9.2.09

"Romeu e Julieta"


Devoro ambos
num só espaço
cheio de estacas encobertas.
Confio-lhes meus ácidos.

Devoro-os nus, um sobre o outro.
Mastigo ambos - tenho afiadas facas de osso.
E a lua paira em meu esgoto,
desce a laringe - o amor perdeu seus óculos.
Atinjo em cheio o bolo do estômago.
Cegos se cobram delicadamente no baço,
o abraço
sem todo o pavor que aparentam.

Confiei-lhes a língua,
aquela que embalou meus golpes.
Confio-lhes então o soro da saliva, num pequeno mar revolto!

Engulo a lua desajeitada,
e os dois se afogam no esôfago.

Romeu branco, tal urubu raquítico e novo,
recolhe Julieta, beijada e despedaçada
em seus sanqüíneos trajes abjetos.

Ambos já estarão em meu reto! - sinto-os unidos novamente,
e nascerão para fora, já os exorto finalmente.

(num gole d´água desconfio ter apagado o sabor do gosto)

O amor é amargo diz meu rim direito,
diz que é doce o velho palato.

Mas Romeu e Julieta estão vivos!
E boiam no latrinal ninho intacto.

6.2.09

Fração de Segundo


Estava lá, nos óculos, no reflexo dos óculos de Mário Prata.
Entre as persianas da janela, escondendo a tarde clara de um bairro qualquer do Rio.
Enquanto isso, o câmera mudava o close, a sombra mexia o braço lentamente. Senti o prazer de suas mãos tocando o fundo do bolso esquerdo, um caramujo bolinando folhas no pequeno vaso sem plantas.
Estava na quina da tela agora, e escorregava para desaparecer. Quando
o rosto do cronista surgiu enquadrado à direita, já não era mais sua imagem negra no vidro iluminado, cercado por aros grossos - estava guardada tua existência. Fiquei com o pensamento na ponta dos dedos equilibrando, deixei aquele peso dobrar-me os braços. Avancei para o controle da tv, aumentei o volume, me senti um pouco mais sozinho.
A sombra esteve ali, alguns segundos antes daquela última pergunta. Milhões de pontos coloridos apagaram-na para sempre. Vou perseguir a reprise do programa de entrevistas. Talvez reavê-la - fração de segundo. Me apaixonei por uma sombra no relfexo dos óculos de Mário Prata. Não pela mulher, ou pelo sujeito escorado na janela, sem sexo aparente, mas pelo ardor que queimava àquela tarde em plenos 1997. Me pareceu preocupada, ou preocupado. Esperava por alguém, de relance, mirava a rua. Renegava a equipe de filmagem dentro da casa, Mário Prata, as câmeras, todo o burburinho que se deu, acendendo aquelas horas. E o autor, nem se atentara ao fantasma sob seus olhos, respondia algo sobre seu último texto. E o corpo permaneceu imóvel em meu registro imemorial dos últimos dias, delineado pela tarde branca que se consumiu por detrás da janela daquele apartamento, em plenos 1997, num bairro qualquer do Rio, dentro da minha sala, na tv, no reflexo dos óculos de Mário Prata.

1.2.09

Rarefeito

esqueci
tarde pra voltar àquela hora
não tinha sobras
a ponte, esquecida,
lembrou-se de errar meus passos
perdi-me
tão convencido que o real avançaria
e o mundo recolheu-se em minhas mãos,
pequenas arando hemisférios
o sol varava nos dedos,
chegava aos olhos, o sumo da castanha de caju
meu varal de lábios sentia o amargo
a ponte, esquecida, varejava minha sombra
estudava leve: balões não sopram oceanos
fui levado, soprei a pele
não tinha sobras pra catar,
nada que refizesse o nome
lembrei-me,
desfiz teu rosto, coberto de alagoas
o mar desceu teus ombros,
esqueci novamente
voltar o passado é sediar milhas de nada
volto para arrancar meu posto, vigília de planta
lacustres, os olhos naufragam
enxergar?
lembrei
a visão estava morta sob a porta,
e um batalhão de formigas marchava sinuoso
um menino espreitava o silêncio morto do avô
a rua respirava cheia, era o bloco secando os copos
as palavras, esqueci
fui rarefeito
numa caneca com sabão e água
flutuando segui, preso à goiabeira,
vôo translúcido, o vento me liberta
deixo o ar me segurar, a simetria circular dum fantasma menino
agora o estouro esperado e
ploc!
a ponte deseja meu peso, e eu passo
passo por passo tuas vertebras,
costela arqueada, logo toco o lado de lá
revejo as sobras, encontro meus filhos,
minha vida!
meu jardim está repleto de lembranças
começo o caminho pelo fim.

27.1.09

Alforria

Pintura do autor, 2004

- - -

Liberdade no sonho.
Guia de cego.
Sol ponteando nossos passos.
Os sonhos libertando do real,
O sucedendo o si-bemol,
Bengala do conhecido,
Capuccino sem açúcar,
Liberdade de escolha
Entre Coca e Pepsi,
O Globo ou Jotabê,
O drama de acontecer,
Perfumes que um gosta
Mas o outro não,
Um “por quê existo?” no 433
Vila Isabel vermelhinho,
Sendo ou não,
Sem troco pra dez,
Guia de cego.
Liberdade dentro do sonho.


(Aos 25 de janeiro de 2009)

25.1.09

Por trás daquele monte

..............................................................................................Pintura de Rafael Betti

De repente é aqui
onde a vida parece apequenar-se.
Sem rumo a desbravar.
Sem vislumbre de curva desconhecida.

Há uma outra paisagem
um desvio a beira do caminho.
Nele adentro e chego lá
onde as ervas crescem sobre o barro.
E a manhã é límpida e sem tropeços.
Amarelo-céu
................branco
azul.

Ao cair da noite
o mar de estrelas
pousa sobre nós seu brilho fugidio.

E bebemos o sereno de peito aberto.

Sem disfarces a nos cobrir as horas.
Sem passo rápido para uma nova–velha fuga.

Lá.
Na curva da noite
onde a trilha corta o mato
e só há lua guiando o passo.

Coruja girando a cabeça.
Gavião descansando na cerca.



Onde quando um dia pesa muito
o outro é recomeço.

Janeiro de 2009.

14.1.09

Um cara de futuro

pintura do autor, 2000.



No jardim, na cadeira
Rasa, junto à grama,
num bloco febricitante de notas
Fabrico asteriscos,
fabris pois que muitos
e, feitos de três rabiscos,
tencionam explicar
meus foscos intuitos,
fortuitos e infinitos…

Um dilúvio de dilemas
na cabeça
e um chuvisco
quase chuva, quase seco,
molha o bloco,
ora chuva, ora seco,
desconcerto-me,
quase me destrona,
quase seco, quase físico,
de minha cadeira rasa,
rente à verde
grama.
Sigo alheio,
Rabsicando os *
Os chuviscos que os molham,
a cadeira rente
à grama verde,
os detalhes
que não me importo
se são tudo ou cem por cento
ou mesmo quase

“Que futuro…” penso
no dilúvio febricitante
de descompromisso
com aquilo ou com isso,
com o fim ou o início,
o apenas ao meu contento,
o cem por cento
isento,
rente,
àquela grama,
apenas isso.
“Um cara de futuro”,
seguro e brilhante
no que tange
aos issos, chuviscos,
parenteses
e asteriscos.



(Aos 24 de janeiro de 2008, do livreto "Iuri Gagarin - e outros poréns)

12.1.09

furnas de frutas doces

Estrelas acocoram-se nas pernas
e bisbilhotam furnas de frutas doces

são amantes a rondar prazeres
menores a desvendar cruezas

arredores de canções modestas
afibrilam peitos feitos de anis

e coloridos sonham com tardes poentes
bocas roxas de vento aproveitam laranjas
que apresentam paixões de verões inteiros

anoitecendo não é mais de areia que se constrói castelos
e as estrelas voam raso sobre as dunas nas luas de janeiro

10.1.09

"Colheita"

O galo amadurece a manhã.
O urubu amadurece a morte.
O peito amadurece a faca,
que amolada planta o corte.

O preto amadurece o nada.
O silêncio amadurece o vão.
Do não brota a palavra.
O corpo apodrece a larva.
Do amor se colhe o chão.

"à granel"

Tente de novo
antes que o novo
seja tentado
a se tornar passado
novamente
acontecido.

x

Meu olhos jovens não viram o que era rude.
Só enxergavam num todo a leveza.
Não restou nada além da certeza,
de que o tempo é sim, um afiador de gumes.

x

Ousei
fotografei o poema.
Tanajuras negras no reluzente monitor;
Que entre o dedo e o flash, por um suave tremor
foram esmagadas.
Na foto brilhava talvez um quadro
mudo, grave e desfocado.
Pensei no ato:
Um poema pintado.

