13.4.07
Apatia
posto um pequeno conto de um grande amigo, o Fabio Alves.
há anos filosofando sobre os atalhos, desde tempos imemoriais em cabo frio, a produção literária do Fabio não tem sido muito impulsionada por ele próprio, então nada melhor que a boa diversidade, colocar em jogo o máximo possível de pensamentos e malabares de palavras.
* * *
Quando cheguei em casa havia três horas após o meio dia. Coloquei a cadeira de praia no armarinho debaixo da escada. Subi para o andar de cima com os pés sujos de areia da praia.
Não quis comer nada. Avisei à empregada que estaria no quarto, para o caso de um telefonema ou eventual visita. Tranquei a porta.
O meu quarto ficava na cobertura de um apartamento duplex defronte à praia de Ipanema, de onde tinha vista plena do Arpoador até o mirante do Leblon, do movimento das “dondocas” rebolando seus belos corpos no calçadão e dos surfistas deslizando nas ondas doiradas pelo sol cor de abóbora em seu crepúsculo vespertino. O dinheiro e as coisas belas nunca foram escassas na minha vida.
Tomei um banho quente – que ardia-me as costas bronzeada pelo sol- e saí do banheiro ainda me enxugando. Coloquei uma bermuda confortável e deitei-me na cama: A apatia.
Só o som do Rádio, o vento gelado que saía do ar-condicionado e o calor da brasa do meu cigarro repousado no cinzeiro, faziam que alguma coisa material se movesse. No mais, era tudo parado e os pensamentos confusos. Não foi a partir daquele dia que tudo começou, mas dali descobri o que me reservara a vida e o que ela havia me dado até presente o momento.
Era justamente, e apenas, tudo aquilo que ali estava: um sol, belas garotas, dinheiro e alguns poucos amigos – que não sabia sê-los verdadeiros. E isto é tudo que realmente pode-se esperar. Então, compreendi a dor que às vezes me remetia ao maxilar, os dentes rangendo e a vertigem nas noites mal dormidas de todos os dias: A aflição.
“Viverei eu assim?”, pensei.”Será que é só isso mesmo? Tem que haver algo! Tem que haver!”. Mas as coisas não aconteciam, e dia após dia a rotina se instalava em mim. A dor no maxilar aumentara, além do surgimento de calafrios – outro sinal de que as coisas não iam nada bem. Não comia; a libido se reduziu a zero. Perdi a namorada e os poucos amigos que agora sei serem falsos. Um homem num parafuso que se atarraxa cada vez mais para dentro do buraco feito pela furadeira das idéias na parede da vida.
Passei a me escorar em garrafas de uísque. Assim, comecei a distanciar-me da realidade. Era o que eu precisava! Tornei-me ébrio permanente. Mas não deixara de morder os dentes. E o álcool se tornou, para mim, como o sol e as ondas douradas do mar, como o mirante, o mendigo e o caviar. Como tudo era: colorido e sem graça.
Fui internado pelos meus tios numa clínica. Achavam-me louco e viciado em álcool. Não me opus. Não me importava.
Foi lá que comecei a tomar remédios de tarja preta. Minha dor no maxilar cessara e os pensamentos começaram a se alinhar. Tive alta da clínica.
Com o passar do tempo, descobri que toda apatia é fruto de uma certa dose tragada de revolta, mas uma revolta tranqüila – mansa. E minha vida seguiu como era antes, com exceção das pílulas que tomava pela manhã e à noite antes de dormir. Apático e revoltado com alguma coisa que eu não sabia o que era, quiçá nunca saberei.
(Fabio Alves, 2007)
8.4.07
Cânion
* * *
O berro
Da probabilidade não eleita
Sempre ecoará
No cânion do que é,
Do que foi escolhido.
Amar é tanto
A única redenção possível
Quanto o trauma inicial do Ser.
Ou
Amar é um berro
Num cânion sem eco e
É a eleição serena
Da possibilidade redentora,
O alívio único
Do trauma inicial de Ser.
(latitude Aracaju-SE, aos 7 de Abril de 2007, a bordo do PLSV Pertinacia)
6.4.07
Paquera na chuva
seus sonetos sempre simples e incisivos giram muitas vezes em torno de um sentimento agradável de paquera, leveza e serena positividade, com luz, temáticas claras e ambientes alvos.
* * *
pingos insolentes,
roubando carícias,
em pontos quentes
de curvas e malícias
como frios beijos
que provocam arrepios
e loucos desejos
em corpos macios.
e encolhendo panos
nos belos contornos
que atiçam a mente;
deste alguém que olhava
com inveja da chuva
que caiu de repente.
(Marcelo Pontes, MG)
5.4.07
Informação
* * *
Durmo.
E continuo acontecendo,
Fora do escopo
Da analitiquice incessante
Que nos tornamos.
Interiorizo
Os alimentos,
Tão dentro
Que chegam ao núcleo celular,
Em forma de informação:
Continuar,
Acontecer
A todo custo.
Acontecer é agradecer;
Estamos juntos,
Da mitocôndria
Á Via Láctea.
3.4.07
Presidente
Sou o presidente
De mim,
O residente
De mim.
Alugo minhas fibras
Do Tudo,
Com grande amor;
Aconteço sorridente,
Alegria e dor –
Sou meu presidente.
(Delft, Holanda, em março de 2007)31.3.07
Seixos ao rio
do novo livro do poeta a ser lançado a qualquer momento - ao qual felizmente tive pré-acesso, temos "Seixos ao rio"
* * *
Estou feliz, estou cantando.
Estou dançando, estou escrevendo.
Estou pensando coisas boas e lindas.
A alegrar-me na alegria de outros,
Que somadas aos meus próprios sorrisos,
Perfazem o desenho de um rio gelado,
Que corre baixinho, assoviando
Paz aos ouvidos desalmados.
Que sopre o som e refaça minha voz,
Refaça minha paz, minha harmonia,
Meu paraíso pretendido.
E se possível, como por mágica,
Construa as casas que nunca pude ter,
E o silêncio infinito que sempre quis respirar.
Permaneça a paz, o amor, e o sagrado
Do rio, a descer a passos largos e lentos.
A levar os seixos ao alcance das mãos,
Para podermos, no pôr do Sol,
Jogá-los de volta ao seu berço.
(Felipe Sandin, do livro "Poesias ao vento", 2007)
27.3.07
Câncer
________________________________________
Vagar.
Devagar,
divago à luz
do câncer.
O câncer que respiro.
O câncer que alimento.
O câncer
Que enxergo.
Orgânico.
Cresço, desenvolvo e
amadureço.
Tal o
tumor
em que me reconheço:
Escuro
Amargo
O carcinoma
O invasor.
Metástase!
Sim,
amplio os horizontes.
Consumo obsessivo.
Degenerativo, o desarranjo.
Suicida.
Essencialmente suicida.
Consome o próprio hospedeiro.
O câncer,
Deus,
O devir.
Toda a crença é homicídio.
Toda a fé é homicídio.
O hábito, é letal.
(vinicius perenha - Rituais de ver e olhar - 2003)
24.3.07
História
Apaixono-me.
Poeto-te.
Aceitas-me.
