9.7.07

Homenagem aos pais ausentes

Por ocasião da minha formatura, fui responsável pela homenagem a ser feita aos pais falecidos, inclusive o meu próprio.
Resolvi fazer um soneto, que acabou se tornando o primeiro poema que declamei em público. Este poema não está em nenhum dos livretos que lancei.


As luzes do ambiente se esvaecem,
Moléculas de ar brecam o som;
Denso se torna este festivo tom
E nossos olhos, lassos, umedecem.

Este é um momento particular:
A recordação do abraço ausente,
A perda repentina de um parente –
Segundos de caráter secular

O olhar triste sucumbe à gravidade;
O açoite inexorável da saudade
É elevado à última dimensão.

Mas é hora dos passos adiante,
Essa sim é a homenagem gigante
Aos que conosco não mais estão.


(Isaac Frederico, em 2002)

6.7.07

nO silênciO um pOnto. um pequenO furO nO espaçO. nO perfeitO cantO. um pOnto no silênciO. O fim de tudO. a bOca calada. a pOrta fechaDa. um risO de fachaDa. uma cOr sOlúvel. um chá intRagável. uma dOr impaGável. um rOsa incOntrOlável. um varal suspensO. um sOnho no asfaltO. um assaltO. cOraçãO declaradO.

5.7.07

Balcão

Qual segredo esconde o vale
Que daqui de fora vejo
Por onde anseio passear a língua
Encardida de desejo?

Tamanho encanto te deste a sorte
Ao sem querer nascer com tal sorriso
Onde querem tocar meus lábios
Ansiosos submissos

Gaguejo ao interpelar-te
Quando chega em mim a fila
Transformando um coração
Que é de pedra em argila

Queria eu ver-te completa nua
Ver rosar teu rosto augusto
Pois definir a crueldade - para mim
É ver-te só o vestido busto

("São quatro reais, senhor."
Diz-me sem emoção
A mulher da padaria
Por detrás do seu balcão)

E então, pago-lha com o cobre!!!
E desço a rua sorrindo... feliz só de ver.

(Fábio dos Santos - para o livro LASCIVO)

30.6.07

Ama

Ferve-me o corpo tua presença
E rubra calorosa a face fica
Trépidos os atos e as pálpebras
Dos meus olhos teimosos que te fitam
Desejosos os meus lábios ficam mudos
Conquanto bêbado lhes diriam quase tudo
Ansiosos em tocar-te a boca - almofadas de veludo

Furto-me olhar-te direto aos olhos
Tal com servo não faria a sua senhora
E submisso recolho-me ao amor
Egoísta e só meu que tenho agora

Umedecidos os olhos ficam
Como desejo ver-te as íntimas nuâncias
Onde afogaria meu instinto primitivo
De dar a ti um presente - uma criança
Herdeira de tua beleza e ternura
Que mostraria a todos nosso amor
Ao brincar alegremente pelas ruas

Furto-me a dizer-te direto aos olhos
Tal como mudo fico à sua presença
E que me faz teu servo - teu escravo
Sua nobre e senhoril indiferença

(Fábio dos Santos)

29.6.07

O cosmo

alou presença !
não me lembro se já postei este poema, originalmente do livreto Lanterna Mágica, de setembro de 2006. De qualquer forma, aqui vai - O cosmo


As estrelas estão ao meu lado,
Caminho sobre elas,
Pontos de luz
Sem voltagem palpável.
Um andarilho tão impossível
Quanto absolutamente palatável,
Um pescador que deduz
O absurdo das selas
No cavalo alado
Das sãs seqüelas
Irreproduzíveis,
Tanto quanto extraordinárias,
As experiências místicas
Das sensações visionárias,
Absolutamente indescritíveis;
O anzol que reluz
O impossível das velas
Nos campos de vento
Do pó das estrelas,
Inimagináveis
Tanto quanto factíveis –
O cosmo.


(Isaac Frederico, aos 02 de agosto de 2006)

22.6.07

Provérbios "ultr´humanos"

"O ato peremptório pede um final ausente."

"A rosa que escala o inverno,
vem nascer na lama."

"O espinho que fere o menino,
é o espinho que serve escada aos insetos."

"O menino é um inseto no retrato antigo,
o retrato antigo é um inseto morto no quarto."

"A rosa que marcha para o alto não é rosa apenas,
é um soldado, rosas não marcham; e nunca rosa, apenas vermelho."

"As cores se inventam, assim como primários os cães sob as rodas, vermelhos."

"O vermelho é o amarelo do sol junto ao magenta do homem."

"O marrom é o fumo descabido e o rim aberto sob luzes fluorescentes."

"A casa está para o corpo, como o copo de chope para as bolhas."

"Meticulosos são os dedos de Cristo, infalíveis os dentes do demônio."

"Boas mentiras se contam sorrindo, boas verdades chorando."

"Quando o mau em miligramas, o bem em átomos."

"Paixão: em tudo é preciso; mesmo sabendo que tudo há de se tornar impreciso."

"Melhor saber que saber de cor suas qualidades, é enxergar nitidamente seus limites."

"Ela precisou morrer algumas vezes para exemplificar aos filhos o valor da vida."

"O homem cuja arma é o amor,
jamais encontra adversários à altura, quando numa guerra soldado for."

"A lagoa que somos precisa de sombras para que não nos evapore por completo o sol."

"És de tamanho igual ou menor que meus punhos cerrados,
mas possui mais liberdade que todo o meu corpo."
(aos pássaros - às portas de uma penitenciária)

"O poeta está sempre a se casar com a vida,
mas segue por ela eternamente apaixonado pela morte."

"Poetas nascem póstumos."

"Tudo o que precisamos ouvir, já foi dito, reescrito, pensado, diluído...
mas não da mesma forma. E é o poeta este gerador combinativo."

(r. elfe)

16.6.07

Rosa

Um barco me faz ausente de ti –
A engenharia sorri, exata,
Triunfa a lógica nímia,
Soberba, dos números infrenes,
Dos litros de óleo,
Dos donos solenes
Do absurdo empresarial.


Mas se faz prenhe de raiva
E rasga-se de dor:
Meu ímpeto sonhador
Vem tão puro
E invariavelmente –
Avassalador.
O idílio que te faço,
O deâmbulo que traço
Até toda ti, toda porque una,
A lira mais doce que já ouvi,
A rosa mais lira que já vi,
O ouço mais claro que senti.


A lembrança do teu toque
Beija meu eu-poeta,
Apaixona-me por apenas ser
E implode, sem nem querer,
O castelo pateta
Do barco de óleo e aço,
Neste poema que te faço…


(Isaac Frederico, em 16 de junho de 2007)

15.6.07

De boca aberta

caros poetas e amigos das letras,
vai aí um poema de Urhacy Faustino, um poeta que conheci através da wendy, e ela através do site de poesia erótica cseabra.utopia.com.br/poesia/
o site é muito bom e vale uma conferida de perto, definitivamente.
vida longa ao presença, poesia pra sempre...

* * *

Em nossas brigas não voam televisões,
nem há corporais agressões:
o verbo é a flecha que nos perfura
mesmo nos tempos e modos que a gente se censura.
Trocamos o costumeiro texto sacana
por verborrágica luta insana
e, se alguém se sente em desvantagem,
apela pra figuras de linguagem,
misturando metáforas, pleonasmos,
com licenças poéticas, no orgasmo
ao medirem forças dois titãs.
Até que já sem fala, de manhã,
mais sedentos que famintos, como taças
nos bebemos um ao outro, extasiados
de repente sem palavras, embrigados,
(eis que a língua se enrola, a gramática falha),
nos lambemos em nossa cama de batalha,
onde desejos e tesões explodem atômicos
em delírios guturais, gozando afônicos.


(Urhacy Faustino)

13.6.07

Samba levanta poeira

ave, presença !
posto hoje uma música do Felipe Schuery, com o título acima, que tem uma letra belíssima.
abraços a todos !

* * *

Tombei do bonde do amor,
Montei na dor do pranto meu
Com pinga sou Galileu,
Passo a observador...

O céu escuro faz-se brilho só,
Avisto uma estrela linda de dar dó
Piso na lua, a natureza não me deixa não.

Apesar de derrotado,
Me mantenho levantado, braços dados com o mundo
Agora ouça, de você já me esqueci – com mil fiéis amigos posso me divertir
Caixa de fósforo, garfo no copo e violões
Fazem fundo pro meu canto que encanta corações

Te esqueci pra valer !