Flávia Muniz

.....................................................................Pintura de Paul Klee


Nas minhas andanças pelo mundo dos blogs cheguei até a Flávia e gostei de muita coisa que li no seu blog Boa tarde, Senhor Smith, depois acabei descobrindo que ela era irmã da Ana Muniz amiga minha de longas datas da EBA.
Além de se dedicar a prosa e a poesia a Flávia também canta na banda Luisa mandou um beijo.

http://boatardesenhorsmith.blogspot.com/
http://luisamandouumbeijo.com/


A matilha

Quantas palavras cabem na boca do poeta?
Quantos poetas cabem diante do espelho?
Tantas perguntas servem aos pensamentos que empilho.
Faço colagens dadaístas - você pode dizer que é plágio.
Mas se fico calada ; podem achar que estou morta.
Muito prazer meu nome é Vivivinha da Silva.
Alguns me chamam de rabiola de pássaro.
Sou assim mesmo me apresento de um jeito sanguínea,
e não poderia ser de outra forma.
Aqui no planeta Terra tudo é muito engraçado
Desconfio até que o mundo é caixa de fazer gente maluca.
Poetas são loucos em eterno estágio
na fábrica onde:
ferramentas são as letras
idéias são as máquinas
produtos são os corações que afetam.
Minha fala é a mão de um gigante do espaço.
Eu tenho consciência disso e atravesso as fronteiras dos mundos.
Meu intuito é encontrar a essência intrínseca do uno
e a dita cuja está no outro quando não calo.
No final de tudo
Sou esta que pergunto
Quantas palavras cabem na boca do poeta?

26.12.08

Zero a zero (um quase lamento) ou por uma cor com cheiro, sabor e movimento.

.............................................................................................. Pintura de Paul Gauguin.


Alta noite, cena reprisada.
Esta beleza exposta pelo simples prazer de um recuo a qualquer investida.
O espelho nas mãos.
O tédio estampado no rosto (pintado no limite entre o vermelho e o vulgar).
O corpo equilibrando-se na ponta da agulha.
Malvada carne, exposta em quase indecência,
salivando olhares.

Por onde andam os sorrisos que dizem sim?
O aceno de mão graciosa?
Um gesto sem escudo levantado?

Fecho os olhos e sonho com as tahitianas de Gauguin...

Será que alguém ainda se atreve a ir além das luzes da ribalta?


Hein?

André Luis Pontes, diário sem floreios, 1997.

15.12.08

Láudano

Que coragem podemos
Nós, de herança indigna e cauta empatia
Assemblar a estes terríveis poemas
Se o tempo é veloz e temos tanto medo um do outro?

Não subam mais degraus
Donzelas
Acabaram-se as sacadas
E o amor é só refúgio.
Não vêem que a promessa é armadilha
Não cumprida por princípio?

Não me deixe dizer-te a verdade, irmão.
Não a que tenho de mim.
Pois irás embora com ela
Sem saber que carrega um fruto legítimo.

É tempo para se possuir
Ainda que sejam só os segredos.

E
O poema se encerra em comprar
Papel e caneta, inúteis.
A tristeza fica guardada.

Irei a tua procura hoje à noite
Se estiveres pelos bares
Talvez unamos nossas bocas em silêncio e vergonha.
Senão
Ficará então esta última astúcia
Como a despedida que o fingimento não permitiu.



Vinicius Perenha, quinze de dezembro, 2008.

10.12.08

dentro de casa

..........................gulodices
..................................digo
.....................................sois
..................................digo
....................................sóis de maracujá
............................................pra nós dois

........................................**

................as árvores descortinam
.......................................................prédios
................eles atapumam
.......................................................nuvens
................elas desenroscam de
.................................adivinhar desenhos


[caros, boa noite, é meu primeiro dia nessa casa que eu já visitava; quero agradecer o teto e comemorar: brigado e vamos juntos, firmes e em versos]

6.12.08

Hierarquia

.....
. .................................................................................. Ilustração de Fábio Portugal....
........
.. .........
..............
A raiz sustenta o tronco

................Que cresce em galhos
..................Que produz ramos
..............Que alimentam as folhas
...............Que fazem fotossíntese
...............Que alimenta a árvore
............Que distribui os nutrientes
............ Que possibilitam os frutos
............... Que justifica os ramos
................ .Que vêm dos galhos
.......... ....Que se unem ao tronco,
...................Possível pela raiz
........................Que retorna
............ ....Na síntese axiomática
............. ..Da igualdade sintática:

............A raiz (se encerra) em a raiz


Isaac Frederico, do livreto absinto, Setembro de 2006.

30.10.08

Estranha beleza

..................................................................... Karel Teige


Ardido pelo querer que não se contenta
o banquete é rapa de panela que não enche o bucho.
É amor de noite inteira que não sacia.

Beber a água e ter nova sede.

Suar em desassossego.
Saber a dor da pancada e insistir assim mesmo.

Um segundo de sol que apaga dias de tormenta.

Sísifo rolando pedras.

Pequeno gozo das farpas que entram fundo.

Moto-contínuo.

Corpo de vida castigada
carregando alma serena.

Rosa com espinho.

Cigarra estourando de tanto cantar.

É quase morrer de dor
e ainda querer amar.

Do livreto Sem persona, 2006.

26.10.08

Sol rubro

Morri de susto,
Empalideci
No meu direito de ser fraco
Por dois segundos;
Vi o sol rubro
Tão real e raro,
O sol –
Não foi um rolls-royce
Nem um recorde mundial
De novos nanossegundos.
Vulcanizei-me
Vendo a ilha no mar,
A nuvem grossa
Ao pé do sol de fogo
No morro arredondado
De cinco bilhões de anos,
Calmo que imóvel;


.................................................A água, um mar
.................................................De moléculas de
.................................................Água, um mar
.................................................De moléculas de
.................................................Água, um mar
.................................................De moléculas de …


(Aos 21 de setembro de 2008)

16.10.08

Outras formas

Outras formas, técnica mista s/papel, 2008.

......................"A alma quer mais do corpo. Quer que ele se gaste
..................... Quer que definhe, sem nada que lhe baste."
..............................................................................Donizete Galvão

Até então, livros lidos e canções ouvidas
(onde se omitiam as pedras).
Tentava encaixar o real no que as palavras tinham dito ser.
E ficava a dar pulos,
querendo alcançar o que um dia alguém chamou de nuvem,
cheio de idéias que me deram sobre o que eram nuvens.
Já não solucionava no corpo as desavenças,
e não havia ideal que desse conta.
A transcendência passava pela pele.
Tinha de ser sentida na carne.
Mais uma descoberta, afinidade também desafina.
Expresso romântico descarrilando,
dando vez as diferenças.
No fogo da paixão vulgar,
que queima enquanto há lenha.
.....................................................
Do livro Elementar, novembro de 2007.

9.10.08

Cessa o céu,
a chuva foge.
Resta o gosto úmido nas coisas.
Nenhuma estrela tem lugar no amarelo adrágio.
É um céu branco e raro.
Céu de chuva que termina contumaz,
gelada e leve;
lavrando o sopro extenso
que o mistral armou.

(tarde de outubro)

7.10.08

Intifada

Me conta o que viste
divide-te
versa-me tua perspectiva
abraça-me lenta
mas fatalmente,
intempestiva,
que as escolhas de toda tarde,
depois da soneca,
adormecem-te mais.

Um café quente
um ombro ardente
nunca o ombro de sempre,
graças a Sidarta,
Ganesha, Yeshua, Selassie,
Confúcio e Kerouac,
faz a mala
estala-me um beijo
tateia-me o hálito.
alopra a verdade que te foi dada
ama o caminho
de tua própria Intifada,

........................lá estou eu sorrindo
........................acompanhando-te ao sol
........................que nos carbura de volta
........................à redenção solta e sã
........................do indo.


(Aos 21 de setembro de 2008)

4.10.08

Fábio Portugal

Pintura de Joan Miró

Já havia postado algumas ilustrações e pinturas do Fábio aqui no presença, agora é a vez de apresentar o bom trato dele com as palavras.

