13.2.07

Ponto final

As pessoas comuns
usam reticências
ou mesmo ponto-e-vírgula;
Apenas os heróis
(que têm sempre
um quê de trágico)
usam ponto-final.

(Rio de Janeiro, 12 de fevereiro de 2007)

10.2.07

Jantar a dois

Sentaram à mesa.
Ela e ele.
Casamento fracassado.
Cachorro traumatizado.
Pediram divisão de bens na entrada.
Mágoas e marcas para prato principal.
Deixaram o pedido de desculpas para sobremesa.
Mas já era tarde.
Estavam tão cheios, que só levantaram da mesa.
"Adeus Antônio".
"Adeus Tereza".

9.2.07

Passatempo

(da série "dos que não estão à altura", mas, enfim, só pra dar uma movimentada aqui).


Resolveu comprar um livro. Para passar o tempo enquanto esperava por ele.

Leu na escada, enquanto ele subia ao apartamento. No ônibus, enquanto ele ouvia um som. No elevador, enquanto ele se concentrava por causa da claustrofobia. Na porta do cinema, enquanto ele discursava sobre a fotografia do filme iraniano. Na mesa da lanchonete, enquanto ele decidia o que comer para não agravar a úlcera. Na praça, enquanto ele ouvia atento o discurso político do ativista. Na rua, enquanto ele analisava a arquitetura dos prédios históricos. No ponto de ônibus, enquanto ele reclamava do estado calamitável do serviço público. No restaurante, enquanto ele pensava o que valeria a pena pedir sem ser tão caro. No táxi, enquanto ele discutia com o motorista as mazelas sociais do país. Na fila do banco, enquanto ele esbravejava por causa das tarifas abusivas. No supermercado, enquanto ele escolhia as frutas.

Leu Galeano. Neruda. Rilke. Florbela Espanca. Pessoa. Drummond. Vinícius. Kafka. Cortázar. García Márquez. Machado. Thomas Mann. Nassar. Lispector. Inês Pedrosa. Gauguin. Vargas Llosa. Saramago. Hatoum. Pedro Naves. Shakespeare. Bilac. Carpentier. Borges. Zola. Virginia Wolf. Hilda Hilst. Gutiérrez. Bukowski. Allan Poe. Norman Mailer. Baudelaire. Twain. Caio Fernando. Casimiro. Castelo Branco. Augusto dos Anjos. Flaubert. Dickens. Dostoievski. Defoe. Azevedos. Rimbaud. Balzac. Bocage. García Lorca. Victor Hugo. Byron. Dante. Goethe. Schiller. Alencar. Guimarães. Carroll. Lima Barreto. Proust. Quintana. Cervantes. Nélida Piñon. Marquês de Sade.

E o tempo passou. Um dia, ele soltou um grunido. Argumentou que, com ele, o livro, a concorrência era desleal. Ela colou os olhos amendoados por sobre a página de seu mais recente Calvino:

- Fazer o que, se é ele, o livro, que me faz projetar sonhos que nunca azedam?
Rio, janeiro de 2007

4.2.07

O que não quis colher

aloha presença !
uma poesia do Grego.
boa folia a todos !

* * *

O que não quis colher
era a flor feita estátua,
a fútil flor fingida
que adorna tua máscara,
jardim de simulacros.
Esta flor, flor anêmica,
flor de outono livresco,
traz em si todo o ranço
de uma flor feita estátua,
o que não quis colher.

1.2.07

Cara e coroa

O sol cresta-me a pele
Se estou na praia,
A um passo da sombra.

O sol torra-me o cerebelo
Se estou no deserto,
A uma eternidade do abrigo.

Equidistante camarada
De implacável inimigo.

A lua lavra-me os sonhos
Se a miro, pés no chão,
A um passo do bom-senso.

A lua assombra-me o juízo
Se nela moro - sou lunático
A milhas da sanidade habitual.

Equidistante musa
De distúrbio mental.


(Rio de Janeiro, em 10 de dezembro de 2006)

30.1.07

Wladimir Cazé

Conheci o Wlad em 2004, quando ele foi em Campinas lançar o folheto de cordel "A Filha do Imperador que foi morta em Petrolina" - que eu recomendo muitíssimo. Essa foi a primeira publicação do Wlad pelas Edições K, selo criado por um coletivo de escritores, do qual ele faz parte. Depois ele lançou suas poesias reunidas no "Microafetos", em 2005.
Wlad é daqueles que nasceu poeta e outro destino não poderia ter. É também um amigo de quem sinto muita falta.
Posto aqui um dos meus preferidos do Microafetos. Pra quem quiser saber mais sobre o autor e suas novidades: www.silvahorrida.blogspot.com

O lagarto-planta

"Lagarto leva o dia
tatuado nas costas,
roupa cor da pele.

Tem estilo versátil
durante a tarde toda:
réptil não se repete.

Logo ao sol que esquenta,
as vestes mais não mexe,
fica atrás da folhagem.

Mudo, quieto e terrestre,
passa para quem o vê
por ser parente de plantas.

Camuflado na grama
carcomida de escamas,
é parte da paisagem

Devagar sai da sombra
para perto da água
se sede tem de onda.

Se mestre se quer
de uma língua contrátil,
finge fome ágil,

fisga num visgo
insetos sem aviso.
Se alimenta de antenas.

Fixa o olho no céu,
comanda o desenho
imprevisto das nuvens.

através do deserto,
dirige quando a noite vem
se deitar sobre as pedras,

escorrega nas trevas
(carregado de cores)
para dentro da terra.

onde é guarnecido,
aninhada na cauda
a manhã inicia:

lagarto tem o dia".

(Wladimir Cazé, junho de 2005).

29.1.07

O torno na bancada da vida

O mundo passou mais devagar depois de alguns anos
ficou severo e menos ansioso
quis mais saúde, mais sabedoria, mais calma
e menos tempo acordado.

O mundo reconsiderou oposições
soou mais sensato e nunca mais esperneou.
Adquiriu uma face rígida, austera e às vezes sarcástica
porém mais generosa.

O mundo sonhou menos nestas últimas noites
e realizou mais – inevitavelmente
nestes últimos dias.

Esta não é, de fato, uma Terra Antiga e quiçá
possa ainda este mundo ser chamado jovem
mas amadureceu, sem dúvidas.
E hoje é menos turbulento.
Vê-se aos poucos que vai serenando.
Vê-se, que aos poucos torna-se aquilo que ninguém esperava.
O mundo mestres, envelheceu deveras
E eu duvido, e muito,
Que tenha sido só o meu.

Avante!

(Vinicius Perenha)

* * *

Um poema foda, de 2005 ou 2006.
Continuamos avante, desnecessário dizer.
A gincana bebe apenas êxitos,
ainda que repleta de fracassos.

26.1.07

Amálgama

aloha poesia !
poesia rumo a alfa-centaurus.
sensação,
frêmito pulsátil,
êxtase tátil

* * *

Cingo-te toda, o frêmito pulsátil
De teu dedicado ser, que passeia
Em meus braços, é o fator que incendeia
A nascente deste êxtase tátil.

Entrego-me na doçura insular
Da unidade total do que tu fazes
Com o que tu és, as graças loquazes
Que ecoas – a reação pupilar

Te define: tua ânsia de fluir,
Teu desejo nato de permitir
Se traduzem em teu toque saudável.

Intumesço-me em excitação pura
E o abraço genital que traz cura
Nos une em amálgama inseparável.

(Fernando de Noronha, 25 de novembro de 2006)

23.1.07

Referencial

fogo no milharal !
foguete rumo ao espaço sideral .
em que coordenadas ? em que referencial ?
tou em obras ...

* * *

Referencial

Aos átomos já fazemos visitas,
Infrenes medições das mais diversas
Impostas às suas nuances catitas
Do Todo misterioso egressas.

Dos planetas mapeamos a dança,
Inclusive de Saturno os anéis
Listamos, em escrutínio que cansa –
Cascatas de informações ouropéis.

Tolejamos nosso Logos excêntrico,
Eneários compêndios quase vãos –
Destilamos orgulho antropocêntrico !

Sempre quanto, nunca quem nem o quê
Iníquos, esquecemos dos irmãos
Minguados… e qual de nós quer saber ?

(13 de dezembro de 2006)

20.1.07

Soneto do amor roaz

aloha presença !
estou em terra de volta e poderei voltar a postar - volto imerso na fantasia do carnaval, do nada ser, fica sentado de sacanagem...
a fantasia é o alimento, pra sempre, o combustível do nunca.

Soneto do amor roaz

Principia-se a túmida quimera

Em meu juízo cheio de bulício

Quando te toco – e tamanho suplício

É te tocar e não te ter... quisera

Submergir no púrpuro desvario

De beijar-te em edênico torpor

E apascentar este roaz amor

Que me ferve em um delírio sombrio...

De modo que, infinito, assim perdura

O desserviço de minha impostura

Até que no púlpito de alva febre

Eu consiga moer a navalhante

Distância e tenha a coragem galante

Que esta putrescível prisão me quebre.

