7.4.09
Gabardina
O cálice desses ventos noturnos
Visitando, profundos,
os goles e nós,
Ávidos de viver e partir,
Repartir e ir;
Não quero mais acordar sozinho.
Somos o quintal escuro desta casa
quando no escuro pensamos,
Escurecemos nosso “quando?”
nos pequenos detalhes
que vão passando desapercebidos,
Assoreando nosso fluxo,
Conjugando meus e teus,
Assassinando vidas com calculadoras
e julgamentos esquemáticos,
Presos em nossos próprios umbigos,
Na cicuta de nossas rotinas.
Não quero mais ser essa gabardina
De 30 anos, memórias falhas,
Ter peso de passado,
Películas de um futuro promissor,
Uma carcaça escorada
nos encontros desmarcados com todos,
Votando no candidato eu,
Tento após tento,
Uma carcaça escorada e um copo de rum,
Sempre isento
no quintal escuro dos ventos noturnos,
Sabendo, no fundo,
Um dia acordar sozinho,
Expulso,
como nascendo.
(Aos 5 de abril de 2009)
5.4.09
Saudade internacional
Estou fora.
Liga pra mim.
Penso em ti de Lisboa,
penso em ti de Saigon –
Que latinoamericano sou ?
De que raça sou ?
Não dá pra saber, comendo tacos em Tenochtitlán
ou vivendo o dharma em Vientiane,
Sendo o caos de um organismo,
a assembléia de uma mente,
Pensa em mim no Rio,
escreve um e-mail pra mim,
Me manda um beijo,
me manda um porto
Que chames erroneamente de teu
Porque pra lá da tua rua
És in-teu, és o cheiro
da maresia de Copacabana à noite,
Noturno andando,
Passando pelas putas,
desacontecendo no Rio
como em Montevidéu,
São só cervejas e pratos típicos,
Trens levando bois
pra trabalhar,
Deuses pedindo preces
para salvar,
Os chicletes que nunca sairão do asfalto,
Um quadro na parede,
Me manda um alô,
Me diz que ainda és
em Santa Teresa.
(Aos 20 de fevereiro de 2009)
23.3.09
Uma concha ao pé do ouvido

Daquelas águas que conforme os dias variavam suas cores
Verde
Vermelho
cinza, surgiam crinas, eram cabeças de éguas degoladas.
Porcos inchados, cães saciando a fome de urubus.
Cavalo morto atrapalhando o futebol dominical.
Susto de verão para banhistas
nos tempos em que suas areias eram invadidas por incontáveis guarda-sóis.
Mandalas reluzentes a beira-mar.
Jigogas.
Cobras de duas cabeças.
Minhas mãos revirando as surpresas trazidas depois da chuva.
Carrinho sem roda, boneco sem perna, espinha de bagre.
Baiacu sob o sol estufando até estourar.
Naquelas areias catei figurinhas de chiclete.
Roubei o doce da macumba pedindo respeitosa licença aos santos.
Lacei pombos pelos pés, os brancos valiam mais.
Um trocado no bolso
Champagne de reveillon virando ficha de fliperama.
Meu corpo estremecendo num mergulho de verão.
Era o bater das ondas misturado ao fremir das mãos.
Engravidando marés
Guerreei com amêndoas.
Vi um tubarão (depois descobri ser cação) pendurado numa árvore.
Tive pena dele, de bobeira veio se enrolar numa rede e foi morto a pauladas.
Fiquei um bom tempo sem entrar naquelas águas, medo de avistar barbatana.
Pequenas ondas
Hawaii de playmobil.
O barco de Iemanjá que carregamos pra casa e se tornou a nossa nau.
Trampolim pros mais acrobáticos mergulhos.
Siri no caniço, tainha no puçá, espada no arrastão.
Rabo de arraia chicoteando a memória.
No almoço uma fritada de marisco com limão.
Sem princesinha do mar, sem oceanos.
Naquelas águas escuras estão as minhas mais límpidas lembranças.
Praia da bica
da janela deste ônibus te vejo.
Penso no poeta Hart Crane e me lanço em tuas águas.
Onde tudo começa onde tudo termina.
Rio, 21de março de 2009.
22.3.09
Me dera um tanto amarga, confesso,
tua ausência - e nem lembro.
Ficou nessa tua cara amarela,
a minha.
E o nosso jeito de deixar tudo apagado.
Pro meu peito, a faca da velha falta.
E tuas tralhas comigo,
carrego-as como coisas que enfeitam
a cômoda vazia.
E a infância, minha ilha incômoda.
Me propusera o gosto de saber
que o medo é o exato gosto de saber.
O que se sabe não apavora.
E eu sempre soube que não apareceria.
Fiquei em casa esperando:
tua voz,
o tênis,
o peixe,
as velas no bolo ainda te esperam comigo, um assopro -
e o abraço desativado.
Não tenho mais tua presença, é certo.
Mas meu filho terá a minha, a tua também.
No fim, aprenderemos de verdade.
A verdade é o que desaprendemos.
E de tudo que não tive,
só tua sombra pôde roubar os buracos
nas fotografias.
Nas manhãs de praia,
quando viajei pro gelo do teu riso estrábico.
Teu longo bigode escondia.
Só tua sombra aparece na porta da escola.
No campinho de barro, pra testemunhar
o único gol que eu fiz.
Eu lembro,
te desenhei com os cabelos compridos
- eras minha mãe,
pros dias eternos dos pais que não tive.
E fora todos eles.
E agora me presenteias.
Tua ausência me fará tão presente
que meu filho entenderá.
Saberá
o quanto temerei minha própria ausência
temendo a sua.
E no presente,
essa tua falta,
fará de mim teu pai - de alguma forma.
Ainda que ainda, nessa vida ao menos,
seja eu teu primeiro filho.