Copo d’Água

Inclinou o copo d’água e surpreendeu-o o contato do líquido com os lábios. Pareceu-lhe algo absolutamente novo e irreal, como se fosse recém-nascido para a maciez do mundo. Sabia, por experiência, que estes estados de fascinação costumam passar rápido e este pensamento o entristeceu no mesmo instante intelectual em que a fascinação o deixou. Nestas horas lhe era inevitável lembrar que, realmente, pensar é estar doente dos olhos. Porém quanto mais evitava pensar mais mergulhava na escuridão fria das reflexões.Adentrou o banheiro sem acender a luz. Queria apenas as sensações. queria sentir mais, queria sentir-se vivo por mais alguns instantes. Girou apressadamente a torneira, encheu as duas mãos em concha e atirou água fria ao rosto. Mais e mais. E quanto mais atirava e se esforçava em sentir, menos sentia e parecia que se distanciava do próprio corpo, assistindo àquela cena patética de fora, como um espectador estupefato.Entrou novamente, lembrou de Teresa e do peso bom, do peso que o faz sentir-se vivo. E lembrou também de como ela se olhava, nua, no espelho por longas horas – a fim de ver aflorar a alma em seu corpo. Pensou em fazer o mesmo. Ergueu rápido a cabeça e mirou seu rosto no espelho. Sua expressão de pavor assombrou-o mais que o pavor em si. Afinal, do que se tratava? Seria loucura, epifania ou simples solidão? Que pensamentos absurdos, que agonia mais sem-propósito!Uma brisa passou por seus pés descalços no piso frio, e se fez sentir um suspiro em seu peito. Só então notou, sem assombro, que seu banheiro não tinha espelho. Que o Sol já estava alto e a luz acesa. Embuçou-se em sua sombra predileta e foi dormir. Os pensamentos mantiveram-se a uma distância respeitosa.

Fábio Portugal.

2.10.08

Deitado

Estou lá, deitado –

não estou esperando
nenhuma carta
não estou estudando
a saída do xeque
não estou pensando
em que vou comer hoje
não estou aqui sob minha pele
querendo ser só a pele,
desejando sumir pra sempre,
querendo parar de querer;
não pus o disco
pensando em levantar pra trocar de lado
não estou pagando
a prestação eterna
de nossas vidas entardecidas
nem querendo pôr ordem
na confusão deliciosa
que me ocorre
agora agora agora e agora outra vez
não morro, não puto, não teclo
não arrebanho abraços
de asseclas estupefatos
enquanto

estou lá, deitado.


(Aos 21 de setembro de 2008)

29.9.08

Irmão

Um trevo à nossa amizade,
Meu melhor amigo,
A coluna zero
No terreno bélico
Do que já nascido somos,
Os sóis que juntos vimos,
Eles juntos, nós loucos,
Simultâneos todos,
Alheios aos tomos
Subcutâneos das regras,
Um trevo singelo,
Um aperto de mão,
Um abraço,
Uma reza no compasso de sempre,
De uma viagem,
Um filme, um dia de chuva
Dos copos afogando
Nossas famílias falhas,
Que parece que todas falham
Grosseiramente,
No incapaz global
De acolher ao invés de dar dinheiro.

Meu grande amigo
Pra sempre,

Seu irmão.


(Aos 22 de setembro de 2008)

25.9.08

Reino dos números

São três e quinze,
cinco, nove, doze, treze, trinta e três, quarenta e dois e cinquenta e nove,
que na mega-sena há sempre
números próximos,
onzes de setembro,
”quinhentos reais na conta, senhor”,
três a zero, dois a um e zero a zero,
que empates sempre vão existir,
duas colheres de sopa,
trigésima reedição,
raiz de dois, irracional,
trinta anos,
alguns dias de férias,
coca dois litros,
quinze do sete de setenta e oito,
dia em que nasci
no reino dos números.


(Aos 21 de setembro de 2008)

22.9.08

Setembro ou Nada

Coronel Aureliano, pintura de Fábio Portugal.


Setembro traz consigo a primavera,"expulsando o inverno". Uma nova estação carregada deste desejo de tudo abraçar, na "pressa típica dos nervos sensíveis" dos que admiram e anseiam pela calma e experiência que se encontra na velhice. Velhice dos que trazem a marca do tempo sobre a pele, e que num dia de cansaço suspiram ofegantes: Não foi em vão, tudo valeu a pena, visto que alma não era pequena.A vida na sua totalidade. Setembro e tudo mais.Este poema faz parte do livro levante que o Vínicius lançou em 2007 no bom e velho esquema do faça você mesmo . Mas a tiragem foi bastante reduzida, então já deixo registrado aqui o meu pedido por uma segunda edição. Ouviu Vinicius?

Setembro ou Nada

O que quero
É terminar todos os dias cansado
Porque fiz tudo
O que é preciso fazer
Pra não morrer num momento de tédio.

E saber de olhos fechados
Que de alguma forma estranha
Tenho as melhores pessoas
Do mundo
Por perto.

O que eu quero
É dizer as palavras que
Eu
Tenho por dentro
E ouvir mensagens quaisquer
Que possam me estimular o desprezo
E a devoção.

É morrer
Num outro dia qualquer
Mas que o seja!

Um dia qualquer.


Quero ter a pressa típica dos nervos sensíveis
e desejar a calma senil dos avós;

Quero ironia e astúcia de sobra
pra que ninguém reclame oportunidades
perdidas
e, se preciso,
calamidades que lembrem
o que é preciso ser lembrado.

Quero vitórias que não perdurem
Porque só assim os erros não significarão
derrotas.

Quero tristeza, sofrimento e controle
Pra discernir e celebrar os prazeres e liberdades.

Quero tanto
Que descobri por acaso
Que saber o que se quer
Não é tão difícil como parece;

Difícil, é viver com isso.

Vinicius Perenha,2007.

Presença

aos amigos Vinícius e William, este quase-poema
com amizade e adolescência !
abraços.

* * *

Este poema
Vai para meus amigos
William e Vinícius
Meus poetas prediletos,
Versos nem sempre retos,
Nem sempre inocentes,
Mas sempre bêbados,
Sempre sementes
De uma realidade que é
Nossa Presença,
Discutindo se somos astros
Ou zoroastros;
Se isto pode ser considerado um poema
Então somos ricos, meus irmãos!
Seremos violentos em nossa pretensão
De sermos sim
Mais que um não,
Mais que meio e menos que separados ?


(Macaé, aos 21 de setembro de 2008)

19.9.08

Instruções.doc

Ésquilo, aquarela de Fábio Portugal


Um poema do Isaac retirado do Absinto, livreto em parceria com o Vinicius lançado em 2006.

A ilustração acima é do Fábio Portugal, amigo da escola de belas artes que além de ilustrador é pintor, escultor, designer, fotógrafo e poeta.

Para conferir outros trabalhos do Fábio acesse:http://www.fabioportugal.com/


Instruções.doc

Não sê Prometeu
Acorrentado a teus desejos,
Xeque-mateia teu ego
E seus sutis ensejos,
Enceta a compreensão
Do teu fundo interior
E salva o arquivo
No teu eu-computador

Isaac Frederico, do livreto Absinto, setembro de 2006.

Evolução

O abat-jour virou abajur, assim.
Fecho Éclair amanheceu fechecler, brutamente.
De mansinho, cinemático virou cinema,
Que virou cine
(Que em breve vira mero I …).
A modernidade
Simplificou o vocabulário.

O amor é o contrário.
Virou namoro,
Esticou pra namesmamorada,
Embarrigou de gêmeos,
Dois filhotes no quintal.


(Poema interante do livreto "Viver e Devir", aos 12 de março de 2003)

16.9.08

Breubraillebrilho

..Ciclistas, pintura de Iberê Camargo.



Palma passeando pela pele
deslizando pelo muro.
Tingindo
talhando
escrevendo no escuro.

Ponta de prego cavando sulcos.

Mão afundando no inverso
água em movimento

imagem fragmentada.

Carne acesa
...........a fogo
a ferro.

Pupila-paisagem dilatada
na face atenta
do homo faber

que habita o parapeito
da janela escancarada.

Agosto de 2008.

2.9.08

Márcia Maia

Aloha Presença !

Após algum tempo afastado devido a uma carga excessiva de trabalho, retorno às boas esferas destes posts e deste mundo da poesia "nossa".
Faz umas semanas andei fuçando alguns blogs e me deparei com esta grata surpresa que é a poesia de Márcia Maia.
Troquei um e-mail com a moça, uma pernambucana muito simpática, que me autorizou a postar aqui o soneto "dança comigo?".
O soneto é profissa, pra fazer um comentário absolutamente insuficiente. As aliterações embalam o poema sem os apelos fáceis da previsibilidade que este recurso geralmente carrega.
O decassílabo é uma pequena obra prima e segue abaixo; o blog da moça já se encontra nos favoritos deste espaço e é carregado de bons poemas, além do caminho das pedras para adquirir os livros que ela já publicou.

Cerveja gelada à tarde descompromissada !

