12.9.07

"Sem título"

Tenho aprendido.

Aprendi a guardar gotas d´água na barba
e dali gotinhas de luz entre os fios.
E que a barba é um segredo bobo,
mas as mulheres jamais terão. (algumas)
Aprendi que sou mais chato com fome que criança com sono,
e que com sono, sou uma criança com fome.
Aprendi a atravessar os dias um à um
assobiando alto, fazendo algum barulho com as mãos
pra alertá-los.
Para os relógios não gritarem no meio-dia:
- É hora de abraçar!
E eu não abraço.

Aprendi que a solidão é esse gostinho amargo
da vontade de estar junto,
e se não fosse, seria o estar junto,
esse gostinho amargo
de não estar só.

Tenho aprendido.
Que quase nunca aprendo nada.
A não ser o que escrevo e releio,
boa memória fotográfica, salvas ao cerebelo.
E das músicas que façopoucas vão pro disco,
poucas vão ser cantadas novamente.
E que felizes são as que não são cantadas.
Pois, cada dor sabe a dor que é,
se não sabe, dói assim mesmo.

Aprendi que apêndice
é dor. (pr´alguns)
E adendo.
Qualquer coisa que se adicione ao texto depois,
mesmo que essa adição não tenha lá tanto sentido.
Aprendi:
Encher é sempre esvaziar.

Aprendi que ela é uma menina
que ela quer ser uma menina
e sonha ser uma menina
até age como uma menina
mas ralha como uma velha mulher cheia de câncrios.
E que nenhuma de suas perucas esconderá sua vontade de ter cabelos.

Tenho aprendido.

Ensinando só desaprendo
aprender é fingir que sabe
Só se aprende mesmo quando não entende
que se está aprendendo algo
Aprender é solitário
e tudo que é solitário faz bem
pois não depende de outrém
Sem egoísmos, no fundo sabemos
que no fundo mesmo,
estamos sempre sozinhos.

Tenho aprendido.
Que aprender a amar
é aprender a aceitar que mesmo
com tanto tempo,
ela é a mesma pessoa que conheci aquela tarde
e que todas as vezes me parece uma diferente.
E que dentro dos risos que ela larga
eu me apego aos mais sem graças
que são os que deixam os ossos de fora
e que mesmo com tantas aparências
estamos sempre buscando o verso das pessoas.
Mesmo sabendo que pra cada verso claro,
um lado escuro está pra ser mostrado.

Tenho aprendido,
urgentemente
que escrever é um remédio ofegante
e que nenhuma palavra guarda segredo da outra
e estão sempre contando seus meios
já os fins, estes nós mesmos os ditamos.

11.9.07

Discurso de Jesus, o nazareno

Salve salve Presença, não sou o Código da Vinci mas eis que tive acesso a este discurso de Jesus, proferido aos seus discípulos que, pra variar, não entenderam nada das palavras do mestre, eis uma das raízes dos equívocos que se perpetuam até os dias de hoje.

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O grande erro é crer ser Deus bom associando sua bondade à tua pessoal boa-ventura e êxito, havendo conflito em tua fé quando há dor e tragédia em teu caminho e no dos teus, quando tantas vezes o êxito de uns depende do malogro de outros, todos filhos de Deus que somos.
Deus não é bondade na ventura; sendo Deus o Devir, ele é a punição ao estático, em forma de decaimento e doença – e tua dinâmica, que só de ti depende, é teu prêmio na medida em que permite que tuas fibras possam acontecer, ir de encontro às chaves que te faltam.
A bondade de Deus é a dinâmica = permitir que nada seja definitivo, nenhuma derrota, tampouco nenhuma vitória.
O castigo de Deus é o estático = o Diabo, isto é, não-Deus = a fermentação nociva nas águas paradas, o sucesso de outros organismos e fibras que parasitam as fibras sedentas de hábito e preguiça de ser.

9.9.07

Bodas de inchaço

Salve a simpatia solta dos lábios
Que, úmidos e anelantes, se beijam
A pulsante paixão eterna sejam
Em poucos minutos, se forem sábios.

Tocam-se os corpos e, por muitas vidas,
Serão estradas de um amor titânico
Que, tal um bom flerte copacabânico,
Não durará as eras prometidas

Sem que nisso haja o gérmen do fracasso !
Amo-te ! Sem as bodas de inchaço
Da longeva aturança inatural

Que se vende na TV – e compramos!
O desgaste das pessoas que amamos
Por um engessamento irracional.


(Poema integrante do livreto "Cânion", Rio de Janeiro, em 10 de dezembro de 2006)

8.9.07

Não deixam

Também de volta às páginas do Presença a poesia do Grego (Rafael Huguenin), que entre sonetos virtuosos e estudos sobre poética, também traz a simplicidade, como em "Não deixam", abaixo reproduzida.
Abraços a todos !

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Não deixam o poeta escrever
Não o querem
O trabalhoapenas o trabalho
é a parte que lhe cabe.
Afogado em folhas
ele busca afago
em um poema estreito
todo interno
todo entranha
que não é luta nem é fuga

É artimanha.


(Rafael Huguenin)

6.9.07

Póstuma

Já não era sem tempo a volta da poesia do Felipe "Abdul" Sandin ao Presença, porque ficar sem os versos deste camarada aqui é prescindir de poesia libertária indispensável e, acima de tudo, agradável, renovadora e simples.
Tudo flui, Presença !

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Se a traça não devorar,
Se o fogo não consumir,
Se a água não desfizer
Minhas palavras serão a lembrança
De minha existência,
E poderão conhecer-me postumamente
E mesmo que ninguém se importe,
Elas ecoarão mudas pelo mundo
Não porque seja eu
Mais transcendente do que outros,
Mas porque o que estou sendo,
Basta como espelho de qualquer alma
As trilhas que meus pés fizeram,
A paisagem que mudei,
A energia que dissipei,
Tudo que sofri e as lágrimas que evaporei,
Ainda serão a contínua passagem invisível de meu espírito
Nesta terra oca de significados
Descobrirão que não há teleologia, não há verdade,
Não há matéria sem magia, e assim exaltarão os antepassados sem glória
Que conquistaram os dias tentando encontrar a si mesmos
Assim, minhas palavras farão o sentido que toda busca evoca;
Encontrar-se enfim,
Pleno com a vida que pulsa pelos séculos,
Em nós e no Universo.
PANTA REI ! TUDO FLUI !


(Felipe Sandin, do livro "Poesias ao vento", ainda por ser reproduzido e lançado)

3.9.07

Poema mecânico

Alo Presença !!
Da série "sonetinhos que eu compunha quando tinha 20 anos", saco este "poema mecânico", que escrevi para uma professora da faculdade.
Os sonetos desta época não são brilhantes, mas já eram todos decassílabos e fazem parte do aperfeiçoamento ao longo da trajetória.
A título de curiosidade, o poema foi entregue à minha musa acadêmica de então e ...
Vida longa !!

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Polimento, densidade, dinâmica,
Fluidez, resistência ao ar e à corrosão...
Estudo, porém dói-me o coração:
Sem ti estou neste mundo da mecânica.

Revendo temperatura e pressão
Fracassado sou na missão titânica
(Por entre aço inox, cimento e cerâmica)
De te esquecer e prestar atenção.

Vejo passarem lentos os segundos
E os escombros de estudos, moribundos,
Vazam com eles, desapercebidos.

E nada mais consigo imaginar
Senão tu, em tanta graça a me encantar,
Matando os raciocínios concebidos.