Unimo-nos.
Multiplicamo-nos.
Desaparecemos.
(Schiedam, Holanda, em 10 de março de 2007)
22.3.07
Fenômeno
Idéias não suportam o pulsar sanguíneo
E como vapores d’água que o corpo expulsa
Exilam-se no véu oculto de um sentido
Que explode em sensação, como a alma busca
Insiste em estar viva a veia latejante
O dedo já se move por vontade própria
A língua é enrolada dentro da garganta
No peito a redundância de amor e ódio
São átomos e células, tecidos e órgãos
Os músculos que estendem também se contraem
O cérebro da casa fica lá no sótão
E os sonhos são amantes que não se encontraram
Transborda o sentimento e a palavra cala
O olho lacrimeja sem ter um motivo
O pescoço se traduz como um arrepio
E o tato todo gira como uma mandala
O dente apenas morde e a ferida sangra
Aberto o apetite, sabor e aroma
vermelho traz a fome, fome traz a dança
a sede nos caninos é só um sintoma
O corpo submisso exige mais um pouco
E as unhas são a águia sobre o meu pescoço
A alma está segura pelas minhas coxas
Some o pensamento sem nenhum esforço
Agora é só o peso, e grato à gravidade
Procuro a tua boca, olhos já cerrados
Sou o universo inteiro dentro de uma flecha
Outrora eras meu alvo...agora és meu arco.
(poema integrante do livro Recortes do Tempo, lançado por andrezinho em 2007)
20.3.07
Insignificacional
Do auge de seu status sexagenário, eis que me remete a pérola "Insignificacional"... não sei ao certo se o Presença deveria abrigar os versos beligerantes deste guerrilheiro, mas em nome da diversidade aí vão.
* * *
O mais triste
É ser covarde o suficiente
Para culpar todos os demais;
Ser pomposamente incapaz
De julgar a própria ineficiência.
Continuar metralhando o sistema
E se barricarAtrás do ego.
Ou ser masoquista o suficiente
Para culpar apenas a própria inaptidão
E redimir todos os demais bostas
Desta Grande Tragédia;
Se barricar
Atrás do perdão alheio.
Oral, genital, anal…
Tua saga, isso sim,
É insignificacional.
(Afonso Nives, em 17 de outubro de 2006)
15.3.07
Anarco-significante
Vamos,
Com mais carne que boca,
Mexer as coisas.
Desafiar o consumo.
Alfinetar a vigência.
Assassinar o sentido.
Punir com ironia.
Agrupar com afinidade.
E avacalhar a teoria toda
Com cinismo.
Todo mundo junto.
Depois de cada um,
Sozinho.
(vinicius perenha)
12.3.07
Apolíneo sob as rodas
No acerto final,
O significado nas terríveis sentenças,
A ferrugem nos membros,
O vazio no arbítrio,
Precisarão de fibras impossíveis.
O absurdo em cada escolha.
Breve e irreversível
Vão, mas indizível...
Nada nos manuais
Nem uma única forma segura de agir.
Sete imprevistos e um plano.
Três palpites antes da queda.
E mais dez anos passaram;
Fobias curadas,
Fantasias no sótão,
Espaços em branco.
Árdua tarefa; reunir peças,
Concatenar vexames pretéritos
Com orgulhos vazios.
Desenterrar verdades esquecidas
(o potencial do esquecimento...),
Traições não reveladas
E medo.
Medo de olhar e encontrar a chave
Do fundo do poço que abriga
As lâminas
E mantém sob controle o dark side.
Ferramentas de cólera,
Tempos de guerra.
Breves tempestades que arrancam
Raízes
Desnecessárias
E atrelam à mecânica do olhar
Visões oriundas da finitude.
Nalgum obscuro canto
A lógica do sentido
Zela pelas sentenças do porvir.
10.3.07
Madrigais

Caros, o primeiro lançamento do selo, como já anunciado pelo prório, foi o livreto Madrigais, do Isaac. Alguns poemas do livro já estamparam as páginas do presença, mesmo antes do lançamento, mas agora o filho tem cara, e é esta que aí vai, junto a um dos poemas que mais me chamou a atenção.
Divirtam-se!
______________________________________
Desilusão
Encanto extemporâneo,
O meu que se choca
Em tua fortaleza de quês;
Na peanha teu busto cerrado,
Atribulado.
Não tarda e vejo fechares o tempo,
Em estampido de ira,
Despetalando minha cortesia,
Reduzindo-a a íon.
Feneço, entristecido,
Desaparecido - órfão.
Recolho-me ao sótão,
Respiro os versos que te dediquei -
Me pergunto onde errei,
Revejo rimas, refaço estimas,
Acalento a pequenina chama
Que inda me resta
E que para si reclama
A proximidade infesta
Da paixão que lhe inflama.
"Inexiste solução, vassalo",
Uma tua carta me versa.
Teu amor tergiversa,
Afunda-me em névoa
De angústia mordaz.
"Abdica", pede-me o coração;
"Escreve-te um foguete,
Vai-te embora para Plutão".
(Isaac Frederico)
9.3.07
Noivos
Guto irá lançar um livro por uma editora do Rio (Guto mora em SP), desconheço ainda os detalhes que envolvem este lançamento, mas desde já convido os demais "presentes" a abrir as portas das instalaçoes da Editora Presença para o estimado poeta, o que significa, talvez, a nossa cerveja de calçada e lua cheia na lapa.
presença !
* * *
Noivos
lenços anzóis
uns para cada lado
nem paralelos
nem perpendiculares
ao chão
suspenso
vão rimados no oculto
como promessas
as mãos superficiais
com medo
de furar a água
de mau jeito
trocam-se marolas
delicadas
até se deixarem corpos
desprevenidos
um do outro
luzes brancas
nas
velas da onda
refletindo infantes no equívoco
entrecaracolados
seguem lisos
do alarme
no ponto do tempo
em que podem
suas histórias fabulosas
no ápice
arfam estridências submersas
além da abóbada
celeste
do quarto que os envolve
para cansarem-se em instantes
novamente silêncios
lenços
azuis
demoras
rimados em dobra
sem destino pronto
(Guto Leite)
5.3.07
O homem que não conseguia morrer
Queria fundir-se a algo inerte. Queria deixar de ser. O peso das correntes curvava ainda mais o corpo ferido. Não lembrava qual era a cor do céu, há anos os olhos só vislumbravam o que estava abaixo de sua cabeça. Meteu nos bolsos as mãos sujas (por mais que as lavasse, elas nunca estavam limpas) e encontrou o pequeno espelho. Ao encará-lo, teve novamente diante de si uma imagem embaçada, indecifrável. E desta vez, resolveu encarar-se até o limite e assim fez até os olhos queimarem, mas de nada adiantou, os segundos a mais não lhe trouxeram novidades. Arremessou o espelho contra o chão e o que sobrou foram milhares de cacos minúsculos. Queria chorar, não conseguiu, estava seco. Agarrou com força o aço das correntes e num golpe brusco, as lançou contra o pé esquerdo. Soltou um grito assutador. O sangue manchou a calçada. Continuou a caminhar, dizendo coisas sem sentido. Ao chegar à ponte, a madeira rangeu, sob seus pés, em uma das tábuas, estava escrito uma frase: Ninguém se livra do que é. O corpo estremeceu, fechou os olhos e lançou-se ao precipício. A queda durou mais do que imaginara. Ao alcançar o solo, abriu os olhos e viu seus braços ilesos no centro da multidão. Ergueu o olhar e nada. Só haviam gargalhadas a lhe estuprarem os ouvidos.