(Recife, 27 de novembro de 2006)


15.1.07

Vamos, irmão

”Vamos, irmão … Por quê ascender tanto? Para quê?” e, por Deus, ascendeu de forma imediata; pássaros cortejavam-lhe despreocupados, na primeira camada da atmosfera terrestre, o filme aeróbico que envolve a superfície da superfície do nosso planeta. O polo setentrional mudou-lhe a direção vetorial, o meso-centro atlântico de alta pressão esqueceu-lhe e as próprias estrelas notaram por si, no intervalo semi-aberto pós-estratosférico. “Cheguei ao fundo do poço”, pensou, triste, entretanto há já longos anos ciente de que subir, por força de necessidade, é o mesmo que descer, na nossa absoluta falta de referencial cósmico e relativa lacuna de interpretação.

Era ser cognoscente de turbilhões de sensações diametralmente opostas se alternando, turbilhões de diâmetros sensacionalmente alternados se opondo e etcétera, são só palavras. Ser cognoscente e sujeito do predicado divino manifesto, menos por vontade própria que por absoluta falta de escolha, fibras encarnando e desencarnando alheias, inteira e dramaticamente alheias à vontade dos homens.

“O que verdadeiramente importa agora? Arrumar um grande objetivo condutor de todas as atitudes, catalisador de todos os esforços e posturas, ou ir tocando as pequenas coisas, aguardando o momento oportuno do grande boom …nem ao menos disto sabes, seu grandíssimo paquiderme inútil”, condenou-se, severo em demasia. “Preciso achar o balanço entre o desejo genuíno a médio prazo, passando incólume pelos desejos sectários inflamados de um momento e pela cessão completa à lógica da modernidade. As oscilações serão normais, saiba disto.”

E então abriu-se o céu encarnado, trezentos e sessenta graus de visão em seu estado de superciência e supra-cognoscência, um céu que podia ser chamado de concrético, fosse o inferno metálico, ou plúmbeo, fosse o limbo isotônico. O céu encarnado e vivo, aliterativo, flutuabilidade negativa, espasmódico em reações provocadas, plástico em seu leiaute.

Abriu-lhe o ventre, à aproximação final de seu corpo, tentação superlativa de adentrar, tentacíssima de voltar ao ventre da mãe, mas… hesitou. O magnetismo quase bipolar apresentava-lhe, entretanto, a chance de ser aquilo tudo a Grande Babilônia escravizante, chance equilátera ao ser aquilo a Redenção Derradeira, o berço das sensações ampliadas de entrega e acolhimento irrestrito.

Claudicou, olhou as horas no relógio de pulso, um desânimo latente, no geral.

Então, ascendeu a satélite, orbitou e passou-se uma época, um terreno onde se desenvolveram eventos, que abriam caminhos para novas portas, assuntos pantanosos, retórica em jaulas, caminhos pouco confortáveis, oxigênio reduzido. “Quais mil hipóteses poderiam ter sido se não fosse esta?”

Sentiu-se desconfortável, doente, moribundo; literatura densa, labirintos kafkianos, que rumo tomar, que escolhas fazer quando nenhuma postura é boa ou sólida o bastante para merecer a unanimidade do soberano conselho de juízes da sua cabeça?

Deixou-se entristecer, desconfortável, doente, nauseabundo, mais pela grande esforço que teria de efetuar que pela inevitabilidade da química da depressão, verteu uma lágrima, a única sem controle, encabeçando um grupo de todas as outras ainda represadas sob os olhos lassos, por ligações químicas fortes jorraram logo em seguida, formando riachos delicados na batimetria de seu rosto, “vamos então adiante na maratona, adiante na maratona vamos nós, pouco importa se importar, a juventude é fátua”, pegou fôlego e seguiu, aguerridamente – “o domingo não sendo santo, a segunda não dá ressaca.”

“As nuvens são de marzipan, na falta de outros materiais plausíveis de ser, e então são cortadas pelas montanhas lindas e afiadas do Pontal do Atalaia, às ordens de um certo xamã zen chamado Quem, encarnado Frederico o Lunático – respira, pega fôlego – chegamos à segunda-feira outra vez, se não santa beata, coisa de instantes atrás, a última segunda, quantas horas de sua vida você ainda vai vender? Deus é a grande pena na folha da alma, ora letras grandes (veja), ora pequenas (cegue), ora itálicas (frise), ora cirílicas (incompreenda).”

Desejou morar na Slow Europe, a versão lenta do Velho Continente, seqüelada, enrolada numa smoking de proporções rastafáricas, e admitiu em seu âmago, com expressão resignada, que pessoas que gostam de verdades mais sólidas é um grande eufemismo para pessoas que necessitam de dogmas para viver e que expressam gosto pela tragédia e torcida por acontecimentos bruscos, mal desconfiando que isso nada mais é que a manifestação implícita da vontade de mudança reprimida, tem que ser reprimida, se formos nômades e/ou reconsiderantes, como poderemos trabalhar na linha de produção da Volks, como poderemos ser esmagados na linha de produção, onde haverá de se achar as engrenagens mal-lubrificadas da Grande Máquina ?

“Isto aqui é o inferno metálico, concluo”, o ventre ansioso do céu já violeta fechando-se-lhe lentamente, escapando-lhe por entre os dedos, fenômeno de causa, ou não. Havia vento polar, há que acreditar, havia cajados à venda em Ollantaytambo, por quê não haveria de haver, de houvera, de houvesses ou haveríeis ?

As pessoas são de marzipan, por falta de material melhor, ainda que dulcíssimo, ainda que dulcíssimas, portanto.

Isaac Frederico, no livro II da série Acontecente, de 2006.

13.1.07

Xeta

E foi lá que eu fui. Cacei, andei, rastejei. Os olhos tristes da vespa faminta em busca de um alimento. Alimentei a minha fome de sangue. Alimentei a minha fome. Minha sede de sangue. Meu sangue de fome. Seca da vida. Vida seca. Da minha espingarda saiu um girassol que se atirou em seu destino absurdo pelo mundo obscuro e por um mar de curiosos. O girassol girou bandido. Mas se fez de surdo quando alguém lhe chamou de sol. Ato, cato, rato, mato, o fraco tato do tatu tarado se desfez em maços de cigarros curtos de palha rala.

E foi lá que eu fui. Voei, flutuei, sobrevoei. Os dedos que se mexiam em forma espiral eram agora um pouco de tinta, de pinta, de pincel de madeira em verniz. Espiral de ar. Concordando com os movimentos do zéfiro, se fez um ato, uma música. Música do bam bam bam, tico taco, glena glino, hino ano, pota pota, guico guico, ram ram ram, potoc potoc. E o ato se fez bandido, banido, bajulado e abaixado. Em pequenas e grandes pernas tortas se fez o ato.

E foi lá que eu fui. Queria admirar tua flor. Queria ver teus olhos. Queria beijar teus lábios. Queria andar em teus caminhos. E foi lá que encontrei o espelho. Foi lá que entrei na água e descobri a leveza do meu corpo. Foi lá que virei criança. Foi lá.

Rio, mês 01, ano 2007.

11.1.07

As manias de Ítalo

Foram três facadas em pontos estrategicamente escolhidos. Ela era assim mesmo – meticulosa, presa a detalhes, pormenores, ponto e vírgulas.
Quando estavam juntos, Lúcia observava em Ítalo coisas que foram tornando a convivência impraticável. A maneira como ele pegava a xícara - o mindinho formando um ângulo de 45 graus com a asa. A maneira como ele lavava a louça – os pratos antes dos copos. A maneira como ele arrumava o armário - as camisas brancas misturadas às coloridas. Para ela, todas essas pequenas coisas eram absurdamente inaceitáveis.
Não sabia mais responder porque tinha se casado com ele, o desconhecido estranhamente metódico. Achava que o amor resistiria ao tempo e à má sorte. Mas as razões que justificavam o matrimônio já haviam há muito caído naquela rua, como era mesmo o nome? Desesperança.
“Alguém que gosta de feijão gelado é capaz de qualquer coisa”, pensava Lúcia. Com o passar dos meses, começou a ficar assustada, imaginando as atrocidades que Cícero poderia cometer. Mas, ainda assim, disfarçava. Para não tornar o curta-metragem do casal um filme de tolerância curta.

Em uma noite de valsa triste, ela chegou em casa e encontrou o esposo preparando um molho branco com a colher de mexer doces. Foi a gota d’água. Lúcia abriu a gaveta dos talheres e pegou a faca de carne. Chamou a atenção de Ítalo e deu o primeiro golpe, certeiro, no mindinho. “Esse você não levanta mais”. Depois foram as mãos. “Onde já se viu usar a colher dos doces para fazer molhos salgados?”. A terceira foi em um dos olhos. “Já que você não consegue diferenciar o branco das outras cores, talvez não precise de dois”.
Ítalo só perguntava a razão de toda aquela fúria. Ela respondia que tinha pavor do que ele poderia fazer com ela. Os hábitos do marido não eram os de uma pessoa normal. Ele disse que a amava. “Vá embora, Ítalo, aproveite que você ainda tem os pés”.
Foram três facadas em pontos estrategicamente escolhidos. Ela era assim mesmo – meticulosa, presa a detalhes, pormenores, ponto e vírgulas.
Rio, janeiro de 2007

9.1.07

Profilaxia Profícua

Mais um do Felipe "Adbul" (alguém vai contar o pq do Abdul, afinal?) Sandin.
Segundo reza a lenda, o Isaac musicou o poema há algum tempo.
Resta saber quando vamos ouvir essa pérola.