(Isaac Frederico, aos 06 de janeiro de 1999)

28.8.07

Cronologia

Joelhos ao solo
E as palmas das mãos
Chupeta e mamadeira
Ensinamento é aceitação

O corpo de pé
E os pés no chão
Dedo no umbigo e meleca
Pensamento em formação

Entusiasmo orgiástico
Amizades e diversão
Mãos nas vergonhas
Mito e repressão

Brinco na orelha
Tatuagem de dragão
Faculdade e bebedeira
Fumaça e revolução

De terno e gravata
Sapato lustrado - anel por convenção
Dinheiro e agenda
Filhos e preocupação

Serenidade aparente
Saudade e desilusão
Vontade de voltar no tempo
Impotência perante a vida

Caixão.

(Fábio dos Santos)

27.8.07

Analógico

“Esse peixe é tão lento que até um sujeito analógico o pesca”, menosprezou o cidadão-digital. Os peixes modernos, como tudo o que é contemporâneo, não dão conta das expectativas depositadas sobre eles – ou são as expectativas de hoje em dia que colapsam qualquer objeto de sua incidência, na medida da nanotecnologia e a ultrainformação condensada em uma impressão digital, acessível somente aos nervos, toda a cartografia de tudo que já se pensou em todos os segundos de todos os big-bangs desde o instante AA#B00345772-21.
Isto é obviamente uma piada, esta é a impressão que tenho, mas ao mesmo tempo é difícil, eu diria inatingível, se ver livre da correria que, quanto mais distante do epicentro, menos sentido tem. É um fenômeno de textura que, apresentando um padrão de mosaicos, na escala natural, revela imagens concomitantes em escala cotidiana, e se apresenta ao tato com sofreguidão e piedade, na escala macro, quanto mais macro, maior, por definição, e maior, linearmente, a palavra-semente, ruim, àspera, sobre a boa nova, que de nova tem o bilhar AA#B00345772-21 de anos.
A perdição e náusea vieram a galope para os visionários deste fato, os magros que andaram, andaram, andaram e andam, carregando em suas faces a face solta do fato dependente do tempo para ser fato; sem vértebras somos reféns da gravidade e não podemos andar para diante, talvez a condensação da informação e a rapidez que nos é exigida sejam a vértebra necessária – ou talvez a vértebra a mais que nos pune com um desequilíbrio do nosso centro de gravidade, quem sabe?, quem tem referencial suficientemente cósmico para afirmar? E aí estamos outra vez nos terreno pantanoso da dúvida eterna, eterna desde sempre, a contingência nunca utilizada, o continente pan, uno, a questão que nos é inseparável desde… e lá vem outra vez o “desde”, o tempo, a informação, o labirinto, o desmembramento, pedaços cognoscentes de Deus e servos obedientes do Eu.

(Escrito do livreto "Reações ao Grande Absurdo - A Palavra", parte 2 da obra Acontecente)

20.8.07

O PoP - Heyk Pimenta

Dando prosseguimento à seqüência Heyk-William de textos, rs.
Mais uma vez, o blogger não me permite a diagramação original do poema. Uma pena. Todos os poemas do Heyk têm diagramação muito bonita e marcante, mas, infelizmente, os leitores terão que ficar exclusivamente com o conteúdo. Eu ia escrever "apenas" ao invés de exclusivamente, mas, nesse caso, não é apenas, é coisa demais!
Presença!
*********
O PoP

A Semana de Arte Moderna não foi
popular
o pipoqueiro não entrou pra ver
A inconfidência mineira não foi popular
o escravo o capitão do mato e a gentalha
não pediram bis

A semana de vinte e dois vanguardista
popular como pele de chinchila
de massas como o aldente venesiano
que custa 80 euros na praça San Marco
não foi vista nem lida

Os homens descalços não puderam entrar
e nem leram nos jornais
já que eram iletrados

A inconfidência do ouro mineiro
30 dinheiros daqui para o além
não incluiu mucamas nas fileiras

o iluminismo só reluz em quem tem
dourado no corpo

Dependurado pelo pescoço
qualquer homem é santo
reconhecido o herói depois de morto
é mais claro que é heroísmo
e é só em vida
os tropeços na forca não predizem
a futura aceitação magistral do herói

Como antes foi o filho do jogador
das peças brancas e pretas do xadrez
depois o médico argentino
no meio o hindu embrulhado no lençol
ainda cairão heróis por terra

Será que os soldados da guerra santa da
cocaína
serão embalsamados à bronze
e postos em cima de cubos de mármore?
exemplos de
bravura e
paixão
para o próximo século

Minha vida continuará a mesma
pacatos só são heróis na bíblia

Popular era o angu a mandioca e a couve
hoje são os copos de guaravita
o cimento nas calçadas com ou sem
papelão
e as capas de revista
investimento gratuito
parar na banca para ler a manchete
ela é popular
a gata da hora é popular

Um real não salva a vida do homem
com as costas na urina
unhas encravadas
sorriso preto às oito da noite
cabelo encebado atrás da orelha
Mas garante a cana o solvente a gata da
hora
um
outro
ou outro

Um real não é herói

Uma semana é popular
a semana de fevereiro
a semana de um ano inteiro
por voto ela fica
a que não quer passar
abre as portas do ano
dos heróis
do sorriso preto

herofagismo com arte
um real é popular
Heyk Pimenta

17.8.07

Fuligem e Fulgor - William Galdino

Fuligem e fulgor

Vermelho abria-se em sorriso à estupidez disfarçada. Fez de cego pros fatos. Horas mortas no corpo estático. Uma cadeira velha. Um dia de chuva. Pouco via. Há muito havia ido embora a compreensão. O mundo era do tamanho do que os olhos alcançavam e num quadrado minúsculo eles cegaram. A mente era um saco de retalhos. Uma imagem por segundo, não, muito mais que isso. Velocidade que impossibilitava qualquer assimilação. A náusea. O coração acelerado quando a sobriedade gritou mais alto e trespassou as barreiras dos artifícios. Por terra o muro que circundava o real. Incompreensão. Apenas tolices ditas para manter a conversa. E no fundo ele queria cair sobre ela e fodê-la com raiva. Era o corpo que não reagia às vontades. Era o cansaço e o som estridente dos garfos arranhando a parede. Era sul, era norte, era confusão. Não havia o certo, não havia o errado. No corredor do hospital ele a sentiu como há muito não sentia, a vida crua. Era preciso deixar o silêncio do esconderijo. Cair nos fatos. Chocar-se com o mundo.
Abandonar e entrar novamente.

William Galdino, Janeiro de 2006.

16.8.07

A Bula da Ordem - Heyk Pimenta

Não conheço quase nada da história do Heyk. Só sei da acidez de sua poesia. Ao vivo é melhor ainda. Tentei manter a diagramação original do poema, mas o blogger não deixou =(
*******
A BULA DA ORDEM

Como como como
só vomito
me perdi no tempo
mas entendi o ciclo
sensivelmente duro
me tornei pacífico
e regurgito gaivota
porque sardinha fabrico

pra me livrar de tantas vezes
em que meu tesão intensifico
faço pausa pro bom grado
e os outros homens imito

então corro corro corro
porque não há tempo
e assim contemplo

o que como como como e vomito

Heyk Pimenta

14.8.07

"Risos"

Vou preparar um riso
amargo
destes esquecidos

sob guarda-chuvas,
atravessando a rua
para sempre.

Prepararei este riso
amargo
povoado de outras menores
doçuras,

cheio de outras delicadezas...
dessas pequenas mentiras.

um riso amargo
para ferir tudo
o que ainda
não fui capaz de sentir.