Rio de Janeiro, abril de 2005.
3.3.07
Madrigais
lancei no dia 01 de março meu novo livreto, chamado "madrigais", uma espécie de homenagem aos poetas clássicos (na forma dos versos) e sobretudo à fantasia irrestrita, na forma dos conteúdos abordados.
na ordem numeral é meu sétimo libreto, contando os dois em parceria com o Vinícius Perenha.
vale lembrar que todos os libretos estão à disposição de quem interessar possa.
Imanifesto - Presença
Em nossa presença não será deflagrada a guerra por ou contra flâmula alguma. Nosso movimento é simples, fluido; porque consiste somente em mover-se. Se existe na empreitada algum mérito, este será então o fato de que simplesmente trocamos o que era antes pelo que é agora.
bom final de verão a todos !
1.3.07
Começou a reler a carta. A letra, tremida, trazia lágrimas em versos - versos do vice-versa da vida. E vice-versa. Enquanto suas duas mil e cinco gotas arrancadas manchavam as linhas com a tinta da caneta, ela buscava uma razão para tudo aquilo lhe acontecer. Estava apaixonada e completamente assustada. Não sabia se podia continuar vivendo aquele sentimento. Preferia não saber de algumas coisas que a carta contava. Mas estava mais tranquila por tudo ter chegado a um ponto final.
Era domingo. Dia enfadado. Vestido de preguiça, de guarda-chuvas azuis. As camisas quadriculadas no varal, misturadas à vertigem, provocavam-lhe um estado ébrio e hipnótico. Ela havia desmembrado as palavras que lera, para ficar com a parte boa das coisas – doce, acaso, merda, interessantíssimo. Sabia que não havia para onde ir. Só havia a espera. Na carta, ele explicava que tinha um plano e já estava resolvendo todos os detalhes. Ela deveria se arrumar e esperar o próximo pôr-do-sol. Seria a hora.
Helena começou a preparar sua pequena mala vermelha que havia usado em uma viagem para o interior. Pôs duas calcinhas novas, um par de meias, um livro do Llosa, poeminhas para viagem, uma fita k7 com coleções de romancinhos, um casaquinho e um par de sandálias franciscanas - as mesmas sandálias que seu amor havia lhe dado no aniversário passado. Ela queria mostrar que amava. Mostrava com as sandálias. Coisas de ser humano.
No cair da noite, ele veio no velho Fusca do pai. O motor roncava alto. Ela trancou a porta da casa e jogou fora a chave. Decidiu seguir a vida como ele havia lhe pedido nas palavras - de olhos bem fechados, apenas sentindo as coisas com o tato. Fugiu com seu padastro para longe do peito da mãe, que nunca mais soube dos dois. Com um sonífero de tarja preta, deixaram-na sonhando com os jantares das noites de sábado e os romancinhos de sofá do começo do namoro.
Rio, fevereiro de 2007.
26.2.07
Pedro Lermann
Finalmente se lhe afigurava a áurea oportunidade pela qual tanto aguardara. A efêmera e raríssima presa de seus sonhos. Atravessara seu caminho tal qual um desfile cívico, uma procissão de almas. O desastre natural mais belo e assustador de sua não pouca experiência de observador atento.
Diante da pueril sensação de regresso às indóceis paixões de sua juventude, ele, um impulsivo e possante Mangalarga, pela primeira vez, hesitou. E enquanto hesitava, não dormiu, bebeu ou jogou. Seu espírito fora completamente subjugado pelo embrião do caçador que surgia, impaciente, dolorosa e silenciosamente.
E sob os auspícios imperiosos dessa gestação, crescia, então, um soldado. Meticuloso e hábil nas sutilezas e manhas da mesa onde, então, dispusera todas as suas fichas.
...
Eis que Tibério, implacável, se acerca de Úrsula e corajosamente balbucia seu ultimato:
DEVORA-ME OU TE DECIFRO.
Ela, felina, furtivamente diz sim e deixa que o vento leve os alçapões que não foram usados.
23.2.07
Nuance
Envolta em meus braços
Um cordeiro indizível de belo,
Um sono de tal ternura,
De uma graça tal que perdura
Minha vigília insistente,
Meus olhos lassos
Ninam-te o sono
Em paixão quase demente.
Dormes.
Tua nuca trescala o perfume
Dos meus sonhos de menino.
Aperto-te a cintura
Em toque de precisa brandura,
Ronronas ao gesto sentindo,
Murmuras mimoso queixume
E dás-me a mão, alvissareira,
Maliciosamente sorrindo…
(Rio de Janeiro, 14 de dezembro de 2006)
21.2.07
o homem que ri
e vejam ali a semente da contração de todos os músculos,
no carnaval somos todos músculos e suor, contrações,
tensão, carga, descarga, relaxamento -
a fórmula do orgasmo
a hemoglobina do espasmo
o fim do carnaval e seu fogo no milharal -
ano que vem somos nós
apenas um ano mais velhos.
14.2.07
Aparição
...
* * *
Aparição
E, como só faltasse sorrires,
Sorriste;
O sorriso fulgurante
De quem domestica a fera
Pela candura,
De quem leva o razoável à loucura
Com um toque grácil,
Um trejeito airoso
Que rebomba no coração faltoso
De todo eu,
Imerso em querer-te posse.
E, como só faltasse (aconte)seres,
Foste;
Imarcescível,
Distinta,
Perjurando a premissa divina
De todos serem iguais,
Um sonho floral,
Alva e doce,
A revolução radical
Do meu tolo conceito
Do que vem a ser –
Meramente –
Perfeito.
(Rio de Janeiro, em 10 de dezembro de 2006)
13.2.07
Ponto final
usam reticências
ou mesmo ponto-e-vírgula;
Apenas os heróis
(que têm sempre
um quê de trágico)
usam ponto-final.
(Rio de Janeiro, 12 de fevereiro de 2007)
10.2.07
Jantar a dois
Ela e ele.
Casamento fracassado.
Cachorro traumatizado.
Pediram divisão de bens na entrada.
Mágoas e marcas para prato principal.
Deixaram o pedido de desculpas para sobremesa.
Mas já era tarde.
Estavam tão cheios, que só levantaram da mesa.
"Adeus Antônio".
"Adeus Tereza".
9.2.07
Passatempo
Resolveu comprar um livro. Para passar o tempo enquanto esperava por ele.