"Sofro de uma doença gravíssima
Sintomática pela razão que dói
Diagnosticada como incompreensão aguda
Contagiante por via da falsa lógica
Contagiosa por via do falso real

Unanimidade há, quando todos discordam
Divergências sobre a origem, são insolúveis
Remedia-se pela aplicação de loucura
Anestesia-se pela confecção de poesias
Previne-se pela introjeção de entorpecentes
Opera-se definitivamente pela revolta
inconseqüente contra toda opressão humana
Pelo desprezo do ocidente
Pela arte incongruente


Profilaxia profícua somente pela
Recusa do poder
Vergonha da ganância
Exercício da brandura
Desleixo com as leis e
Fé no amor"

7.1.07

Lígia Pinheiro

Títere
Data ?????

Ir andando,
me afastar.
Me afastar ao máximo,
do máximo.
E ainda assim, dividir.

Deixar para trás o lixo
O lixo vazio que me ensinaram
que eu precisava.
E ainda assim ter o que dividir.

Deixar para trás o cenário
Mas ainda me comportar como um boneco
sempre em cena,
Marionete Pensante.

Será que consigo
não querer e ainda pertencer?
Quando as dúvidas me assolam
Nada como dividir.
Que bom quando se torna mais leve
a vida da “Marionete Pensante”.


5.1.07

A véspera

Entre o último gole do café frio e o banho antes de dormir, o telefone tocou três vezes.
Engano. Engano. Engano.
Nem lembrava porque tinha telefone.
Sem família. Sem amigos. Sem credores.
Na cama, deitado. Olhar triste sem cúmplice.
Desejou que sua vida inteira passasse naquela noite. Seria encontrado morto de velhice na véspera de ano novo.
Sem despedidas. Sem choro. Sem lembranças.
Mas nem isso Deus faria por ele. Teria que criar coragem para dar um fim àquela espera.
Esperou a vida. Esperou o amor. Esperou a compaixão.
A morte, ele mesmo foi buscar.
Rio, janeiro de 2007.

4.1.07

Até quando quiser... o devir

e aí caros,

o ano de 2007 começou-me com este soneto do André Bentes - e com bons augúrios, portanto.

vamos tentar conseguir o espaço em santa teresa - será?
se depender da fibra e da energia motriz do "até quando quiser ... o devir", o caminho é sempre em frente...


Até quando quiser ... o devir

O olho esbugalhado vê tudo que passa
Seria redundante se não fosse outro
Seguindo adiante o tempo se escassa
O ser apavorado por ser tudo novo

Do arco e da lira, tensão permanente
Do absurdo o ente, choque das espadas
Contemplo a noite vinda como um bom lagarto
Que grato pelas pedras só observa e sente

E até quando quiser, enquanto houver desejo
Meu medo estará morto e meu olhar distante
Descubro no instante e no após esqueço

A voz no ouvido esquerdo só diz: adiante!
E rio sem moral dos que buscam começo
Percebo a gaivota e seu vôo rasante


(André Bentes, 2006)

2.1.07

Aparição

E, como só faltasse sorrires,
Sorriste;
O sorriso fulgurante
De quem domestica a fera
Pela candura,
De quem leva o razoável à loucura
Com um toque grácil,
Um trejeito airoso
Que rebomba no coração faltoso
De todo eu,
Imerso em querer-te posse.

E, como só faltasse (aconte)seres,
Foste;
Imarcescível,
Distinta,
Perjurando a premissa divina
De todos serem iguais,
Um sonho floral,
Alva e doce,
A revolução radical
Do meu tolo conceito
Do que vem a ser –
Meramente –
Perfeito.

(Isaac Frederico, em 10 de dezembro de 2006)


___________________________

Feliz 2007 aos colegas poetas e boêmios !

Vida longa ao Presença, com vários lançamentos previstos para o início de 2007, entre eles:

"Poemas ao vento" (Felipe Sandin),
"Levante" (Vinícius Perenha),
"Madrigais" (Isaac Frederico),

além do livreto em conjunto "Elementar" (Isaac Frederico, Vinícius Perenha e William Galdino).

_____________________________

28.12.06

Renata Dantas

Por causa de alguns problemas que a Renata teve para postar seu texto, me foi concedida a honra de publicar mais uma pérola de sua autoria.
À espera

Ela só queria que ele aparecesse. Não queria beijo ardente. Nem pedido de casamento. Nem casal de filhos. Nem casa de praia em Angra. Só queria que ele aparecesse. Afinal de contas, havia estampado vestido novo. Salto alto nos pés. Esmalte rubro nas unhas. Batom carmim tatuado na boca. Cabelos caídos displicentes sobre os ombros nus. Seria muita desfeita...
Sentada no bar. Sozinha. Adornada com lâminas provenientes do ventrículo esquerdo, escolheu a meia sombra. Para livrar-se da desagradável sensação de que um dia sentiria o odor forte de enxofre e o estalido dos relhos estridentes do inferno.

Com um dedo, ordenou cerveja. Com dois, pediu cigarro ao rapaz na mesa ao lado. Nem fumava, mas ajudava a passar o tempo. "Garçom, outra cerveja, por favor!". E assim ela ficou durante algumas horas. Pedindo cerveja ao garçom, cigarro ao rapaz da mesa ao lado.

O pôr do sol ansioso começou a se espalhar. Banhou-se de crepúsculo para ter a tez cor de cobre e a boca malignamente em chamas. Mas ela sabia que devia ir. Já estava sem os sapatos. A roupa tinha sido colorida com a cerveja. O batom estava borrado. As unhas vermelhas, ruídas. Ele não viera – nem a passos curtos e lentos.
Voltou pra casa querendo quebrar o relógio. Queimar o calendário. Era seu aniversário. Ela tinha tanto. Ela teria. Ela teve um ter de haver havido e sonhar ávido. E ele havia passado por suas veias de poucas hemácias com tanta força que ela ainda sentia a fraqueza da falta do sangue jorrado.
Na manhã seguinte, acordou rápido, embevecida. Não fosse a esquina, teria tido um sono de paz imaculada. Mas sorteou ressaca das grandes. Decidiu comprar o jornal. "Sempre tem alguém que teve uma noite pior que a sua". Foi até a banca, pagou o do dia e uma carteira de cigarros. O jornaleiro: "Moça, cigarro mata". "Não" – disse ela - "o que mata é esperar".

24.12.06

Ar

Ar

(Suspiro)

(Suspiro)

O sopro boreal principia
O ataque medular ao meu controle:
O aluvião de memórias
Faz transbordar o copo –
E sento
E escrevo
E suspiro…

Tanto quanto água
Sou ar – ou antes
Não sou sem ar,
O éter da Terra,
O nada substante,
Laje do Reino dos Céus.

Decúbito em seu berço,
Desejaria voar,
Deambular livre
Das terrenas torturas,
Ingravitar
Por saber-me atravessado
De ar.

Os brônquios agradecidos…
As nuvens dos sonhos…
As brisas cisplatinas –
O aroma !

E desde o marco zero
A espera pelo retiro,
O acerto final
E o último… suspiro.

(Isaac Frederico, em 11 de dezembro de 2006)

23.12.06

Natureza

Os braços abertos num rodopio,
tentam colher a realidade.
O ácido da amada corroeu meu equilíbrio.
O orgulho trincou me as lágrimas.
E tudo na tarde é um quase ser,
um quase conseguir.
Tentativa vã de decifrar angústias.
Uma página lembrada de Rilke.
Uma vontade assassinada.
Abandono à inércia,
e salto na inconstância dos dias.
Um beijo na boca da ironia
(ela ainda consegue nos salvar).
Explode uma risada.
Humano,
tolamente humano.

Março de 2004.

16.12.06

Anatomia de um conflito


Que posso eu esperar,


Se

Deste teu olhar oblíquo e dissimulado –

Mal ancorado entre o riso e esta

Seriíssima ruga –

Cuja ranhura mais me prende que assusta,

Cujo vazio mais me instiga que envolve,

Não prevejo o que vai roubar-me;


Se

Ao preencher-te tenho a plácida

Ciência de que o mosaico que formarão as palavras

Será a prova de teu crime hediondo.

E, por fim,

Essa será parte tão primitiva de mim

Que me livrar da culpa provocará um doloroso remorso?