(Felipe Schuery, Samba levanta poeira)

8.6.07

Ponto do escritor

amigos do presença, poesia é de que precisamos... viajar e poesia, som e poesia, viajar e som, viajar e viajar, trabalhar mais a ansiedade, contemplar, atitude poética.
posto uma poesia do flavio nascimento, poeta vanguarda e que conheci numa das idas ao beco do rato, com vinicius e william.
abraços,

--------------------------------------------

Pega no teu livro para ler
Pega na pena para escrever.

Vem anunciar
o que você tem
pra dizer.
A gente quer ouvir
A gente quer saber.

Vem divulgar
proclamar
a tua profecia.
Vem fazer nascer
um novo dia.

Vem sonhar
construir
a tua melhor fantasia.
Vem espalhar
alegria

Vem falar de Nosso Senhor
Vem anunciar
trazer
o Cristo Redentor.

Eu não sou digno
de segurar a tua mão
Mas vem me banhar
nas águas do rio Jordão.

Traz tua graça
tua inspiração
tua energia
tua iluminação.

Faz um poema
pra gente recitar
Faz um verso
pra gente mostrar
Faz uma peça
pra gente montar
Faz uma ópera
uma ária
uma toada
pra gente cantar.

Pega um lápis
pra redigir
Pega um desenho
pra colorir
Faz uma canção
pra divertir
Faz esse povo
gargalhar
brincar
sorrir

Pega um pincel
pra pintar
Pega uma máquina
pra fotografar
Pega um filme
pra documentar
Pega uma luz
pra clarear

A tua palavra escrita
copiada
anotada
redigida
Mostra que a Vida
tem sempre uma saída
Mostra que a Esperança
não está
totalmente
inteiramente
completamente
PERDIDA !!!


(Flavio Nascimento, "poesia popular participativa", no dia do escritor, 25 de julho de 2006)

5.6.07

Sem titulo

alo presença, posto uma poesia sem titulo da Ligia Pinheiro, uma das melhores dela que ja li.
abraços a todos.

__________________________

O que eu não conheço,
não me faz falta.
O que não sei,
não temo.

Quanto tempo,
não me preocupa.
De que maneira,
não me interessa.

Isso tudo não faz sentido para mim
Porque já é.
E ser me basta.

Não preciso de contratos
De prazos, de promessas
Na verdade não preciso.

Mas quero,
quero só o que já é
e o que é, não é só.
É o bastante.


(Ligia Pinheiro, em 2006)

29.5.07

Pluma

O perambular alegre,
Perder chão, carregar só distância
Que pesa tal pena,
Um grama apenas – e errante,
A pluma do tão-somente,
O ser edificante
Do mero acontecente –
Eis o dicionário
Da língua dos pássaros,
Do rumor das árvores ao vento,
Do meu mor-preenchimento,
A molécula que vai,
Á água e ao ar –
Vão o vento e o rio
Pois que não sabem ficar.


(21 de maio de 2006, extraido da parte 5 do livreto "Acontecente")

25.5.07

Mas finda a tristeza contida
Na lágrima corrente da dor
O abraço e a mão estendida
Que explicam o inexplicável amor

20.5.07

Rafael Elfe

J a z z i g o



Quando eu morrer,

paguem aos violeiros, os mais antigos

pra na fumaça das violas

meus restos evocarem...

Dêem meu violão ao primeiro menino pobre que surgir...

minha alma vai estar lá dentro,

e ele vai saber exatamente o que fazer,

eu já tive a idade dele...

e também nunca tive um tostão.



Façam chorar o couro dos banjos...

Deixem voar os corvos!

As galopadas do bumbo

me levarão junto às rodas marginais de blues,

e saltarei de dentro das gargantas dos que cantam com dor,

onde eu me ilumine.



Deus está em cordas novas!

Deus está em meus acordes!

Deus é minha voz dizendo essas coisas...

Minha poesia!

É o breu e a luz!

É a rabeca chorando...

A gaita que rasga!

E eu sou o breu e a luz.



Digam a eles que eu não volto mais...

peguei um trem que vai pr´além de mim,

pr´além desse mundo de fábricas e feriados...

e mesmo quando tocarem o último acorde,

enfim, continuarei por aí,

rolando e assobiando com o vento.

19.5.07

Minha mulher e o céu

Cobre-te as espáduas um vestido roçagante
E enlanguesces, toda minha, ancorada em meus braços,
Afagando-me a fronte e beijando-me, possante…
A delicadeza célica em meus sonhos crassos.


Apenas rudes em seus ensejos animais
(Meus cálidos instintos ao segurar-te as ancas)
Mas românticos nos veementes madrigais,
Ditirambos ao picante amor que me alavancas.


Galante, a alcova deixas, o céu aurirrosado
Acende-te todas estrelas e um teu gracejo
Reconhece-lhe o estro deveras arrojado


Enquanto que a esta cumplicidade doidejo,
Uma quimera de mulher e o celeste estrado
Haurindo o torpor do mar de amor onde velejo.


(14 de dezembro de 2006, extraído do livro "Madrigais", lançado pelo Presença em 2007)

7.5.07

Tranquilo

achei perdida esta velha resenha do rabugento poeta egresso da inteligentsia sul-africana de johannesburgo.
um verdadeiro divisor de águas no continente africano, onde os velhos quase que inexistem.

* * *

Você é velho,
Usa aquele óculos geriátrico.
Orelhas e nariz imensos, não param de crescer,
Nem por um minuto.
Vem ao meu escritório
Mostrar o banco de dados
Da sua empresa de engenharia.
O jeito de quem nasceu há séculos
E aprendeu informática com esmero.
Um hálito amargo abominável
Sentido a três metros de distância
De quem tomou café a vida toda,
O estômago fodido.
Um bom velhinho informático,
Sem coragem de deletar um documento.

Engenharia é rapidez radical.
Celeritas, neuro-cibernética, anfetamininformação.
zzrrt zongingsocingsoc frrr
Não leitinho na mesa de cabeceira.
Seu velho, seu merda.

(Afonso Nives, Johannesburgo, em 2004)

3.5.07

É o que se tem

posto mais uma pérola niilista do Fábio Alves, que tem surgido com surpresas impressionantes.

creio que o poema é carregado de uma reflexão comum a muitos.

* * *

Um quadro negro
E um caderno em branco
Por que estás sentado neste banco
Oh! Juvenil criatura?
Filho de uma mãe a mais


Por que não vive sua vida?
Por que não cura a ferida
Que o mundo se incumbiu
De te dar?


É que você já nasceu devendo
E só falam em dividir
Você quer multiplicar


Passa feroz o tempo sujo
E o que é que você tem?


Nada.

(Fábio Alves, 2007)

29.4.07

No sol, em prata e no grão.

As mãos seguram firme pros pés baterem soltos.
Junto ao salto vai o frio na barriga.
Desce ao fundo, sem peso.
De volta à tona,
o sol em meia-luz lhe cora o rosto.
No corpo, uma sensação de não ter onde, nem quando.
Volta e meia pequenos medos;
Avistar barbatana, canto de sereia, mão puxando pro fundo.
Na imersão vai o cardume,
ao encontro das redes.
E as ondinhas quebram,
desfazendo lentamente pequenos castelos.

28.4.07

Rafael Elfe

“A s s i m c o m o n ó s”



Eu fui aquele sujeito,

sem jeito

que um dia deixou

de encantos cair

e por ti

num conto

permaneceu fadado.

Aquele que cruzou a rua, num mar de gente

e esbarrou teu ombro, e nem sabia o que diria

e você a pensar na família

dentro de outros problemas

Fui aquele sujeito perdido

numa noite apática

num sinal vermelho

a lhe pedir informação

e bêbada, ao som da época

trouxe-me a metafísica do teu frio olhar de soslaio

E eu, o olhar vazio que te segui à fio

nas Áfricas nebulosas de tua mente

e reverdeceu o pasto colorindo as vias

enxergando a primavera febril de teus lábios

as alfazemas

que brilharam no ardor

que borbulhara ao sol de julho.

Fomos aqueles desconhecidos que se conheceram

num sábado de aleluia

pagãos órfãos de pai

a nova contra-cultura do país

os comunas anti-horários

os novos olhares pseudo-aristocráticos

éramos sós naquela manhã

uma pulga de ouro na avalanche da vida.

Fomos aqueles que desmudaram o destino

o mesmo que nos uniu e nos separou

pelas forças estranhas da paixão coletiva

da rudimentar forma de se pedir, num adeus que seja

e levantar as mãos orando pela compaixão de cristo

nas suas lavandas brancas e seus riachos de lágrimas e sangue.