- - -

que importa no compasso além do passo
se passo-a-passo passo além da porta
que encerra qual comporta o pouco espaço
e em marca-passo irmana passo e aorta -

retorta que destila o descompasso
do corpo quando lasso se transporta
e à porta aporta feito em sangue e laço
(nenhum estardalhaço se suporta)

comporta antes ousar unir o traço
ao braço que no abraço outro conforta
e à dança desentorta em novo passo

um passo e outro passo o chão recorta
rompendo o lacre à porta e ao compasso
ao qual além do passo nada importa


(Márcia Maia)

25.8.08

Rumo ao Chile

Uma letra em parceria com o Rafael, dos tempos da Geração Perdida, banda folk-punk que durou uns seis meses e fez um único show. Olhando hoje me parece bastante ingênua, mas tem seu mérito pela sinceridade dos versos (ingênuo é anagrama de genuíno). Familiar para todos aqueles que em algum momento de suas vidas foram tocados pelo espírito on the road , pelo desejo de outros rumos , no anseio de se encontrarem. Relendo essa letra pensei no personagem Supertramp do filme into the wild, pensei em Dylan e suas fugas inventadas, e também nos sábios-loucos-viajantes que nos encantaram nas leituras da nossa primeira juventude, Rimbaud, Jack London, Cassady, Kerouac...
Penso em André Luis Pontes o louco andarilho, e em todos aqueles que de alguma forma buscaram uma possibilidade de desvio, que desejaram outros caminhos pra fora dos trilhos.
A mudança é o caminho, mudar de lugar ou mudar a si mesmo .
Sempre aprendizes.



Eu não pertenço a esses lindos dias de sol
Eu vim do negro sujo das esquinas
Eu não espero o abraço triste da minha mãe
nem o beijo da minha menina

Eu admiro mais os loucos
que essa gente vazia
que enfeitam suas vidas
com essas falsas alegrias
Não posso mais ficar aqui a viver nessa incerteza
não suporto mais o riso da tua indiferença
Quantas lágrimas precisam os meus olhos derramar
pra que um dia eles percebam o quanto vale o meu sonhar?

Eu vou cair nessa estrada ver se encontro a minha vida
vou jogar de vez nessa parada já que não tem mais saída
E quando tudo tiver fim

E quando tudo tiver fim

Eu vou fazer uma canção pra mim

Rafael Elfe e William Galdino, 2000.

18.8.08

Nado
























De um lábio ao outro

eflúvio.

Tudo tempestade

Com uma mão bate

com a outra abre

com a boca chama.

13.8.08

Saudade

Fala galera do Presença... Minhas desculpas por andar tão ausente; estou viajando e o tempo me é escasso para escrever e postar.
Mas lá vai um poema que escrevi de bate e pronto na tela de postagem... Valeu!

Queria andar por ruas - viélas
De mãos contigo dadas
Quimeras...
Posto que "solo" ando
Buscando em vão a felicidade
Qual é inacecível pela distância
E que devora-me em forma de ância

Quanto amor agora brota de meu peito
Que fora por fraqueza zombeteiro
Por não saber
Que um homem só
É uma nau sem remo
É laborar com nó
É um verão ameno

E tendo a certeza da alegria
Que será rever-te um dia
Sinto-me forte como a pedra
Qual "single" piso e que é rua
Onde de mãos talingadas andaremos
Conversando amenidades
Observados pela lua

*Que seja forte enquanto dure
Posto que é sincero
Que seja saudável
Posto que nos faz bem
Que seja doce, puro e cristalino
Como o açucar do seu bejo
Posto que lambuza-me por inteiro

E quando a noite me cai
De saudade me dopo
Entorpecendo o coração
**Que alegre "ma non troppo"
De pensamentos de amor
De saudades - dissabor.

Fábio dos Santos, 13 de agosto de 2008 - Florença - Itália
*baseado naquele soneto, desculaps por não recordar o nome
** Com açucar com afeto - Chico Buarque

9.8.08

Música pretérita


.............Com o movimento do mundo no peito, técnica mista s/papel,2007.

Música pretérita
.........................................'""Volta música pretérita ao bojo de tua flauta"
.......................................................................... Ruy Espinheira Filho
Há algo que não cala
um pouco que no fundo ainda fala
Sem mercúrio que sare.
Um toque
um resquício
um algo lá
que desaba numa noite qualquer
numa dose a mais
num dia parado
no caminho não desviado.

Uma lembrança que arranha
e se faz contra a vontade.
O último nó da sutura
que se esforça pra rebentar.
Há dias secos de nunca mais
de trazer engasgos
e entrar sem bater.
Não há sono que acalme.
Não há fuga que apague.
Sensação de mundo longe
de perguntar pra quê
Por quê?
Aqui ou ali?

E do impossível
do desejado
o mais dolorido.
Do inviável
mais sentido por assim ser.
Por ser não sendo
Pelo não ter sido.
Posto no devido
findo.

Mas há ainda um sim
que de repente te surpreende.
O outro dia
o lado esquecido há tanto
que num estalo ressurge.
Transparente
límpido.

Dois pés firmes sobre o chão
e os braços que se abrem a tudo.

E assim vamos em frente
com nossas mochilas às costas.
Carregando a matéria do tempo e da vida.

Agosto de 2008.

5.8.08

Heyk Pimenta

Gravura de Renina Katz



No clímax da obra vou cair no
....chãode duro e doido me
....contorcer fazendo cara de
....famintoc


Porque a raiva corta
....a fome ajuda
desenho mal feito de
....pastel acalma

Mas só van faltando um ou dois lugares
....Salva
Jesus nada


Trecho do livro Ladrão da Matriz, recitado recentemente num sarau na casa do poeta-marujo Isaac.

2.8.08

Hemisférios

....................................................................Ivan Serpa


Me aproximo de mim
.... a rua e
o sol vibram nos meus passos.

Sinto me como um que a tudo abraçaria.

Lua branca de verão

vontade incontrolável de dançar
até que as pernas peçam descanso.

De volta ao carrossel
.... que me tonteia os sentidos
paro e sigo
o corpo permanece no giro
e os olhos turvos
.... de todas as cores que se somam até o branco.

Agarro-me numa beirada de sorriso.
....Já não estou lá , já não estou aqui.
Tudo se move

e vagam as memórias em vôos astronáuticos.

Do livro Fragmentos do imaginário, previsto pra ser lançado ainda este mês.

O cerne

Empreendeu, por fim,
a grande viagem
Ao ponto mais austral de seu ser,
Suas experiências passadas mais traumáticas
(As boas e as ruins)
Lanhando-lhe o equilíbrio.
A náusea surda
De ascender ao cerne,
Que neste plano
Quem pode discernir
O dentro do fora?
“É um soco no estômago
Descobrir suas lacunas”, pensou
E a revelação última
Quando descobriu
Em Deus e no diabo
A mesma e única pessoa.
Ali seu limite.
“Uma coisa é a verdade,
Outra coisa é o que se quer enxergar”


(Aos 28 de janeiro de 2006, poema integrante do tomo IV "Jesus o nazareno", do livro "Acontecente")

28.7.08

Sentado à beira mágoa os montes vejo

.....Mais um poema do Grego - Rafael Huguenin - o poeta e filósofo camisa 10 dos sonetos ditos "independentes", e aqui não há pretensão alguma de cunhar termos nem introduzir divisões, até porque a poesia não pode ser certeiramente dividida entre alternativa e mainstream, como a música, por exemplo. Ou até pode, mas são outros os parâmetros.
.....Este belo poema traz uma carga forte de angústia e tem um acabamento belíssimo.
Abraços e presença !

- - -

Sentado à beira mágoa os montes vejo,
órgãos afiados que projetam cumes
e em cujos escarpados, feros gumes
encontro a mesma corda que ora arpejo.

Facas, espadas, dardos que dardejo
contra o céu que se fecha em mil negrumes
não bastam pra calar os pesadumes
que o coração me cortam, e assim doidejo.

As armas contra a dor de nada ajudam,
a cada golpe rudes se desnudam
diversos braços novos que não venço.

E só me restam lágrimas salgadas:
com sentimento tanto assim choradas
me lavam ao menos o meu rosto tenso.


(Rafael Huguenin)

24.7.08

Viver e devir

(pintura de tinta acrílica em papel comum, 2004)


A sua alopração é previsível, meu caro.
O seu desespero era esperado.
A trajetória parabólica que seus braços fazem
Enquanto você se debate,
Submerso nas suas mais úmidas dúvidas,
Do estado mais vulnerável do seu ser –
Alguém já pensou nela.
O que você se pergunta
Está no script que te entregaram, seu nome no campo "nome".
O volume de água que você chora
Já foi calculado antes.