13.8.07

"Operários"

Gira o torno
gira o ponteiro mais veloz
uma e meia numa tarde absurda
operamos dinheiro dentro das máquinas
operamos o tempo
gira o torno e torna a girar
o sangue frio nos tubos de aço
um riacho vermelho e prata
éramos ópera
cantávamos o apito das dezoito
a noite banhava o sol
uma lua de sabão em pó já apertava os olhos
cantávamos às solas de sapato no barro
a ópera moderna
girava o torno noutro turno
nós a caminho de casa
a família e os filhos da janela
comemos do pão pela manhã
durante o dia o estômago quente
agora a noite, uma sopa do almoço
o p e r á r i o s
mordemos os lábios numa reza vaga
apagamos as sextilhas, deixamos os versos
noutra manhã manchada, marchamos em frente
operários de o p e r á r i o s
vamos operar a rota validez do esforço
o ignóbil agir no arado escravo
e festejar as sombras
beber nesse escuro vão entre as casas
que a noite esconde nos quintais
onde podemos ver a vida mais leve
onde podemos entender os cães
a atirar-lhes estrelas
e ajeitar-nos no sofá remendado
para um momento de paz
operamos o inferno
o p e r á r i o s
operamos um decênio
o p e r á r i o s
operamos as máquinas
e matamos nossos corações maquinários
operários surdos
operam seus dedos
nessas letras
nessas teclas
opero por vocês
que me operam
e operam minha voz

Anônimo

Teu corpo nu - branco
rio verde de pequenas veias
salientes
para fora da pele,

sob a penugem amarela
e magra
a cobrir-te na extensão
que és tu agora,
quando penso.

Avisto que tua boca
sela neste resquício o que dizes
sem por muitos me focar - sufoca-me.
No que não pensas?

Assim, o nu de teu corpo
no branco lácteo de meus pequenos dentes
instala-se avaro
como o gosto da carne

e aquele cheiro
cheio de suavidades
vem demonstrar que eu ainda preciso
dentro dessa minha força raquítica

abrigar o desejo obeso de
te esquecer.

10.8.07

É fogo

ilê presença !
posto nova poesia do saudoso presente Vinícius Perenha.
este poema já é posterior ao lançamento do seu último livreto, o "Levante", do início deste ano.
abraços a todos !

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Aceno
Com meus sonhos e idiossincrasias.

Projeto a vitória quando seus olhos antecipam que
Vai sorrir
E responder meu aceno
Com seus sonhos e idiossincrasias mais.

Vai chegar perto
E
Trezentosessentagraus-ear
A ordem lógica das coisas.


Com um aceno tão simples descubro que
Seeuparardevocê
Me afogo.


(Vinícius Perenha, agosto de 2007)

6.8.07

Regresso

Bom, esse poema retrata o regresso de um jovem cadete ao seus aposentos numa escola militar.
************************************************************************************

Desliguei a luz do farol
Acendi a luz interna do carro
Aproximando-me lentamente
Do sentinela ali parado

"Identifique-se por favor"
Interpelou-me
Mostrei-lho um documento
Autorizou-mo

Adentrei ao lugar
Olhei novamente o documento
Guardei-o
Não sabia ainda quem eu era.

(Fábio dos Santos)

O primeiro último encontro

Quisera ficar mais alguns minutos
Ao leito quente onde sonhava seguro
Quimeras de amores feitos
À língua mole e coração duro

Mas pedregoso céu ainda escuro
Na janela onde ia à passos curtos
Decretou mora ao cobrado juro
À bagunçada cama onde dormiam juntos

Enquanto se realizava a aurora
Que doirava os olhos pequenos e molhados
Vermelhos tristes que tinha à hora
Aumentava-se a distância dos braços dados

Há muito seus atos foram julgados
Revés dos perdões que teve outrora
Punido pela rotina e desleixo conjugados
Refugiados na bebida agora chora

Fora um belo caso
Que quisera a corrente do rio
Terminasse raso
Terminasse frio

Fora apenas uma noite
Navio que desatraca do cais
Não merecia esse adeus - maldito açoite!
Não merecia... um até mais.


(Fábio dos Santos)

5.8.07

Catecismo

minha descrição predileta do poeta Afonso Nives sempre começa com "egresso das fileiras da poesia pós-modernista sul-africana..." mas o velho poeta e então bôer rasga-me as definições e se coloca de forma pouco propícia a dúvidas de quaisquer gêneros.

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Ave, bispo.
Seca a lágrima vespertina,
Vã,
Libertina,
Do sofrimento arrebanhador,
A bata puída,
A crença grávida
De fervente louvor,
Prenhe de párias
Do deus-dor,
Sofricêntrico.

Pendura no varal
O gafanhoto descido da cruz,
O ídolo hanseníaco
De tão castigado
Que carimbaste com "J.C.",
INRI,
Ri
O vicário das mucosas abertas,
Sacerdote desconexo
Da punição limítrofe
Do anti-sexo.


(Johanesburgo, aos 10 de dezembro de 2006)

2.8.07

23.7.07

Sexta-feira Lúcia - William Galdino

Sexta-feira Lúcia
Estou aqui te observando enquanto você caminha pele orla, com as mãos nos bolsos desenhando percursos sobre as linhas da calçada. Vejo-te brincando com as chaves pra aliviar as mãos tensas, sorrindo sem graça pro vizinho que te cumprimenta. Então você pára de repente, indecisa entre água de coco e refrigerante, e escolhe o mais barato. Guarda o troco e senta-se com os olhos baixos diante do orelhão, pensando se deve ou não ligar pra ele. Mas como sempre você pensa demais, acha que está sendo inconveniente, insistente, e prefere desistir, sem saber o quanto ele espera pelo seu telefonema.

Seus dedos bailam no ar, e você sente uma tristeza fria como estas noites de agosto. Dói tanto, mas não há pranto, você já não sabe chorar, as lágrimas endureceram e ficaram cravadas no fundo d’alma, e como pesam. Ergue o corpo e segue na caminhada. Não sabe se volta pra casa ou continua andando, não sabe. Estanca o movimento, sente o mundo girando e tem de vontade de gritar, mas não grita, silencia e volta ao lar. Eu te sigo. Ao chegar os cães lhe fazem festa e você os enxota aos pontapés, sente raiva de si, sente demasiadamente. Curva-se e os acaricia numa tentativa de desculpas, e eles as aceitam. Entra no quarto, tira as roupas e as arremessa sobre a cama, deita-se nua no chão frio, sem saber o que fazer desta noite e assim fica, imóvel por um longo tempo.

Na sua memória passeiam as lembranças de todos aqueles que pareciam te olhar de uma maneira diferente, e realmente alguns deles te olhavam. Mas você sempre se achando indesejável, sem-sal, embora no fundo desconfiasse que as outras não tinham um terço do seu valor. Você tinha um mundo no peito, mas parecia não haver ninguém para ouvi-la. De uma daquelas tardes distantes, ressurge a imagem do cara que esbarrou contigo na saída do cinema. Seus olhares se encontraram e naquele segundo vocês pareciam descortinados um para o outro, mas as palavras não saíram, e ele se perdeu no meio da multidão. Desde então aquele rosto nunca mais se apagou da sua lembrança. E vieram outros verões, alguns encontros, bem menos que desencontros, e a terrível sensação do tempo que passou sem ser vivido.

Na buzina de um automóvel, você desperta das lembranças e volta ao presente. Observa a luz do poste que invade o quarto e pousa sutil no bico do seu seio, decide levantar-se e diante do espelho solta um riso discreto. É hora de voltar à vida. Escolhe o seu vestido mais bonito e sai mais uma vez à procura de uma noite diferente.
William Galdino, 2005.