Onde por horas estivemos?

Quando a bastilha caíu, quando berlim se separou

quando as torres gêmeas desfiguraram um dia inteiro

Onde por horas estivemos?

Quando o cão suicida do vizinho

mordeu o baço do velho

e caídos, ambos, gritaram de uma forma cômica

e tiveram as línguas adormecidas pela ambulância.

Onde por horas estivemos?

Quando harley cruzara o zênite, 67 anos depois

quando as janelas finitas dos subúrbios

de um ponto ao outro fez estrados azuis dobrarem-se

e deixaram os olhos maculados pela vida inteira.

Onde foi que nos deixamos?

naquele relógio amaldiçoado?

sempre 35 minutos para às uma de algum tempo

enfeitiçado, congênito, dentro de todas as formas da casa

descrevendo a nossa doce e amarga despedida.

Onde foi que nos deixamos?

naqueles beijos intermináveis

no final do banco dos coletivos irrisórios

cheios de estrelas nos cabelos

e canelas de areia e mar de ipanemas noturnas?

Onde foi que nos perdemos?

a avenida brasil está parada agora

e nos aguarda àquela tarde

quando o sol castigáva-nos

e entorpecia-nos de amor eterno

como se a eternidade fosse séria

ou qualquer tábua de nietzsche no jornal alemão

Onde foi que nos deixamos?

lembra?

quais fotografias foram reais?

quais as imagens mais cruéis agora?

onde fomos deixar as alegrias

que nos permeavam de dias sem indultos

de horas sem pêndulos de flores em nossas capelas

Quais refeições? Quais talheres destrincharam

o que as bocas adorariam dizer

e engoliram apenas

ou mastigaram todo o infinito rude dos nossos mudos olhos

quais copos de vinho nos cederam a verdade

pra quando deitamos lesos de algum pedido

e deixamos o corpo responder aos instintos

ou tão somente dormir, aquecido um pelo outro.

Quantos dias?

Quantas horas contadas?

Nada, diria...

nada mais do que a máquina fria da vida

nada mais do que a voz indizível do tempo

Fomos e seremos ainda, muitos outros

e nunca deixaremos de ser o que somos

e o que fomos será sempre o que deixamos de ser

quando o que somos será sempre um passo atrás

do que desejaríamos

e esta réstia de seres está à perambular em nossos espaços

e deixar pegadas fundas nas praias espirituais

e nada, diria novamente

nada poderia ser tão mágico e simples.

27.4.07

A ausência


Caros, dessa vez não vim poetar, mas tão somente delinear apropriadamente um conceito.

________________________________________

A ausência

Não é a simplicidade da falta

Que faz uma coisa que se procura e

Não mais

Se encontra.


Ou mesmo

O resíduo do que se perdeu

Definitivamente.


A ausência

É uma tristeza calada

Posto que é o fim da ligação

Entre

Algo que se tem por dentro

E aquilo que dantes se encontrava próximo

Por fora.

_______________________


vinicius perenha - abril de 2007

26.4.07

As mulheres e o tempo

se ninguém se arrisca, tenho material extenso pra postar, de qualidade impressionante para os desavisados que não conhecem poesia independente.
de uma reflexão absurdamente desnorteante, releio "as mulheres e o tempo".
aos mais desavisados recomendo coletes salva-vidas...

* * *

I
Jamais é um tempo que não acaba nunca
Que nem por alto, dá pra se fazer idéia
Jamais
Transcende. Porque nunca também começou
Ironicamente ainda pode ser falado
Mas só quando supõe o sempre
E sempre que assim for
É adequado.
Jamais?
Adequado?
Estranho

II
Vai que ela diz:
jamais falo contigo de novo
Vai
Que ela diz: te amo
Pra sempre
Vai, que ela chora
E sempre que chora
Diz que nunca vai te perdoar
Ou que ela some
Vai morar num bueiro, sei lá
E nunca mais volta
Vai que ela tem razão
Tá bom, tá bom...
Isso nunca
Mas vai que ela pensa que tem
Sempre?
E nunca mais deita do teu lado
Segura tuas mãos
Mexe nos cabelos
Etc., etc., etc

III
Adequado é que não pode ser
Uma coisa dessas
Só uma, vai que mata
Imagina todas elas juntas?
Elas deviam pensar mais em nós
Ser mais frágeis, eu acho
Não sempre,
Mas às vezes seria muito melhor


(Vinícius Perenha, do livro "Poesia pra toda obra")

22.4.07

O sol encobre toda a superfície do meu corpo

reflexões-de-grande-importância-pra-mim-e-que-chamo-de-poesia, capítulo I.
já publicada no tomo VI do "acontecente"

* * *

O sol encobre toda a superfície do meu corpo.
O bom e só sol.
Sou Caeiro estendido,
Não penso nem tento
Mas logo me ocorre que
Alguma fração de uma história de bilhões de anos de existência
Do Astro-Rei
Me adentra, fazendo parte de mim indelevelmente.
Tenho agora algo do sol.
Absorver vitamina E e processá-la
É como que o reconhecimento orgânico desse fato.

20.4.07

O louco na praça

o centésimo-vigésimo post no presença é um poema-seleção;
me caiu esta bomba na mão, um dos melhores poemas do Fábio Alves, repleto de estímulo aos sentidos - principalmente ao sentido do atordoamento. um dos melhores e mais fortes poemas já postados no presença, em minha opinião e gosto.
alou presença, rumo ao milésimo post !

* * *

Sob o sol do meio-dia
Reflete as cores brancas
Calorosas e frias
A praça de bancos
Repleta
De pessoas
Vazia

Sob a torrente de luminosidade
De soslaio olhando
Atordoados se dedicam
À rotina de contratempos
Repleta
De amenidades
Vazia

Sob a barba e terno negros
Maltrapilho e suado
Prega a palavra desesperada
De significados
Repleta
E de lógica
Vazia

Sob as asas da doutrina
Os transeuntes nem mesuram
O valor do qual desatina
Que mostra ser
Repleta
Nossa vida
Vazia.


(Fábio Alves, aos 17 de julho de 2007)

18.4.07

O timoneiro

O timoneiro recebeu as visitas
Na sala de estar
E virou o messias
Do barco da vida das pessoas,
O barco que elas são
(O barco que elas somos…)


O timoneiro diz às pessoas
Que somos exatamente tão importantes
Quanto somos mera matéria sendo,
Tanto chance
Quanto bênção
E… elas podem entender isso?

(Isaac Frederico, em abril de 2007)

16.4.07

Ostras

fala presença !
posto mais uma excelente poesia do Guto Leite, lembrando que o blog-tosco-spot não me permite manter a diagramação original proposta pelo poeta.
a analogia do poema é intensa e bonita, e sua reflexão é firme.
um abraço a todos !

* * *

a Hume

nunca vi de perto uma ostra
nem pretendo
sei de sua natureza imersa
e fria
como as jóias

imagino-as pedras vivas do oceano
escuro
que começa nos abismos

quanto valem
sempre está turvo
azul
além das imensidades

as almas dos artistas
são ostras degeneradas
de presença
nunca poderão ser tocadas
ou salvas
pela pérola

(Guto Leite, 2007)

13.4.07

Apatia

alou presença !
posto um pequeno conto de um grande amigo, o Fabio Alves.
há anos filosofando sobre os atalhos, desde tempos imemoriais em cabo frio, a produção literária do Fabio não tem sido muito impulsionada por ele próprio, então nada melhor que a boa diversidade, colocar em jogo o máximo possível de pensamentos e malabares de palavras.