20.3.09
Voava e luzia
eu suor se esvai
oco
de remorso
no seu dorso
de serpentinas sensuais
O tom muda
no ritmo em
que o mundo
te circunda
E acalora
benfica
madruga
brontossauro comportado
o espelho te desvela
a renda fina
Acalora
e madruga
benfica
e por não ter outra de volta
não somos nós mas a carta
quem chora
e madruga
benfica
acalora
calibra
você é o centro e o passo
desloca marés nesse caso
pássaro
que morre no ar
e não percebe
não havia chão nem céu
mas morros salpicados
pretos de dourado
Você dançava e luzia
flores vagas no breu
era o umbigo
de toda barriga
18.3.09
Viajando
Outra pra cima –
Veja as nuvens comuns, mas de outros céus,
Sonhos em pó
Salpicados pelos rios,
Cidades sem rumo, repletas
de uma esperança índigo-vã,
destinos em ingredientes exóticos,
Cervejas diferentes
mas de objetivos os mesmos,
Por quês iguais, favelas iguais,
Divindades diferentes
mas penosamente oni-tudos,
aconselhando governantes
das mesmas velhas guerras,
doenças que te matam um parente,
Poesias-dúvida dementes
Como os poetas de todos os lugares,
Incensos que duram minutos
e já deixam de ser,
Recendendo a eternidade no ar,
Engarrafamentos ou sim ou não
mas indriblável poluição –
Estou sentado numa escada,
Numa escala num aeroporto
qualquer, viajando qualquer,
Um porto nunca meu porque não o há,
Um café qualquer, como todos os quaisqueres;
É o que somos, não importa
o quão paciente esperes.
(Aos 25 de janeiro de 2009)
13.3.09
Passeio
um sucesso, um incenso,
um vestido,
um corpo cansado de se vestir !
O que você dá, você se dá,
Os seios rijos, social,
cervejinha transiente
na ilusão de ser
permanente,
O sucesso de um projeto,
deixa eu te contar,
Depende de N-A-D-A !
Sejamos auto-críticos
descendo na Cinelândia,
marcando um encontro,
estudando Kierkegaard,
incompreendendo o ponto,
se espremendo na Linha 2
pra descer em Inhaúma,
Um passeio sem nexo
pelo Rio onde somos,
bebemos cafés e trepamos,
tiramos o lixo à noite,
Sonhando com o dia
em que o Flamengo será hexa,
Comendo um pão na chapa
Na Padaria das Famílias,
passeando pelo in-ser
achando ser,
Acontecendo em fragmentos.
(Aos 25 de janeiro de 2009)
9.3.09
Vejo teus dentes. Competem
com tua boca. Repetem
o mesmo riso afável e amarelo
da pequena foto.
Grafada em cores um tanto velhas.
É você lá.
Quer dizer, tu fostes aquela menina loura.
Tinha uma praia amanhecendo nos olhos,
cercada pelo quarto que já não existe mais,
pelo menos não ali, agora.
Porque tudo se foi,
tragado, devorado por abelhas e mosquitos sazonais.
E no que não és mais,
apaga-se outra noite.
O amarelo fugiu dos teus cabelos.
Não é pra menos,
a vitória é ainda estar por aqui.
E algumas coisas vão se enrolando nos fios.
Também perdi o pequeno e solitário Rafael.
Nada que o traga, a não ser essas lembranças fracas.
A chaleira nos chama pro hoje.
Ferve a água posta.
Vamos à cozinha, enquanto te rodeio
ouço teu riso viver comigo o agora.
E estalamos juntos algumas costelas de março de dois mil e nove.
Ficou no quarto a pequena foto com você lá dentro,
sobre o livro, sobre a cama - sob a luz.
Sobre teu ombro, o mesmo pedaço de lustre não resistiu.
Nem você!
Loura num carnaval, sorrindo outra vez pra quem quer que seja,
que naquela noite, dia, ou tarde,
pediu-lhe uma pose,
e posou também com a máquina fotográfica entre as mãos.
Sobreviver é acompanhar.
Deixemos que tudo torne, se é pra ser.
Sem que saibamos, claro - mas não sabemos.
Tomemos o chá, que já esfria.
Uma coisa eu sei, ou pelo menos imagino que eu saiba:
somos apenas o que fomos.
2.3.09
Lara Leal
.........................................................Fotografia de Chema Madoz.A Lara é uma companheira de escaladas em andaimes pelo mundo da restauro, estudante de artes e integrante do coletivo de artistas 13 numa noite, há pouco tempo descobri que além de todas essa atividades ela também se dedica às letras. Abaixo uma pequena amostra da boa poesia desta menina.
À noite prefiro sozinha
A madrugada é minha
Pensa assim
Quem caminha o dia lento
Passando através do vento
Sem prender suas migalhas
Sem apreender os traços que no rosto ele deixa
Truque do destino, do moinho mundo
Deixa-me assim queixando-me dele
Do seu encontro raso
Com minha aura rasurada
De alma velha, sempre à espera
De a sorte levar à calma tormenta
Me deitar
Estou lendo trabalhando os olhos
estou vendo trabalhando o senso
Estrategicamente, voce não sabe, estou sendo.
Que aborrecimento isso
Confunde e empaca o que aflito assiste
Calado o concentrado ego
Alheio ao entorno
Em seu deleite desarmado.
Enquanto isso sou esse arbítrio
Livre, preso de cabeça
Pra cima
Com os pés amarrados
Em nós de cadarço de sapato.
Lara Leal
Mais da Lara em:
http://laraleal.spaces.live.com
http://trezenumanoite.multiply.com/
19.2.09
à mão [fragmento]
...mar
..cado
..a car
....vão
.
o sol acendeu
ele próprio
seu primeiro fósforo
e se ateou no breu
.
e o céu pincelou
ele mesmo
o azul calcinha
com que coloriu o peito
.
à mão
cunho próprio
cria da própria criação
.
o sol
o céu
o mar
..cado
..a car
...vão
17.2.09
Fragmentos do imaginário
No último fim de semana lançamos mais um livro, o Fragmentos do imaginário meu segundo pelo selo/blog Presença, o primeiro foi o Elementar, um livreto coletivo com o Isaac e o Vinicius lançado em 2007. A tiragem do fragmentos foi bastante reduzida visto que todo o livro foi produzido por nós mesmos num esquema artesanal. Para aqueles que desejarem lê-lo é só me passar o e-mail que eu envio o arquivo.
Abaixo transcrevo uma apresentação escrita pelo Vinicius e um dos poemas do livro.