19.7.07

Um só (comotodos)

E foi assim...
Parti de um simples traço vertical
Em direção ao infinito
No sentido contrário do que se é
Subvertendo a ordem da imposta
Rotina onde meu cansado corpo se encosta

Do simples saber que não se é
Aquilo que minha mãe julgava eu ser
O óbvio que o mundo esperava ver
É que tive a grande iluminação
Apenas mais um milho
Apenas mais um grão

E o seu doutor advogado
Policial civil, militar ou o viciado
Exercem cegos suas funções de merda
Esperando que a glória os alcance
Tolos! Ainda não sabem que a morte
É um instantâneo - um rápido lance.

Sorte minha que descobri
Que parte de mim ficou aqui
Nestas linhas simples e sem sentido
Para aqueles que só aprendem com os ouvidos
E nunca sentirão o que senti
Eu sou parte de você e o mundo é de mim.

E envolvi com os braços
Aquela fria coluna de mámore
Como se fosse ela minha irmã.

(Fábio dos Santos)

18.7.07

O encontro das águas - William Galdino

Uma lua quase plena
Arranha-se na quina do edifício.
Enquanto um brinda
O outro se atira.
Há um cão em cada esquina
E talvez um deles cheire
E coma aquele beijo de despedida
Que desabou no chão.

O marujo holandês sorri por suas escolhas.
Renúncia do leito em troca do mar.

Bocas falam vitórias
Criando suas próprias medalhas.

O enamorado dança.
Como a única coisa a ser feita.
Ter os olhos e os pés dados.
Salva-vidas pros dias de naufrágio.
Clariceano, anseia uma morte bonita.
Daquelas de se fechar os olhos e partir levando o melhor.

Sobre as calçadas da Lapa
Desinteressadas
As cobras-voadoras
Seguram na boca a luz da noite

Banhando as barbas sujas de alguém que já sonhou.

William Galdino, julho de 2007

14.7.07

Renascimentos

A poesia do Leonardo Schuery já esteve presente aqui, por duas ocasiões, com os excelentes "Mundo real" e "Reflexões do interior".
Poesia sempre densa e reflexiva, retrata estados sutis, a percepção do próprio ser não apenas enquanto cognição sentimental, mas como um conjunto onde o corpo desempenha papel essencial e participante.
A poesia que posto hoje, "Renascimentos", é carregada porém muito bela e traz um sentimento pujante de vigor e superação especiais.

________________________________________________

O encontro dos corpos cansados
Tocando a morte material
Na face destruída pela dor
Da consternação de saber que não há mais vida

Pelo ar o odor fúnebre das lamentações
Acúmulo de restos, resquícios dos destratos
Na alma conspurcada pelas desilusões
Não há mais nada

E refaz-se o corpo
Milagre inesperado da regeneração natural
Sem deturpações e torpores inconsistentes
É possível o amor

Dorme fundo em auspiciosos sonhos
Mesmo cercado de perigo
Faz amanhã um abrigo
De luz própria e nada mais.


(Leonardo Schuery, em 26 de junho de 2006)

9.7.07

Homenagem aos pais ausentes

Por ocasião da minha formatura, fui responsável pela homenagem a ser feita aos pais falecidos, inclusive o meu próprio.
Resolvi fazer um soneto, que acabou se tornando o primeiro poema que declamei em público. Este poema não está em nenhum dos livretos que lancei.


As luzes do ambiente se esvaecem,
Moléculas de ar brecam o som;
Denso se torna este festivo tom
E nossos olhos, lassos, umedecem.

Este é um momento particular:
A recordação do abraço ausente,
A perda repentina de um parente –
Segundos de caráter secular

O olhar triste sucumbe à gravidade;
O açoite inexorável da saudade
É elevado à última dimensão.

Mas é hora dos passos adiante,
Essa sim é a homenagem gigante
Aos que conosco não mais estão.


(Isaac Frederico, em 2002)

6.7.07

nO silênciO um pOnto. um pequenO furO nO espaçO. nO perfeitO cantO. um pOnto no silênciO. O fim de tudO. a bOca calada. a pOrta fechaDa. um risO de fachaDa. uma cOr sOlúvel. um chá intRagável. uma dOr impaGável. um rOsa incOntrOlável. um varal suspensO. um sOnho no asfaltO. um assaltO. cOraçãO declaradO.

5.7.07

Balcão

Qual segredo esconde o vale
Que daqui de fora vejo
Por onde anseio passear a língua
Encardida de desejo?

Tamanho encanto te deste a sorte
Ao sem querer nascer com tal sorriso
Onde querem tocar meus lábios
Ansiosos submissos

Gaguejo ao interpelar-te
Quando chega em mim a fila
Transformando um coração
Que é de pedra em argila

Queria eu ver-te completa nua
Ver rosar teu rosto augusto
Pois definir a crueldade - para mim
É ver-te só o vestido busto

("São quatro reais, senhor."
Diz-me sem emoção
A mulher da padaria
Por detrás do seu balcão)

E então, pago-lha com o cobre!!!
E desço a rua sorrindo... feliz só de ver.

(Fábio dos Santos - para o livro LASCIVO)

30.6.07

Ama

Ferve-me o corpo tua presença
E rubra calorosa a face fica
Trépidos os atos e as pálpebras
Dos meus olhos teimosos que te fitam
Desejosos os meus lábios ficam mudos
Conquanto bêbado lhes diriam quase tudo
Ansiosos em tocar-te a boca - almofadas de veludo

Furto-me olhar-te direto aos olhos
Tal com servo não faria a sua senhora
E submisso recolho-me ao amor
Egoísta e só meu que tenho agora

Umedecidos os olhos ficam
Como desejo ver-te as íntimas nuâncias
Onde afogaria meu instinto primitivo
De dar a ti um presente - uma criança
Herdeira de tua beleza e ternura
Que mostraria a todos nosso amor
Ao brincar alegremente pelas ruas

Furto-me a dizer-te direto aos olhos
Tal como mudo fico à sua presença
E que me faz teu servo - teu escravo
Sua nobre e senhoril indiferença

(Fábio dos Santos)

29.6.07

O cosmo

alou presença !
não me lembro se já postei este poema, originalmente do livreto Lanterna Mágica, de setembro de 2006. De qualquer forma, aqui vai - O cosmo


As estrelas estão ao meu lado,
Caminho sobre elas,
Pontos de luz
Sem voltagem palpável.
Um andarilho tão impossível
Quanto absolutamente palatável,
Um pescador que deduz
O absurdo das selas
No cavalo alado
Das sãs seqüelas
Irreproduzíveis,
Tanto quanto extraordinárias,
As experiências místicas
Das sensações visionárias,
Absolutamente indescritíveis;
O anzol que reluz
O impossível das velas
Nos campos de vento
Do pó das estrelas,
Inimagináveis
Tanto quanto factíveis –
O cosmo.


(Isaac Frederico, aos 02 de agosto de 2006)

22.6.07

Provérbios "ultr´humanos"

"O ato peremptório pede um final ausente."

"A rosa que escala o inverno,
vem nascer na lama."

"O espinho que fere o menino,
é o espinho que serve escada aos insetos."

"O menino é um inseto no retrato antigo,
o retrato antigo é um inseto morto no quarto."

"A rosa que marcha para o alto não é rosa apenas,
é um soldado, rosas não marcham; e nunca rosa, apenas vermelho."

"As cores se inventam, assim como primários os cães sob as rodas, vermelhos."

"O vermelho é o amarelo do sol junto ao magenta do homem."