Que posso eu dizer,


Se

Tuas artimanhas levam a forma do meu cinismo;

E teu cinismo o benefício da minha angústia;

E tua angústia o receio pelo meu reinado;

E teu reinado a indiferença pela minha alma;


Se

O tumulto dos meus pensamentos

Enlaça tão bem o seu corpo;

E minha pólvora, ao revestir-se da tua brancura,

Explode naturalmente a muralha

Do mais medíocre entre os meus temores?


Que posso eu, doravante, considerar exclusivamente meu,


Se

Neste duelo no qual te encaro e me desmorono

Naufrago sempre junto a ti;

E renasço tão outro

que não sei onde termino eu e onde começas tu;


Se

Meu mundo tece as sombras que rabisco sobre teu relevo

E teu relevo ilumina o breu de onde saem esses seres

Híbridos, pluriformes;

Fotografias infiéis das desavenças e harmonias

Que tivemos,


Nós,

Poeta e papel.

Amotinados de tão parcas possibilidades?


(Vinicius Perenha – dezembro de 2006)

15.12.06

Crônico

Melancia é água,

Lápis é carvão,

Balão é ar,

Praia é areia
Com mar, que é vida,

Papel é árvore,

Ninho é cria,

Sono é sonho,

Circo é fantasia.


Eu sou amor de epidemia,
Crônico por você –

Que é poesia.



(Isaac Frederico, em 10 de dezembro de 2006)

12.12.06

Rafael "Grego"

Já apresentei diversas vezes a poesia do Grego aqui - ainda assim não me contenho de escrever algumas poucas palavras quando posto uma poesia sua.
Bebendo na fonte camoniana de não separar quartetos e tercetos, Grego mete um soneto alucinante atrás do outro, revirando sensações nem sempre floridas.
Vai aqui um antigo, inflamável.

_________________________________________


NO VENTRE DO VERÃO

No ventre do verão sem calma ou vento,
não tive a quem gritar. O sol queimante,
o suor, a febre, o espasmo delirante
secava em todo peito todo intento.
Era Dezembro, o mês do fingimento.
As ruas eu cruzava em pranto andante,
espremido entre a massa e o cru cimento,
sem ninguém que me ouvisse o grito arfante.
Em meio à gente tanta, solitário,
no ventre do verão incinerário
queimava os pés no solo e a pele no ar.
E em todos os rostos um sorriso,
tão belo, tão bonito e tão preciso
com prazo até Janeiro pra pagar.

(Rafael Huguenin, desconheço a data...)

10.12.06

Rafael Elfe

Ercília, minha estrela

Eu que diria de tuas falas esmaecidas
Mil chuvas cobrindo na janela à vista cinza
Eu que diria das manhãs voltando da escola
E em tua boca fina o cigarro pendurado,
fantasmas na fumaça - miasmas
E minha mãe à milhas dali, num escritório fundo.

Que diria de tuas roupas, a fossa no quintal
Eu tive um castelo aos pés do muro
Funeral de um playmobil e duas bolas de gude.
O que dirão delas?

O que diria teus cabelos sob o lenço, arredios?
Os guaranis berravam em teus olhos!
Índios de palavras tão doces quanto tuas ordens;
E eu me perdia com a vizinha atrás da casa...

À tardinha o café tão preto e solitário
e o pão sem manteiga...
O que diria desse gosto?
Era desgosto, e gosto afincados
Trancafiava tuas horas em mim, ai vó!
Eles sabem o que eu sinto, mas não me entendem.
O que diriam de você e suas velhas coisas
em suas velhas caixas sobre o armário de mogno

antigo?
Eles não sabem o que você sentiu àquela noite
vendo a casa ir abaixo... eles souberam nos jornais.
Souberam na patrulha do rádio, que ouvias pela

casa...
O vizinho de cima, Clóvis, o diabo em pele...
ateara fogo ao corpo, e esfaqueara a mulher...
Hoje os filhos são pastores - cheiro de carne humana

queimando.
As peles sobre o cimento riscado da cisterna.
Um punhal quase acerta o Zé.
Eu me lembro...

E o medo das noites de estrelas?
Algum ovni pousara naquele morro... à esquerda.
Enquanto, imóveis, dois móveis, sofás
dentro da sala pequena
em paredes pintadas de cal e xadrez azul,
gritavam a agonia de uma vida cheia de ínfimas

alegrias.

Lembro da moeda que engoli, ou bala soft?
Quanta falta de ar vó!
A senhora ainda me ouve?
E o telhado?
Ainda florindo o negro musgo?
Passei a infância ali de cima,
observando o mundo.
- Rafael!! Vem tomar banho! - e eu descia por uma

madeira oca e cheia de pregos...

Que diriam de mim vó?
A senhora, Ercília, nome tão lindo!
- "Bença" vó?
- Deus te abençoe...

Dá pra ser?

A S...

Dá pra sermos naturais?
Ou precisamos registrar em cartório?
Só quero um abraço,
Uma encostada, uma troca
De amor físico, permitido,
De fluir per si.

Dá pra ser?
Um curtir sem faina,
Sem-vergonha de bom,
Com respeito e fácil,
Satisfeitor,
Sem a culpa portátil
Do ter que ?
Pode ser?

Dá pra ser delícia
De 500ml
Sem a McSuplícia
Da culpa que repele?
Eu só preciso de você
O quanto você precisa de mim,
Você tão flor,
Tão linda, tão tesão-nato,
Eu tão seu, tão vai, tão vem,
Quase lácteo
Em minhas intenções,
Quase lácteo, quase lácteo, quase lá….
Aaaaaah !!!!

Dá pra ser, bebê?
Um abraço fraterno,
Um toque mútuo,
Um seio materno
Ou melhor,
Ambos os seios maternos,
Quase pintados, de tão perfeitos –
Não tenha receio!
Dá pra ser?

Dá pra me notar,
Eu tão louco por um abraço,
Um conquistador barato
Mas honesto
E louco de amor … ?

Dá pra ser?
Ou precisa de escrivão?
Pode ser o sim
Ao invés do não … ?

(Isaac Frederico, em 10 de dezembro de 2006)

8.12.06

hégira

salve presença!
este postema não é de ler,
é de ver.
espero que curtam.
abraço-abraço,
rafael.
_ _ _

hégira, 2006.
impressão eletrônica sobre papel,
1,60x1,05 m.

7.12.06

Mercadores da peste

colegas,

a impotência orgástica é a incapacidade de sentir troca no tento sexual.
os frustrados são rijos, mecânicos,
invejosos, sentem necessidade de punir
e, mais importante, de seguir as regras, necessárias para suas vidas inertes.
necessitam que um líder lhes diga o que se pode ou não fazer.

a impotência orgástica é oriunda de uma profunda repressão, quando crianças,
de sua sexualidade, de seus gestos naturais, de seu choro e sua euforia.

a descarga bioelétrica fica impedida pelo encouraçamento muscular oriundo disso.
o impedimento do fluxo da carga bioelétrica acarreta frustração.

_________________________

Mercadores da peste

Mercadores da peste! Seus versículos
Aguardam o messias que revogue
A condição de carcaça no açougue
De seus vis corpos, rijos. Os testículos

Adiposos de toda autoridade
Lambem, em afã de uma direção
Que lhes diga quando acatar ou não
As regras de que têm necessidade.

A inércia de seu tento sexual
Lhes imprime um ódio seminal
Ao curso saudável das vidas sãs

E armados de suas fainas moralistas
(As quais pintam com tintas progressistas)
Vivem, flácidos, existências vãs.


(Isaac Frederico, em 25 de novembro de 2006)

5.12.06

Reflexões do Interior

Caros,

posto aqui mais uma poesia do Leonardo Schuery, cujos escritos retratam, entre outros, o embate tão presente da fantasia com o real, que é responsável por desdobramentos dos mais intensos na personalidade de cada um de nós.
Muito desse embate se dá nas relações sensuais das pessoas (amigos(as), namorados(as), parentes) e os escritos do Leo redimem na medida em que nos fornecem pistas e análises para compreender melhor como se processa a coisa.
"Os sonhos que consomem a Vida..."


Reflexões do Interior

De acordo estamos então
Você olha, eu vou e você diz não
O roteiro preparado
Personagens etéreos aspirados pelo ar cansado
Vai dizer que não ?
No adágio do meu passo, a sua inquietude
Fragmentando a realidade
E constituindo nada, nada não
É a dialética tácita em vão
Vão de vazio mesmo
Desprovido de qualquer ão
Vai de quê agora ?
A tua diversidade insípida
Manifestos em gestos infestos
Que refletem meu vazio
Nesga de Vida do interior
Pródigos em expressões tépidas de amor
Mas não tem nada não
A tergiversação é consentida
Sustenta os sonhos que consomem a Vida
Mitigando a dor do real
E não há ubiquação alguma
Suma !
Eu falo para dentro.

(Leonardo Schuery, em 22 de maio de 2006)

4.12.06

Da vida

Entrou.

Fechou a porta atrás de si. Inebriou-se com o cheirando a guardado que reinava no cômodo antigo. Ensaiou passos trôpegos em direção à cama. Sentou-se delicada na beira do velho móvel de madeira escura. Como que não querendo despertar aquela que ali repousava.