Leu na escada, enquanto ele subia ao apartamento. No ônibus, enquanto ele ouvia um som. No elevador, enquanto ele se concentrava por causa da claustrofobia. Na porta do cinema, enquanto ele discursava sobre a fotografia do filme iraniano. Na mesa da lanchonete, enquanto ele decidia o que comer para não agravar a úlcera. Na praça, enquanto ele ouvia atento o discurso político do ativista. Na rua, enquanto ele analisava a arquitetura dos prédios históricos. No ponto de ônibus, enquanto ele reclamava do estado calamitável do serviço público. No restaurante, enquanto ele pensava o que valeria a pena pedir sem ser tão caro. No táxi, enquanto ele discutia com o motorista as mazelas sociais do país. Na fila do banco, enquanto ele esbravejava por causa das tarifas abusivas. No supermercado, enquanto ele escolhia as frutas.
Leu Galeano. Neruda. Rilke. Florbela Espanca. Pessoa. Drummond. Vinícius. Kafka. Cortázar. García Márquez. Machado. Thomas Mann. Nassar. Lispector. Inês Pedrosa. Gauguin. Vargas Llosa. Saramago. Hatoum. Pedro Naves. Shakespeare. Bilac. Carpentier. Borges. Zola. Virginia Wolf. Hilda Hilst. Gutiérrez. Bukowski. Allan Poe. Norman Mailer. Baudelaire. Twain. Caio Fernando. Casimiro. Castelo Branco. Augusto dos Anjos. Flaubert. Dickens. Dostoievski. Defoe. Azevedos. Rimbaud. Balzac. Bocage. García Lorca. Victor Hugo. Byron. Dante. Goethe. Schiller. Alencar. Guimarães. Carroll. Lima Barreto. Proust. Quintana. Cervantes. Nélida Piñon. Marquês de Sade.
E o tempo passou. Um dia, ele soltou um grunido. Argumentou que, com ele, o livro, a concorrência era desleal. Ela colou os olhos amendoados por sobre a página de seu mais recente Calvino:
- Fazer o que, se é ele, o livro, que me faz projetar sonhos que nunca azedam?
4.2.07
O que não quis colher
uma poesia do Grego.
boa folia a todos !
* * *
O que não quis colher
era a flor feita estátua,
a fútil flor fingida
que adorna tua máscara,
jardim de simulacros.
Esta flor, flor anêmica,
flor de outono livresco,
traz em si todo o ranço
de uma flor feita estátua,
o que não quis colher.
1.2.07
Cara e coroa
Se estou na praia,
A um passo da sombra.
O sol torra-me o cerebelo
Se estou no deserto,
A uma eternidade do abrigo.
Equidistante camarada
De implacável inimigo.
A lua lavra-me os sonhos
Se a miro, pés no chão,
A um passo do bom-senso.
A lua assombra-me o juízo
Se nela moro - sou lunático
A milhas da sanidade habitual.
Equidistante musa
De distúrbio mental.
(Rio de Janeiro, em 10 de dezembro de 2006)
30.1.07
Wladimir Cazé
Wlad é daqueles que nasceu poeta e outro destino não poderia ter. É também um amigo de quem sinto muita falta.
Posto aqui um dos meus preferidos do Microafetos. Pra quem quiser saber mais sobre o autor e suas novidades: www.silvahorrida.blogspot.com
O lagarto-planta
"Lagarto leva o dia
tatuado nas costas,
roupa cor da pele.
Tem estilo versátil
durante a tarde toda:
réptil não se repete.
Logo ao sol que esquenta,
as vestes mais não mexe,
fica atrás da folhagem.
Mudo, quieto e terrestre,
passa para quem o vê
por ser parente de plantas.
Camuflado na grama
carcomida de escamas,
é parte da paisagem
Devagar sai da sombra
para perto da água
se sede tem de onda.
Se mestre se quer
de uma língua contrátil,
finge fome ágil,
fisga num visgo
insetos sem aviso.
Se alimenta de antenas.
Fixa o olho no céu,
comanda o desenho
imprevisto das nuvens.
através do deserto,
dirige quando a noite vem
se deitar sobre as pedras,
escorrega nas trevas
(carregado de cores)
para dentro da terra.
onde é guarnecido,
aninhada na cauda
a manhã inicia:
lagarto tem o dia".
(Wladimir Cazé, junho de 2005).
29.1.07
O torno na bancada da vida
ficou severo e menos ansioso
quis mais saúde, mais sabedoria, mais calma
e menos tempo acordado.
O mundo reconsiderou oposições
soou mais sensato e nunca mais esperneou.
Adquiriu uma face rígida, austera e às vezes sarcástica
porém mais generosa.
O mundo sonhou menos nestas últimas noites
e realizou mais – inevitavelmente
nestes últimos dias.
Esta não é, de fato, uma Terra Antiga e quiçá
possa ainda este mundo ser chamado jovem
mas amadureceu, sem dúvidas.
E hoje é menos turbulento.
Vê-se aos poucos que vai serenando.
Vê-se, que aos poucos torna-se aquilo que ninguém esperava.
O mundo mestres, envelheceu deveras
E eu duvido, e muito,
Que tenha sido só o meu.
Avante!
(Vinicius Perenha)
* * *
Um poema foda, de 2005 ou 2006.
Continuamos avante, desnecessário dizer.
A gincana bebe apenas êxitos,
ainda que repleta de fracassos.
26.1.07
Amálgama
poesia rumo a alfa-centaurus.
sensação,
frêmito pulsátil,
êxtase tátil
* * *
Cingo-te toda, o frêmito pulsátil
De teu dedicado ser, que passeia
Em meus braços, é o fator que incendeia
A nascente deste êxtase tátil.
Entrego-me na doçura insular
Da unidade total do que tu fazes
Com o que tu és, as graças loquazes
Que ecoas – a reação pupilar
Te define: tua ânsia de fluir,
Teu desejo nato de permitir
Se traduzem em teu toque saudável.
Intumesço-me em excitação pura
E o abraço genital que traz cura
Nos une em amálgama inseparável.
(Fernando de Noronha, 25 de novembro de 2006)
23.1.07
Referencial
foguete rumo ao espaço sideral .
em que coordenadas ? em que referencial ?
tou em obras ...
* * *
Referencial
Aos átomos já fazemos visitas,
Infrenes medições das mais diversas
Impostas às suas nuances catitas
Do Todo misterioso egressas.
Dos planetas mapeamos a dança,
Inclusive de Saturno os anéis
Listamos, em escrutínio que cansa –
Cascatas de informações ouropéis.
Tolejamos nosso Logos excêntrico,
Eneários compêndios quase vãos –
Destilamos orgulho antropocêntrico !
Sempre quanto, nunca quem nem o quê –
Iníquos, esquecemos dos irmãos
Minguados… e qual de nós quer saber ?
(13 de dezembro de 2006)
20.1.07
Soneto do amor roaz
estou em terra de volta e poderei voltar a postar - volto imerso na fantasia do carnaval, do nada ser, fica sentado de sacanagem...
a fantasia é o alimento, pra sempre, o combustível do nunca.
Soneto do amor roaz
Principia-se a túmida quimera
Em meu juízo cheio de bulício
Quando te toco – e tamanho suplício
É te tocar e não te ter... quisera
Submergir no púrpuro desvario
De beijar-te em edênico torpor
E apascentar este roaz amor
Que me ferve em um delírio sombrio...