"O marrom é o fumo descabido e o rim aberto sob luzes fluorescentes."

"A casa está para o corpo, como o copo de chope para as bolhas."

"Meticulosos são os dedos de Cristo, infalíveis os dentes do demônio."

"Boas mentiras se contam sorrindo, boas verdades chorando."

"Quando o mau em miligramas, o bem em átomos."

"Paixão: em tudo é preciso; mesmo sabendo que tudo há de se tornar impreciso."

"Melhor saber que saber de cor suas qualidades, é enxergar nitidamente seus limites."

"Ela precisou morrer algumas vezes para exemplificar aos filhos o valor da vida."

"O homem cuja arma é o amor,
jamais encontra adversários à altura, quando numa guerra soldado for."

"A lagoa que somos precisa de sombras para que não nos evapore por completo o sol."

"És de tamanho igual ou menor que meus punhos cerrados,
mas possui mais liberdade que todo o meu corpo."
(aos pássaros - às portas de uma penitenciária)

"O poeta está sempre a se casar com a vida,
mas segue por ela eternamente apaixonado pela morte."

"Poetas nascem póstumos."

"Tudo o que precisamos ouvir, já foi dito, reescrito, pensado, diluído...
mas não da mesma forma. E é o poeta este gerador combinativo."

(r. elfe)

16.6.07

Rosa

Um barco me faz ausente de ti –
A engenharia sorri, exata,
Triunfa a lógica nímia,
Soberba, dos números infrenes,
Dos litros de óleo,
Dos donos solenes
Do absurdo empresarial.


Mas se faz prenhe de raiva
E rasga-se de dor:
Meu ímpeto sonhador
Vem tão puro
E invariavelmente –
Avassalador.
O idílio que te faço,
O deâmbulo que traço
Até toda ti, toda porque una,
A lira mais doce que já ouvi,
A rosa mais lira que já vi,
O ouço mais claro que senti.


A lembrança do teu toque
Beija meu eu-poeta,
Apaixona-me por apenas ser
E implode, sem nem querer,
O castelo pateta
Do barco de óleo e aço,
Neste poema que te faço…


(Isaac Frederico, em 16 de junho de 2007)

15.6.07

De boca aberta

caros poetas e amigos das letras,
vai aí um poema de Urhacy Faustino, um poeta que conheci através da wendy, e ela através do site de poesia erótica cseabra.utopia.com.br/poesia/
o site é muito bom e vale uma conferida de perto, definitivamente.
vida longa ao presença, poesia pra sempre...

* * *

Em nossas brigas não voam televisões,
nem há corporais agressões:
o verbo é a flecha que nos perfura
mesmo nos tempos e modos que a gente se censura.
Trocamos o costumeiro texto sacana
por verborrágica luta insana
e, se alguém se sente em desvantagem,
apela pra figuras de linguagem,
misturando metáforas, pleonasmos,
com licenças poéticas, no orgasmo
ao medirem forças dois titãs.
Até que já sem fala, de manhã,
mais sedentos que famintos, como taças
nos bebemos um ao outro, extasiados
de repente sem palavras, embrigados,
(eis que a língua se enrola, a gramática falha),
nos lambemos em nossa cama de batalha,
onde desejos e tesões explodem atômicos
em delírios guturais, gozando afônicos.


(Urhacy Faustino)

13.6.07

Samba levanta poeira

ave, presença !
posto hoje uma música do Felipe Schuery, com o título acima, que tem uma letra belíssima.
abraços a todos !

* * *

Tombei do bonde do amor,
Montei na dor do pranto meu
Com pinga sou Galileu,
Passo a observador...

O céu escuro faz-se brilho só,
Avisto uma estrela linda de dar dó
Piso na lua, a natureza não me deixa não.

Apesar de derrotado,
Me mantenho levantado, braços dados com o mundo
Agora ouça, de você já me esqueci – com mil fiéis amigos posso me divertir
Caixa de fósforo, garfo no copo e violões
Fazem fundo pro meu canto que encanta corações

Te esqueci pra valer !


(Felipe Schuery, Samba levanta poeira)

8.6.07

Ponto do escritor

amigos do presença, poesia é de que precisamos... viajar e poesia, som e poesia, viajar e som, viajar e viajar, trabalhar mais a ansiedade, contemplar, atitude poética.
posto uma poesia do flavio nascimento, poeta vanguarda e que conheci numa das idas ao beco do rato, com vinicius e william.
abraços,

--------------------------------------------

Pega no teu livro para ler
Pega na pena para escrever.

Vem anunciar
o que você tem
pra dizer.
A gente quer ouvir
A gente quer saber.

Vem divulgar
proclamar
a tua profecia.
Vem fazer nascer
um novo dia.

Vem sonhar
construir
a tua melhor fantasia.
Vem espalhar
alegria

Vem falar de Nosso Senhor
Vem anunciar
trazer
o Cristo Redentor.

Eu não sou digno
de segurar a tua mão
Mas vem me banhar
nas águas do rio Jordão.

Traz tua graça
tua inspiração
tua energia
tua iluminação.

Faz um poema
pra gente recitar
Faz um verso
pra gente mostrar
Faz uma peça
pra gente montar
Faz uma ópera
uma ária
uma toada
pra gente cantar.

Pega um lápis
pra redigir
Pega um desenho
pra colorir
Faz uma canção
pra divertir
Faz esse povo
gargalhar
brincar
sorrir

Pega um pincel
pra pintar
Pega uma máquina
pra fotografar
Pega um filme
pra documentar
Pega uma luz
pra clarear

A tua palavra escrita
copiada
anotada
redigida
Mostra que a Vida
tem sempre uma saída
Mostra que a Esperança
não está
totalmente
inteiramente
completamente
PERDIDA !!!


(Flavio Nascimento, "poesia popular participativa", no dia do escritor, 25 de julho de 2006)

5.6.07

Sem titulo

alo presença, posto uma poesia sem titulo da Ligia Pinheiro, uma das melhores dela que ja li.
abraços a todos.

__________________________

O que eu não conheço,
não me faz falta.
O que não sei,
não temo.

Quanto tempo,
não me preocupa.
De que maneira,
não me interessa.

Isso tudo não faz sentido para mim
Porque já é.
E ser me basta.

Não preciso de contratos
De prazos, de promessas
Na verdade não preciso.

Mas quero,
quero só o que já é
e o que é, não é só.
É o bastante.


(Ligia Pinheiro, em 2006)

29.5.07

Pluma

O perambular alegre,
Perder chão, carregar só distância
Que pesa tal pena,
Um grama apenas – e errante,
A pluma do tão-somente,
O ser edificante
Do mero acontecente –
Eis o dicionário
Da língua dos pássaros,
Do rumor das árvores ao vento,
Do meu mor-preenchimento,
A molécula que vai,
Á água e ao ar –
Vão o vento e o rio
Pois que não sabem ficar.


(21 de maio de 2006, extraido da parte 5 do livreto "Acontecente")

25.5.07

Mas finda a tristeza contida
Na lágrima corrente da dor
O abraço e a mão estendida
Que explicam o inexplicável amor

20.5.07

Rafael Elfe

J a z z i g o



Quando eu morrer,

paguem aos violeiros, os mais antigos

pra na fumaça das violas

meus restos evocarem...

Dêem meu violão ao primeiro menino pobre que surgir...

minha alma vai estar lá dentro,

e ele vai saber exatamente o que fazer,

eu já tive a idade dele...

e também nunca tive um tostão.



Façam chorar o couro dos banjos...

Deixem voar os corvos!