No centro do colchão gasto, aquele peso afundava a espuma já sem força. Pôs suas mãos rosadas sobre a outra pele – pálida como a morte. Observou indiferente as unhas amareladas e compridas. O cabelo gasto. A boca enrugada e sem dentes. Os olhos descansando cerrados. As mãos unidas em forma de oração. A pele flácida depois dos anos. Pouco tinham se visto. Mas agora se sabiam mudas. Íntimas no silêncio imperativo. Atravessadas pelo fio de vida.

Não proferiu sentimento. Tomou o estilete na mão. Despedaçou a roupa que cobria o corpo de sua companhia com uma força violenta. Não rasgou uma lágrima sequer. Jogou fora os trapos impregnados pela naftalina. Abandonou a lâmina. Pulsou vida para brincar de boneca com a tépida presença. Com seu toque de sangue quente, revestiu aquele peito nu e vazio. A camisa era aquela que esperou as grandes ocasiões que nunca vieram. Vestiu, uma por uma, as pernas frias dentro da calça alva. E os pés magros, um por um, dentro das meias. Fez alinhados os fios e faceira as maçãs.

Não cogitou a dor. Ou o remorso por não supor a dor. Desaguou em sequidão. Sobrava ainda um pouco de café. Restavam alguns cigarros. A vela do Santo que não tinha sido acesa. E uma sensação inóspita que não cabia no quarto apertado. Logo depois ligou para a funerária.

Rio, 04/12/2006.

2.12.06

Descanso

Descanso

Dia de chuva fina,
chatinha que não quer passar.
Vou saltando poças.
Olhando as pernas grossas
da comedora de pastel
Sentindo uma proximidade maior das coisas
Reparando o olhar dos passantes encasacados
que nesses dias frios parecem mais frágeis
mais humanos.
Caminho em calma
num dia
em que nenhum xingamento me alteraria o humor.
Calmo
dentro da calma da chuva preguiçosa.
E nesta serenidade cada vez mais rara
em meio a tanto prédio e passo rápido
Ouço um ; - Boa tarde meu jovem.
Outra vez , mais acentuado
- Boa tarde meu jovem.
E reparo que se dirige a mim
Olho pro lado
e vejo o guardador de carros dizer mais uma vez
-Boa tarde meu jovem.
Retribuo o sorriso e respondo
-Boa tarde.



Julho de 2005.

rafael saraiva

rafael saraiva sou eu.
meu forte não é a rima,
mas prometo que vou me esforçar.
como entrei por último, posso ficar no gol.
honrado com o presente-convite,
por hora vou de:

espiral
sonho helicoidal
de rima ritual
primogênito desafio
que estoura ao infinito
a sinopse do tudo não pára
é a vida em dois fios
que corre e corre e voa
mas volta
na hipnótica revolução
do áureo sempre-pra-sempre
labirinto espiral

rio, novembro ‘06
_ _ _


1.12.06

A Arte do Iludir-se

________________________________

Já temos um time: quatro na linha e um no gol.


Bem-vindo mermão.

________________________________


A Arte do Iludir-se



A maior invenção do homem

É a imaginação.

Imagine o mundo sem

Anarquistas

Separatistas

Imperialistas

Nacionalistas

Franciscanos - niilistas

Marxistas - freudianos

E

Seus aforismos

Seus anarquismos

Separatismos

Imperialismos

Nacionalismos

Niilismos

E

Os demais exercícios

Dessa façanha.


(vinicius perenha - novembro de 2006)

28.11.06

Presságio ultra-romântico

muito bom ter encontrado estas poesias aqui. tem coisas muito boas circulando, na boa.
prossigo numa aproximação mais

Presságio ultra-romântico

Recolho-me frente à chama insuficiente
E arisca desta vela, o lúmen granzoal,
Imperador no atro arcabouço incomburente
Do asmático porão que me acolhe –e, demente,
Seco a testa, de uma febre insurrecional.

Lanço-me como um parvo ao tento irracional
De exilar de uma vez por todas a moente
Dúvida que me janta e noto, inaugural,
Empurrando-me, ultrajante, ao ato final,
A chuva que se precipita, consistente.

Que sangue espirro em tosse? Estou tuberculoso?
Que peste calcina minha saúde errática?
Que escrófula mina-me a defesa linfática
E traduz-se neste esforço assaz ominoso?

Que já tenho em simples respiração apática...
Revolto-me, amarguro-me em ódio nodoso
Inconformo mas, como um presságio tinhoso,
A vela – horror – responde: se apaga, enigmática.

Desespero-me ao inequívoco sinal,
Segundos grávidos de silêncio latente
E eis que o fogo, súbito, revive contente,
Ígneo permisso prum respiro inda normal.


(Recife, 27 de novembro de 2006)

27.11.06

Nuvens

“1.1 O mundo é a totalidade dos fatos, não das coisas.”

(L. Wittgenstein, Tractatus Logico-Philosophicus)


Distraído

Sob o peso do firmamento,

Vi um raio solar iluminar meus olhos.

A perspectiva, em miríades de imagens,

Abandonou a lógica.


Absorto,

Em tal névoa acolhido,

Procurei nas nuvens por algo palpável;

Mas eram somente nuvens.

Abandonei, então, a sintaxe.


A realidade semântica do possível

Resguarda meu mundo da loucura.


(Vinicius Perenha, 24 de novembro, 2006)

25.11.06

Rafael Elfe

Rafael é um amigo de longas datas, com quem compartilhei muitas afinidades literárias e musicais , além de alguns porres e tardes ao violão, entoando canções punks contra os domingos tediosos de nossas adolescências. Poeta de visões românticas e carregado de imagens simbolistas, caminha junto as palavras de Gullar e aos versos-visões de Rimbaud e Flávio Murrah, influências confessas, que enriquecem seu universo poético sem tirar o mérito de sua poesia, rica e segura pelos anos de constante criação e pelo inegável talento no trato com as palavras.


"Brioso Bocejo"
Geme o aquecedor
A casa, os prédios ao redor
Gemem as cadeiras solitárias na área
No fundo a alma geme junto, assim tão baixinho
E os segundos vão gemendo, passando...
Quem vê?
Enxergam fundo e vão urgindo em passos finos
Geme o cão na cozinha sob a cômoda de mogno
Os pratos gemendo de frio
A sopa na panela nem mais geme, ingerida fora, antes.
No estômago se espraia para do intestino germinar.
Fora da casa gemem as colunas de ar
O vento seco nos muros - pés de pixações
e passamos sem notar... ali grita um nome tremendo:
G E R M E S
facção do amor urbano,
irritavelmente abafado
vão indo atrás das colunas de ar - sulcos de luz
Antenas e sombras de vizinhos que na correria
subvertem a ordem,
e gemem sorrindo nos carros novos
Que inveja faz da glória um caminho?
Enquanto ela gemia, o mundo pairava exangüe
e ainda gemem:
pias,
manhãs brotando,
avenidas de tempo derretendo em relógios,
ali, aqui,
em cada ambulância estacionada - um silêncio,
assim gemia a alma bem no fundo, grosseiramente.
E ela nem percebia que n´um brioso bocejo,
sacolejava o mundo.


"Primeiro e último haicai"

Quando ela sonha
emudando a noite
varre as estrelas

24.11.06

Drika Duarte

Descobri os versos de Drika Duarte através da leitura de uma revista publicada pelos alunos do departamento de artes da UFRN. Além do papel como suporte para sua poesia, o palco também é morada para seus versos, através do Elegia e seus afluentes, grupo ceno-performático-poético-musical do qual Drika faz parte. O poema Deserto me laçou na primeira leitura, versos derramados numa queda de intensa musicalidade desaguando num deserto onde a consciência do passar do tempo se faz presente.


Deserto

Um espírito irrequieto
Tão tosco que ao cair no poço
Com olhos entreabertos
Encontra o pensamento admiravelmente belo.

Sorri, encantando as flores
Rasteja passos poucos
E pisa na delicadeza murcha
Com pés mortos de cansaço inventado.

Abram as cortinas
Que o fundo é mais lindo
Do que se imagina.

Enquanto consolam-se com meias palavras
Eu reescrevo a mesma velha página.

Busco alcançar a aura que escurece o sentimento.

A dor é não ser do tempo
E saber que ao passar morremos.

Eu deixo um pedaço meu
Cada vez que me derramo em verso,
Encontro o enleio certo:
O momento do fragmentado eu deserto.

23.11.06

Guto Leite II

O maior arranjo do mundo

Quando não tinha mais nada o que fazer, tomou todas as flores do mundo
e deu a ela. Certo que não lhe cabiam nos abraços cada begônia, lys,
bromélia, rosa, todas as outras vis. Ela soube ganhar o presente.
Retribuiu com beijo breve de mil gametas, fecundado, leve.
Este floresceu no peito infértil do jovem a tarde inteira
e só a noite pôde acalmar o unímpeto da semente.
No dia seguinte, logo de manhã, foi somente
esperando marcar a data que entrariam
no primeiro concurso. Só ela tinha
flores, afinal. Mas encontrou,
no mesmo arranjo: beijo,
outro homem, ela; e
desfez-se baixo,
muito baixo
como a
péta-
la.

