sol
........................que nos carbura de volta
........................à redenção solta e sã
........................do indo.


(Aos 21 de setembro de 2008)

4.10.08

Fábio Portugal

Pintura de Joan Miró

Já havia postado algumas ilustrações e pinturas do Fábio aqui no presença, agora é a vez de apresentar o bom trato dele com as palavras.

Copo d’Água

Inclinou o copo d’água e surpreendeu-o o contato do líquido com os lábios. Pareceu-lhe algo absolutamente novo e irreal, como se fosse recém-nascido para a maciez do mundo. Sabia, por experiência, que estes estados de fascinação costumam passar rápido e este pensamento o entristeceu no mesmo instante intelectual em que a fascinação o deixou. Nestas horas lhe era inevitável lembrar que, realmente, pensar é estar doente dos olhos. Porém quanto mais evitava pensar mais mergulhava na escuridão fria das reflexões.Adentrou o banheiro sem acender a luz. Queria apenas as sensações. queria sentir mais, queria sentir-se vivo por mais alguns instantes. Girou apressadamente a torneira, encheu as duas mãos em concha e atirou água fria ao rosto. Mais e mais. E quanto mais atirava e se esforçava em sentir, menos sentia e parecia que se distanciava do próprio corpo, assistindo àquela cena patética de fora, como um espectador estupefato.Entrou novamente, lembrou de Teresa e do peso bom, do peso que o faz sentir-se vivo. E lembrou também de como ela se olhava, nua, no espelho por longas horas – a fim de ver aflorar a alma em seu corpo. Pensou em fazer o mesmo. Ergueu rápido a cabeça e mirou seu rosto no espelho. Sua expressão de pavor assombrou-o mais que o pavor em si. Afinal, do que se tratava? Seria loucura, epifania ou simples solidão? Que pensamentos absurdos, que agonia mais sem-propósito!Uma brisa passou por seus pés descalços no piso frio, e se fez sentir um suspiro em seu peito. Só então notou, sem assombro, que seu banheiro não tinha espelho. Que o Sol já estava alto e a luz acesa. Embuçou-se em sua sombra predileta e foi dormir. Os pensamentos mantiveram-se a uma distância respeitosa.

Fábio Portugal.

2.10.08

Deitado

Estou lá, deitado –

não estou esperando
nenhuma carta
não estou estudando
a saída do xeque
não estou pensando
em que vou comer hoje
não estou aqui sob minha pele
querendo ser só a pele,
desejando sumir pra sempre,
querendo parar de querer;
não pus o disco
pensando em levantar pra trocar de lado
não estou pagando
a prestação eterna
de nossas vidas entardecidas
nem querendo pôr ordem
na confusão deliciosa
que me ocorre
agora agora agora e agora outra vez
não morro, não puto, não teclo
não arrebanho abraços
de asseclas estupefatos
enquanto

estou lá, deitado.


(Aos 21 de setembro de 2008)

29.9.08

Irmão

Um trevo à nossa amizade,
Meu melhor amigo,
A coluna zero
No terreno bélico
Do que já nascido somos,
Os sóis que juntos vimos,
Eles juntos, nós loucos,
Simultâneos todos,
Alheios aos tomos
Subcutâneos das regras,
Um trevo singelo,
Um aperto de mão,
Um abraço,
Uma reza no compasso de sempre,
De uma viagem,
Um filme, um dia de chuva
Dos copos afogando
Nossas famílias falhas,
Que parece que todas falham
Grosseiramente,
No incapaz global
De acolher ao invés de dar dinheiro.

Meu grande amigo
Pra sempre,

Seu irmão.


(Aos 22 de setembro de 2008)

25.9.08

Reino dos números

São três e quinze,
cinco, nove, doze, treze, trinta e três, quarenta e dois e cinquenta e nove,
que na mega-sena há sempre
números próximos,
onzes de setembro,
”quinhentos reais na conta, senhor”,
três a zero, dois a um e zero a zero,
que empates sempre vão existir,
duas colheres de sopa,
trigésima reedição,
raiz de dois, irracional,
trinta anos,
alguns dias de férias,
coca dois litros,
quinze do sete de setenta e oito,
dia em que nasci
no reino dos números.


(Aos 21 de setembro de 2008)

22.9.08

Setembro ou Nada

Coronel Aureliano, pintura de Fábio Portugal.