E aí você vive sua primeira transa
(A redenção absurda do sexo),
Perde pela primeira vez um parente próximo,
Chora a primeira vez que te rejeitam,
Vê o sol se pôr a dois,
Interpreta as coisas, fica se perguntando
A validade do que foi e do por vir.

Dorme com um barulho desses, irmão.

(Do livreto "Viver e Devir, 2004. Rio de Janeiro, aos 15 de junho de 2003)

22.7.08

Uma pequena alegria

Fotomontagem,2005


Fecha o chuveiro.
Escorre pelo ralo o resultado de mais um dia de luta. No vestiário o último dos funcionários calça seu tênis e guarda a toalha molhada na mochila. Desce as escadas e ao bater o cartão percebe que já passa das onze. Um boa noite cabisbaixo é dado a empacotadora que lhe lembra uma antiga paixão da adolescência. Promete a si mesmo que amanhã a convidará para o cinema. Há duas semanas ele vem dizendo isso.
Pela economia de um vale-transporte começa sua caminhada, uma hora até encontrar o sono, no caminho decide contar quantos carros vermelhos avistará antes de chegar em casa. Conta até o terceiro, daí pra frente mergulha numa suspensão quase budista da qual só é expulso ao ser xingado por um idiota que passava na garupa de uma moto.
Ao atravessar a rua diante de um prédio modesto, repara na luz do abajur de um dos apartamentos e sua mente fantasiosa imagina que ali naquele momento há uma adolescente ninfomaníaca transando loucamente com algum primo mais velho. Olha pra trás e lamenta-se por nunca ter tido uma prima ninfomaníaca. E isso o faz lembrar-se das sextas feiras em que se escondia embaixo das cobertas diante da tv, esperando ansiosamente o início de mais uma pornochanchada, que o faria esquecer a sua frustração por não ser um Don Juan.
Ri sutilmente enquanto seus pés saltam pelo meio fio.No muro chapiscado avista uma antiga pichação de sua autoria, dos tempos em que botava a lata na cintura e saia pedalando pelas ruas à procura de diversão. Entristecido por reviver o passado decide se concentrar no caminho que ainda falta até chegar ao descanso que o corpo lhe pede. Ao aproximar-se da última esquina que o separa de sua rua, um carro estacionado na calçada dificulta a sua passagem, olha nos olhos da menina sentada no banco do carona, intimidada ela desvia o olhar, ele continua a caminhar, até que ouve o motor ser ligado e detém seus passos. Imediatamente vem à sua cabeça a lembrança de um conto, no qual um homem aparentemente normal saía à noite em seu automóvel, à procura de uma vítima pra atropelar.
Na sua contemplação àquele belo rosto, não observou quem estava ao volante, fica pensando que talvez a menina linda tivesse ao seu lado algum namorado ciumento que agora aceleraria e passaria por cima do seu corpo. Mas não foi o que aconteceu.
Lentamente o carro passou ao seu lado, adiante ele viu a menina colocar seu rosto pra fora da janela e com a ponta dos dedos junto aos lábios mandar um beijo em sua direção, ele sorriu enquanto o carro sumia na penumbra.
Naquela noite ele sonhou com os anjos.

Agosto de 2004.

20.7.08

Tédio




Uma tarefa maçante estaca
O tempo; faz de segundos milênios
E sela com o relógio convênios
Onde o ponteiro das horas empaca.

Ruminando em tal compasso isotônico
Cada instante tem duração de ano,
Superar o tédio draconiano
Exige então esforço faraônico.

A conclusão é sequer aturar
As chatices que virão te abordar:
Deixai-as pros estóicos per natura.

Que cada minuto de saco cheio
Dobra seu peso pra minuto-e-meio
Desperdiçado: lamento algum cura.


(Rio de Janeiro, aos 27 de junho de 2005)

18.7.08

Marujo

Abriu a garatuja,
o marujo.
Enigmático,
encheu o cachimbo de chumbo,
respiro plúmbeo,

próximo

ao tanque de diesel de boreste.
Entrópico, o navio
pelos ares
em mil pedaços desiguais
picotando os mares
de carne, sangue e metais


(Macaé, aos 06 de julho de 2008)

14.7.08

Degelo

Fotomontagem, 2005.

Que te abraço em devaneio e oscilação. Te elegi a musa dessas noites de cera quente sobre as pálpebras. Quanto durará? Tantas já se foram e não deixaram falta. Um dia, uma semana, mas enquanto permaneceram foram únicas. Agora é você, nos olhos, na memória. E solto pequenos cortejos e sonho e lanço ao longe, pra onde se faça mais difícil o alcance. Admirando sem tocar. E não há nisso inocência ou medo. E nado no mar do provável, do que poderia ser. E com tuas mãos me acaricia os cabelos. E brinco, e tento novamente como quem procura salvação mas tão logo a consiga, abdica.
É um querer indisposto, um sonhar desperto. E te levo comigo em noites de suor e te presenteio com flores de desculpas. No império devastado é a única estátua que ainda resiste.
E fico com os olhos postos em ti na indecisão de abraçá-la ou quebrá-la definitivamente.


Setembro de 2006.

11.7.08

Cliquem na imagem para vê-la ampliada.
Essa é uma das imagens que roubei do trabalho que tenho desenvolvido em Itaboraí.


"Vidro de perfume"

De atropelo é vida
nova cuspindo
campo.

É galo engolindo prédio,
velho
olhar rasteiro e espanto.

É prédio lançando lua,
gente lançando carma,
lançando.

Vidatropelada
avenidas derrapando em bocas,
e beijos engarrafados.

Amor
engolindo vidro
pia
de rachar silêncio.

De atropelo é vida
e é a morte
secando a rua.

7.7.08

Pósmodernice


Viva o nosso tempo!
Solidão , aids , alienação.
Não restou nada. Sem deus, sem crenças políticas, sem utopias... Porra, antes ainda havia esperança. Agora só esse gosto amargo do tédio e do cansaço. Uma desvontade terrível.
Olha àquela mesa, tem alguma coisa dentro daquelas cabecinhas? Tão modernos, tão rebeldes... No café da manhã cereal e chocolate quente. Depois se fantasiam e vêm pra cá posar de artistas.
Imediatismo, é só o agora meu irmão. Salve-se quem puder .
Sexo pra salvar a noite e dar uma aliviada na manhã seguinte, mas dura pouco, depois é o vazio e a sensação tão comum de estar só. E a tarde vai caindo e procura no armário algo pra beber, a dor aumenta, aumenta e aumenta e depois explode num ‘SOCORRO!!!’
Corre pro telefone liga pra ex-namorada e diz “por favor não me abandona, eu só tenho você”
E seguimos cada qual nadando no poço de seu próprio umbigo.
A menina dos sonhos não veio. Não há espaço pra românticos neste mundo meu querido. Essa princesa que você espera foi comida pelos jacarés quando tentava fugir do castelo.
A vida é o que a gente faz dela.
Sai da torre e oferece a cara pro mundo bater.


André Luis Pontes, diário sem floreios 1997.

4.7.08

Quase topo

Na esteira das últimas leituras que tenho feito da poesia do Heyk, venho revisitando alguns escritos que lancei em 2006, com o foco, de então, de mostrar as possibilidades oriundas da sublimação da palavra, mostrar como a semântica pode gerar confusões que, na verdade, nem existem. Trilhos wittgensteinianos de então, dentro do parco compreendimento que tive da obra do grande filósofo.
Abraços a todos e presença !