* * *

Quando cheguei em casa havia três horas após o meio dia. Coloquei a cadeira de praia no armarinho debaixo da escada. Subi para o andar de cima com os pés sujos de areia da praia.
Não quis comer nada. Avisei à empregada que estaria no quarto, para o caso de um telefonema ou eventual visita. Tranquei a porta.
O meu quarto ficava na cobertura de um apartamento duplex defronte à praia de Ipanema, de onde tinha vista plena do Arpoador até o mirante do Leblon, do movimento das “dondocas” rebolando seus belos corpos no calçadão e dos surfistas deslizando nas ondas doiradas pelo sol cor de abóbora em seu crepúsculo vespertino. O dinheiro e as coisas belas nunca foram escassas na minha vida.
Tomei um banho quente – que ardia-me as costas bronzeada pelo sol- e saí do banheiro ainda me enxugando. Coloquei uma bermuda confortável e deitei-me na cama: A apatia.
Só o som do Rádio, o vento gelado que saía do ar-condicionado e o calor da brasa do meu cigarro repousado no cinzeiro, faziam que alguma coisa material se movesse. No mais, era tudo parado e os pensamentos confusos. Não foi a partir daquele dia que tudo começou, mas dali descobri o que me reservara a vida e o que ela havia me dado até presente o momento.
Era justamente, e apenas, tudo aquilo que ali estava: um sol, belas garotas, dinheiro e alguns poucos amigos – que não sabia sê-los verdadeiros. E isto é tudo que realmente pode-se esperar. Então, compreendi a dor que às vezes me remetia ao maxilar, os dentes rangendo e a vertigem nas noites mal dormidas de todos os dias: A aflição.
“Viverei eu assim?”, pensei.”Será que é só isso mesmo? Tem que haver algo! Tem que haver!”. Mas as coisas não aconteciam, e dia após dia a rotina se instalava em mim. A dor no maxilar aumentara, além do surgimento de calafrios – outro sinal de que as coisas não iam nada bem. Não comia; a libido se reduziu a zero. Perdi a namorada e os poucos amigos que agora sei serem falsos. Um homem num parafuso que se atarraxa cada vez mais para dentro do buraco feito pela furadeira das idéias na parede da vida.
Passei a me escorar em garrafas de uísque. Assim, comecei a distanciar-me da realidade. Era o que eu precisava! Tornei-me ébrio permanente. Mas não deixara de morder os dentes. E o álcool se tornou, para mim, como o sol e as ondas douradas do mar, como o mirante, o mendigo e o caviar. Como tudo era: colorido e sem graça.
Fui internado pelos meus tios numa clínica. Achavam-me louco e viciado em álcool. Não me opus. Não me importava.
Foi lá que comecei a tomar remédios de tarja preta. Minha dor no maxilar cessara e os pensamentos começaram a se alinhar. Tive alta da clínica.
Com o passar do tempo, descobri que toda apatia é fruto de uma certa dose tragada de revolta, mas uma revolta tranqüila – mansa. E minha vida seguiu como era antes, com exceção das pílulas que tomava pela manhã e à noite antes de dormir. Apático e revoltado com alguma coisa que eu não sabia o que era, quiçá nunca saberei.

(Fabio Alves, 2007)

8.4.07

Cânion

pessoal, feliz páscoa a todos...

* * *

O berro
Da probabilidade não eleita
Sempre ecoará
No cânion do que é,
Do que foi escolhido.

Amar é tanto
A única redenção possível
Quanto o trauma inicial do Ser.
Ou

Amar é um berro
Num cânion sem eco e
É a eleição serena
Da possibilidade redentora,
O alívio único
Do trauma inicial de Ser.


(latitude Aracaju-SE, aos 7 de Abril de 2007, a bordo do PLSV Pertinacia)

6.4.07

Paquera na chuva

mais uma bela composição do poeta mineiro Marcelo Pontes, que já esteve antes nas páginas do Presença.
seus sonetos sempre simples e incisivos giram muitas vezes em torno de um sentimento agradável de paquera, leveza e serena positividade, com luz, temáticas claras e ambientes alvos.

* * *

pingos insolentes,
roubando carícias,
em pontos quentes
de curvas e malícias

como frios beijos
que provocam arrepios
e loucos desejos
em corpos macios.

e encolhendo panos
nos belos contornos
que atiçam a mente;

deste alguém que olhava
com inveja da chuva
que caiu de repente.

(Marcelo Pontes, MG)

5.4.07

Informação

ecos do "acontecente"...

* * *

Durmo.
E continuo acontecendo,
Fora do escopo
Da analitiquice incessante
Que nos tornamos.

Interiorizo
Os alimentos,
Tão dentro
Que chegam ao núcleo celular,
Em forma de informação:
Continuar,
Acontecer
A todo custo.

Acontecer é agradecer;
Estamos juntos,
Da mitocôndria
Á Via Láctea.

3.4.07

Presidente

Sou o presidente
De mim,
O residente
De mim.
Alugo minhas fibras
Do Tudo,
Com grande amor;
Aconteço sorridente,
Alegria e dor –

Sou meu presidente.

(Delft, Holanda, em março de 2007)

31.3.07

Seixos ao rio

costumo sempre retornar à leitura das poesias do abdul, quando me faltam elementos naturais, paisagens, figuras atentas à contemplação ao invés da analitiquice. dependendo do tipo de ambiente onde vc se encontra, isso pode ser bastante comum.

do novo livro do poeta a ser lançado a qualquer momento - ao qual felizmente tive pré-acesso, temos "Seixos ao rio"

* * *

Estou feliz, estou cantando.
Estou dançando, estou escrevendo.
Estou pensando coisas boas e lindas.
A alegrar-me na alegria de outros,
Que somadas aos meus próprios sorrisos,
Perfazem o desenho de um rio gelado,
Que corre baixinho, assoviando
Paz aos ouvidos desalmados.

Que sopre o som e refaça minha voz,
Refaça minha paz, minha harmonia,
Meu paraíso pretendido.
E se possível, como por mágica,
Construa as casas que nunca pude ter,
E o silêncio infinito que sempre quis respirar.

Permaneça a paz, o amor, e o sagrado
Do rio, a descer a passos largos e lentos.
A levar os seixos ao alcance das mãos,
Para podermos, no pôr do Sol,
Jogá-los de volta ao seu berço.


(Felipe Sandin, do livro "Poesias ao vento", 2007)

27.3.07

Câncer

Um antigo. Infelizmente, não deu pra manter o diagrama original.

Maldito Blogger!


________________________________________

Câncer


Vagar.

Devagar,

divago à luz

do câncer.


O câncer que respiro.

O câncer que alimento.

O câncer

Que enxergo.

Orgânico.


Cresço, desenvolvo e

amadureço.

Tal o

tumor

em que me reconheço:


Escuro

Amargo

O carcinoma

O invasor.


Metástase!


Sim,

amplio os horizontes.

Consumo obsessivo.

Degenerativo, o desarranjo.


Suicida.

Essencialmente suicida.

Consome o próprio hospedeiro.


O câncer,

Deus,

O devir.


Toda a crença é homicídio.

Toda a fé é homicídio.


O hábito, é letal.


(vinicius perenha - Rituais de ver e olhar - 2003)

24.3.07

História

Seduzes-me.
Apaixono-me.
Poeto-te.
Aceitas-me.
Unimo-nos.
Multiplicamo-nos.
Desaparecemos.


(Schiedam, Holanda, em 10 de março de 2007)

22.3.07

Fenômeno

André Bentes, e um poema chamado Fenômeno


Idéias não suportam o pulsar sanguíneo
E como vapores d’água que o corpo expulsa
Exilam-se no véu oculto de um sentido
Que explode em sensação, como a alma busca

Insiste em estar viva a veia latejante
O dedo já se move por vontade própria
A língua é enrolada dentro da garganta
No peito a redundância de amor e ódio

São átomos e células, tecidos e órgãos
Os músculos que estendem também se contraem
O cérebro da casa fica lá no sótão
E os sonhos são amantes que não se encontraram

Transborda o sentimento e a palavra cala
O olho lacrimeja sem ter um motivo
O pescoço se traduz como um arrepio
E o tato todo gira como uma mandala

O dente apenas morde e a ferida sangra
Aberto o apetite, sabor e aroma
vermelho traz a fome, fome traz a dança
a sede nos caninos é só um sintoma

O corpo submisso exige mais um pouco
E as unhas são a águia sobre o meu pescoço
A alma está segura pelas minhas coxas
Some o pensamento sem nenhum esforço

Agora é só o peso, e grato à gravidade
Procuro a tua boca, olhos já cerrados
Sou o universo inteiro dentro de uma flecha
Outrora eras meu alvo...agora és meu arco.

(poema integrante do livro Recortes do Tempo, lançado por andrezinho em 2007)

20.3.07

Insignificacional

De volta ao batente após uma cirurgia de apêndice, o poeta sul-africano manda atualizações de seus versos, aparentemente ainda pós-operacionalmente tenso.
Do auge de seu status sexagenário, eis que me remete a pérola "Insignificacional"... não sei ao certo se o Presença deveria abrigar os versos beligerantes deste guerrilheiro, mas em nome da diversidade aí vão.