9.2.09
"Romeu e Julieta"

Devoro ambos
num só espaço
cheio de estacas encobertas.
Confio-lhes meus ácidos.
Devoro-os nus, um sobre o outro.
Mastigo ambos - tenho afiadas facas de osso.
E a lua paira em meu esgoto,
desce a laringe - o amor perdeu seus óculos.
Atinjo em cheio o bolo do estômago.
Cegos se cobram delicadamente no baço,
o abraço
sem todo o pavor que aparentam.
Confiei-lhes a língua,
aquela que embalou meus golpes.
Confio-lhes então o soro da saliva, num pequeno mar revolto!
Engulo a lua desajeitada,
e os dois se afogam no esôfago.
Romeu branco, tal urubu raquítico e novo,
recolhe Julieta, beijada e despedaçada
em seus sanqüíneos trajes abjetos.
Ambos já estarão em meu reto! - sinto-os unidos novamente,
e nascerão para fora, já os exorto finalmente.
(num gole d´água desconfio ter apagado o sabor do gosto)
O amor é amargo diz meu rim direito,
diz que é doce o velho palato.
Mas Romeu e Julieta estão vivos!
E boiam no latrinal ninho intacto.
6.2.09
Fração de Segundo
Estava lá, nos óculos, no reflexo dos óculos de Mário Prata.
Entre as persianas da janela, escondendo a tarde clara de um bairro qualquer do Rio.
Enquanto isso, o câmera mudava o close, a sombra mexia o braço lentamente. Senti o prazer de suas mãos tocando o fundo do bolso esquerdo, um caramujo bolinando folhas no pequeno vaso sem plantas.
Estava na quina da tela agora, e escorregava para desaparecer. Quando
o rosto do cronista surgiu enquadrado à direita, já não era mais sua imagem negra no vidro iluminado, cercado por aros grossos - estava guardada tua existência. Fiquei com o pensamento na ponta dos dedos equilibrando, deixei aquele peso dobrar-me os braços. Avancei para o controle da tv, aumentei o volume, me senti um pouco mais sozinho.
A sombra esteve ali, alguns segundos antes daquela última pergunta. Milhões de pontos coloridos apagaram-na para sempre. Vou perseguir a reprise do programa de entrevistas. Talvez reavê-la - fração de segundo. Me apaixonei por uma sombra no relfexo dos óculos de Mário Prata. Não pela mulher, ou pelo sujeito escorado na janela, sem sexo aparente, mas pelo ardor que queimava àquela tarde em plenos 1997. Me pareceu preocupada, ou preocupado. Esperava por alguém, de relance, mirava a rua. Renegava a equipe de filmagem dentro da casa, Mário Prata, as câmeras, todo o burburinho que se deu, acendendo aquelas horas. E o autor, nem se atentara ao fantasma sob seus olhos, respondia algo sobre seu último texto. E o corpo permaneceu imóvel em meu registro imemorial dos últimos dias, delineado pela tarde branca que se consumiu por detrás da janela daquele apartamento, em plenos 1997, num bairro qualquer do Rio, dentro da minha sala, na tv, no reflexo dos óculos de Mário Prata.
1.2.09
Rarefeito
tarde pra voltar àquela hora
não tinha sobras
a ponte, esquecida,
lembrou-se de errar meus passos
perdi-me
tão convencido que o real avançaria
e o mundo recolheu-se em minhas mãos,
pequenas arando hemisférios
o sol varava nos dedos,
chegava aos olhos, o sumo da castanha de caju
meu varal de lábios sentia o amargo
a ponte, esquecida, varejava minha sombra
estudava leve: balões não sopram oceanos
fui levado, soprei a pele
não tinha sobras pra catar,
nada que refizesse o nome
lembrei-me,
desfiz teu rosto, coberto de alagoas
o mar desceu teus ombros,
esqueci novamente
voltar o passado é sediar milhas de nada
volto para arrancar meu posto, vigília de planta
lacustres, os olhos naufragam
enxergar?
lembrei
a visão estava morta sob a porta,
e um batalhão de formigas marchava sinuoso
um menino espreitava o silêncio morto do avô
a rua respirava cheia, era o bloco secando os copos
as palavras, esqueci
fui rarefeito
numa caneca com sabão e água
flutuando segui, preso à goiabeira,
vôo translúcido, o vento me liberta
deixo o ar me segurar, a simetria circular dum fantasma menino
agora o estouro esperado e
ploc!
a ponte deseja meu peso, e eu passo
passo por passo tuas vertebras,
costela arqueada, logo toco o lado de lá
revejo as sobras, encontro meus filhos,
minha vida!
meu jardim está repleto de lembranças
começo o caminho pelo fim.
27.1.09
Alforria
Pintura do autor, 2004- - -
Liberdade no sonho.
Guia de cego.
Sol ponteando nossos passos.
Os sonhos libertando do real,
O lá sucedendo o si-bemol,
Bengala do conhecido,
Capuccino sem açúcar,
Liberdade de escolha
Entre Coca e Pepsi,
O Globo ou Jotabê,
O drama de acontecer,
Perfumes que um gosta
Mas o outro não,
Um “por quê existo?” no 433
Vila Isabel vermelhinho,
Sendo ou não,
Sem troco pra dez,
Guia de cego.
Liberdade dentro do sonho.
(Aos 25 de janeiro de 2009)
25.1.09
Por trás daquele monte
..............................................................................................Pintura de Rafael BettiDe repente é aqui
onde a vida parece apequenar-se.
Sem rumo a desbravar.
Sem vislumbre de curva desconhecida.
Há uma outra paisagem
um desvio a beira do caminho.
Nele adentro e chego lá
onde as ervas crescem sobre o barro.
E a manhã é límpida e sem tropeços.
Amarelo-céu
................branco
azul.
Ao cair da noite
o mar de estrelas
pousa sobre nós seu brilho fugidio.
E bebemos o sereno de peito aberto.
Sem disfarces a nos cobrir as horas.
Sem passo rápido para uma nova–velha fuga.
Lá.
Na curva da noite
onde a trilha corta o mato
e só há lua guiando o passo.
Coruja girando a cabeça.
Gavião descansando na cerca.
Lá
Onde quando um dia pesa muito
o outro é recomeço.