As galopadas do bumbo

me levarão junto às rodas marginais de blues,

e saltarei de dentro das gargantas dos que cantam com dor,

onde eu me ilumine.



Deus está em cordas novas!

Deus está em meus acordes!

Deus é minha voz dizendo essas coisas...

Minha poesia!

É o breu e a luz!

É a rabeca chorando...

A gaita que rasga!

E eu sou o breu e a luz.



Digam a eles que eu não volto mais...

peguei um trem que vai pr´além de mim,

pr´além desse mundo de fábricas e feriados...

e mesmo quando tocarem o último acorde,

enfim, continuarei por aí,

rolando e assobiando com o vento.

19.5.07

Minha mulher e o céu

Cobre-te as espáduas um vestido roçagante
E enlanguesces, toda minha, ancorada em meus braços,
Afagando-me a fronte e beijando-me, possante…
A delicadeza célica em meus sonhos crassos.


Apenas rudes em seus ensejos animais
(Meus cálidos instintos ao segurar-te as ancas)
Mas românticos nos veementes madrigais,
Ditirambos ao picante amor que me alavancas.


Galante, a alcova deixas, o céu aurirrosado
Acende-te todas estrelas e um teu gracejo
Reconhece-lhe o estro deveras arrojado


Enquanto que a esta cumplicidade doidejo,
Uma quimera de mulher e o celeste estrado
Haurindo o torpor do mar de amor onde velejo.


(14 de dezembro de 2006, extraído do livro "Madrigais", lançado pelo Presença em 2007)

7.5.07

Tranquilo

achei perdida esta velha resenha do rabugento poeta egresso da inteligentsia sul-africana de johannesburgo.
um verdadeiro divisor de águas no continente africano, onde os velhos quase que inexistem.

* * *

Você é velho,
Usa aquele óculos geriátrico.
Orelhas e nariz imensos, não param de crescer,
Nem por um minuto.
Vem ao meu escritório
Mostrar o banco de dados
Da sua empresa de engenharia.
O jeito de quem nasceu há séculos
E aprendeu informática com esmero.
Um hálito amargo abominável
Sentido a três metros de distância
De quem tomou café a vida toda,
O estômago fodido.
Um bom velhinho informático,
Sem coragem de deletar um documento.

Engenharia é rapidez radical.
Celeritas, neuro-cibernética, anfetamininformação.
zzrrt zongingsocingsoc frrr
Não leitinho na mesa de cabeceira.
Seu velho, seu merda.

(Afonso Nives, Johannesburgo, em 2004)

3.5.07

É o que se tem

posto mais uma pérola niilista do Fábio Alves, que tem surgido com surpresas impressionantes.

creio que o poema é carregado de uma reflexão comum a muitos.

* * *

Um quadro negro
E um caderno em branco
Por que estás sentado neste banco
Oh! Juvenil criatura?
Filho de uma mãe a mais


Por que não vive sua vida?
Por que não cura a ferida
Que o mundo se incumbiu
De te dar?


É que você já nasceu devendo
E só falam em dividir
Você quer multiplicar


Passa feroz o tempo sujo
E o que é que você tem?


Nada.

(Fábio Alves, 2007)

29.4.07

No sol, em prata e no grão.

As mãos seguram firme pros pés baterem soltos.
Junto ao salto vai o frio na barriga.
Desce ao fundo, sem peso.
De volta à tona,
o sol em meia-luz lhe cora o rosto.
No corpo, uma sensação de não ter onde, nem quando.
Volta e meia pequenos medos;
Avistar barbatana, canto de sereia, mão puxando pro fundo.
Na imersão vai o cardume,
ao encontro das redes.
E as ondinhas quebram,
desfazendo lentamente pequenos castelos.

28.4.07

Rafael Elfe

“A s s i m c o m o n ó s”



Eu fui aquele sujeito,

sem jeito

que um dia deixou

de encantos cair

e por ti

num conto

permaneceu fadado.

Aquele que cruzou a rua, num mar de gente

e esbarrou teu ombro, e nem sabia o que diria

e você a pensar na família

dentro de outros problemas

Fui aquele sujeito perdido

numa noite apática

num sinal vermelho

a lhe pedir informação

e bêbada, ao som da época

trouxe-me a metafísica do teu frio olhar de soslaio

E eu, o olhar vazio que te segui à fio

nas Áfricas nebulosas de tua mente

e reverdeceu o pasto colorindo as vias

enxergando a primavera febril de teus lábios

as alfazemas

que brilharam no ardor

que borbulhara ao sol de julho.

Fomos aqueles desconhecidos que se conheceram

num sábado de aleluia

pagãos órfãos de pai

a nova contra-cultura do país

os comunas anti-horários

os novos olhares pseudo-aristocráticos

éramos sós naquela manhã

uma pulga de ouro na avalanche da vida.

Fomos aqueles que desmudaram o destino

o mesmo que nos uniu e nos separou

pelas forças estranhas da paixão coletiva

da rudimentar forma de se pedir, num adeus que seja

e levantar as mãos orando pela compaixão de cristo

nas suas lavandas brancas e seus riachos de lágrimas e sangue.

Onde por horas estivemos?

Quando a bastilha caíu, quando berlim se separou

quando as torres gêmeas desfiguraram um dia inteiro

Onde por horas estivemos?

Quando o cão suicida do vizinho

mordeu o baço do velho

e caídos, ambos, gritaram de uma forma cômica

e tiveram as línguas adormecidas pela ambulância.

Onde por horas estivemos?

Quando harley cruzara o zênite, 67 anos depois

quando as janelas finitas dos subúrbios

de um ponto ao outro fez estrados azuis dobrarem-se

e deixaram os olhos maculados pela vida inteira.

Onde foi que nos deixamos?

naquele relógio amaldiçoado?

sempre 35 minutos para às uma de algum tempo

enfeitiçado, congênito, dentro de todas as formas da casa

descrevendo a nossa doce e amarga despedida.

Onde foi que nos deixamos?

naqueles beijos intermináveis

no final do banco dos coletivos irrisórios

cheios de estrelas nos cabelos

e canelas de areia e mar de ipanemas noturnas?

Onde foi que nos perdemos?

a avenida brasil está parada agora

e nos aguarda àquela tarde

quando o sol castigáva-nos

e entorpecia-nos de amor eterno

como se a eternidade fosse séria

ou qualquer tábua de nietzsche no jornal alemão

Onde foi que nos deixamos?

lembra?

quais fotografias foram reais?

quais as imagens mais cruéis agora?

onde fomos deixar as alegrias

que nos permeavam de dias sem indultos

de horas sem pêndulos de flores em nossas capelas

Quais refeições? Quais talheres destrincharam

o que as bocas adorariam dizer

e engoliram apenas

ou mastigaram todo o infinito rude dos nossos mudos olhos

quais copos de vinho nos cederam a verdade

pra quando deitamos lesos de algum pedido

e deixamos o corpo responder aos instintos

ou tão somente dormir, aquecido um pelo outro.

Quantos dias?

Quantas horas contadas?

Nada, diria...

nada mais do que a máquina fria da vida

nada mais do que a voz indizível do tempo

Fomos e seremos ainda, muitos outros

e nunca deixaremos de ser o que somos

e o que fomos será sempre o que deixamos de ser

quando o que somos será sempre um passo atrás

do que desejaríamos

e esta réstia de seres está à perambular em nossos espaços

e deixar pegadas fundas nas praias espirituais

e nada, diria novamente

nada poderia ser tão mágico e simples.

27.4.07

A ausência


Caros, dessa vez não vim poetar, mas tão somente delinear apropriadamente um conceito.