- - -

O pouco que consigo tocar, Deus, como é frustrante estar sempre tocando o quase-topo,
aguardando a aprovação diletante do inexistente, como um baixo grave que entrará nos
ouvidos e nunca mais sairá, permeando sua tentativa na existência de fundo musical
eterno;
E tão geograficamente próximo da escuridão mais torcionária que pode haver, a câmara
estanque do absolutamente intolerável, a piração do incompreensível, do
semanticamente absurdo, como uma gota de eletricidade que num primeiro momento
não pode ser e num segundo momento, de assalto, coça o coldre para alvejar,
massacrante como uma incessante coceira de pena na sola do pé, o campo inteiro do
seu compreendimento, a coisa mais raiz que você pode carregar, comparável em âmago
somente ao toque da boca no seio da mãe.
E a dor mais aflitiva e pungente, o não ter como, o tergiversar, o derrubar dias como peças de
dominó, a torção do caule, a delação, o bug do milênio, ninguém atinge, ninguém sabe o
que é.
A um passo da plasticidade da mercadoria, a um passo do sol no quintal, uma grande noite de
12 anos, por estar tão perto e tão longe dos dois extremos, a noite do “a um passo de”,
a busca da chave do cofre que não existe – meu deus, pode algo ser tão diabolicamente
vil a ponto de não apresentar solução cognoscível?!
A má novidade – o seu limite do horrorizante está deveras mal-acostumado, o número irracional,
a incongruência mais severa, o negativo da segurança do dia-a-dia – estão muito aquém
do que sua pequena cabeça pode admitir.
É fogo no milharal, o necessário incêndio neurótico para conseguir voltar a caminhar, manejar a
cadeira de rodas com segurança, esta sim sua nova aquisição – não que precise mas o
desejo foi mais forte, o desejo da derrota rápida e indolor mediante o vislumbre da
chance zero da vitória, o desejo de ter o nome gravado pra sempre na insignificância
mais extrema, não incomodar nem ao nível da contra-indicação, ser uma bula de um
remédio inrastreável, fabricado por, interações medicamentosas, posologia,
medicamento fitoterápico tradicional, uso oral.
Um elogio – um novo sol. As pessoas são felizes porque são limitadas. Você, não. É tudo um
estado de espírito. O homem é fruto dos seus atos.
Sai, cara, sai dessa, exorciza, esquece todos os aniversários, não compra mais o modelo, sorve
a seiva da poesia sem te agredir, sem te mutilar com a concentração de sentimento por
centímetro quadrado. Toca a tela de cristal líquido, abrindo mais uma opção que nunca
será a derradeira, explode o labirinto com o brilho dos teus olhos, chora a lágrima mais
linda que a existência já testemunhou com a doçura dos teus olhos, sobe e desce, saiba
subir e descer, sorria por saber subir, salve o sorrir por saber subir, separe o “salve o
sorrir por saber subir” do truque métrico.
Tudo passou. É triste, mas tudo passou. Não vou me matar tentando permanecer na sua vida. O
triste mais intenso, o triste de te ver mudar, de não te reconhecer mais – esse triste se
avizinhou, o triste de perder a esperança, de perder a vontade de continuar seguindo, de
continuar te admirando.


(Do livreto "Reações ao Grande Absurdo - A Palavra", parte integrante de "Acontecente", lançado em 2006)

1.7.08

São Luís baby blue


O sorriso do gato ria alinhado as três marias
Ela os acompanhava com seus lábios de menina
e suas covas engraçadas.
Mas seus olhos traziam um fundo de tristeza.

Por buscas incessantes
Canções de despedida
e lágrimas contidas.

Naquele momento
A rasga mortalha varou o céu num grito.
Coruja branca talhando a noite.

Fenda de asas sonoras.

Acima do mercúrio
e do silêncio.

Maranhão, 2006 .
(Lua de fases, interferência digital, 2008.)

30.6.08

Feroz é o galo,
advento crucial da manhã.
Cruza de noite e luz.

Feroz todo mundo
dentro do mundo, feroz.

No bonde, no escuro às 6,
na padaria abrindo.
No raiar do poste elétrico, torturando o mendigo.

A primavera sonâmbula,
canhões crivados de sol.
O sideral volume espacial da aurora.
E teu cadarço frouxo, roxo,
amarrando tudo.

Feroz tua boca,
mordendo o ócio, travando o ofício.
Tua ferida cobrindo a falta.
O frio sem o lençol pra matar.

Feroz tua fuga desembestada,
tua verruga na cútis prata,
paupérrima tez mulata.

Feroz é a tv, cintilando na sala sem ninguém.
Teu pai morrendo no quarto.
Tua vó desenterrada.
Tua pá de ossos coloridos.
Teu filho viado.
Tua pasta de fígado de ganso.

Feroz é o pasto, roendo a terra.
A Terra tragando o pasto;
pastor comendo ovelha - prova óris do sistema.

Feroz é a tela, janela vomitando margem,
esconde-esconde à tarde.

Feroz é o galo,
rasgando a manhã.
Fantasmagórico trem amarelo,

fulgente,
advento crucial
do poema.

28.6.08

Passeio

Caros, de volta indefinidamente, saudoso destas páginas, vejo que o Presença cresceu em várias direções e manteve seus bravos pontos na poesia, com acréscimo de boa prosa vez por outra, novas trocas, novas pessoas, novas imagens (grande William!) e pouquíssimas lacunas. Quase dois anos de estrada, Presença. Avante!


Passeio


Em meia hora de procura tua
Rasgada, febril de suores
Inquieta de tripas
Olhei por você.

Quase te acho em Drummond
Perco teu rastro
por pouco
Na toalha úmida
No silêncio liso
No inverno mais frio.
Por pouco.

E lembro-me de ti no jardim
Vestido leve em paz com o sol
Abraço fácil de acordo
De toque, arrepio
Penumbra.

Mas não era o caminho.
Não houve o encontro.
Meu destino não foi o passeio.

Meia hora passou
Como tantas outras passaram
Por nós
Meus membros duros
Tuas curvas seda
Nosso cimo de tarde.

Passou. E eu
Num dos lados da cama já não procuro
Mas em versos
Te dissipo.

aos 27 de junho de 2008.

27.6.08

Pan

.........."Esse peixe é tão lento que até um sujeito analógico o pesca", menosprezou o cidadão-digital. Os peixes modernos, como tudo o que é contemporâneo, não dão conta das expectativas depositadas sobre eles – ou são as expectativas de hoje em dia que colapsam qualquer objeto de sua incidência, na medida da nanotecnologia e a ultrainformação condensada em uma impressão digital, acessível somente aos nervos, toda a cartografia de tudo que já se pensou em todos os segundos de todos os big-bangs desde o instante AA#B00345772-21.
..........Isto é obviamente uma piada, esta é a impressão que tenho, mas ao mesmo tempo é difícil, eu diria inatingível, se ver livre da correria que, quanto mais distante do epicentro, menos sentido tem. É um fenômeno de textura que, apresentando um padrão de mosaicos, na escala natural, revela imagens concomitantes em escala cotidiana, e se apresenta ao tato com sofreguidão e piedade, na escala macro, quanto mais macro, maior, por definição, e maior, linearmente, a palavra-semente, ruim, àspera, sobre a boa nova, que de nova tem o bilhar AA#B00345772-21 de anos.
..........A perdição e náusea vieram a galope para os visionários deste fato, os magros que andaram, andaram, andaram e andam, carregando em suas faces a face solta do fato dependente do tempo para ser fato; sem vértebras somos reféns da gravidade e não podemos andar para diante, talvez a condensação da informação e a rapidez que nos é exigida sejam a vértebra necessária – ou talvez a vértebra a mais que nos pune com um desequilíbrio do nosso centro de gravidade, quem sabe?, quem tem referencial suficientemente cósmico para afirmar? E aí estamos outra vez nos terreno pantanoso da dúvida eterna, eterna desde sempre, a contingência nunca utilizada, o continente pan, uno, a questão que nos é inseparável desde… e lá vem outra vez o "desde", o tempo, a informação, o labirinto, o desmembramento, pedaços cognoscentes de Deus e servos obedientes do Eu.

(Aos 18 de janeiro de 2006, parte do livreto "Acontecente")

25.6.08

Trecho do diário sem floreios

“Me beija, me beija”. Fazia calor, ela tava tão pirada que tava pondo os peitos pra fora na frente de todo mundo. Eu falei pra ela maneirar. Ela disse “Vamo lá pra casa, minha mãe só volta amanhã”. Havia mais de um mês que eu não comia ninguém. Mas eu sabia que se trepasse com ela tudo ia voltar, as mesmas merdas de sempre. Eu lhe disse “É melhor não” Soltou um riso debochado e gritou “ Não gosta mais da fruta seu viadinho”
Tive vontade de dar um murro na cara dela. Ela se agarrou no meu pescoço e ficou “Vamo, vamo” .Eu disse não e ela continuou. Aí fiquei puto e dei um empurrão nela, ela bateu na vitrine e se esborrachou no chão, tentei ajudá-la a se levantar, ela deu um tapa no meu braço e começou a me xingar. Pedi desculpas, ela ficou histérica, virei as costas e a deixei lá. Atravessei a rua e peguei o ônibus. Fiquei mal pra cacete, achei que tinha exagerado, mas depois me perdoei , ela já tava passando dos limites. Do meu lado se sentou uma senhora que começou a falar sobre o desrespeito que sofriam os idosos por parte dos motoristas. Toda hora ela me perguntava o que eu achava de uma das suas colocações, a última coisa que eu queria naquele instante era conversar. Gostaria que existisse a pílula da invisibilidade pra poder tomar nesses momentos. E ainda tinha a minha mãe me esperando em casa pra mais um sermão. Puta que o pariu, eu realmente queria sumir. E a senhora do meu lado continuava “Não é mesmo, não é mesmo” eu concordava com um riso sem graça que escondia a minha vontade de mandá-la à merda abrir a janela de emergência e jogá-la de cima do viaduto. Tava no limite, a qualquer momento eu ia explodir, cólera, raiva de mim, incompreensão,falta de perspectiva, ódio pelo rumo que as coisas estavam tomando. Fechei os olhos para um cochilo pacificador. Acordei com o trocador me sacudindo “Ponto final”. Só faltava essa. O ônibus ficou uns quinze minutos parado. Do lado de fora uma mulher apertava incansavelmente o botão de uma máquina de refrigerantes, depois de muita insistência ela conseguiu a sua latinha, tinha o cabelo tingido e usava um salto alto comprado em algum brechó, eu fiquei secando os peitos dela, sempre tive tara por seios, nossa primeira fonte de prazer. Os dela eram fartos , daqueles de encher as mãos, fiquei pensando como deveriam ser os mamilos, rosados ou moreninhos? Aí ela percebeu que eu tava olhando e fez uma cara tão feia que me intimidou, o motorista deu a partida, só tinha eu e mais um estudante no ônibus.
(...)