21.11.06

Da Mediocridade

I

Ofereço-te um nu desespero

De viver

Se me puder despir a letargia da espera.


Espera tímida pelo momento certo

Espera flácida pelo espaço adequado.


Dadas as proporções mágicas entre possibilidades e realizações

O melhor deve ainda estar por vir.


Mas será este o tipo vil de otimismo

Enganador?

Será esta a sátira de um mote covarde

Encoberta por atitudes sensatas?

Ou ainda, o que me resta de diferença?


II

O cinismo artístico com que te ofereço

Mais esta falaz audácia

Deveria me ser cuspido de volta com a força de um rasgo na pele

Visto que te ofendo deliberadamente, leitor.


Mas por fim

Tuas fibras são frouxas

Serás amável

E gostarás – indiferente – de mim.


(vinicius perenha - 17 de novembro - 2006)

___________________________________________________

É um fato, camaradas do Presença: dos muitos motivos que consigo imaginar pra encher a cara num dia desses, a entrada de dois novos integrantes no blog é o melhor. Entoemos tal coro; celebremos!

à boemia presente, sempre presente.

20.11.06

Por uma nova pele



Outono
ou outubro
outro nada
outro tudo.
E voltarás
a teu quarto
só como sempre.
Outra noite
outro susto
ouvindo valsas
ousando um salto.
E serás o mesmo.
Outro grito
outra face
outro gesto ensaiado
outro amor não declarado.
Até quando?

Aos clássicos

As trovas que dardejo e já publico
Em carnação de outros mestres beberam,
Tuberculosas rimas que edifico
Às clássicas penas que já houveram.

Sois de minh´átona harpa o exemplo,
Poetas mil que a língua sublimaram !
Em vossas clássicas messes contemplo
Auroras que o vernáculo adornaram.

Lúdico Caeiro, real Redol,
O brilho de Pessoa! Tal o sol
Me acolhem, na leitura outonal

De suas letras - oh! mestre Cesário !
Saúdo-te o inefável relicário,
Em gentileza transgeracional !

(Isaac Frederico, em 20 de novembro de 2006)

18.11.06

Guto Leite

Como vem colocando em largo fluxo o Presença, poesia boa se encontra também na "calçada", ou seja, há excelente poesia independente sendo feita, em concomitância com o que é lançado nas prateleiras de mercado (tantas vezes também excelente, diga-se).

Outra singela prova disto me chegou com as poesias de Guto Leite;
em composições de caráter mais para o clássico que para o informal, os poemas que li do Guto oscilam entre um rebuscamento fero ("seria a poesia a arte de não conseguir se expressar?", pergunta ele, na busca pela expressão mais exata dentro do poema) e um imaginário bastante tangível e feliz, como nesta :

Em busca do amor mágico

Há um truque perdido
em cada romance.
Sou o menino atento,
de vistas na cartola,

na ânsia da piedade, do erro,
da linha transparente,
do despeito, do fundo falso
ou da marca de cola.

Por mais que os dedos do mágico
movam-se inocentes
no espaço entre o fracasso,
o engodo e a glória,

é certo que não erra,
já que se expõe
somente após o tempo necessário
de treino. Agora

(digo agora no comum, erradamente,
como qualquer instante
depois dos silvos e das palmas)
repito o que vi fora,

internamente, muitas vezes,
obsessivo, sem gesto, quase em transe,
mas logo no momento preciso
nada colabora.

A mágica insiste em soar
como um oboé cortante
e desafinado. Nunca me canso, porém.
Fixo meus olhos na cartola.

E recomeço.

Há um truque perdido
em cada romance.

16.11.06

Pedro Lermann II

Meu Anjo
para Ignez


Quando derrubaram a porta, seus olhos vidrados miravam o mar, no reflexo de um espelho que, estrategicamente posicionado frente à janela, iluminava nos matizes da chuva que descia, o corpo franzino do anjo.

Uma imagem orgânica da enseada, emoldurada pela melancolia do irreversível, inspirava a leveza de uma beleza pura; diferente da ordinária plasticidade fugaz que envolve as coisas consideradas belas no dia-a-dia.

A atmosfera parada, inacessível ao pranto e assombro dos curiosos vizinhos, fazia jus ao paradigma da eternidade e suscitava paradoxos inconcebíveis, perceptíveis somente à pele.

Ela morrera há dias e, no entanto, viveria ainda sua mortalha sobre pernas vacilantes por décadas. Seus netos a abraçariam inconscientes do mar que coube um dia naqueles olhos sempre transbordantes e tristes.

Ao fim de poucas horas ela levantou-se e serviu, claramente desejosa de que os invasores sumissem, café e bolo e explicou, calma, que José se fora.

Um deserto tomara o trono da enseada; seus olhos continuaram úmidos até o fim, porém sem jamais sorrir novamente.

(Pedro Lermann - 20 de março de 1972)

15.11.06

Pedro Lermann

Conheci a obra de Pedro Lermann através de seu filho, George.
Pedro havia falecido há poucos meses e durante a retirada de suas coisas da casa onde vivia sozinho há alguns anos, foram descobertos dois cadernos que, entre contos, crônicas, poesias e textos filosóficos, têm os registros de mais de duas décadas.

Sob a condição de manter ocultas sua origem e história, por assim dizer, tive a autorização de seu filho para tornar pública a obra.

Sob a égide de um passado questionável - do ponto de vista moral e legal - a escrita de Pedro é dura, apesar de elegante; com um traço carregado nos paradoxos e na livre expressão de suas idéias - talvez decorrentes da decisão de não deixar que seus escritos saíssem da gaveta - o velho derruba alguns dinossauros do pensamento coletivista. Segundo suas próprias palavras: "hipócrita, cínico e nocivo, se de direita; fraco e ganancioso sob a pele de revolucionário, se de esquerda".

Pedro Lermann faleceu aos sete dias de agosto deste ano, aos cinquenta e dois anos.

___________________________________________________

Universalis post res

Estas cores,

que temerárias ousam saltar

e improvisar seu concerto.

Exibem-se.

Cavalgam belos demônios e

subjugam a indiferença.

Primavera!

Triunfa primeira e afasta

meu espírito arriscado.

Que afoito,

encanta-se entorpecido

e dobra-se ao infinito.

(Pedro Lermann – 13 de janeiro 1978).

14.11.06

Espaghetti a la Pecadora


Brasa, fervia os homens antes do fatal balde de água fria. Os deixava com um eterno nó na garganta e uma sutil corda no pescoço. Se olhava no espelho e via alguém que gostaria de ter conhecido um dia. Trazia marcas no peito e nos pulsos. Saía vestida com sua melhor roupa para pecar. Porque o vermelho se reserva em sua mais forte tonalidade para aqueles que vivem de entranhas. No açougue, apontava os corações. “Quero a tripa mesmo”. No bar, pedia sopa de arame farpado. Porque era dessas que gostava de arranhar.

Acontece que um dia conheceu um que gostava de socar. Ele pediu um cheiro. Ela olhou assim. Pediu um beijo. Ela fugiu sem traquejo. Pediu perdão. Ela disse não. Mas, em um impulso inconseqüente, cerrou os dentes. Fez bico e abriu arestas, mesmo que improváveis:
- O que você quer, afinal?
- Te descobrir. Até que teu frio me peça um abraço
Ele continuaria com perguntas para as respostas dela por um bom tempo, mas decidiu tentar outra vez. Pousou os seus naqueles olhos – e era preciso um verão inteiro para haver um eclipse naquele olhar. Arriscou:
- Você me pediu 24 horas, baby. Passou.

Ela abriu o coração e nele escreveu: “somente tráfego local”. Resolveu ligar o foda-se. “Ou melhor, o foda-me” - mais por diversão que por necessidade. E assim, sem A nem B, disse na lata:
- Quero dar pra você.

O vulcão chamado desejo não parava de fazer barulho. Mesmo vestida de sombra, ela lhe iluminava o dia. E pouco importava a luz, se ela estivesse acesa. Ela lhe lambia os ouvidos. Passeava sobre a sua carne nua, crua. E inventavam uma nova língua - para traduzir o que não se explica. Depois, ele desfalecia em um ato egoísta. Pequeno suicídio diário. Ela não. “Quando eu dormir, vai ser de uma vez só”. Era nessas horas, então, que ela lhe sussurrava pequenos segredos de fronha e travesseiro. Permaneciam segredos.

Mas, como num passe de mágica, a mágica passou. Meio hora de sumir. Porque havia certas coisas que ele não podia evitar. Sua canalhice, por exemplo. Não queria mais nenhuma das mulheres que a habitavam:
- Sua companhia me faz o mais solitário dos homens. Saltei em um vôo livre de você. As idéias me têm.
Chegou a inventar uma úlcera fortíssima. Porque doença traz um certo charme ao efêmero. Dá credibilidade. Destilou veneno e bebeu vinho. Descobriu-se murcho, insano e monstruosamente leviano. Com o coração dela na mão, disparou:
- Dona, esse aqui já era.