________________________________________

A ausência

Não é a simplicidade da falta

Que faz uma coisa que se procura e

Não mais

Se encontra.


Ou mesmo

O resíduo do que se perdeu

Definitivamente.


A ausência

É uma tristeza calada

Posto que é o fim da ligação

Entre

Algo que se tem por dentro

E aquilo que dantes se encontrava próximo

Por fora.

_______________________


vinicius perenha - abril de 2007

26.4.07

As mulheres e o tempo

se ninguém se arrisca, tenho material extenso pra postar, de qualidade impressionante para os desavisados que não conhecem poesia independente.
de uma reflexão absurdamente desnorteante, releio "as mulheres e o tempo".
aos mais desavisados recomendo coletes salva-vidas...

* * *

I
Jamais é um tempo que não acaba nunca
Que nem por alto, dá pra se fazer idéia
Jamais
Transcende. Porque nunca também começou
Ironicamente ainda pode ser falado
Mas só quando supõe o sempre
E sempre que assim for
É adequado.
Jamais?
Adequado?
Estranho

II
Vai que ela diz:
jamais falo contigo de novo
Vai
Que ela diz: te amo
Pra sempre
Vai, que ela chora
E sempre que chora
Diz que nunca vai te perdoar
Ou que ela some
Vai morar num bueiro, sei lá
E nunca mais volta
Vai que ela tem razão
Tá bom, tá bom...
Isso nunca
Mas vai que ela pensa que tem
Sempre?
E nunca mais deita do teu lado
Segura tuas mãos
Mexe nos cabelos
Etc., etc., etc

III
Adequado é que não pode ser
Uma coisa dessas
Só uma, vai que mata
Imagina todas elas juntas?
Elas deviam pensar mais em nós
Ser mais frágeis, eu acho
Não sempre,
Mas às vezes seria muito melhor


(Vinícius Perenha, do livro "Poesia pra toda obra")

22.4.07

O sol encobre toda a superfície do meu corpo

reflexões-de-grande-importância-pra-mim-e-que-chamo-de-poesia, capítulo I.
já publicada no tomo VI do "acontecente"

* * *

O sol encobre toda a superfície do meu corpo.
O bom e só sol.
Sou Caeiro estendido,
Não penso nem tento
Mas logo me ocorre que
Alguma fração de uma história de bilhões de anos de existência
Do Astro-Rei
Me adentra, fazendo parte de mim indelevelmente.
Tenho agora algo do sol.
Absorver vitamina E e processá-la
É como que o reconhecimento orgânico desse fato.

20.4.07

O louco na praça

o centésimo-vigésimo post no presença é um poema-seleção;
me caiu esta bomba na mão, um dos melhores poemas do Fábio Alves, repleto de estímulo aos sentidos - principalmente ao sentido do atordoamento. um dos melhores e mais fortes poemas já postados no presença, em minha opinião e gosto.
alou presença, rumo ao milésimo post !

* * *

Sob o sol do meio-dia
Reflete as cores brancas
Calorosas e frias
A praça de bancos
Repleta
De pessoas
Vazia

Sob a torrente de luminosidade
De soslaio olhando
Atordoados se dedicam
À rotina de contratempos
Repleta
De amenidades
Vazia

Sob a barba e terno negros
Maltrapilho e suado
Prega a palavra desesperada
De significados
Repleta
E de lógica
Vazia

Sob as asas da doutrina
Os transeuntes nem mesuram
O valor do qual desatina
Que mostra ser
Repleta
Nossa vida
Vazia.


(Fábio Alves, aos 17 de julho de 2007)

18.4.07

O timoneiro

O timoneiro recebeu as visitas
Na sala de estar
E virou o messias
Do barco da vida das pessoas,
O barco que elas são
(O barco que elas somos…)


O timoneiro diz às pessoas
Que somos exatamente tão importantes
Quanto somos mera matéria sendo,
Tanto chance
Quanto bênção
E… elas podem entender isso?

(Isaac Frederico, em abril de 2007)

16.4.07

Ostras

fala presença !
posto mais uma excelente poesia do Guto Leite, lembrando que o blog-tosco-spot não me permite manter a diagramação original proposta pelo poeta.
a analogia do poema é intensa e bonita, e sua reflexão é firme.
um abraço a todos !

* * *

a Hume

nunca vi de perto uma ostra
nem pretendo
sei de sua natureza imersa
e fria
como as jóias

imagino-as pedras vivas do oceano
escuro
que começa nos abismos

quanto valem
sempre está turvo
azul
além das imensidades

as almas dos artistas
são ostras degeneradas
de presença
nunca poderão ser tocadas
ou salvas
pela pérola

(Guto Leite, 2007)

13.4.07

Apatia

alou presença !
posto um pequeno conto de um grande amigo, o Fabio Alves.
há anos filosofando sobre os atalhos, desde tempos imemoriais em cabo frio, a produção literária do Fabio não tem sido muito impulsionada por ele próprio, então nada melhor que a boa diversidade, colocar em jogo o máximo possível de pensamentos e malabares de palavras.

* * *

Quando cheguei em casa havia três horas após o meio dia. Coloquei a cadeira de praia no armarinho debaixo da escada. Subi para o andar de cima com os pés sujos de areia da praia.
Não quis comer nada. Avisei à empregada que estaria no quarto, para o caso de um telefonema ou eventual visita. Tranquei a porta.
O meu quarto ficava na cobertura de um apartamento duplex defronte à praia de Ipanema, de onde tinha vista plena do Arpoador até o mirante do Leblon, do movimento das “dondocas” rebolando seus belos corpos no calçadão e dos surfistas deslizando nas ondas doiradas pelo sol cor de abóbora em seu crepúsculo vespertino. O dinheiro e as coisas belas nunca foram escassas na minha vida.
Tomei um banho quente – que ardia-me as costas bronzeada pelo sol- e saí do banheiro ainda me enxugando. Coloquei uma bermuda confortável e deitei-me na cama: A apatia.
Só o som do Rádio, o vento gelado que saía do ar-condicionado e o calor da brasa do meu cigarro repousado no cinzeiro, faziam que alguma coisa material se movesse. No mais, era tudo parado e os pensamentos confusos. Não foi a partir daquele dia que tudo começou, mas dali descobri o que me reservara a vida e o que ela havia me dado até presente o momento.
Era justamente, e apenas, tudo aquilo que ali estava: um sol, belas garotas, dinheiro e alguns poucos amigos – que não sabia sê-los verdadeiros. E isto é tudo que realmente pode-se esperar. Então, compreendi a dor que às vezes me remetia ao maxilar, os dentes rangendo e a vertigem nas noites mal dormidas de todos os dias: A aflição.
“Viverei eu assim?”, pensei.”Será que é só isso mesmo? Tem que haver algo! Tem que haver!”. Mas as coisas não aconteciam, e dia após dia a rotina se instalava em mim. A dor no maxilar aumentara, além do surgimento de calafrios – outro sinal de que as coisas não iam nada bem. Não comia; a libido se reduziu a zero. Perdi a namorada e os poucos amigos que agora sei serem falsos. Um homem num parafuso que se atarraxa cada vez mais para dentro do buraco feito pela furadeira das idéias na parede da vida.
Passei a me escorar em garrafas de uísque. Assim, comecei a distanciar-me da realidade. Era o que eu precisava! Tornei-me ébrio permanente. Mas não deixara de morder os dentes. E o álcool se tornou, para mim, como o sol e as ondas douradas do mar, como o mirante, o mendigo e o caviar. Como tudo era: colorido e sem graça.
Fui internado pelos meus tios numa clínica. Achavam-me louco e viciado em álcool. Não me opus. Não me importava.
Foi lá que comecei a tomar remédios de tarja preta. Minha dor no maxilar cessara e os pensamentos começaram a se alinhar. Tive alta da clínica.
Com o passar do tempo, descobri que toda apatia é fruto de uma certa dose tragada de revolta, mas uma revolta tranqüila – mansa. E minha vida seguiu como era antes, com exceção das pílulas que tomava pela manhã e à noite antes de dormir. Apático e revoltado com alguma coisa que eu não sabia o que era, quiçá nunca saberei.