André Luis Pontes, diário sem floreios, 1997.

O louco

O louco, enfurecido, correu
Todas as direções. O agudo grito
Megadecibélico do ultra-aflito
Todos planos cognitivos varreu.

O insano, irrefreável, destronou
Sua consciência do seu próprio império.
Tarefa hercúlea! E, sem maior mistério,
Irou-se, sorriu, chorou, acenou.

Não coube em si, de algo que não sabemos!
Ficou triste, corou, falou de Vênus…
Dividiu-se em múltiplas reflexões.

Abriu, por fim, os braços e, solene,
Pulverizou sua loucura perene.
Diluiu-se em todos nós, grãos milhões…


(Aos 15 de junho de 2003. Poema integrante do livreto "Viver e Devir", de 2004)

21.6.08

Mar de agora

....................aa Lígia Pinheiro.

- - -

Tento te trazer para perto
E vislumbro a dificuldade
Das relações, as represas de vergonha que temos.
Sorrio pra acalmar e sorvo seu olhar benevolente,
De pessoa em paz,
Barco sereno no mar de agora,
Como é bom saber caracterizar um high,
Saber boiar no ar e respirar na hora certa,
Sendo esta a hora do corpo,
For a da zona do raciocínio.

Te toco num abraço
E sinto toda a bênção de toda área tocada do teu corpo sorrir-me,
Sinto fluir a cura do toque saudável,
Do ser em paz.
Estou contigo e assim volto à infância,
Apenas porque assim é o mecanismo,
Regresso e sou aceito outra vez no ventre
E te aprovo e também redimo
Teu ser à luz da grande ordem
Que nos permite ter tudo que necessitamos
Para apenas acontecer em harmonia.

E é só.
Buscar muito mais que isso
É afogar-se em labirintos;
A volta completa é muito menor que imaginamos até agora,
Suspeito.
É só ser.
E é só.


(Aos 23 de janeiro de 2006)

19.6.08

A quimera que atravessou o céu depois do ocaso

Gravura de Marcello Grassmann


A bruma brilha sob luzes de mercúrio
Esquinas silenciam feito filhos deserdados
O tolo acompanha no assovio o badalo da igreja
Quatro faróis no meio fio
Quatro bêbados sentindo frio

A mulher imita a louca
E dança nua
Ofertando os seios ao luar

Ela diz:
-Vem me amar São Jorge!
(ou seria mamar?)
Traz pra mim o teu dragão
Vem aquecer o meu sono
Me dê tua mão
E descanse tua lança entre minhas coxas.

E tudo passa quando adormeço
E tudo esqueço quando desperto
É vago e estranho o que sinto

A noite foi
Ficou o inverno.

2002.

Liberto !

No átimo outrora esfalecido
Do meu questionável juízo
Encontro agora estabelecido
O fluir que nestes versos friso –
O acontecer que eternizo
Ao sorrir para o que há de ser.

No labirinto outrora untado
De cosmopolita negrume
Encontro agora pincelado
Nas tintas do anti-queixume
O retrato perfeito do nume
Que faz viver e faz morrer.

Liberto! De saber inconteste
A decorrência do meu ato –
“És as escolhas que fizeste
Pela liberdade de fato
Que possuis – És homem, não rato
Na peça épica do vir-a-ser”.


(Fernando de Noronha, 26 de novembro de 2006)

17.6.08

Cleiber Andrade

Diluído entre os tantos versos mineiros, surgiu-me esta poesia de Cleiber Andrade, velha guarda, versos amorosos, suaves e românticos, como convém à tradição de poetas-não-poetas, ventilando o bem-querer e encantando as moças - no caso a dona Irah.
O poema chama-se "Desejos de Cleibe Andrade para Irah", mais preciso impossível.

- - -

Peço-te, amor, para ficar guardado
com muito afeto, num dos livros meus,
como relíquia, mimo requintado,
um cacho loiro dos cabelos teus.

E, se amanhã a vista me faltar,
(nessa desgraça atroz, valha-me Deus!)
cego, serei feliz só em tocar
um cacho loiro dos cabelos teus.

E se, mendigo, eu for pedir esmola
à tua porta por amor de Deus,
dá para uma alma que não se consola
um cacho loiro dos cabelos teus.

E, na agonia, quando tudo findo,
cair a névoa sobre os olhos meus,
com os lábios frios, tremerei pedindo
um cacho loiro dos cabelos teus.

Quando eu morrer, na minha sepultura,
(amada, atende estes pedidos meus!)
quero na cruz de pedra, inerte e dura,
um cacho loiro dos cabelos teus.


(Cleiber Andrade, MG, data desconhecida)

10.6.08

André Luis

André Luis é uma figura ímpar que parece saída de algum livro, o conheci no segundo grau, tinha eu então quinze anos e ele quatorze, convivemos juntos por um ano, ele é daquelas pessoas que basta uma conversa de meia hora para te deixar sem chão. Desses caras que te fazem crescer ,que vêem pra te sacudir, te pôr do avesso e partem te deixando cheio de questionamentos, um cara que aos quatorze anos dizia coisas que só hoje entendo. As últimas notícias que tive dele datam de uns quatro anos atrás, continuava sua vida de andarilho, tinha então 22 anos e trabalhava como barman em Montevidéu.
O texto abaixo faz parte do seu “diário sem floreios”, foram os primeiros textos que ele me enviou, escritos quando ele tinha uns dezesseis anos.
Como ele dizia “literatura de baixo calão”, algo como um cruzamento juvenil de Dalton Trevisan e Bukowski (autores que na época acho que ele nem conhecia).
Raiva juvenil numa prosa seca e de cortes bruscos.


Reveillon
Como um sorriso de dentes podres no horário nobre da tv. O incômodo. Algo que fedia no meio da aparente alegria do plástico brilhante e colorido. Toda espécie de párias, gente feia e solitária, bêbados e moleques de quinze anos balançando seus pintos murchos pra posar de iconoclastas. Mendigos cantando canções de verdade. Blues que vencia toda merda que era cuspida pelos autofalantes. Nem tudo era sol, algo de podre pairava no ar, algo que tentavam empurrar pra baixo do tapete. Voltariam pra casa trêbados, tocariam uma punheta ou chorariam, e alguns deles talvez dessem uma foda mal-dada e adormeceriam em seguida. E depois voltariam aos horários de empregados, ao esquecimento e ao sofrimento silencioso. Enquanto isso algum outro subiria num prédio bem alto, olharia para longe e soltaria uma gargalhada. Ou empurraria as paredes para o mais longe que pudesse e ergueria a cabeça na tentativa de engolir o máximo de ar que nos pulmões coubesse.


André Luis Pontes, diário sem floreios, 1997.

9.6.08

Flávia Motta

Trago às páginas do Presença a poesia de Flávia Motta, poeta de diálogo intenso e uma poesia tenra e repleta de recursos, permeada de nuances do dia (chuva caindo, tortas de limão, amores doces e vis - e "mis", se 1.000 tivesse plural!) e rimas abertamente gostosas e classudas, distantes das rimas fáceis que às tantas vemos por aí.

Como seria uma compra do mês, nos versos da Flávia ?
Como seria a descrição enciumada e forte da presença de outra fêmea ?
Confira em Cum Versare, o blog-marfim da moça (palavrasquecaminham.blogspot.com, apenas porque sou um ignorante em html).

Abaixo, o poema "T", um pequeno terremoto muito belo.