Só que o último beijo é sempre o começo de uma outra história. Ela não julgou. Tampouco negou redenção. Mirou na testa. Pum. Acertou no coração. Imediatamente apaixonou-se pelo cadáver. Romântica, a canibal começou sua refeição pelo coração. “Escrevo nas paredes o que você rascunhou na minha carne”. Só a dor é fiel.

Goodbyes são always badbyes.

(Renata Dantas. Rio, dia 1, mês 11, ano 2006)

13.11.06

Filho do Vir-a-ser

O raiar do sol,
As montanhas, imensas,
O verde vivo,
A vida simples.
Isto já é
O Reino dos Céus
Sobre a Terra.

Que caixotes e alarmes
Te impedem de ver isto,
Tu que já és
O Filho do Homem?

Que fainas e distrações?
Que insidiosas invenções?

Que rotinas e sirenes
Te impedem de ouvir
As músicas perenes
Oriundas do Devir?

(isaac frederico, 31 de outubro de 2005, publicada no livreto "Jesus, o Nazareno", parte IV do Acontecente)

11.11.06

Fogo

Ha!
É a língua de fogo no lombo velhos!

- Move!

____________________________

Fogo

Se danças liberto

E atravessas intrépido com tuas trovas

Esferas quaisquer que interponham

Tua individualidade e o mundo ao redor

Se curvas a cerviz

Percebe derrotas em tuas tentativas

Todas

E teus braços raspam já de leve o chão

Se tuas ações terminam então

Num interminável novo começo

E apesar de cansado sentes que não há como estacar

Vais desconfiar a certa altura

De que a origem de cada atitude

É o fogo que queima teus pés sem permitir

Que até que seja dado o último passo

Terás de continuar.


(vinicius perenha outubro de 2006)



10.11.06

Terra

Terra

A terra é a mais formosa das mulheres
Que devém
Que acontece
Sem vírgulas
Impontual em seu chamado
Porque a ela vamos todos

Tão quente quanto fria
Onilingüe
Crepuscular e auroreal
Tudo ao mesmo tempo
Inexorável em seu chamado
Sobre ela vamos todos

A terra munge seus filhos
Nós mungimos ela
Navalhamos-na
Recebemos a benção do sólido
Do chão
Que mesmo o chão é bênção
Só aos tolos o chão é derrota

A terra permite
Mas quando exige
Quererá teus átomos
Teus ossículos
Partidos ou não

A terra é gestação
Com teus ossículos
Digeridos se renova
E sabemos bem o que é
A renovação

Fovente
Graciosa
Mãe
A mãe raiz
A grande raiz em comum
A grande raiz.

A terra –
O eterno
Regressar.

(Isaac Frederico, em 14 de setembro de 2006)

8.11.06

O Bocejo do Amor

Difícil conseguir abarcar toda a magnitude da obra do Abdul nos posts esporádicos deste blog.
A despeito de o Abdul não ter lançado um livreto "oficial", tenho muitas de suas poesias, algumas das quais tentei musicar, outras que simplesmente pedi pra guardar.
É sem dúvida um dos meus nomes prediletos da "poesia independente", como já pude expressar aqui antes, e fica claro o por quê, mediante o contato com a clareza e intensidade de suas poesias, como expresso em "O Bocejo do Amor".
Presença!

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O Bocejo do Amor

Quando de repente um bocejo revela
a preocupação com a vida,
Indisposta sua alma reflete amarguras do amor.
É triste perder quem se ama,
muito mais perder o amor em si,
e perceber que após tantos meses o passado consumiu os dias
lentamente. Depositando na memória os dias felizes
que hoje nos machucam, e menos as tristezas
que nos tornaram solitários.
Não importa os amigos, a família ou o trabalho,
a solidão sobressalta em nossos sentimentos como um bocejo
que simplesmente nos sai pela boca.
Boca esta que não toca mais os lábios tanto desejados,
não beija mais o corpo um dia desvelado, e tenta agora
na nudez da esperança aquecer novamente o espírito cansado.
O ego que se refaz no futuro,
na força da imaginação esquece os bocejos e desperta os olhos
para um destino grandioso. Longe não do amor;
mas do desejo ingrato que nos faz assim tão distantes dos
primeiros dias da paixão.


(Felipe "Abdul" Sandin, em 14 de outubro de 2005)

7.11.06

Renata Dantas, parte 2

Dos gracejos que eu fazia. Dos bocejos que você me escondia. Das coisas lindas que você me dizia ao pé do ouvido. Dos mentolados, dos lascivos, dos destilados, dos requintados, dos sentimentos, dos sofrimentos. Era disso nossa vida.

Era tão grande a culpa do sentimento, que não se permitia viver aquela história. A gente pulava muro, corria dos compromissos, escondia as cicatrizes das dores, ria de lado, mas mantinha a idéia. Era doloroso. Mas era gostoso. Mas era doloroso.

Do texto que ele me escreveu, só lembro umas poucas letras. Eram suaves e ele tinha um jeito estranho de me mostrar as coisas. Mas eu gostava. Nunca consegui dizer isso, mas eu gostava.

Ele me mostrou um vinho. Eu lhe mostrei uma música. No final erámos vinho e música numa taça velha cheia de manchas de própolis. Sempre o improviso.


( Renata Dantas, título e data desconhecidos - talvez desnecessários... )

28.10.06

Patológico

Patológico

Dilacerar-te é um possível caminho,
Mutilar-te em prazer e obtemperar
Às tuas lágrimas a me implorar
Por um beijo, ao teu sangue cor de vinho...

Desprezar-te inteira já não me ocorre;
Os olhos, em expressão de cansaço,
Devo guardar e teu lindo cabaço
Arrancar, em meio ao esperma que escorre...

Não te desesperes, meu beija-flor,
A todo ódio corresponde um amor -
Deixarei-te uma asa para voar!

Não chores, anjinho! Não mais tens paz?
Não te agrada meu carinho mordaz?
Mas... deixei-te uma perna pra mancar !?

(Afonso Nives, em 24 de novembro de 1997)

26.10.06

livretos III

Viver e Devir


A sua alopração é previsível, meu caro.

O seu desespero era esperado.

A trajetória parabólica que seus braços fazem

Enquanto você se debate,

Submerso nas suas mais úmidas dúvidas,

Do estado mais vulnerável do seu ser –

Alguém já pensou nela.

O que você se pergunta

Está no script que te entregaram, seu nome

[ no campo “nome”

O volume de água que você chora

Já foi calculado antes.


E aí você vive sua primeira transa

(A redenção absurda do sexo),

Perde pela primeira vez um parente próximo,

Chora a primeira vez que te rejeitam,

Vê o sol se pôr a dois,

Interpreta as coisas, fica se perguntando

A validade do que foi e do por vir.


Dorme com um barulho desses, irmão.


(Isaac Frederico – 15 de junho de 2003)

22.10.06

O Eleito

O Eleito

À memória de Pedro Lermann.

Homens atravessados

Servos de seus destinos

Células orgânicas

Cujo Macro-organismo utiliza como veículo

E instrumento de suas realizações e fenômenos.


Vêm à tona através destes tipos

Manifestações fundamentais de humanidade

Modelos

Arquétipos.


Um caminho sempre alheio às suas escolhas

Um horizonte nunca dantes eleito

Uma história revisitada, legítima.


Seu naufrágio constante

Espalha seus escombros

Seu renascer infame

Exibe sinais ansiosos e marcas frontais de choques.


Deixemos um resto de paz aos eleitos

Que possam soçobrar e sofrer angústias

Sem que seus olhos visem o chão.


O desterro – espírito – o aguarda, é certo.

Tem meus argumentos e atitudes contigo.

20.10.06

Renata Dantas

Conheci a Renata em um carnaval, em São Luís do Paraitinga; na época eu não sabia que ela escrevia - e profissionalmente, tendo inclusive co-escrito um livro sobre a experiência do Araguaia.
Os poucos textos que recebi da Renata recentemente me trouxeram a agradável surpresa, em termos literários, de sua prosa poética ou - como hei de dizer? É literalmente isso, é prosa, mas de períodos curtos, finamente fantasiados com o brilho da poesia.
Os textos, de extensão também curta, são um convite muito prazeroso a uma leitura de pouca dificuldade e grande sabor.

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Soledade

Soledade era a preguiça em pessoa. Morava nos fios de baba do travesseiro. Nas remelas dos olhos. Em boa parte das sujeiras nos banheiros. Conseguia acompanhar cada passo da digestão de uma mosca. Desde a ingestão ao regorgitamento. A paciência era apenas ressaltada pela sua preguiça de viver. Até a vida desistiu dela.