De modo que, infinito, assim perdura
O desserviço de minha impostura
Até que no púlpito de alva febre
Eu consiga moer a navalhante
Distância e tenha a coragem galante
Que esta putrescível prisão me quebre.
(Recife, 27 de novembro de 2006)
15.1.07
Vamos, irmão
”Vamos, irmão … Por quê ascender tanto? Para quê?” e, por Deus, ascendeu de forma imediata; pássaros cortejavam-lhe despreocupados, na primeira camada da atmosfera terrestre, o filme aeróbico que envolve a superfície da superfície do nosso planeta. O polo setentrional mudou-lhe a direção vetorial, o meso-centro atlântico de alta pressão esqueceu-lhe e as próprias estrelas notaram por si, no intervalo semi-aberto pós-estratosférico. “Cheguei ao fundo do poço”, pensou, triste, entretanto há já longos anos ciente de que subir, por força de necessidade, é o mesmo que descer, na nossa absoluta falta de referencial cósmico e relativa lacuna de interpretação.
Era ser cognoscente de turbilhões de sensações diametralmente opostas se alternando, turbilhões de diâmetros sensacionalmente alternados se opondo e etcétera, são só palavras. Ser cognoscente e sujeito do predicado divino manifesto, menos por vontade própria que por absoluta falta de escolha, fibras encarnando e desencarnando alheias, inteira e dramaticamente alheias à vontade dos homens.
“O que verdadeiramente importa agora? Arrumar um grande objetivo condutor de todas as atitudes, catalisador de todos os esforços e posturas, ou ir tocando as pequenas coisas, aguardando o momento oportuno do grande boom …nem ao menos disto sabes, seu grandíssimo paquiderme inútil”, condenou-se, severo em demasia. “Preciso achar o balanço entre o desejo genuíno a médio prazo, passando incólume pelos desejos sectários inflamados de um momento e pela cessão completa à lógica da modernidade. As oscilações serão normais, saiba disto.”
E então abriu-se o céu encarnado, trezentos e sessenta graus de visão em seu estado de superciência e supra-cognoscência, um céu que podia ser chamado de concrético, fosse o inferno metálico, ou plúmbeo, fosse o limbo isotônico. O céu encarnado e vivo, aliterativo, flutuabilidade negativa, espasmódico em reações provocadas, plástico em seu leiaute.
Abriu-lhe o ventre, à aproximação final de seu corpo, tentação superlativa de adentrar, tentacíssima de voltar ao ventre da mãe, mas… hesitou. O magnetismo quase bipolar apresentava-lhe, entretanto, a chance de ser aquilo tudo a Grande Babilônia escravizante, chance equilátera ao ser aquilo a Redenção Derradeira, o berço das sensações ampliadas de entrega e acolhimento irrestrito.
Claudicou, olhou as horas no relógio de pulso, um desânimo latente, no geral.
Então, ascendeu a satélite, orbitou e passou-se uma época, um terreno onde se desenvolveram eventos, que abriam caminhos para novas portas, assuntos pantanosos, retórica em jaulas, caminhos pouco confortáveis, oxigênio reduzido. “Quais mil hipóteses poderiam ter sido se não fosse esta?”
Sentiu-se desconfortável, doente, moribundo; literatura densa, labirintos kafkianos, que rumo tomar, que escolhas fazer quando nenhuma postura é boa ou sólida o bastante para merecer a unanimidade do soberano conselho de juízes da sua cabeça?
Deixou-se entristecer, desconfortável, doente, nauseabundo, mais pela grande esforço que teria de efetuar que pela inevitabilidade da química da depressão, verteu uma lágrima, a única sem controle, encabeçando um grupo de todas as outras ainda represadas sob os olhos lassos, por ligações químicas fortes jorraram logo em seguida, formando riachos delicados na batimetria de seu rosto, “vamos então adiante na maratona, adiante na maratona vamos nós, pouco importa se importar, a juventude é fátua”, pegou fôlego e seguiu, aguerridamente – “o domingo não sendo santo, a segunda não dá ressaca.”
“As nuvens são de marzipan, na falta de outros materiais plausíveis de ser, e então são cortadas pelas montanhas lindas e afiadas do Pontal do Atalaia, às ordens de um certo xamã zen chamado Quem, encarnado Frederico o Lunático – respira, pega fôlego – chegamos à segunda-feira outra vez, se não santa beata, coisa de instantes atrás, a última segunda, quantas horas de sua vida você ainda vai vender? Deus é a grande pena na folha da alma, ora letras grandes (veja), ora pequenas (cegue), ora itálicas (frise), ora cirílicas (incompreenda).”
Desejou morar na Slow Europe, a versão lenta do Velho Continente, seqüelada, enrolada numa smoking de proporções rastafáricas, e admitiu em seu âmago, com expressão resignada, que pessoas que gostam de verdades mais sólidas é um grande eufemismo para pessoas que necessitam de dogmas para viver e que expressam gosto pela tragédia e torcida por acontecimentos bruscos, mal desconfiando que isso nada mais é que a manifestação implícita da vontade de mudança reprimida, tem que ser reprimida, se formos nômades e/ou reconsiderantes, como poderemos trabalhar na linha de produção da Volks, como poderemos ser esmagados na linha de produção, onde haverá de se achar as engrenagens mal-lubrificadas da Grande Máquina ?
“Isto aqui é o inferno metálico, concluo”, o ventre ansioso do céu já violeta fechando-se-lhe lentamente, escapando-lhe por entre os dedos, fenômeno de causa, ou não. Havia vento polar, há que acreditar, havia cajados à venda em Ollantaytambo, por quê não haveria de haver, de houvera, de houvesses ou haveríeis ?
As pessoas são de marzipan, por falta de material melhor, ainda que dulcíssimo, ainda que dulcíssimas, portanto.
13.1.07
Xeta
E foi lá que eu fui. Voei, flutuei, sobrevoei. Os dedos que se mexiam em forma espiral eram agora um pouco de tinta, de pinta, de pincel de madeira em verniz. Espiral de ar. Concordando com os movimentos do zéfiro, se fez um ato, uma música. Música do bam bam bam, tico taco, glena glino, hino ano, pota pota, guico guico, ram ram ram, potoc potoc. E o ato se fez bandido, banido, bajulado e abaixado. Em pequenas e grandes pernas tortas se fez o ato.
E foi lá que eu fui. Queria admirar tua flor. Queria ver teus olhos. Queria beijar teus lábios. Queria andar em teus caminhos. E foi lá que encontrei o espelho. Foi lá que entrei na água e descobri a leveza do meu corpo. Foi lá que virei criança. Foi lá.
Rio, mês 01, ano 2007.
11.1.07
As manias de Ítalo
Quando estavam juntos, Lúcia observava em Ítalo coisas que foram tornando a convivência impraticável. A maneira como ele pegava a xícara - o mindinho formando um ângulo de 45 graus com a asa. A maneira como ele lavava a louça – os pratos antes dos copos. A maneira como ele arrumava o armário - as camisas brancas misturadas às coloridas. Para ela, todas essas pequenas coisas eram absurdamente inaceitáveis.
Não sabia mais responder porque tinha se casado com ele, o desconhecido estranhamente metódico. Achava que o amor resistiria ao tempo e à má sorte. Mas as razões que justificavam o matrimônio já haviam há muito caído naquela rua, como era mesmo o nome? Desesperança.