Setembro traz consigo a primavera,"expulsando o inverno". Uma nova estação carregada deste desejo de tudo abraçar, na "pressa típica dos nervos sensíveis" dos que admiram e anseiam pela calma e experiência que se encontra na velhice. Velhice dos que trazem a marca do tempo sobre a pele, e que num dia de cansaço suspiram ofegantes: Não foi em vão, tudo valeu a pena, visto que alma não era pequena.A vida na sua totalidade. Setembro e tudo mais.Este poema faz parte do livro levante que o Vínicius lançou em 2007 no bom e velho esquema do faça você mesmo . Mas a tiragem foi bastante reduzida, então já deixo registrado aqui o meu pedido por uma segunda edição. Ouviu Vinicius?

Setembro ou Nada

O que quero
É terminar todos os dias cansado
Porque fiz tudo
O que é preciso fazer
Pra não morrer num momento de tédio.

E saber de olhos fechados
Que de alguma forma estranha
Tenho as melhores pessoas
Do mundo
Por perto.

O que eu quero
É dizer as palavras que
Eu
Tenho por dentro
E ouvir mensagens quaisquer
Que possam me estimular o desprezo
E a devoção.

É morrer
Num outro dia qualquer
Mas que o seja!

Um dia qualquer.


Quero ter a pressa típica dos nervos sensíveis
e desejar a calma senil dos avós;

Quero ironia e astúcia de sobra
pra que ninguém reclame oportunidades
perdidas
e, se preciso,
calamidades que lembrem
o que é preciso ser lembrado.

Quero vitórias que não perdurem
Porque só assim os erros não significarão
derrotas.

Quero tristeza, sofrimento e controle
Pra discernir e celebrar os prazeres e liberdades.

Quero tanto
Que descobri por acaso
Que saber o que se quer
Não é tão difícil como parece;

Difícil, é viver com isso.

Vinicius Perenha,2007.

Presença

aos amigos Vinícius e William, este quase-poema
com amizade e adolescência !
abraços.

* * *

Este poema
Vai para meus amigos
William e Vinícius
Meus poetas prediletos,
Versos nem sempre retos,
Nem sempre inocentes,
Mas sempre bêbados,
Sempre sementes
De uma realidade que é
Nossa Presença,
Discutindo se somos astros
Ou zoroastros;
Se isto pode ser considerado um poema
Então somos ricos, meus irmãos!
Seremos violentos em nossa pretensão
De sermos sim
Mais que um não,
Mais que meio e menos que separados ?


(Macaé, aos 21 de setembro de 2008)

19.9.08

Instruções.doc

Ésquilo, aquarela de Fábio Portugal


Um poema do Isaac retirado do Absinto, livreto em parceria com o Vinicius lançado em 2006.

A ilustração acima é do Fábio Portugal, amigo da escola de belas artes que além de ilustrador é pintor, escultor, designer, fotógrafo e poeta.

Para conferir outros trabalhos do Fábio acesse:http://www.fabioportugal.com/


Instruções.doc

Não sê Prometeu
Acorrentado a teus desejos,
Xeque-mateia teu ego
E seus sutis ensejos,
Enceta a compreensão
Do teu fundo interior
E salva o arquivo
No teu eu-computador

Isaac Frederico, do livreto Absinto, setembro de 2006.

Evolução

O abat-jour virou abajur, assim.
Fecho Éclair amanheceu fechecler, brutamente.
De mansinho, cinemático virou cinema,
Que virou cine
(Que em breve vira mero I …).
A modernidade
Simplificou o vocabulário.

O amor é o contrário.
Virou namoro,
Esticou pra namesmamorada,
Embarrigou de gêmeos,
Dois filhotes no quintal.


(Poema interante do livreto "Viver e Devir", aos 12 de março de 2003)

16.9.08

Breubraillebrilho

..Ciclistas, pintura de Iberê Camargo.



Palma passeando pela pele
deslizando pelo muro.
Tingindo
talhando
escrevendo no escuro.

Ponta de prego cavando sulcos.

Mão afundando no inverso
água em movimento

imagem fragmentada.

Carne acesa
...........a fogo
a ferro.

Pupila-paisagem dilatada
na face atenta
do homo faber

que habita o parapeito
da janela escancarada.

Agosto de 2008.

2.9.08

Márcia Maia

Aloha Presença !