Janeiro de 2009.
14.1.09
Um cara de futuro
pintura do autor, 2000.No jardim, na cadeira
Rasa, junto à grama,
num bloco febricitante de notas
Fabrico asteriscos,
fabris pois que muitos
e, feitos de três rabiscos,
tencionam explicar
meus foscos intuitos,
fortuitos e infinitos…
Um dilúvio de dilemas
na cabeça
e um chuvisco
quase chuva, quase seco,
molha o bloco,
ora chuva, ora seco,
desconcerto-me,
quase me destrona,
quase seco, quase físico,
de minha cadeira rasa,
rente à verde
grama.
Sigo alheio,
Rabsicando os *
Os chuviscos que os molham,
a cadeira rente
à grama verde,
os detalhes
que não me importo
se são tudo ou cem por cento
ou mesmo quase
“Que futuro…” penso
no dilúvio febricitante
de descompromisso
com aquilo ou com isso,
com o fim ou o início,
o apenas ao meu contento,
o cem por cento
isento,
rente,
àquela grama,
apenas isso.
“Um cara de futuro”,
seguro e brilhante
no que tange
aos issos, chuviscos,
parenteses
e asteriscos.
(Aos 24 de janeiro de 2008, do livreto "Iuri Gagarin - e outros poréns)
12.1.09
furnas de frutas doces
e bisbilhotam furnas de frutas doces
são amantes a rondar prazeres
menores a desvendar cruezas
arredores de canções modestas
afibrilam peitos feitos de anis
e coloridos sonham com tardes poentes
bocas roxas de vento aproveitam laranjas
que apresentam paixões de verões inteiros
anoitecendo não é mais de areia que se constrói castelos
e as estrelas voam raso sobre as dunas nas luas de janeiro
10.1.09
"Colheita"
O urubu amadurece a morte.
O peito amadurece a faca,
que amolada planta o corte.
O preto amadurece o nada.
O silêncio amadurece o vão.
Do não brota a palavra.
O corpo apodrece a larva.
Do amor se colhe o chão.
"à granel"
Tente de novo
antes que o novo
seja tentado
a se tornar passado
novamente
acontecido.
x
Meu olhos jovens não viram o que era rude.
Só enxergavam num todo a leveza.
Não restou nada além da certeza,
de que o tempo é sim, um afiador de gumes.
x
Ousei
fotografei o poema.
Tanajuras negras no reluzente monitor;
Que entre o dedo e o flash, por um suave tremor
foram esmagadas.
Na foto brilhava talvez um quadro
mudo, grave e desfocado.
Pensei no ato:
Um poema pintado.
Flávia Muniz
.....................................................................Pintura de Paul KleeNas minhas andanças pelo mundo dos blogs cheguei até a Flávia e gostei de muita coisa que li no seu blog Boa tarde, Senhor Smith, depois acabei descobrindo que ela era irmã da Ana Muniz amiga minha de longas datas da EBA.
Além de se dedicar a prosa e a poesia a Flávia também canta na banda Luisa mandou um beijo.
http://boatardesenhorsmith.blogspot.com/
http://luisamandouumbeijo.com/
A matilha
Quantas palavras cabem na boca do poeta?
Quantos poetas cabem diante do espelho?
Tantas perguntas servem aos pensamentos que empilho.
Faço colagens dadaístas - você pode dizer que é plágio.
Mas se fico calada ; podem achar que estou morta.
Muito prazer meu nome é Vivivinha da Silva.
Alguns me chamam de rabiola de pássaro.
Sou assim mesmo me apresento de um jeito sanguínea,
e não poderia ser de outra forma.
Aqui no planeta Terra tudo é muito engraçado
Desconfio até que o mundo é caixa de fazer gente maluca.
Poetas são loucos em eterno estágio
na fábrica onde:
ferramentas são as letras
idéias são as máquinas
produtos são os corações que afetam.
Minha fala é a mão de um gigante do espaço.
Eu tenho consciência disso e atravesso as fronteiras dos mundos.
Meu intuito é encontrar a essência intrínseca do uno
e a dita cuja está no outro quando não calo.
No final de tudo
Sou esta que pergunto
Quantas palavras cabem na boca do poeta?
26.12.08
Zero a zero (um quase lamento) ou por uma cor com cheiro, sabor e movimento.
.............................................................................................. Pintura de Paul Gauguin.Alta noite, cena reprisada.
Esta beleza exposta pelo simples prazer de um recuo a qualquer investida.
O espelho nas mãos.
O tédio estampado no rosto (pintado no limite entre o vermelho e o vulgar).
O corpo equilibrando-se na ponta da agulha.
Malvada carne, exposta em quase indecência,
salivando olhares.
Por onde andam os sorrisos que dizem sim?
O aceno de mão graciosa?
Um gesto sem escudo levantado?
Fecho os olhos e sonho com as tahitianas de Gauguin...
Será que alguém ainda se atreve a ir além das luzes da ribalta?
Hein?
André Luis Pontes, diário sem floreios, 1997.
15.12.08
Láudano
Nós, de herança indigna e cauta empatia
Assemblar a estes terríveis poemas
Se o tempo é veloz e temos tanto medo um do outro?
Não subam mais degraus
Donzelas
Acabaram-se as sacadas
E o amor é só refúgio.
Não vêem que a promessa é armadilha
Não cumprida por princípio?
Não me deixe dizer-te a verdade, irmão.
Não a que tenho de mim.
Pois irás embora com ela
Sem saber que carrega um fruto legítimo.
É tempo para se possuir
Ainda que sejam só os segredos.
E
O poema se encerra em comprar
Papel e caneta, inúteis.
A tristeza fica guardada.
Irei a tua procura hoje à noite
Se estiveres pelos bares
Talvez unamos nossas bocas em silêncio e vergonha.
Senão
Ficará então esta última astúcia
Como a despedida que o fingimento não permitiu.
Vinicius Perenha, quinze de dezembro, 2008.