“Alguém que gosta de feijão gelado é capaz de qualquer coisa”, pensava Lúcia. Com o passar dos meses, começou a ficar assustada, imaginando as atrocidades que Cícero poderia cometer. Mas, ainda assim, disfarçava. Para não tornar o curta-metragem do casal um filme de tolerância curta.
Em uma noite de valsa triste, ela chegou em casa e encontrou o esposo preparando um molho branco com a colher de mexer doces. Foi a gota d’água. Lúcia abriu a gaveta dos talheres e pegou a faca de carne. Chamou a atenção de Ítalo e deu o primeiro golpe, certeiro, no mindinho. “Esse você não levanta mais”. Depois foram as mãos. “Onde já se viu usar a colher dos doces para fazer molhos salgados?”. A terceira foi em um dos olhos. “Já que você não consegue diferenciar o branco das outras cores, talvez não precise de dois”.
Ítalo só perguntava a razão de toda aquela fúria. Ela respondia que tinha pavor do que ele poderia fazer com ela. Os hábitos do marido não eram os de uma pessoa normal. Ele disse que a amava. “Vá embora, Ítalo, aproveite que você ainda tem os pés”.
Foram três facadas em pontos estrategicamente escolhidos. Ela era assim mesmo – meticulosa, presa a detalhes, pormenores, ponto e vírgulas.
9.1.07
Profilaxia Profícua
Mais um do Felipe "Adbul" (alguém vai contar o pq do Abdul, afinal?) Sandin.
Segundo reza a lenda, o Isaac musicou o poema há algum tempo.
Resta saber quando vamos ouvir essa pérola.
"Sofro de uma doença gravíssima
Sintomática pela razão que dói
Diagnosticada como incompreensão aguda
Contagiante por via da falsa lógica
Contagiosa por via do falso real
Unanimidade há, quando todos discordam
Divergências sobre a origem, são insolúveis
Remedia-se pela aplicação de loucura
Anestesia-se pela confecção de poesias
Previne-se pela introjeção de entorpecentes
Opera-se definitivamente pela revolta
inconseqüente contra toda opressão humana
Pelo desprezo do ocidente
Pela arte incongruente
Profilaxia profícua somente pela
Recusa do poder
Vergonha da ganância
Exercício da brandura
Desleixo com as leis e
Fé no amor"
7.1.07
Lígia Pinheiro
Data ?????
Ir andando,
me afastar.
Me afastar ao máximo,
do máximo.
E ainda assim, dividir.
Deixar para trás o lixo
O lixo vazio que me ensinaram
que eu precisava.
E ainda assim ter o que dividir.
Deixar para trás o cenário
Mas ainda me comportar como um boneco
sempre em cena,
Marionete Pensante.
Será que consigo
não querer e ainda pertencer?
Quando as dúvidas me assolam
Nada como dividir.
Que bom quando se torna mais leve
a vida da “Marionete Pensante”.
5.1.07
A véspera
4.1.07
Até quando quiser... o devir
o ano de 2007 começou-me com este soneto do André Bentes - e com bons augúrios, portanto.
vamos tentar conseguir o espaço em santa teresa - será?
se depender da fibra e da energia motriz do "até quando quiser ... o devir", o caminho é sempre em frente...
Até quando quiser ... o devir
O olho esbugalhado vê tudo que passa
Seria redundante se não fosse outro
Seguindo adiante o tempo se escassa
O ser apavorado por ser tudo novo
Do arco e da lira, tensão permanente
Do absurdo o ente, choque das espadas
Contemplo a noite vinda como um bom lagarto
Que grato pelas pedras só observa e sente
E até quando quiser, enquanto houver desejo
Meu medo estará morto e meu olhar distante
Descubro no instante e no após esqueço
A voz no ouvido esquerdo só diz: adiante!
E rio sem moral dos que buscam começo
Percebo a gaivota e seu vôo rasante
(André Bentes, 2006)
2.1.07
Aparição
Sorriste;
O sorriso fulgurante
De quem domestica a fera
Pela candura,
De quem leva o razoável à loucura
Com um toque grácil,
Um trejeito airoso
Que rebomba no coração faltoso
De todo eu,
Imerso em querer-te posse.
E, como só faltasse (aconte)seres,
Foste;
Imarcescível,
Distinta,
Perjurando a premissa divina
De todos serem iguais,
Um sonho floral,
Alva e doce,
A revolução radical
Do meu tolo conceito
Do que vem a ser –
Meramente –
Perfeito.
(Isaac Frederico, em 10 de dezembro de 2006)
___________________________
Feliz 2007 aos colegas poetas e boêmios !
Vida longa ao Presença, com vários lançamentos previstos para o início de 2007, entre eles:
"Poemas ao vento" (Felipe Sandin),
"Levante" (Vinícius Perenha),
"Madrigais" (Isaac Frederico),
além do livreto em conjunto "Elementar" (Isaac Frederico, Vinícius Perenha e William Galdino).
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28.12.06
Renata Dantas
Ela só queria que ele aparecesse. Não queria beijo ardente. Nem pedido de casamento. Nem casal de filhos. Nem casa de praia em Angra. Só queria que ele aparecesse. Afinal de contas, havia estampado vestido novo. Salto alto nos pés. Esmalte rubro nas unhas. Batom carmim tatuado na boca. Cabelos caídos displicentes sobre os ombros nus. Seria muita desfeita...
Sentada no bar. Sozinha. Adornada com lâminas provenientes do ventrículo esquerdo, escolheu a meia sombra. Para livrar-se da desagradável sensação de que um dia sentiria o odor forte de enxofre e o estalido dos relhos estridentes do inferno.
Com um dedo, ordenou cerveja. Com dois, pediu cigarro ao rapaz na mesa ao lado. Nem fumava, mas ajudava a passar o tempo. "Garçom, outra cerveja, por favor!". E assim ela ficou durante algumas horas. Pedindo cerveja ao garçom, cigarro ao rapaz da mesa ao lado.
O pôr do sol ansioso começou a se espalhar. Banhou-se de crepúsculo para ter a tez cor de cobre e a boca malignamente em chamas. Mas ela sabia que devia ir. Já estava sem os sapatos. A roupa tinha sido colorida com a cerveja. O batom estava borrado. As unhas vermelhas, ruídas. Ele não viera – nem a passos curtos e lentos.
Voltou pra casa querendo quebrar o relógio. Queimar o calendário. Era seu aniversário. Ela tinha tanto. Ela teria. Ela teve um ter de haver havido e sonhar ávido. E ele havia passado por suas veias de poucas hemácias com tanta força que ela ainda sentia a fraqueza da falta do sangue jorrado.
Na manhã seguinte, acordou rápido, embevecida. Não fosse a esquina, teria tido um sono de paz imaculada. Mas sorteou ressaca das grandes. Decidiu comprar o jornal. "Sempre tem alguém que teve uma noite pior que a sua". Foi até a banca, pagou o do dia e uma carteira de cigarros. O jornaleiro: "Moça, cigarro mata". "Não" – disse ela - "o que mata é esperar".