* * *
O mais triste
É ser covarde o suficiente
Para culpar todos os demais;
Ser pomposamente incapaz
De julgar a própria ineficiência.
Continuar metralhando o sistema
E se barricarAtrás do ego.

Ou ser masoquista o suficiente
Para culpar apenas a própria inaptidão
E redimir todos os demais bostas
Desta Grande Tragédia;
Se barricar
Atrás do perdão alheio.

Oral, genital, anal…
Tua saga, isso sim,
É insignificacional.

(Afonso Nives, em 17 de outubro de 2006)

15.3.07

Anarco-significante


Vamos,

Com mais carne que boca,

Mexer as coisas.


Desafiar o consumo.

Alfinetar a vigência.

Assassinar o sentido.


Punir com ironia.

Agrupar com afinidade.

E avacalhar a teoria toda

Com cinismo.


Todo mundo junto.


Depois de cada um,




Sozinho.


(vinicius perenha)

12.3.07

Apolíneo sob as rodas


No acerto final,

O significado nas terríveis sentenças,

A ferrugem nos membros,

O vazio no arbítrio,

Precisarão de fibras impossíveis.


O absurdo em cada escolha.

Breve e irreversível

Vão, mas indizível...


Nada nos manuais

Nem uma única forma segura de agir.

Sete imprevistos e um plano.

Três palpites antes da queda.


E mais dez anos passaram;

Fobias curadas,

Fantasias no sótão,

Espaços em branco.


Árdua tarefa; reunir peças,

Concatenar vexames pretéritos

Com orgulhos vazios.

Desenterrar verdades esquecidas

(o potencial do esquecimento...),

Traições não reveladas

E medo.


Medo de olhar e encontrar a chave

Do fundo do poço que abriga

As lâminas

E mantém sob controle o dark side.


Ferramentas de cólera,

Tempos de guerra.


Breves tempestades que arrancam

Raízes

Desnecessárias

E atrelam à mecânica do olhar

Visões oriundas da finitude.


Nalgum obscuro canto

A lógica do sentido

Zela pelas sentenças do porvir.

10.3.07

Madrigais








Caros, o primeiro lançamento do selo, como já anunciado pelo prório, foi o livreto Madrigais, do Isaac. Alguns poemas do livro já estamparam as páginas do presença, mesmo antes do lançamento, mas agora o filho tem cara, e é esta que aí vai, junto a um dos poemas que mais me chamou a atenção.

Divirtam-se!




______________________________________


Desilusão



Encanto extemporâneo,
O meu que se choca
Em tua fortaleza de quês;
Na peanha teu busto cerrado,
Atribulado.
Não tarda e vejo fechares o tempo,
Em estampido de ira,
Despetalando minha cortesia,
Reduzindo-a a íon.

Feneço, entristecido,
Desaparecido - órfão.
Recolho-me ao sótão,
Respiro os versos que te dediquei -
Me pergunto onde errei,
Revejo rimas, refaço estimas,
Acalento a pequenina chama
Que inda me resta
E que para si reclama
A proximidade infesta
Da paixão que lhe inflama.

"Inexiste solução, vassalo",
Uma tua carta me versa.
Teu amor tergiversa,
Afunda-me em névoa
De angústia mordaz.
"Abdica", pede-me o coração;
"Escreve-te um foguete,
Vai-te embora para Plutão".

(Isaac Frederico)

9.3.07

Noivos

Guto Leite volta às páginas do Presença com "Noivos" cuja distribuiçao original de palavras no papel eu nao consegui manter, em virtude da ineficácia do control-ce-control-ve.

Guto irá lançar um livro por uma editora do Rio (Guto mora em SP), desconheço ainda os detalhes que envolvem este lançamento, mas desde já convido os demais "presentes" a abrir as portas das instalaçoes da Editora Presença para o estimado poeta, o que significa, talvez, a nossa cerveja de calçada e lua cheia na lapa.

presença !

* * *

Noivos

lenços anzóis
uns para cada lado
nem paralelos
nem perpendiculares
ao chão
suspenso
vão rimados no oculto
como promessas
as mãos superficiais
com medo
de furar a água
de mau jeito
trocam-se marolas
delicadas
até se deixarem corpos
desprevenidos
um do outro
luzes brancas
nas
velas da onda
refletindo infantes no equívoco
entrecaracolados
seguem lisos
do alarme
no ponto do tempo
em que podem
suas histórias fabulosas
no ápice
arfam estridências submersas
além da abóbada
celeste
do quarto que os envolve
para cansarem-se em instantes
novamente silêncios
lenços
azuis
demoras
rimados em dobra
sem destino pronto

(Guto Leite)

5.3.07

O homem que não conseguia morrer

Arrastava as correntes e temia pelo barulho que elas poderiam fazer. A pele em atrito contra o muro sangrava, mas ele já não sentia a dor. Ser visto, esse era o seu maior receio.
Queria fundir-se a algo inerte. Queria deixar de ser. O peso das correntes curvava ainda mais o corpo ferido. Não lembrava qual era a cor do céu, há anos os olhos só vislumbravam o que estava abaixo de sua cabeça. Meteu nos bolsos as mãos sujas (por mais que as lavasse, elas nunca estavam limpas) e encontrou o pequeno espelho. Ao encará-lo, teve novamente diante de si uma imagem embaçada, indecifrável. E desta vez, resolveu encarar-se até o limite e assim fez até os olhos queimarem, mas de nada adiantou, os segundos a mais não lhe trouxeram novidades. Arremessou o espelho contra o chão e o que sobrou foram milhares de cacos minúsculos. Queria chorar, não conseguiu, estava seco. Agarrou com força o aço das correntes e num golpe brusco, as lançou contra o pé esquerdo. Soltou um grito assutador. O sangue manchou a calçada. Continuou a caminhar, dizendo coisas sem sentido. Ao chegar à ponte, a madeira rangeu, sob seus pés, em uma das tábuas, estava escrito uma frase: Ninguém se livra do que é. O corpo estremeceu, fechou os olhos e lançou-se ao precipício. A queda durou mais do que imaginara. Ao alcançar o solo, abriu os olhos e viu seus braços ilesos no centro da multidão. Ergueu o olhar e nada. Só haviam gargalhadas a lhe estuprarem os ouvidos.

Rio de Janeiro, abril de 2005.

3.3.07

Madrigais

Salve Presença !

lancei no dia 01 de março meu novo livreto, chamado "madrigais", uma espécie de homenagem aos poetas clássicos (na forma dos versos) e sobretudo à fantasia irrestrita, na forma dos conteúdos abordados.
na ordem numeral é meu sétimo libreto, contando os dois em parceria com o Vinícius Perenha.
vale lembrar que todos os libretos estão à disposição de quem interessar possa.

Imanifesto - Presença

Em nossa presença não será deflagrada a guerra por ou contra flâmula alguma. Nosso movimento é simples, fluido; porque consiste somente em mover-se. Se existe na empreitada algum mérito, este será então o fato de que simplesmente trocamos o que era antes pelo que é agora.

bom final de verão a todos !

1.3.07

Sem dizer nada, Helena se fechou entre quatro paredes. Junto do peito, a carta de amor manchada com gotas de vinho tinto seco. Ela chorou por alguns minutos, mas logo se refez. Passou a cantarolar uma música sem ritmo só com as vogais. Em um vestido de margaridas meio murchas, limpou as mãos molhadas de água e sal que caíam novamente dos olhos.

Começou a reler a carta. A letra, tremida, trazia lágrimas em versos - versos do vice-versa da vida. E vice-versa. Enquanto suas duas mil e cinco gotas arrancadas manchavam as linhas com a tinta da caneta, ela buscava uma razão para tudo aquilo lhe acontecer. Estava apaixonada e completamente assustada. Não sabia se podia continuar vivendo aquele sentimento. Preferia não saber de algumas coisas que a carta contava. Mas estava mais tranquila por tudo ter chegado a um ponto final.

Era domingo. Dia enfadado. Vestido de preguiça, de guarda-chuvas azuis. As camisas quadriculadas no varal, misturadas à vertigem, provocavam-lhe um estado ébrio e hipnótico. Ela havia desmembrado as palavras que lera, para ficar com a parte boa das coisas – doce, acaso, merda, interessantíssimo. Sabia que não havia para onde ir. Só havia a espera. Na carta, ele explicava que tinha um plano e já estava resolvendo todos os detalhes. Ela deveria se arrumar e esperar o próximo pôr-do-sol. Seria a hora.