10.12.08
dentro de casa
..................................digo
.....................................sois
..................................digo
....................................sóis de maracujá
............................................pra nós dois
........................................**
................as árvores descortinam
.......................................................prédios
................eles atapumam
.......................................................nuvens
................elas desenroscam de
.................................adivinhar desenhos
[caros, boa noite, é meu primeiro dia nessa casa que eu já visitava; quero agradecer o teto e comemorar: brigado e vamos juntos, firmes e em versos]
6.12.08
Hierarquia
..... . .................................................................................. Ilustração de Fábio Portugal....
........
.. .........
..............A raiz sustenta o tronco
................Que cresce em galhos
..................Que produz ramos
..............Que alimentam as folhas
...............Que fazem fotossíntese
...............Que alimenta a árvore
............Que distribui os nutrientes
............ Que possibilitam os frutos
............... Que justifica os ramos
................ .Que vêm dos galhos
.......... ....Que se unem ao tronco,
...................Possível pela raiz
........................Que retorna
............ ....Na síntese axiomática
............. ..Da igualdade sintática:
............A raiz (se encerra) em a raiz
Isaac Frederico, do livreto absinto, Setembro de 2006.
30.10.08
Estranha beleza
..................................................................... Karel Teige o banquete é rapa de panela que não enche o bucho.
É amor de noite inteira que não sacia.
Beber a água e ter nova sede.
Suar em desassossego.
Saber a dor da pancada e insistir assim mesmo.
Um segundo de sol que apaga dias de tormenta.
Sísifo rolando pedras.
Pequeno gozo das farpas que entram fundo.
Moto-contínuo.
Corpo de vida castigada
carregando alma serena.
Rosa com espinho.
Cigarra estourando de tanto cantar.
É quase morrer de dor
e ainda querer amar.
Do livreto Sem persona, 2006.
26.10.08
Sol rubro
Morri de susto,
Empalideci
No meu direito de ser fraco
Por dois segundos;
Vi o sol rubro
Tão real e raro,
O sol –
Não foi um rolls-royce
Nem um recorde mundial
De novos nanossegundos.
Vulcanizei-me
Vendo a ilha no mar,
A nuvem grossa
Ao pé do sol de fogo
No morro arredondado
De cinco bilhões de anos,
Calmo que imóvel;
.................................................A água, um mar
.................................................De moléculas de
.................................................Água, um mar
.................................................De moléculas de
.................................................Água, um mar
.................................................De moléculas de …
(Aos 21 de setembro de 2008)
16.10.08
Outras formas
Outras formas, técnica mista s/papel, 2008......................."A alma quer mais do corpo. Quer que ele se gaste
..................... Quer que definhe, sem nada que lhe baste."
..............................................................................Donizete Galvão
Até então, livros lidos e canções ouvidas
(onde se omitiam as pedras).
Tentava encaixar o real no que as palavras tinham dito ser.
E ficava a dar pulos,
querendo alcançar o que um dia alguém chamou de nuvem,
cheio de idéias que me deram sobre o que eram nuvens.
Já não solucionava no corpo as desavenças,
e não havia ideal que desse conta.
A transcendência passava pela pele.
Tinha de ser sentida na carne.
Mais uma descoberta, afinidade também desafina.
Expresso romântico descarrilando,
dando vez as diferenças.
No fogo da paixão vulgar,
que queima enquanto há lenha.
9.10.08
7.10.08
Intifada
divide-te
versa-me tua perspectiva
abraça-me lenta
mas fatalmente,
intempestiva,
que as escolhas de toda tarde,
depois da soneca,
adormecem-te mais.
Um café quente
um ombro ardente
nunca o ombro de sempre,
graças a Sidarta,
Ganesha, Yeshua, Selassie,
Confúcio e Kerouac,
faz a mala
estala-me um beijo
tateia-me o hálito.
alopra a verdade que te foi dada
ama o caminho
de tua própria Intifada,
........................lá estou eu sorrindo
........................acompanhando-te ao sol
........................que nos carbura de volta
........................à redenção solta e sã
........................do indo.
(Aos 21 de setembro de 2008)
4.10.08
Fábio Portugal
Pintura de Joan MiróCopo d’Água
Inclinou o copo d’água e surpreendeu-o o contato do líquido com os lábios. Pareceu-lhe algo absolutamente novo e irreal, como se fosse recém-nascido para a maciez do mundo. Sabia, por experiência, que estes estados de fascinação costumam passar rápido e este pensamento o entristeceu no mesmo instante intelectual em que a fascinação o deixou. Nestas horas lhe era inevitável lembrar que, realmente, pensar é estar doente dos olhos. Porém quanto mais evitava pensar mais mergulhava na escuridão fria das reflexões.Adentrou o banheiro sem acender a luz. Queria apenas as sensações. queria sentir mais, queria sentir-se vivo por mais alguns instantes. Girou apressadamente a torneira, encheu as duas mãos em concha e atirou água fria ao rosto. Mais e mais. E quanto mais atirava e se esforçava em sentir, menos sentia e parecia que se distanciava do próprio corpo, assistindo àquela cena patética de fora, como um espectador estupefato.Entrou novamente, lembrou de Teresa e do peso bom, do peso que o faz sentir-se vivo. E lembrou também de como ela se olhava, nua, no espelho por longas horas – a fim de ver aflorar a alma em seu corpo. Pensou em fazer o mesmo. Ergueu rápido a cabeça e mirou seu rosto no espelho. Sua expressão de pavor assombrou-o mais que o pavor em si. Afinal, do que se tratava? Seria loucura, epifania ou simples solidão? Que pensamentos absurdos, que agonia mais sem-propósito!Uma brisa passou por seus pés descalços no piso frio, e se fez sentir um suspiro em seu peito. Só então notou, sem assombro, que seu banheiro não tinha espelho. Que o Sol já estava alto e a luz acesa. Embuçou-se em sua sombra predileta e foi dormir. Os pensamentos mantiveram-se a uma distância respeitosa.
Fábio Portugal.
2.10.08
Deitado
não estou esperando
nenhuma carta
não estou estudando
a saída do xeque
não estou pensando
em que vou comer hoje
não estou aqui sob minha pele
querendo ser só a pele,
desejando sumir pra sempre,
querendo parar de querer;
não pus o disco
pensando em levantar pra trocar de lado
não estou pagando
a prestação eterna
de nossas vidas entardecidas
nem querendo pôr ordem
na confusão deliciosa
que me ocorre
agora agora agora e agora outra vez
não morro, não puto, não teclo
não arrebanho abraços
de asseclas estupefatos
enquanto
estou lá, deitado.