24.12.06
Ar
(Suspiro)
(Suspiro)
O sopro boreal principia
O ataque medular ao meu controle:
O aluvião de memórias
Faz transbordar o copo –
E sento
E escrevo
E suspiro…
Tanto quanto água
Sou ar – ou antes
Não sou sem ar,
O éter da Terra,
O nada substante,
Laje do Reino dos Céus.
Decúbito em seu berço,
Desejaria voar,
Deambular livre
Das terrenas torturas,
Ingravitar
Por saber-me atravessado
De ar.
Os brônquios agradecidos…
As nuvens dos sonhos…
As brisas cisplatinas –
O aroma !
E desde o marco zero
A espera pelo retiro,
O acerto final
E o último… suspiro.
(Isaac Frederico, em 11 de dezembro de 2006)
23.12.06
Natureza
tentam colher a realidade.
O ácido da amada corroeu meu equilíbrio.
O orgulho trincou me as lágrimas.
E tudo na tarde é um quase ser,
um quase conseguir.
Tentativa vã de decifrar angústias.
Uma página lembrada de Rilke.
Uma vontade assassinada.
Abandono à inércia,
e salto na inconstância dos dias.
Um beijo na boca da ironia
(ela ainda consegue nos salvar).
Explode uma risada.
Humano,
tolamente humano.
Março de 2004.
16.12.06
Anatomia de um conflito
Que posso eu esperar,
Se
Deste teu olhar oblíquo e dissimulado –
Mal ancorado entre o riso e esta
Seriíssima ruga –
Cuja ranhura mais me prende que assusta,
Cujo vazio mais me instiga que envolve,
Não prevejo o que vai roubar-me;
Se
Ao preencher-te tenho a plácida
Ciência de que o mosaico que formarão as palavras
Será a prova de teu crime hediondo.
E, por fim,
Essa será parte tão primitiva de mim
Que me livrar da culpa provocará um doloroso remorso?
Que posso eu dizer,
Se
Tuas artimanhas levam a forma do meu cinismo;
E teu cinismo o benefício da minha angústia;
E tua angústia o receio pelo meu reinado;
E teu reinado a indiferença pela minha alma;
Se
O tumulto dos meus pensamentos
Enlaça tão bem o seu corpo;
E minha pólvora, ao revestir-se da tua brancura,
Explode naturalmente a muralha
Do mais medíocre entre os meus temores?
Que posso eu, doravante, considerar exclusivamente meu,
Se
Neste duelo no qual te encaro e me desmorono
Naufrago sempre junto a ti;
E renasço tão outro
que não sei onde termino eu e onde começas tu;
Se
Meu mundo tece as sombras que rabisco sobre teu relevo
E teu relevo ilumina o breu de onde saem esses seres
Híbridos, pluriformes;
Fotografias infiéis das desavenças e harmonias
Que tivemos,
Nós,
Poeta e papel.
Amotinados de tão parcas possibilidades?
(Vinicius Perenha – dezembro de 2006)
15.12.06
Crônico
Lápis é carvão,
Balão é ar,
Praia é areia
Com mar, que é vida,
Papel é árvore,
Ninho é cria,
Sono é sonho,
Circo é fantasia.
Eu sou amor de epidemia,
Crônico por você –
Que é poesia.
(Isaac Frederico, em 10 de dezembro de 2006)
12.12.06
Rafael "Grego"
Bebendo na fonte camoniana de não separar quartetos e tercetos, Grego mete um soneto alucinante atrás do outro, revirando sensações nem sempre floridas.
Vai aqui um antigo, inflamável.
_________________________________________
NO VENTRE DO VERÃO
No ventre do verão sem calma ou vento,
não tive a quem gritar. O sol queimante,
o suor, a febre, o espasmo delirante
secava em todo peito todo intento.
Era Dezembro, o mês do fingimento.
As ruas eu cruzava em pranto andante,
espremido entre a massa e o cru cimento,
sem ninguém que me ouvisse o grito arfante.
Em meio à gente tanta, solitário,
no ventre do verão incinerário
queimava os pés no solo e a pele no ar.
E em todos os rostos um sorriso,
tão belo, tão bonito e tão preciso
com prazo até Janeiro pra pagar.
(Rafael Huguenin, desconheço a data...)
10.12.06
Rafael Elfe
Eu que diria de tuas falas esmaecidas
Mil chuvas cobrindo na janela à vista cinza
Eu que diria das manhãs voltando da escola
E em tua boca fina o cigarro pendurado,
fantasmas na fumaça - miasmas
E minha mãe à milhas dali, num escritório fundo.
Que diria de tuas roupas, a fossa no quintal
Eu tive um castelo aos pés do muro
Funeral de um playmobil e duas bolas de gude.
O que dirão delas?
O que diria teus cabelos sob o lenço, arredios?
Os guaranis berravam em teus olhos!
Índios de palavras tão doces quanto tuas ordens;
E eu me perdia com a vizinha atrás da casa...
À tardinha o café tão preto e solitário
e o pão sem manteiga...
O que diria desse gosto?
Era desgosto, e gosto afincados
Trancafiava tuas horas em mim, ai vó!
Eles sabem o que eu sinto, mas não me entendem.
O que diriam de você e suas velhas coisas
em suas velhas caixas sobre o armário de mogno
antigo?
Eles não sabem o que você sentiu àquela noite
vendo a casa ir abaixo... eles souberam nos jornais.
Souberam na patrulha do rádio, que ouvias pela
casa...
O vizinho de cima, Clóvis, o diabo em pele...
ateara fogo ao corpo, e esfaqueara a mulher...
Hoje os filhos são pastores - cheiro de carne humana
queimando.
As peles sobre o cimento riscado da cisterna.
Um punhal quase acerta o Zé.
Eu me lembro...
E o medo das noites de estrelas?
Algum ovni pousara naquele morro... à esquerda.
Enquanto, imóveis, dois móveis, sofás
dentro da sala pequena
em paredes pintadas de cal e xadrez azul,
gritavam a agonia de uma vida cheia de ínfimas
alegrias.
Lembro da moeda que engoli, ou bala soft?
Quanta falta de ar vó!
A senhora ainda me ouve?
E o telhado?
Ainda florindo o negro musgo?
Passei a infância ali de cima,
observando o mundo.
- Rafael!! Vem tomar banho! - e eu descia por uma
madeira oca e cheia de pregos...
Que diriam de mim vó?
A senhora, Ercília, nome tão lindo!
- "Bença" vó?
- Deus te abençoe...
Dá pra ser?
Dá pra sermos naturais?
Ou precisamos registrar em cartório?
Só quero um abraço,
Uma encostada, uma troca
De amor físico, permitido,
De fluir per si.
Dá pra ser?
Um curtir sem faina,
Sem-vergonha de bom,
Com respeito e fácil,
Satisfeitor,
Sem a culpa portátil
Do ter que ?
Pode ser?
Dá pra ser delícia
De 500ml
Sem a McSuplícia
Da culpa que repele?
Eu só preciso de você
O quanto você precisa de mim,
Você tão flor,
Tão linda, tão tesão-nato,
Eu tão seu, tão vai, tão vem,
Quase lácteo
Em minhas intenções,
Quase lácteo, quase lácteo, quase lá….