Helena começou a preparar sua pequena mala vermelha que havia usado em uma viagem para o interior. Pôs duas calcinhas novas, um par de meias, um livro do Llosa, poeminhas para viagem, uma fita k7 com coleções de romancinhos, um casaquinho e um par de sandálias franciscanas - as mesmas sandálias que seu amor havia lhe dado no aniversário passado. Ela queria mostrar que amava. Mostrava com as sandálias. Coisas de ser humano.

No cair da noite, ele veio no velho Fusca do pai. O motor roncava alto. Ela trancou a porta da casa e jogou fora a chave. Decidiu seguir a vida como ele havia lhe pedido nas palavras - de olhos bem fechados, apenas sentindo as coisas com o tato. Fugiu com seu padastro para longe do peito da mãe, que nunca mais soube dos dois. Com um sonífero de tarja preta, deixaram-na sonhando com os jantares das noites de sábado e os romancinhos de sofá do começo do namoro.

Rio, fevereiro de 2007.

26.2.07

Pedro Lermann

Mais uma do velho e ácido Pedro Lermann. Um homem de sabotagens não menos herméticas que seus muitos textos.

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A Emboscada

Finalmente se lhe afigurava a áurea oportunidade pela qual tanto aguardara. A efêmera e raríssima presa de seus sonhos. Atravessara seu caminho tal qual um desfile cívico, uma procissão de almas. O desastre natural mais belo e assustador de sua não pouca experiência de observador atento.

Diante da pueril sensação de regresso às indóceis paixões de sua juventude, ele, um impulsivo e possante Mangalarga, pela primeira vez, hesitou. E enquanto hesitava, não dormiu, bebeu ou jogou. Seu espírito fora completamente subjugado pelo embrião do caçador que surgia, impaciente, dolorosa e silenciosamente.

E sob os auspícios imperiosos dessa gestação, crescia, então, um soldado. Meticuloso e hábil nas sutilezas e manhas da mesa onde, então, dispusera todas as suas fichas.

...

Eis que Tibério, implacável, se acerca de Úrsula e corajosamente balbucia seu ultimato:

DEVORA-ME OU TE DECIFRO.

Ela, felina, furtivamente diz sim e deixa que o vento leve os alçapões que não foram usados.

23.2.07

Nuance

Dormes.
Envolta em meus braços
Um cordeiro indizível de belo,
Um sono de tal ternura,
De uma graça tal que perdura
Minha vigília insistente,
Meus olhos lassos
Ninam-te o sono
Em paixão quase demente.

Dormes.
Tua nuca trescala o perfume
Dos meus sonhos de menino.
Aperto-te a cintura
Em toque de precisa brandura,
Ronronas ao gesto sentindo,
Murmuras mimoso queixume
E dás-me a mão, alvissareira,
Maliciosamente sorrindo…


(Rio de Janeiro, 14 de dezembro de 2006)

21.2.07

o homem que ri

abram na página 111 do "homem que ri"
e vejam ali a semente da contração de todos os músculos,
no carnaval somos todos músculos e suor, contrações,
tensão, carga, descarga, relaxamento -
a fórmula do orgasmo
a hemoglobina do espasmo
o fim do carnaval e seu fogo no milharal -
ano que vem somos nós
apenas um ano mais velhos.

14.2.07

Aparição

aloha, fantasia
...

* * *

Aparição

E, como só faltasse sorrires,
Sorriste;
O sorriso fulgurante
De quem domestica a fera
Pela candura,
De quem leva o razoável à loucura
Com um toque grácil,
Um trejeito airoso
Que rebomba no coração faltoso
De todo eu,
Imerso em querer-te posse.

E, como só faltasse (aconte)seres,
Foste;
Imarcescível,
Distinta,
Perjurando a premissa divina
De todos serem iguais,
Um sonho floral,
Alva e doce,
A revolução radical
Do meu tolo conceito
Do que vem a ser –
Meramente –
Perfeito.

(Rio de Janeiro, em 10 de dezembro de 2006)

13.2.07

Ponto final

As pessoas comuns
usam reticências
ou mesmo ponto-e-vírgula;
Apenas os heróis
(que têm sempre
um quê de trágico)
usam ponto-final.

(Rio de Janeiro, 12 de fevereiro de 2007)

10.2.07

Jantar a dois

Sentaram à mesa.
Ela e ele.
Casamento fracassado.
Cachorro traumatizado.
Pediram divisão de bens na entrada.
Mágoas e marcas para prato principal.
Deixaram o pedido de desculpas para sobremesa.
Mas já era tarde.
Estavam tão cheios, que só levantaram da mesa.
"Adeus Antônio".
"Adeus Tereza".

9.2.07

Passatempo

(da série "dos que não estão à altura", mas, enfim, só pra dar uma movimentada aqui).


Resolveu comprar um livro. Para passar o tempo enquanto esperava por ele.

Leu na escada, enquanto ele subia ao apartamento. No ônibus, enquanto ele ouvia um som. No elevador, enquanto ele se concentrava por causa da claustrofobia. Na porta do cinema, enquanto ele discursava sobre a fotografia do filme iraniano. Na mesa da lanchonete, enquanto ele decidia o que comer para não agravar a úlcera. Na praça, enquanto ele ouvia atento o discurso político do ativista. Na rua, enquanto ele analisava a arquitetura dos prédios históricos. No ponto de ônibus, enquanto ele reclamava do estado calamitável do serviço público. No restaurante, enquanto ele pensava o que valeria a pena pedir sem ser tão caro. No táxi, enquanto ele discutia com o motorista as mazelas sociais do país. Na fila do banco, enquanto ele esbravejava por causa das tarifas abusivas. No supermercado, enquanto ele escolhia as frutas.

Leu Galeano. Neruda. Rilke. Florbela Espanca. Pessoa. Drummond. Vinícius. Kafka. Cortázar. García Márquez. Machado. Thomas Mann. Nassar. Lispector. Inês Pedrosa. Gauguin. Vargas Llosa. Saramago. Hatoum. Pedro Naves. Shakespeare. Bilac. Carpentier. Borges. Zola. Virginia Wolf. Hilda Hilst. Gutiérrez. Bukowski. Allan Poe. Norman Mailer. Baudelaire. Twain. Caio Fernando. Casimiro. Castelo Branco. Augusto dos Anjos. Flaubert. Dickens. Dostoievski. Defoe. Azevedos. Rimbaud. Balzac. Bocage. García Lorca. Victor Hugo. Byron. Dante. Goethe. Schiller. Alencar. Guimarães. Carroll. Lima Barreto. Proust. Quintana. Cervantes. Nélida Piñon. Marquês de Sade.

E o tempo passou. Um dia, ele soltou um grunido. Argumentou que, com ele, o livro, a concorrência era desleal. Ela colou os olhos amendoados por sobre a página de seu mais recente Calvino:

- Fazer o que, se é ele, o livro, que me faz projetar sonhos que nunca azedam?
Rio, janeiro de 2007

4.2.07

O que não quis colher

aloha presença !
uma poesia do Grego.
boa folia a todos !

* * *

O que não quis colher
era a flor feita estátua,
a fútil flor fingida
que adorna tua máscara,
jardim de simulacros.
Esta flor, flor anêmica,
flor de outono livresco,
traz em si todo o ranço
de uma flor feita estátua,
o que não quis colher.

1.2.07

Cara e coroa

O sol cresta-me a pele
Se estou na praia,
A um passo da sombra.

O sol torra-me o cerebelo
Se estou no deserto,
A uma eternidade do abrigo.

Equidistante camarada
De implacável inimigo.

A lua lavra-me os sonhos
Se a miro, pés no chão,
A um passo do bom-senso.

A lua assombra-me o juízo
Se nela moro - sou lunático
A milhas da sanidade habitual.

Equidistante musa
De distúrbio mental.


(Rio de Janeiro, em 10 de dezembro de 2006)

30.1.07

Wladimir Cazé

Conheci o Wlad em 2004, quando ele foi em Campinas lançar o folheto de cordel "A Filha do Imperador que foi morta em Petrolina" - que eu recomendo muitíssimo. Essa foi a primeira publicação do Wlad pelas Edições K, selo criado por um coletivo de escritores, do qual ele faz parte. Depois ele lançou suas poesias reunidas no "Microafetos", em 2005.
Wlad é daqueles que nasceu poeta e outro destino não poderia ter. É também um amigo de quem sinto muita falta.
Posto aqui um dos meus preferidos do Microafetos. Pra quem quiser saber mais sobre o autor e suas novidades: www.silvahorrida.blogspot.com

O lagarto-planta

"Lagarto leva o dia
tatuado nas costas,
roupa cor da pele.