(Aos 21 de setembro de 2008)
29.9.08
Irmão
Meu melhor amigo,
A coluna zero
No terreno bélico
Do que já nascido somos,
Os sóis que juntos vimos,
Eles juntos, nós loucos,
Simultâneos todos,
Alheios aos tomos
Subcutâneos das regras,
Um trevo singelo,
Um aperto de mão,
Um abraço,
Uma reza no compasso de sempre,
De uma viagem,
Um filme, um dia de chuva
Dos copos afogando
Nossas famílias falhas,
Que parece que todas falham
Grosseiramente,
No incapaz global
De acolher ao invés de dar dinheiro.
Meu grande amigo
Pra sempre,
Seu irmão.
(Aos 22 de setembro de 2008)
25.9.08
Reino dos números
cinco, nove, doze, treze, trinta e três, quarenta e dois e cinquenta e nove,
que na mega-sena há sempre
números próximos,
onzes de setembro,
”quinhentos reais na conta, senhor”,
três a zero, dois a um e zero a zero,
que empates sempre vão existir,
duas colheres de sopa,
trigésima reedição,
raiz de dois, irracional,
trinta anos,
alguns dias de férias,
coca dois litros,
quinze do sete de setenta e oito,
dia em que nasci
no reino dos números.
(Aos 21 de setembro de 2008)
22.9.08
Setembro ou Nada
Coronel Aureliano, pintura de Fábio Portugal.Setembro traz consigo a primavera,"expulsando o inverno". Uma nova estação carregada deste desejo de tudo abraçar, na "pressa típica dos nervos sensíveis" dos que admiram e anseiam pela calma e experiência que se encontra na velhice. Velhice dos que trazem a marca do tempo sobre a pele, e que num dia de cansaço suspiram ofegantes: Não foi em vão, tudo valeu a pena, visto que alma não era pequena.A vida na sua totalidade. Setembro e tudo mais.Este poema faz parte do livro levante que o Vínicius lançou em 2007 no bom e velho esquema do faça você mesmo . Mas a tiragem foi bastante reduzida, então já deixo registrado aqui o meu pedido por uma segunda edição. Ouviu Vinicius?
Setembro ou Nada
O que quero
É terminar todos os dias cansado
Porque fiz tudo
O que é preciso fazer
Pra não morrer num momento de tédio.
E saber de olhos fechados
Que de alguma forma estranha
Tenho as melhores pessoas
Do mundo
Por perto.
O que eu quero
É dizer as palavras que
Eu
Tenho por dentro
E ouvir mensagens quaisquer
Que possam me estimular o desprezo
E a devoção.
É morrer
Num outro dia qualquer
Mas que o seja!
Um dia qualquer.
Quero ter a pressa típica dos nervos sensíveis
e desejar a calma senil dos avós;
Quero ironia e astúcia de sobra
pra que ninguém reclame oportunidades
perdidas
e, se preciso,
calamidades que lembrem
o que é preciso ser lembrado.
Quero vitórias que não perdurem
Porque só assim os erros não significarão
derrotas.
Quero tristeza, sofrimento e controle
Pra discernir e celebrar os prazeres e liberdades.
Quero tanto
Que descobri por acaso
Que saber o que se quer
Não é tão difícil como parece;
Difícil, é viver com isso.
Vinicius Perenha,2007.
Presença
com amizade e adolescência !
abraços.
* * *
Este poema
Vai para meus amigos
William e Vinícius
Meus poetas prediletos,
Versos nem sempre retos,
Nem sempre inocentes,
Mas sempre bêbados,
Sempre sementes
De uma realidade que é
Nossa Presença,
Discutindo se somos astros
Ou zoroastros;
Se isto pode ser considerado um poema
Então somos ricos, meus irmãos!
Seremos violentos em nossa pretensão
De sermos sim
Mais que um não,
Mais que meio e menos que separados ?
(Macaé, aos 21 de setembro de 2008)
19.9.08
Instruções.doc
Ésquilo, aquarela de Fábio PortugalEvolução
Fecho Éclair amanheceu fechecler, brutamente.
De mansinho, cinemático virou cinema,
Que virou cine
(Que em breve vira mero I …).
A modernidade
Simplificou o vocabulário.
O amor é o contrário.
Virou namoro,
Esticou pra namesmamorada,
Embarrigou de gêmeos,
Dois filhotes no quintal.
(Poema interante do livreto "Viver e Devir", aos 12 de março de 2003)
16.9.08
Breubraillebrilho
..Ciclistas, pintura de Iberê Camargo.Palma passeando pela pele
deslizando pelo muro.
Tingindo
talhando
escrevendo no escuro.
Ponta de prego cavando sulcos.
Mão afundando no inverso
água em movimento
imagem fragmentada.
Carne acesa
...........a fogo
a ferro.
Pupila-paisagem dilatada
na face atenta
do homo faber
que habita o parapeito
da janela escancarada.
Agosto de 2008.
2.9.08
Márcia Maia
Após algum tempo afastado devido a uma carga excessiva de trabalho, retorno às boas esferas destes posts e deste mundo da poesia "nossa".
Faz umas semanas andei fuçando alguns blogs e me deparei com esta grata surpresa que é a poesia de Márcia Maia.
Troquei um e-mail com a moça, uma pernambucana muito simpática, que me autorizou a postar aqui o soneto "dança comigo?".
O soneto é profissa, pra fazer um comentário absolutamente insuficiente. As aliterações embalam o poema sem os apelos fáceis da previsibilidade que este recurso geralmente carrega.
O decassílabo é uma pequena obra prima e segue abaixo; o blog da moça já se encontra nos favoritos deste espaço e é carregado de bons poemas, além do caminho das pedras para adquirir os livros que ela já publicou.
Cerveja gelada à tarde descompromissada !