Aaaaaah !!!!
Dá pra ser, bebê?
Um abraço fraterno,
Um toque mútuo,
Um seio materno
Ou melhor,
Ambos os seios maternos,
Quase pintados, de tão perfeitos –
Não tenha receio!
Dá pra ser?
Dá pra me notar,
Eu tão louco por um abraço,
Um conquistador barato
Mas honesto
E louco de amor … ?
Dá pra ser?
Ou precisa de escrivão?
Pode ser o sim
Ao invés do não … ?
(Isaac Frederico, em 10 de dezembro de 2006)
8.12.06
hégira
este postema não é de ler,
é de ver.
espero que curtam.
abraço-abraço,
rafael.
_ _ _
hégira, 2006.
impressão eletrônica sobre papel,
1,60x1,05 m.
7.12.06
Mercadores da peste
a impotência orgástica é a incapacidade de sentir troca no tento sexual.
os frustrados são rijos, mecânicos,
invejosos, sentem necessidade de punir
e, mais importante, de seguir as regras, necessárias para suas vidas inertes.
necessitam que um líder lhes diga o que se pode ou não fazer.
a impotência orgástica é oriunda de uma profunda repressão, quando crianças,
de sua sexualidade, de seus gestos naturais, de seu choro e sua euforia.
a descarga bioelétrica fica impedida pelo encouraçamento muscular oriundo disso.
o impedimento do fluxo da carga bioelétrica acarreta frustração.
_________________________
Mercadores da peste
Mercadores da peste! Seus versículos
Aguardam o messias que revogue
A condição de carcaça no açougue
De seus vis corpos, rijos. Os testículos
Adiposos de toda autoridade
Lambem, em afã de uma direção
Que lhes diga quando acatar ou não
As regras de que têm necessidade.
A inércia de seu tento sexual
Lhes imprime um ódio seminal
Ao curso saudável das vidas sãs
E armados de suas fainas moralistas
(As quais pintam com tintas progressistas)
Vivem, flácidos, existências vãs.
(Isaac Frederico, em 25 de novembro de 2006)
5.12.06
Reflexões do Interior
posto aqui mais uma poesia do Leonardo Schuery, cujos escritos retratam, entre outros, o embate tão presente da fantasia com o real, que é responsável por desdobramentos dos mais intensos na personalidade de cada um de nós.
Muito desse embate se dá nas relações sensuais das pessoas (amigos(as), namorados(as), parentes) e os escritos do Leo redimem na medida em que nos fornecem pistas e análises para compreender melhor como se processa a coisa.
"Os sonhos que consomem a Vida..."
Reflexões do Interior
De acordo estamos então
Você olha, eu vou e você diz não
O roteiro preparado
Personagens etéreos aspirados pelo ar cansado
Vai dizer que não ?
No adágio do meu passo, a sua inquietude
Fragmentando a realidade
E constituindo nada, nada não
É a dialética tácita em vão
Vão de vazio mesmo
Desprovido de qualquer ão
Vai de quê agora ?
A tua diversidade insípida
Manifestos em gestos infestos
Que refletem meu vazio
Nesga de Vida do interior
Pródigos em expressões tépidas de amor
Mas não tem nada não
A tergiversação é consentida
Sustenta os sonhos que consomem a Vida
Mitigando a dor do real
E não há ubiquação alguma
Suma !
Eu falo para dentro.
(Leonardo Schuery, em 22 de maio de 2006)
4.12.06
Da vida
Fechou a porta atrás de si. Inebriou-se com o cheirando a guardado que reinava no cômodo antigo. Ensaiou passos trôpegos em direção à cama. Sentou-se delicada na beira do velho móvel de madeira escura. Como que não querendo despertar aquela que ali repousava.
No centro do colchão gasto, aquele peso afundava a espuma já sem força. Pôs suas mãos rosadas sobre a outra pele – pálida como a morte. Observou indiferente as unhas amareladas e compridas. O cabelo gasto. A boca enrugada e sem dentes. Os olhos descansando cerrados. As mãos unidas em forma de oração. A pele flácida depois dos anos. Pouco tinham se visto. Mas agora se sabiam mudas. Íntimas no silêncio imperativo. Atravessadas pelo fio de vida.
Não proferiu sentimento. Tomou o estilete na mão. Despedaçou a roupa que cobria o corpo de sua companhia com uma força violenta. Não rasgou uma lágrima sequer. Jogou fora os trapos impregnados pela naftalina. Abandonou a lâmina. Pulsou vida para brincar de boneca com a tépida presença. Com seu toque de sangue quente, revestiu aquele peito nu e vazio. A camisa era aquela que esperou as grandes ocasiões que nunca vieram. Vestiu, uma por uma, as pernas frias dentro da calça alva. E os pés magros, um por um, dentro das meias. Fez alinhados os fios e faceira as maçãs.
Não cogitou a dor. Ou o remorso por não supor a dor. Desaguou em sequidão. Sobrava ainda um pouco de café. Restavam alguns cigarros. A vela do Santo que não tinha sido acesa. E uma sensação inóspita que não cabia no quarto apertado. Logo depois ligou para a funerária.
Rio, 04/12/2006.
2.12.06
Descanso
Dia de chuva fina,
chatinha que não quer passar.
Vou saltando poças.
Olhando as pernas grossas
da comedora de pastel
Sentindo uma proximidade maior das coisas
Reparando o olhar dos passantes encasacados
que nesses dias frios parecem mais frágeis
mais humanos.
Caminho em calma
num dia
em que nenhum xingamento me alteraria o humor.
Calmo
dentro da calma da chuva preguiçosa.
E nesta serenidade cada vez mais rara
em meio a tanto prédio e passo rápido
Ouço um ; - Boa tarde meu jovem.
Outra vez , mais acentuado
- Boa tarde meu jovem.
E reparo que se dirige a mim
Olho pro lado
e vejo o guardador de carros dizer mais uma vez
-Boa tarde meu jovem.
Retribuo o sorriso e respondo
-Boa tarde.
Julho de 2005.
rafael saraiva
meu forte não é a rima,
mas prometo que vou me esforçar.
como entrei por último, posso ficar no gol.
honrado com o presente-convite,
por hora vou de:
espiral
sonho helicoidal
de rima ritual
primogênito desafio
que estoura ao infinito
a sinopse do tudo não pára
é a vida em dois fios
que corre e corre e voa
mas volta
na hipnótica revolução
do áureo sempre-pra-sempre
labirinto espiral
rio, novembro ‘06
_ _ _
1.12.06
A Arte do Iludir-se
Já temos um time: quatro na linha e um no gol.
Bem-vindo mermão.
________________________________
A Arte do Iludir-se
A maior invenção do homem
É a imaginação.
Imagine o mundo sem
Anarquistas
Separatistas
Imperialistas
Nacionalistas
Franciscanos - niilistas
Marxistas - freudianos
E
Seus aforismos
Seus anarquismos
Separatismos
Imperialismos
Nacionalismos
Niilismos
E
Os demais exercícios
Dessa façanha.