Tem estilo versátil
durante a tarde toda:
réptil não se repete.

Logo ao sol que esquenta,
as vestes mais não mexe,
fica atrás da folhagem.

Mudo, quieto e terrestre,
passa para quem o vê
por ser parente de plantas.

Camuflado na grama
carcomida de escamas,
é parte da paisagem

Devagar sai da sombra
para perto da água
se sede tem de onda.

Se mestre se quer
de uma língua contrátil,
finge fome ágil,

fisga num visgo
insetos sem aviso.
Se alimenta de antenas.

Fixa o olho no céu,
comanda o desenho
imprevisto das nuvens.

através do deserto,
dirige quando a noite vem
se deitar sobre as pedras,

escorrega nas trevas
(carregado de cores)
para dentro da terra.

onde é guarnecido,
aninhada na cauda
a manhã inicia:

lagarto tem o dia".

(Wladimir Cazé, junho de 2005).

29.1.07

O torno na bancada da vida

O mundo passou mais devagar depois de alguns anos
ficou severo e menos ansioso
quis mais saúde, mais sabedoria, mais calma
e menos tempo acordado.

O mundo reconsiderou oposições
soou mais sensato e nunca mais esperneou.
Adquiriu uma face rígida, austera e às vezes sarcástica
porém mais generosa.

O mundo sonhou menos nestas últimas noites
e realizou mais – inevitavelmente
nestes últimos dias.

Esta não é, de fato, uma Terra Antiga e quiçá
possa ainda este mundo ser chamado jovem
mas amadureceu, sem dúvidas.
E hoje é menos turbulento.
Vê-se aos poucos que vai serenando.
Vê-se, que aos poucos torna-se aquilo que ninguém esperava.
O mundo mestres, envelheceu deveras
E eu duvido, e muito,
Que tenha sido só o meu.

Avante!

(Vinicius Perenha)

* * *

Um poema foda, de 2005 ou 2006.
Continuamos avante, desnecessário dizer.
A gincana bebe apenas êxitos,
ainda que repleta de fracassos.

26.1.07

Amálgama

aloha poesia !
poesia rumo a alfa-centaurus.
sensação,
frêmito pulsátil,
êxtase tátil

* * *

Cingo-te toda, o frêmito pulsátil
De teu dedicado ser, que passeia
Em meus braços, é o fator que incendeia
A nascente deste êxtase tátil.

Entrego-me na doçura insular
Da unidade total do que tu fazes
Com o que tu és, as graças loquazes
Que ecoas – a reação pupilar

Te define: tua ânsia de fluir,
Teu desejo nato de permitir
Se traduzem em teu toque saudável.

Intumesço-me em excitação pura
E o abraço genital que traz cura
Nos une em amálgama inseparável.

(Fernando de Noronha, 25 de novembro de 2006)

23.1.07

Referencial

fogo no milharal !
foguete rumo ao espaço sideral .
em que coordenadas ? em que referencial ?
tou em obras ...

* * *

Referencial

Aos átomos já fazemos visitas,
Infrenes medições das mais diversas
Impostas às suas nuances catitas
Do Todo misterioso egressas.

Dos planetas mapeamos a dança,
Inclusive de Saturno os anéis
Listamos, em escrutínio que cansa –
Cascatas de informações ouropéis.

Tolejamos nosso Logos excêntrico,
Eneários compêndios quase vãos –
Destilamos orgulho antropocêntrico !

Sempre quanto, nunca quem nem o quê
Iníquos, esquecemos dos irmãos
Minguados… e qual de nós quer saber ?

(13 de dezembro de 2006)

20.1.07

Soneto do amor roaz

aloha presença !
estou em terra de volta e poderei voltar a postar - volto imerso na fantasia do carnaval, do nada ser, fica sentado de sacanagem...
a fantasia é o alimento, pra sempre, o combustível do nunca.

Soneto do amor roaz

Principia-se a túmida quimera

Em meu juízo cheio de bulício

Quando te toco – e tamanho suplício

É te tocar e não te ter... quisera

Submergir no púrpuro desvario

De beijar-te em edênico torpor

E apascentar este roaz amor

Que me ferve em um delírio sombrio...

De modo que, infinito, assim perdura

O desserviço de minha impostura

Até que no púlpito de alva febre

Eu consiga moer a navalhante

Distância e tenha a coragem galante

Que esta putrescível prisão me quebre.

(Recife, 27 de novembro de 2006)


15.1.07

Vamos, irmão

”Vamos, irmão … Por quê ascender tanto? Para quê?” e, por Deus, ascendeu de forma imediata; pássaros cortejavam-lhe despreocupados, na primeira camada da atmosfera terrestre, o filme aeróbico que envolve a superfície da superfície do nosso planeta. O polo setentrional mudou-lhe a direção vetorial, o meso-centro atlântico de alta pressão esqueceu-lhe e as próprias estrelas notaram por si, no intervalo semi-aberto pós-estratosférico. “Cheguei ao fundo do poço”, pensou, triste, entretanto há já longos anos ciente de que subir, por força de necessidade, é o mesmo que descer, na nossa absoluta falta de referencial cósmico e relativa lacuna de interpretação.

Era ser cognoscente de turbilhões de sensações diametralmente opostas se alternando, turbilhões de diâmetros sensacionalmente alternados se opondo e etcétera, são só palavras. Ser cognoscente e sujeito do predicado divino manifesto, menos por vontade própria que por absoluta falta de escolha, fibras encarnando e desencarnando alheias, inteira e dramaticamente alheias à vontade dos homens.

“O que verdadeiramente importa agora? Arrumar um grande objetivo condutor de todas as atitudes, catalisador de todos os esforços e posturas, ou ir tocando as pequenas coisas, aguardando o momento oportuno do grande boom …nem ao menos disto sabes, seu grandíssimo paquiderme inútil”, condenou-se, severo em demasia. “Preciso achar o balanço entre o desejo genuíno a médio prazo, passando incólume pelos desejos sectários inflamados de um momento e pela cessão completa à lógica da modernidade. As oscilações serão normais, saiba disto.”

E então abriu-se o céu encarnado, trezentos e sessenta graus de visão em seu estado de superciência e supra-cognoscência, um céu que podia ser chamado de concrético, fosse o inferno metálico, ou plúmbeo, fosse o limbo isotônico. O céu encarnado e vivo, aliterativo, flutuabilidade negativa, espasmódico em reações provocadas, plástico em seu leiaute.

Abriu-lhe o ventre, à aproximação final de seu corpo, tentação superlativa de adentrar, tentacíssima de voltar ao ventre da mãe, mas… hesitou. O magnetismo quase bipolar apresentava-lhe, entretanto, a chance de ser aquilo tudo a Grande Babilônia escravizante, chance equilátera ao ser aquilo a Redenção Derradeira, o berço das sensações ampliadas de entrega e acolhimento irrestrito.

Claudicou, olhou as horas no relógio de pulso, um desânimo latente, no geral.

Então, ascendeu a satélite, orbitou e passou-se uma época, um terreno onde se desenvolveram eventos, que abriam caminhos para novas portas, assuntos pantanosos, retórica em jaulas, caminhos pouco confortáveis, oxigênio reduzido. “Quais mil hipóteses poderiam ter sido se não fosse esta?”

Sentiu-se desconfortável, doente, moribundo; literatura densa, labirintos kafkianos, que rumo tomar, que escolhas fazer quando nenhuma postura é boa ou sólida o bastante para merecer a unanimidade do soberano conselho de juízes da sua cabeça?

Deixou-se entristecer, desconfortável, doente, nauseabundo, mais pela grande esforço que teria de efetuar que pela inevitabilidade da química da depressão, verteu uma lágrima, a única sem controle, encabeçando um grupo de todas as outras ainda represadas sob os olhos lassos, por ligações químicas fortes jorraram logo em seguida, formando riachos delicados na batimetria de seu rosto, “vamos então adiante na maratona, adiante na maratona vamos nós, pouco importa se importar, a juventude é fátua”, pegou fôlego e seguiu, aguerridamente – “o domingo não sendo santo, a segunda não dá ressaca.”

“As nuvens são de marzipan, na falta de outros materiais plausíveis de ser, e então são cortadas pelas montanhas lindas e afiadas do Pontal do Atalaia, às ordens de um certo xamã zen chamado Quem, encarnado Frederico o Lunático – respira, pega fôlego – chegamos à segunda-feira outra vez, se não santa beata, coisa de instantes atrás, a última segunda, quantas horas de sua vida você ainda vai vender? Deus é a grande pena na folha da alma, ora letras grandes (veja), ora pequenas (cegue), ora itálicas (frise), ora cirílicas (incompreenda).”