- - -
que importa no compasso além do passo
se passo-a-passo passo além da porta
que encerra qual comporta o pouco espaço
e em marca-passo irmana passo e aorta -
retorta que destila o descompasso
do corpo quando lasso se transporta
e à porta aporta feito em sangue e laço
(nenhum estardalhaço se suporta)
comporta antes ousar unir o traço
ao braço que no abraço outro conforta
e à dança desentorta em novo passo
um passo e outro passo o chão recorta
rompendo o lacre à porta e ao compasso
ao qual além do passo nada importa
(Márcia Maia)
25.8.08
Rumo ao Chile
Eu não pertenço a esses lindos dias de sol
Eu vim do negro sujo das esquinas
Eu não espero o abraço triste da minha mãe
nem o beijo da minha menina
Eu admiro mais os loucos
que essa gente vazia
que enfeitam suas vidas
com essas falsas alegrias
Não posso mais ficar aqui a viver nessa incerteza
não suporto mais o riso da tua indiferença
Quantas lágrimas precisam os meus olhos derramar
pra que um dia eles percebam o quanto vale o meu sonhar?
Eu vou cair nessa estrada ver se encontro a minha vida
vou jogar de vez nessa parada já que não tem mais saída
E quando tudo tiver fim
E quando tudo tiver fim
Eu vou fazer uma canção pra mim
Rafael Elfe e William Galdino, 2000.
18.8.08
13.8.08
Saudade
Mas lá vai um poema que escrevi de bate e pronto na tela de postagem... Valeu!
Queria andar por ruas - viélas
De mãos contigo dadas
Quimeras...
Posto que "solo" ando
Buscando em vão a felicidade
Qual é inacecível pela distância
E que devora-me em forma de ância
Quanto amor agora brota de meu peito
Que fora por fraqueza zombeteiro
Por não saber
Que um homem só
É uma nau sem remo
É laborar com nó
É um verão ameno
E tendo a certeza da alegria
Que será rever-te um dia
Sinto-me forte como a pedra
Qual "single" piso e que é rua
Onde de mãos talingadas andaremos
Conversando amenidades
Observados pela lua
*Que seja forte enquanto dure
Posto que é sincero
Que seja saudável
Posto que nos faz bem
Que seja doce, puro e cristalino
Como o açucar do seu bejo
Posto que lambuza-me por inteiro
E quando a noite me cai
De saudade me dopo
Entorpecendo o coração
**Que alegre "ma non troppo"
De pensamentos de amor
De saudades - dissabor.
Fábio dos Santos, 13 de agosto de 2008 - Florença - Itália
*baseado naquele soneto, desculaps por não recordar o nome
** Com açucar com afeto - Chico Buarque
9.8.08
Música pretérita

.............Com o movimento do mundo no peito, técnica mista s/papel,2007.
5.8.08
Heyk Pimenta
Gravura de Renina Katz2.8.08
Hemisférios
....................................................................Ivan SerpaMe aproximo de mim
o sol vibram nos meus passos.
Sinto me como um que a tudo abraçaria.
Lua branca de verão
vontade incontrolável de dançar
até que as pernas peçam descanso.
De volta ao carrossel
.... que me tonteia os sentidos
paro e sigo
o corpo permanece no giro
e os olhos turvos
.... de todas as cores que se somam até o branco.
Agarro-me numa beirada de sorriso.
....Já não estou lá , já não estou aqui.
Tudo se move
e vagam as memórias em vôos astronáuticos.
O cerne
a grande viagem
Ao ponto mais austral de seu ser,
Suas experiências passadas mais traumáticas
(As boas e as ruins)
Lanhando-lhe o equilíbrio.
A náusea surda
De ascender ao cerne,
Que neste plano
Quem pode discernir
O dentro do fora?
“É um soco no estômago
Descobrir suas lacunas”, pensou
E a revelação última
Quando descobriu
Em Deus e no diabo
A mesma e única pessoa.
Ali seu limite.
“Uma coisa é a verdade,
Outra coisa é o que se quer enxergar”
(Aos 28 de janeiro de 2006, poema integrante do tomo IV "Jesus o nazareno", do livro "Acontecente")
28.7.08
Sentado à beira mágoa os montes vejo
.....Este belo poema traz uma carga forte de angústia e tem um acabamento belíssimo.
Abraços e presença !
- - -
Sentado à beira mágoa os montes vejo,
órgãos afiados que projetam cumes
e em cujos escarpados, feros gumes
encontro a mesma corda que ora arpejo.
Facas, espadas, dardos que dardejo
contra o céu que se fecha em mil negrumes
não bastam pra calar os pesadumes
que o coração me cortam, e assim doidejo.
As armas contra a dor de nada ajudam,
a cada golpe rudes se desnudam
diversos braços novos que não venço.
E só me restam lágrimas salgadas:
com sentimento tanto assim choradas
me lavam ao menos o meu rosto tenso.
(Rafael Huguenin)
24.7.08
Viver e devir
(pintura de tinta acrílica em papel comum, 2004)A sua alopração é previsível, meu caro.
O seu desespero era esperado.
A trajetória parabólica que seus braços fazem
Enquanto você se debate,
Submerso nas suas mais úmidas dúvidas,
Do estado mais vulnerável do seu ser –
Alguém já pensou nela.
O que você se pergunta
Está no script que te entregaram, seu nome no campo "nome".
O volume de água que você chora
Já foi calculado antes.
E aí você vive sua primeira transa
(A redenção absurda do sexo),
Perde pela primeira vez um parente próximo,
Chora a primeira vez que te rejeitam,
Vê o sol se pôr a dois,
Interpreta as coisas, fica se perguntando
A validade do que foi e do por vir.
Dorme com um barulho desses, irmão.
(Do livreto "Viver e Devir, 2004. Rio de Janeiro, aos 15 de junho de 2003)
22.7.08
Uma pequena alegria
Fotomontagem,200520.7.08
Tédio

O tempo; faz de segundos milênios
E sela com o relógio convênios
Onde o ponteiro das horas empaca.
Ruminando em tal compasso isotônico
Cada instante tem duração de ano,
Superar o tédio draconiano
Exige então esforço faraônico.
A conclusão é sequer aturar
As chatices que virão te abordar:
Deixai-as pros estóicos per natura.
Que cada minuto de saco cheio
Dobra seu peso pra minuto-e-meio
Desperdiçado: lamento algum cura.