- - -

...............................A
..............................nu
.............................tua
...........................te leio
........................te escuto
.................tonta te remonto
.............é no corpo que te leio
........leio-te na ponta desta língua
..estudo a arquitetura do teu silencio
.......me desmonto em tuas letras
.........e me ofereço em sacrifício
.............................a ti
............como jogo de montar
.....teu quebra cabeça imaginário
.............teu tangram tátil
........................me tens
.........................te dou
............................tua
.............................tu
.............................T


(Flávia Motta, poema postado no blog "Cum Versare" em 13 de maio de 2008)

8.6.08

Recortes do tempo - parte V

Segue a parte final da reflexão épica "Recortes do tempo", do livreto homônimo de André Bentes. Cópias do livreto podem ser adquiridas mediante contato com o Presença.
Cerveja gelada e poesia de calçada !

- - -

Eu que aprendi com o passar da idade
que os acontecimentos reduzem-se a isso
Aquilo que eu vejo e o que quiser que eu sinta
Confesso cabisbaixo que não mais desejo
Sou cúmplice da vida ao dobrar esquinas

E sento nesse banco já extasiado
Reduzo um universo a mistério e química
E eis que o processo está encadeado
O que já foi sagrado agora se trafica
Os pajés pós-modernos até que cobram caro
O aroma da floresta cabe a quem respira

Em volta, espantado, sou tudo que vejo
Reflito-me na sombra de uma prostituta
Sou parte do processo e só me apercebo
Ao ver que a sua porta ainda esconde a rua

Um ato de coragem se tornou sorrir
Revoluciono o mundo pelas gargalhadas
Que dão-me o poder de criar imagens
algumas são sentidas, outras inventadas

Mas sinto certa pena dos que ainda esperam
Ao ansiar à morte que lhes traga vida
Espero estar bem morto quando enterrado
Sendo desnecessário uma despedida

O homem pensa por fazer história
É graças à memória que há o antigo
Sendo graças ao tempo necessário o mito
Deixando impressionado o que ainda é vivo.


(André Bentes, do livreto "Recortes do tempo")

7.6.08

Recortes do tempo - parte IV

De nada vale pôr-me à tarefa
De resgatar o que não mais existe
Se houve amor agora espero trevas
Percebo as coisas em sua medida

Pois nunca eu pus-me a andar
Sem pôr à prova o que dilacera
Jamais alguém viveu sem não matar
A pelo menos os eus que supera

Que é o tempo sem eu que destruo
As hastes pedidas pelo esquecimento?
Faço de minh’alma o meu próprio muro
Que pulo sorrateiro a cada momento


(André Bentes, do livreto Recortes do tempo)

6.6.08

Recortes do tempo - parte III

Incomodado estou pela existência
Por onde as coisas do silêncio falam
Vendo o processo do tempo me calo
Meio acuado a tanta violência

E tange o ranço híbrido que tive
Ao deslocar-me lúcido ao eterno
Herança minha deste instante terno
Ligado ao medo intenso de quem vive

Mas ao raiar a luz um pensamento
Sou obrigado a pôr-me logo ativo
Por ter certeza daquilo que crio

Como estivesse sob encantamento
Sendo por isso que ainda jogo dados
Incomodado por lentes de aumento


(André Bentes, do livreto Recortes do tempo)

4.6.08

Hércules

Miopizado pelas cifras,
Enrijecido pelo terno,
Acinzentado pelo monóxido,
Os lírios sem água,
Vivendo pretéritos,
Tetanizados os músculos
Pelo ferro das canetas,
Assinando os contratos,
Mineralizados os rins
Pela areia das lagostas,
Lances liquefeitos
Em negócios suspeitos,
Respostas polidas
De raivas contidas,
Em cada célula semi-seca
Semi-sem-voz garganta,
Aos berros nos bancos,
Apenas cifras e somas,
Comidas prontas,
Zeros à direita
Em inequívocas contas
Suiças setentrionais,
Salgadas e lacerantes,
Lanhando os mornos ventres
Dos brios tropicais.

Um épico. De aço.
Boca-hífen
No rosto branco.
Na manga de linho
O ás inequívoco
Da visita engatilhada:
A auto-bala certeira
Na cabeça arredondada.


(Macaé, aos 06 de junho de 2008)

3.6.08

Recortes do tempo - parte II

O que até aqui fora real
Jamais mostrado foi em prosa ou verso
Pois a estes cabe sempre o inverso
Posto que jogam ao vento um ideal

Prostrado está enquanto isso
O riso do ser ante a linguagem
Que faz do pensamento alguma imagem
Incapaz de retratar qualquer ser vivo

E no dorso dos motivos inventados
Impõem-se cavaleiros com as espadas
Fazendo jorrar sangue pelos prados

Trazendo um desejo de nada
Ao pobre do ser soterrado
Que roga... um copo de água


(Andre Bentes, do livreto "Recortes do tempo")

31.5.08

Recortes do tempo - parte I

Oriundo da geração de poetas que povoou o 9º andar da UERJ a partir de 2002, caracterizada pela diversidade de abordagem e profusão de idéias, André Bentes traz em seu último lançamento - "Recortes do tempo" - o poema homônimo de abertura, dividido em 5 partes (sendo as 3 primeiras sonetos) que irei postar aqui nas páginas do Presença, nos próximos dias.
O poema traz intensa reflexão, ora sombria ora mundana, sobre os recôncavos da existência

- - -

I

Confesso que desperto um certo nojo
Ao ver que a hipocrisia aqui impera
No lodo em que se vive, onde se espera
Que venha a se viver tudo de novo.

E põem-se a negar que suas trevas
São parte do que são, e luminoso
É o instante que se faz, como num jogo
Como no encontro vão de duas pernas

Ainda estás aqui meu caro amigo
Revela-te me então ao pé do ouvido
E isso provará que há o mistério

Mas enquanto retornar a luz que brilha
Limita-te a inspirar, depois expira
E isso mostrará o que é o eterno.


(André Bentes, do livreto "Recortes do tempo")

19.5.08

Ribeirão,pedras, águas e rodeios com ursos gigantes.

Acrílica sobre tela 2005.

Era um rio liso, mais que isso, parecia estreito e raso com suas águas de molhar canelas, mas era largo e profundo como um mar de ondas calmas. Com os dedos dos pés escrevia versos sobre as águas daquele córrego. Que tempo era aquele? Que tempo? E com a ajuda das pedras e das mãos de meus primos construíamos represas. Queríamos parar as águas, queríamos criar lagos, por algum tempo conseguíamos. Por pouco tempo. Depois as águas nos venciam. Então soltávamos nossos barcos de folhas e os deixávamos desabar pelas cachoeiras. Olhávamos nossas mãos , dedos de velhos enrugados. Ríamos.
Pelas pontes de troncos voltávamos, cada qual trazendo sua história mirabolante. As contávamos ao chegar, os mais velhos riam e também nos contavam as suas; o suicida que se enforcou e bateu com a língua no chão, o cigano do rabo de cavalo, (não dos cabelos compridos e presos abaixo da nuca, mas de cauda eqüina), e a que mais me fascinava, do urso gigante. Até então eu nunca conseguira vê-lo, sempre íamos embora antes dele aparecer.
Na festa de São João eu perguntava;
- E o urso?
- Ainda vai demorar, fica pra outro dia.
Me confomava pois o sono já era grande, e resmungava ao lembrar das três horas de caminhada que teria que enfrentar até chegarmos em casa, no caminho o urso gigante me acompanhava , pensava na sua cor, se era marrom, branco, preto...
Pensava: Como tinha ido parar um urso gigante no interior de Minas Gerais? Me diziam que tinha fugido do circo, desconfiava, pois nunca tinha visto um circo por aquelas bandas. Todo barulho vindo do mato me assustava, seria ele? Aí meus olhos iam se fechando, o sono chegava e de repente o tio Ilisteu me sacudia – Acorda menino, tá dormindo andando? Despertava, nesse momento já tinha esquecido do urso, provavelmente ele também já estaria dormindo. Aí era contar os passos pra continuar acordado, assoviar pra chamar as corujas (que nunca nos atendiam) e ouvir histórias de lobisomem, até avistar a porteira torta e abrir um sorriso pro sono tão desejado, então me deitava no chão de terra batida da cozinha, e ficava a olhar os resquícios de brasa no fogão à lenha, e via na sombra que as chamas criavam um imenso urso, derrubando todos aqueles que o tentavam montar.

sem data.



Entre o vivido e o sonhado, o visto e o ouvido. Passeando por pontes de madeira sobre o rio dos dias, entre as margens de ontem e hoje. Recriando para não esquecer, mantendo vivo.