Desejou morar na Slow Europe, a versão lenta do Velho Continente, seqüelada, enrolada numa smoking de proporções rastafáricas, e admitiu em seu âmago, com expressão resignada, que pessoas que gostam de verdades mais sólidas é um grande eufemismo para pessoas que necessitam de dogmas para viver e que expressam gosto pela tragédia e torcida por acontecimentos bruscos, mal desconfiando que isso nada mais é que a manifestação implícita da vontade de mudança reprimida, tem que ser reprimida, se formos nômades e/ou reconsiderantes, como poderemos trabalhar na linha de produção da Volks, como poderemos ser esmagados na linha de produção, onde haverá de se achar as engrenagens mal-lubrificadas da Grande Máquina ?

“Isto aqui é o inferno metálico, concluo”, o ventre ansioso do céu já violeta fechando-se-lhe lentamente, escapando-lhe por entre os dedos, fenômeno de causa, ou não. Havia vento polar, há que acreditar, havia cajados à venda em Ollantaytambo, por quê não haveria de haver, de houvera, de houvesses ou haveríeis ?

As pessoas são de marzipan, por falta de material melhor, ainda que dulcíssimo, ainda que dulcíssimas, portanto.

Isaac Frederico, no livro II da série Acontecente, de 2006.

13.1.07

Xeta

E foi lá que eu fui. Cacei, andei, rastejei. Os olhos tristes da vespa faminta em busca de um alimento. Alimentei a minha fome de sangue. Alimentei a minha fome. Minha sede de sangue. Meu sangue de fome. Seca da vida. Vida seca. Da minha espingarda saiu um girassol que se atirou em seu destino absurdo pelo mundo obscuro e por um mar de curiosos. O girassol girou bandido. Mas se fez de surdo quando alguém lhe chamou de sol. Ato, cato, rato, mato, o fraco tato do tatu tarado se desfez em maços de cigarros curtos de palha rala.

E foi lá que eu fui. Voei, flutuei, sobrevoei. Os dedos que se mexiam em forma espiral eram agora um pouco de tinta, de pinta, de pincel de madeira em verniz. Espiral de ar. Concordando com os movimentos do zéfiro, se fez um ato, uma música. Música do bam bam bam, tico taco, glena glino, hino ano, pota pota, guico guico, ram ram ram, potoc potoc. E o ato se fez bandido, banido, bajulado e abaixado. Em pequenas e grandes pernas tortas se fez o ato.

E foi lá que eu fui. Queria admirar tua flor. Queria ver teus olhos. Queria beijar teus lábios. Queria andar em teus caminhos. E foi lá que encontrei o espelho. Foi lá que entrei na água e descobri a leveza do meu corpo. Foi lá que virei criança. Foi lá.

Rio, mês 01, ano 2007.

11.1.07

As manias de Ítalo

Foram três facadas em pontos estrategicamente escolhidos. Ela era assim mesmo – meticulosa, presa a detalhes, pormenores, ponto e vírgulas.
Quando estavam juntos, Lúcia observava em Ítalo coisas que foram tornando a convivência impraticável. A maneira como ele pegava a xícara - o mindinho formando um ângulo de 45 graus com a asa. A maneira como ele lavava a louça – os pratos antes dos copos. A maneira como ele arrumava o armário - as camisas brancas misturadas às coloridas. Para ela, todas essas pequenas coisas eram absurdamente inaceitáveis.
Não sabia mais responder porque tinha se casado com ele, o desconhecido estranhamente metódico. Achava que o amor resistiria ao tempo e à má sorte. Mas as razões que justificavam o matrimônio já haviam há muito caído naquela rua, como era mesmo o nome? Desesperança.
“Alguém que gosta de feijão gelado é capaz de qualquer coisa”, pensava Lúcia. Com o passar dos meses, começou a ficar assustada, imaginando as atrocidades que Cícero poderia cometer. Mas, ainda assim, disfarçava. Para não tornar o curta-metragem do casal um filme de tolerância curta.

Em uma noite de valsa triste, ela chegou em casa e encontrou o esposo preparando um molho branco com a colher de mexer doces. Foi a gota d’água. Lúcia abriu a gaveta dos talheres e pegou a faca de carne. Chamou a atenção de Ítalo e deu o primeiro golpe, certeiro, no mindinho. “Esse você não levanta mais”. Depois foram as mãos. “Onde já se viu usar a colher dos doces para fazer molhos salgados?”. A terceira foi em um dos olhos. “Já que você não consegue diferenciar o branco das outras cores, talvez não precise de dois”.
Ítalo só perguntava a razão de toda aquela fúria. Ela respondia que tinha pavor do que ele poderia fazer com ela. Os hábitos do marido não eram os de uma pessoa normal. Ele disse que a amava. “Vá embora, Ítalo, aproveite que você ainda tem os pés”.
Foram três facadas em pontos estrategicamente escolhidos. Ela era assim mesmo – meticulosa, presa a detalhes, pormenores, ponto e vírgulas.
Rio, janeiro de 2007

9.1.07

Profilaxia Profícua

Mais um do Felipe "Adbul" (alguém vai contar o pq do Abdul, afinal?) Sandin.
Segundo reza a lenda, o Isaac musicou o poema há algum tempo.
Resta saber quando vamos ouvir essa pérola.


"Sofro de uma doença gravíssima
Sintomática pela razão que dói
Diagnosticada como incompreensão aguda
Contagiante por via da falsa lógica
Contagiosa por via do falso real

Unanimidade há, quando todos discordam
Divergências sobre a origem, são insolúveis
Remedia-se pela aplicação de loucura
Anestesia-se pela confecção de poesias
Previne-se pela introjeção de entorpecentes
Opera-se definitivamente pela revolta
inconseqüente contra toda opressão humana
Pelo desprezo do ocidente
Pela arte incongruente


Profilaxia profícua somente pela
Recusa do poder
Vergonha da ganância
Exercício da brandura
Desleixo com as leis e
Fé no amor"

7.1.07

Lígia Pinheiro

Títere
Data ?????

Ir andando,
me afastar.
Me afastar ao máximo,
do máximo.
E ainda assim, dividir.

Deixar para trás o lixo
O lixo vazio que me ensinaram
que eu precisava.
E ainda assim ter o que dividir.

Deixar para trás o cenário
Mas ainda me comportar como um boneco
sempre em cena,
Marionete Pensante.

Será que consigo
não querer e ainda pertencer?
Quando as dúvidas me assolam
Nada como dividir.
Que bom quando se torna mais leve
a vida da “Marionete Pensante”.


5.1.07

A véspera

Entre o último gole do café frio e o banho antes de dormir, o telefone tocou três vezes.
Engano. Engano. Engano.
Nem lembrava porque tinha telefone.
Sem família. Sem amigos. Sem credores.
Na cama, deitado. Olhar triste sem cúmplice.
Desejou que sua vida inteira passasse naquela noite. Seria encontrado morto de velhice na véspera de ano novo.
Sem despedidas. Sem choro. Sem lembranças.
Mas nem isso Deus faria por ele. Teria que criar coragem para dar um fim àquela espera.
Esperou a vida. Esperou o amor. Esperou a compaixão.
A morte, ele mesmo foi buscar.
Rio, janeiro de 2007.

4.1.07

Até quando quiser... o devir

e aí caros,

o ano de 2007 começou-me com este soneto do André Bentes - e com bons augúrios, portanto.

vamos tentar conseguir o espaço em santa teresa - será?
se depender da fibra e da energia motriz do "até quando quiser ... o devir", o caminho é sempre em frente...


Até quando quiser ... o devir

O olho esbugalhado vê tudo que passa
Seria redundante se não fosse outro
Seguindo adiante o tempo se escassa
O ser apavorado por ser tudo novo

Do arco e da lira, tensão permanente
Do absurdo o ente, choque das espadas
Contemplo a noite vinda como um bom lagarto
Que grato pelas pedras só observa e sente

E até quando quiser, enquanto houver desejo
Meu medo estará morto e meu olhar distante
Descubro no instante e no após esqueço

A voz no ouvido esquerdo só diz: adiante!
E rio sem moral dos que buscam começo
Percebo a gaivota e seu vôo rasante


(André Bentes, 2006)