(Rio de Janeiro, aos 27 de junho de 2005)
18.7.08
Marujo
o marujo.
Enigmático,
encheu o cachimbo de chumbo,
respiro plúmbeo,
próximo
ao tanque de diesel de boreste.
Entrópico, o navio
pelos ares
em mil pedaços desiguais
picotando os mares
de carne, sangue e metais
(Macaé, aos 06 de julho de 2008)
14.7.08
Degelo
Fotomontagem, 2005.11.7.08
Essa é uma das imagens que roubei do trabalho que tenho desenvolvido em Itaboraí.
"Vidro de perfume"
De atropelo é vida
nova cuspindo
campo.
É galo engolindo prédio,
velho
olhar rasteiro e espanto.
É prédio lançando lua,
gente lançando carma,
lançando.
Vidatropelada
avenidas derrapando em bocas,
e beijos engarrafados.
Amor
engolindo vidro
pia
de rachar silêncio.
De atropelo é vida
e é a morte
secando a rua.
7.7.08
Pósmodernice

Solidão , aids , alienação.
Não restou nada. Sem deus, sem crenças políticas, sem utopias... Porra, antes ainda havia esperança. Agora só esse gosto amargo do tédio e do cansaço. Uma desvontade terrível.
Olha àquela mesa, tem alguma coisa dentro daquelas cabecinhas? Tão modernos, tão rebeldes... No café da manhã cereal e chocolate quente. Depois se fantasiam e vêm pra cá posar de artistas.
Imediatismo, é só o agora meu irmão. Salve-se quem puder .
Sexo pra salvar a noite e dar uma aliviada na manhã seguinte, mas dura pouco, depois é o vazio e a sensação tão comum de estar só. E a tarde vai caindo e procura no armário algo pra beber, a dor aumenta, aumenta e aumenta e depois explode num ‘SOCORRO!!!’
Corre pro telefone liga pra ex-namorada e diz “por favor não me abandona, eu só tenho você”
E seguimos cada qual nadando no poço de seu próprio umbigo.
A menina dos sonhos não veio. Não há espaço pra românticos neste mundo meu querido. Essa princesa que você espera foi comida pelos jacarés quando tentava fugir do castelo.
A vida é o que a gente faz dela.
Sai da torre e oferece a cara pro mundo bater.
André Luis Pontes, diário sem floreios 1997.
4.7.08
Quase topo
Abraços a todos e presença !
- - -
O pouco que consigo tocar, Deus, como é frustrante estar sempre tocando o quase-topo,
aguardando a aprovação diletante do inexistente, como um baixo grave que entrará nos
ouvidos e nunca mais sairá, permeando sua tentativa na existência de fundo musical
eterno;
E tão geograficamente próximo da escuridão mais torcionária que pode haver, a câmara
estanque do absolutamente intolerável, a piração do incompreensível, do
semanticamente absurdo, como uma gota de eletricidade que num primeiro momento
não pode ser e num segundo momento, de assalto, coça o coldre para alvejar,
massacrante como uma incessante coceira de pena na sola do pé, o campo inteiro do
seu compreendimento, a coisa mais raiz que você pode carregar, comparável em âmago
somente ao toque da boca no seio da mãe.
E a dor mais aflitiva e pungente, o não ter como, o tergiversar, o derrubar dias como peças de
dominó, a torção do caule, a delação, o bug do milênio, ninguém atinge, ninguém sabe o
que é.
A um passo da plasticidade da mercadoria, a um passo do sol no quintal, uma grande noite de
12 anos, por estar tão perto e tão longe dos dois extremos, a noite do “a um passo de”,
a busca da chave do cofre que não existe – meu deus, pode algo ser tão diabolicamente
vil a ponto de não apresentar solução cognoscível?!
A má novidade – o seu limite do horrorizante está deveras mal-acostumado, o número irracional,
a incongruência mais severa, o negativo da segurança do dia-a-dia – estão muito aquém
do que sua pequena cabeça pode admitir.
É fogo no milharal, o necessário incêndio neurótico para conseguir voltar a caminhar, manejar a
cadeira de rodas com segurança, esta sim sua nova aquisição – não que precise mas o
desejo foi mais forte, o desejo da derrota rápida e indolor mediante o vislumbre da
chance zero da vitória, o desejo de ter o nome gravado pra sempre na insignificância
mais extrema, não incomodar nem ao nível da contra-indicação, ser uma bula de um
remédio inrastreável, fabricado por, interações medicamentosas, posologia,
medicamento fitoterápico tradicional, uso oral.
Um elogio – um novo sol. As pessoas são felizes porque são limitadas. Você, não. É tudo um
estado de espírito. O homem é fruto dos seus atos.
Sai, cara, sai dessa, exorciza, esquece todos os aniversários, não compra mais o modelo, sorve
a seiva da poesia sem te agredir, sem te mutilar com a concentração de sentimento por
centímetro quadrado. Toca a tela de cristal líquido, abrindo mais uma opção que nunca
será a derradeira, explode o labirinto com o brilho dos teus olhos, chora a lágrima mais
linda que a existência já testemunhou com a doçura dos teus olhos, sobe e desce, saiba
subir e descer, sorria por saber subir, salve o sorrir por saber subir, separe o “salve o
sorrir por saber subir” do truque métrico.
Tudo passou. É triste, mas tudo passou. Não vou me matar tentando permanecer na sua vida. O
triste mais intenso, o triste de te ver mudar, de não te reconhecer mais – esse triste se
avizinhou, o triste de perder a esperança, de perder a vontade de continuar seguindo, de
continuar te admirando.
(Do livreto "Reações ao Grande Absurdo - A Palavra", parte integrante de "Acontecente", lançado em 2006)
1.7.08
São Luís baby blue

Ela os acompanhava com seus lábios de menina
e suas covas engraçadas.
Mas seus olhos traziam um fundo de tristeza.
Por buscas incessantes
Canções de despedida
e lágrimas contidas.
Naquele momento
A rasga mortalha varou o céu num grito.
Coruja branca talhando a noite.
Fenda de asas sonoras.
Acima do mercúrio
e do silêncio.
Maranhão, 2006 .