Um dia conheceu Carlitos. Um assaltante latino. De tanta preguiça de reagir aquela cena toda, foi levada como o próprio objeto de furto. Era o vaso mais valioso de Carlitos, aquele que nenhuma flor poderia ocupar. Viveu durante anos naquele ambiente, mais decorando do que se utilizando dele. Até que Carlitos caiu na tentação. Acabou por levar um outro vaso para a varanda. Não durou dois dias. O vaso foi encontrado aberto a machadadas. As mãos de Soledade sangravam. Carlitos viu o amor pela primeira vez e nunca mais esqueceu aquele rosto. Seus olhos caídos, sua boca entreaberta e um corpo de cinquenta e seis quilos dividido ao meio na sala.

Carlitos morreu três anos depois de um assalto mal calculado. Os dias de vaso acabaram para Soledade, que acabou trabalhando num velho cabaré da cidade, cujo nome trazia as iniciais de Eleanor Rigby. "All the lonely people, where do they all come from?". De vasos.

18.10.06

Portão de Madeira - William Galdino

Do último livreto do William Galdino - Sem Persona - o poema-conto Portão de Madeira, cujo prisma nostálgico e dolorido me trouxe à tona algumas memórias e, me incitou a refletir sobre a proximidade entre a textura das lembrança e a dos sonhos, o material de que são feitos, por assim dizer.
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Portão de Madeira

À memória de Márcia

As borboletas pairavam no peito,
roçando as asas na quina do meu coração.
As bonecas de louça tinham o corpo de pano.
E os homens de fogo tentavam nos ensinar a nadar.
Até pareciam espertos,
mas era a praia dos bobos.
Onde pela primeira vez vislumbrei a brancura do teu seio.

Catarina tinha nome de princesa, e era tratada como tal,
pois não havia em minha rua,
menino que não recebesse os seus carinhos.
Um dia lhe fiz um poema tão bonito que nem consegui entregar,
é que o reli tantas vezes que o papel esfarelou.
Então resolvi escrever um poema sem papel e sem palavras.
Juntei um bocado de sorrisos e acerolas, e pus em sua janela,
ela gostou tanto que me prometeu fidelidade.
Eu quase aceitei, mas pensei bem,
pensei no Pedro, no Marcelo, no Canela...
E disse a ela:
– É melhor não, felicidade só minha?
Tinha que ser também dos meus irmãos.
E assim seguimos todos nós, felizes e cúmplices.

Até o dia em que ao bater às portas do castelinho ela não apareceu.
Havia partido sem deixar aviso
E aquela tarde pareceu sensibilizar-se com a nossa dor.
Fez silêncio.
Não houve pássaro que cantasse
E sequer uma árvore ventou.

16.10.06

Casa boa

Do reino cor-de-rosa do afeto recebo mais um pequeno lote de poesias da Luísa Müller - figura já presente, nos primórdios deste blog - e que molha sua pena num habilidoso e interessante trato com as palavras, além da carga sempre grande de sentimento, em geral leve de se ler.
Publico "Casa boa", desses novos, que me fizeram jubilar pela multiplicidade dos estilos de poesia abordados aqui no Presença.
Obrigado Luísa !

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Casa boa

Casa boa
branca
casa da gente
casada sente
a mulher
no meu peito
na mente
que voa no sonho
da casa branca
da vida boa.
Casa contigo
a mulher do meu peito
no sonho da casa branca
da vida boa
na casa da gente.

13.10.06

Afonso Nives

Tive a oportunidade de conhecer o Afonso Nives em um encontro internacional de poetas, em Orão. Egresso da intelectualidade branca da África do Sul, o poeta de 52 anos embarcou faz muito numa onda peristáltica de agressão inapelável e franca aos seus fantasmas.
Tendo visto holocaustos ao longo do apartheid sul-africano, Afonso Nives teve a peculiar reação de usar a poesia para agredir, tentar mutilar indelevelmente os "monstros insensíveis" da insensatez humana.
A agressão traz agressão, e assim navega o barco anti-poético do velho pirata - batendo e apanhando num mar casca-grossa de rebeldia senil.
Um caminho controverso, mas muito autêntico, conforme nos atesta a poesia "A moeda do ser".

A moeda do ser

O crápula ajeita o fraque
E sorri o maior escárnio de que é capaz:
Somos nós !


… somos todos pulhas
Tripudiando do inimigo caído
Ou sendo por ele trucidado,
Dependendo do momento.


Somos todos afeto
E infâmia
Ao mesmo tempo – e vê:
Os dois lados
Da moeda do ser.

11.10.06

livretos


Inverno de 2003 - Rituais de Ver e Olhar.
Compilação de algumas poesias minhas feita por Isaac e Rafael Fafito Saraiva. O excelente projeto gráfico deste último, surpreendeu na época, não só pela refinada técnica e criatividade, mas por atingir o cerne da temática reinante entre os poemas.

Nos próximos dias, pretendo postar imagens de todos os livretos que lançamos, em parceria e individualmente, até hoje; tão somente porque quero registrar esse caminho ilustrando algumas fotos do seu percurso.

Até!

Feito de Calma

Por um mundo mais preguiçoso e elaborado.
Tempo para as diferenças, boas pessoas e outras esquisitices.
Entropia!

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Feito de calma

Pede por um cometa que chame a atenção
Desvie o foco dos olhares
E deixe espaço para a serena solidão
A companhia da tarde
A membrana do silêncio
O vir a ser da luz se esvaindo
A lua – suspensa – lívida, insana.

Os sentidos exigem paz
Mas onde?
Tão dramática essa nova aurora
Veloz
Ponteiros, livros, conselhos...
Todos sabendo tanto, falando tanto
Eu simples demais

Alguém pensou o volume do sol
Mediu a distância
Pensou todas as variantes...
E o cometa não passa.

Será que cercar e demolir de vez as torres
Atropelar o papa
Incendiar a indústria...
Não, não.
Não!

Sem mais chutes no fígado, já cansado.
Uma flor, pode ser que de novo, fure o asfalto.

Honestamente
Não conheço outra maneira de ser que esta
Coisa confusa
E sem pressa.

Vinicius Perenha 10 de outubro de 2006.

9.10.06

o guichê

O Guichê

I

A lei definiu o ponto
Conceituou a vírgula
Racionou o riso
E amparou em sua miséria
A pena.

A lei desativou o entendimento amigável
E demarcou todas as fronteiras
Encomendou uniformes
E numerou o espaldar das cadeiras.

A lei aboliu a diferença entre honesto e legítimo.

E eu aqui, pensei:
Deus me livre da lei
Deus me livre dos homens da lei
Deus me livre da lei de deus
Deus me livre dos homens da lei de deus.

II

Eu achando que podia burlar o código
E deixar de quebrar pedras
Fiquei agarrado a uns pequenos versinhos
No fim do corredor matutando...

Um jeito de abrir a porta e sair sem discussão
Apagar as luzes, até!
Somente.

O oficial avisa – feliz – que o poema em três vias
Com cópia para a divisão dos revisores
Deve ser encaminhado à associação antes de...

De cá logo meu maldito macacão!!


Vinicius perenha – 09 de outubro de 2006.

6.10.06

Beco do Rato

Estivemos anteontem no Beco do Rato, na Glória, a fim de conferir alguns dos bons poetas independentes que se apresentam no Ratos Di Versos (nome do evento), bem como distribuir algumas cópias do "Absinto".
Também aproveitei pra lançar meu novo livreto, o "Lanterna mágica", com 12 poesias novas.
O ambiente estava bem legal, presentes poetas conhecidos do beco, como o sóbrio Pedro Lage e o imponente Flávio Nascimento, experientes trovadores com já mais de 20 anos de estrada.
O evento rola às quarta-feiras, quinzenalmente, sendo o próximo em 18 de outubro!

Ilê !

2.10.06

Mundo real

De um novo lote de poesias do Leo, me chegou "Mundo real". Os novos tomos que me chegaram às mãos, cada um com cerca de 6 poemas, indicam uma mudança nas recentes composições, até mesmo de um lote em relação a outro.
Os novos poemas continuam (trans)pirando sensibilidade, ainda um pouco subjetiva mas definitivamente mais certeira, mais anelante e mesmo pungente, pelo aprimoramento estrutural em conseguir literarizar com mais perfeição o conhecido embate "fantasia" vs "real".
Pessoalmente tenho me deleitado com estes novos lotes, que me trouxeram grande proveito e prazer em sua leitura.

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Mundo real

O sol de sempre é gasto
E a chuva também desgasta
Caiu aqui perto de mim
No Mundo que insiste em viver

Eu oro para arrefecer a dor
De ter a impressão que passo
Vou embora daqui em breve
E o Mundo perdura até hoje

Olha o que vai acontecendo !
Vida e morte
Não importa quem vêm
Do Mundo é o cenário

Medos de nada que existe
Desiste de você agora
Senti que o canto soou
O tempo no Mundo não demora

E eu que me achei o Mundo...
Junto do corpo ainda permaneço
Desço descalço de medo
Para sentir que estou no Mundo

Só sinto que existo se sinto
Acalma por hora
Dorme um pouco
O Mundo vai continuar

(Leonardo Schuery, em 29 de junho de 2006)