Após algum tempo afastado devido a uma carga excessiva de trabalho, retorno às boas esferas destes posts e deste mundo da poesia "nossa".
Faz umas semanas andei fuçando alguns blogs e me deparei com esta grata surpresa que é a poesia de Márcia Maia.
Troquei um e-mail com a moça, uma pernambucana muito simpática, que me autorizou a postar aqui o soneto "dança comigo?".
O soneto é profissa, pra fazer um comentário absolutamente insuficiente. As aliterações embalam o poema sem os apelos fáceis da previsibilidade que este recurso geralmente carrega.
O decassílabo é uma pequena obra prima e segue abaixo; o blog da moça já se encontra nos favoritos deste espaço e é carregado de bons poemas, além do caminho das pedras para adquirir os livros que ela já publicou.

Cerveja gelada à tarde descompromissada !

- - -

que importa no compasso além do passo
se passo-a-passo passo além da porta
que encerra qual comporta o pouco espaço
e em marca-passo irmana passo e aorta -

retorta que destila o descompasso
do corpo quando lasso se transporta
e à porta aporta feito em sangue e laço
(nenhum estardalhaço se suporta)

comporta antes ousar unir o traço
ao braço que no abraço outro conforta
e à dança desentorta em novo passo

um passo e outro passo o chão recorta
rompendo o lacre à porta e ao compasso
ao qual além do passo nada importa


(Márcia Maia)

25.8.08

Rumo ao Chile

Uma letra em parceria com o Rafael, dos tempos da Geração Perdida, banda folk-punk que durou uns seis meses e fez um único show. Olhando hoje me parece bastante ingênua, mas tem seu mérito pela sinceridade dos versos (ingênuo é anagrama de genuíno). Familiar para todos aqueles que em algum momento de suas vidas foram tocados pelo espírito on the road , pelo desejo de outros rumos , no anseio de se encontrarem. Relendo essa letra pensei no personagem Supertramp do filme into the wild, pensei em Dylan e suas fugas inventadas, e também nos sábios-loucos-viajantes que nos encantaram nas leituras da nossa primeira juventude, Rimbaud, Jack London, Cassady, Kerouac...
Penso em André Luis Pontes o louco andarilho, e em todos aqueles que de alguma forma buscaram uma possibilidade de desvio, que desejaram outros caminhos pra fora dos trilhos.
A mudança é o caminho, mudar de lugar ou mudar a si mesmo .
Sempre aprendizes.



Eu não pertenço a esses lindos dias de sol
Eu vim do negro sujo das esquinas
Eu não espero o abraço triste da minha mãe
nem o beijo da minha menina

Eu admiro mais os loucos
que essa gente vazia
que enfeitam suas vidas
com essas falsas alegrias
Não posso mais ficar aqui a viver nessa incerteza
não suporto mais o riso da tua indiferença
Quantas lágrimas precisam os meus olhos derramar
pra que um dia eles percebam o quanto vale o meu sonhar?

Eu vou cair nessa estrada ver se encontro a minha vida
vou jogar de vez nessa parada já que não tem mais saída
E quando tudo tiver fim

E quando tudo tiver fim

Eu vou fazer uma canção pra mim

Rafael Elfe e William Galdino, 2000.

18.8.08

Nado
























De um lábio ao outro

eflúvio.

Tudo tempestade

Com uma mão bate

com a outra abre

com a boca chama.

13.8.08

Saudade

Fala galera do Presença... Minhas desculpas por andar tão ausente; estou viajando e o tempo me é escasso para escrever e postar.
Mas lá vai um poema que escrevi de bate e pronto na tela de postagem... Valeu!

Queria andar por ruas - viélas
De mãos contigo dadas
Quimeras...
Posto que "solo" ando
Buscando em vão a felicidade
Qual é inacecível pela distância
E que devora-me em forma de ância

Quanto amor agora brota de meu peito
Que fora por fraqueza zombeteiro
Por não saber
Que um homem só
É uma nau sem remo
É laborar com nó
É um verão ameno

E tendo a certeza da alegria
Que será rever-te um dia
Sinto-me forte como a pedra
Qual "single" piso e que é rua
Onde de mãos talingadas andaremos
Conversando amenidades
Observados pela lua

*Que seja forte enquanto dure
Posto que é sincero
Que seja saudável
Posto que nos faz bem
Que seja doce, puro e cristalino
Como o açucar do seu bejo
Posto que lambuza-me por inteiro

E quando a noite me cai
De saudade me dopo
Entorpecendo o coração
**Que alegre "ma non troppo"
De pensamentos de amor
De saudades - dissabor.

Fábio dos Santos, 13 de agosto de 2008 - Florença - Itália
*baseado naquele soneto, desculaps por não recordar o nome
** Com açucar com afeto - Chico Buarque