(Fabio Alves, 2007)

8.4.07

Cânion

pessoal, feliz páscoa a todos...

* * *

O berro
Da probabilidade não eleita
Sempre ecoará
No cânion do que é,
Do que foi escolhido.

Amar é tanto
A única redenção possível
Quanto o trauma inicial do Ser.
Ou

Amar é um berro
Num cânion sem eco e
É a eleição serena
Da possibilidade redentora,
O alívio único
Do trauma inicial de Ser.


(latitude Aracaju-SE, aos 7 de Abril de 2007, a bordo do PLSV Pertinacia)

6.4.07

Paquera na chuva

mais uma bela composição do poeta mineiro Marcelo Pontes, que já esteve antes nas páginas do Presença.
seus sonetos sempre simples e incisivos giram muitas vezes em torno de um sentimento agradável de paquera, leveza e serena positividade, com luz, temáticas claras e ambientes alvos.

* * *

pingos insolentes,
roubando carícias,
em pontos quentes
de curvas e malícias

como frios beijos
que provocam arrepios
e loucos desejos
em corpos macios.

e encolhendo panos
nos belos contornos
que atiçam a mente;

deste alguém que olhava
com inveja da chuva
que caiu de repente.

(Marcelo Pontes, MG)

5.4.07

Informação

ecos do "acontecente"...

* * *

Durmo.
E continuo acontecendo,
Fora do escopo
Da analitiquice incessante
Que nos tornamos.

Interiorizo
Os alimentos,
Tão dentro
Que chegam ao núcleo celular,
Em forma de informação:
Continuar,
Acontecer
A todo custo.

Acontecer é agradecer;
Estamos juntos,
Da mitocôndria
Á Via Láctea.

3.4.07

Presidente

Sou o presidente
De mim,
O residente
De mim.
Alugo minhas fibras
Do Tudo,
Com grande amor;
Aconteço sorridente,
Alegria e dor –

Sou meu presidente.

(Delft, Holanda, em março de 2007)

31.3.07

Seixos ao rio

costumo sempre retornar à leitura das poesias do abdul, quando me faltam elementos naturais, paisagens, figuras atentas à contemplação ao invés da analitiquice. dependendo do tipo de ambiente onde vc se encontra, isso pode ser bastante comum.

do novo livro do poeta a ser lançado a qualquer momento - ao qual felizmente tive pré-acesso, temos "Seixos ao rio"

* * *

Estou feliz, estou cantando.
Estou dançando, estou escrevendo.
Estou pensando coisas boas e lindas.
A alegrar-me na alegria de outros,
Que somadas aos meus próprios sorrisos,
Perfazem o desenho de um rio gelado,
Que corre baixinho, assoviando
Paz aos ouvidos desalmados.

Que sopre o som e refaça minha voz,
Refaça minha paz, minha harmonia,
Meu paraíso pretendido.
E se possível, como por mágica,
Construa as casas que nunca pude ter,
E o silêncio infinito que sempre quis respirar.

Permaneça a paz, o amor, e o sagrado
Do rio, a descer a passos largos e lentos.
A levar os seixos ao alcance das mãos,
Para podermos, no pôr do Sol,
Jogá-los de volta ao seu berço.


(Felipe Sandin, do livro "Poesias ao vento", 2007)

27.3.07

Câncer

Um antigo. Infelizmente, não deu pra manter o diagrama original.

Maldito Blogger!


________________________________________

Câncer


Vagar.

Devagar,

divago à luz

do câncer.


O câncer que respiro.

O câncer que alimento.

O câncer

Que enxergo.

Orgânico.


Cresço, desenvolvo e

amadureço.

Tal o

tumor

em que me reconheço:


Escuro

Amargo

O carcinoma

O invasor.


Metástase!


Sim,

amplio os horizontes.

Consumo obsessivo.

Degenerativo, o desarranjo.


Suicida.

Essencialmente suicida.

Consome o próprio hospedeiro.


O câncer,

Deus,

O devir.


Toda a crença é homicídio.

Toda a fé é homicídio.


O hábito, é letal.


(vinicius perenha - Rituais de ver e olhar - 2003)

24.3.07

História

Seduzes-me.
Apaixono-me.
Poeto-te.
Aceitas-me.
Unimo-nos.
Multiplicamo-nos.
Desaparecemos.


(Schiedam, Holanda, em 10 de março de 2007)

22.3.07

Fenômeno

André Bentes, e um poema chamado Fenômeno


Idéias não suportam o pulsar sanguíneo
E como vapores d’água que o corpo expulsa
Exilam-se no véu oculto de um sentido
Que explode em sensação, como a alma busca

Insiste em estar viva a veia latejante
O dedo já se move por vontade própria
A língua é enrolada dentro da garganta
No peito a redundância de amor e ódio

São átomos e células, tecidos e órgãos
Os músculos que estendem também se contraem
O cérebro da casa fica lá no sótão
E os sonhos são amantes que não se encontraram

Transborda o sentimento e a palavra cala
O olho lacrimeja sem ter um motivo
O pescoço se traduz como um arrepio
E o tato todo gira como uma mandala

O dente apenas morde e a ferida sangra
Aberto o apetite, sabor e aroma
vermelho traz a fome, fome traz a dança
a sede nos caninos é só um sintoma

O corpo submisso exige mais um pouco
E as unhas são a águia sobre o meu pescoço
A alma está segura pelas minhas coxas
Some o pensamento sem nenhum esforço

Agora é só o peso, e grato à gravidade
Procuro a tua boca, olhos já cerrados
Sou o universo inteiro dentro de uma flecha
Outrora eras meu alvo...agora és meu arco.

(poema integrante do livro Recortes do Tempo, lançado por andrezinho em 2007)

20.3.07

Insignificacional

De volta ao batente após uma cirurgia de apêndice, o poeta sul-africano manda atualizações de seus versos, aparentemente ainda pós-operacionalmente tenso.
Do auge de seu status sexagenário, eis que me remete a pérola "Insignificacional"... não sei ao certo se o Presença deveria abrigar os versos beligerantes deste guerrilheiro, mas em nome da diversidade aí vão.

* * *
O mais triste
É ser covarde o suficiente
Para culpar todos os demais;
Ser pomposamente incapaz
De julgar a própria ineficiência.
Continuar metralhando o sistema
E se barricarAtrás do ego.

Ou ser masoquista o suficiente
Para culpar apenas a própria inaptidão
E redimir todos os demais bostas
Desta Grande Tragédia;
Se barricar
Atrás do perdão alheio.

Oral, genital, anal…
Tua saga, isso sim,
É insignificacional.

(Afonso Nives, em 17 de outubro de 2006)

15.3.07

Anarco-significante


Vamos,

Com mais carne que boca,

Mexer as coisas.


Desafiar o consumo.

Alfinetar a vigência.

Assassinar o sentido.


Punir com ironia.

Agrupar com afinidade.

E avacalhar a teoria toda

Com cinismo.


Todo mundo junto.


Depois de cada um,




Sozinho.


(vinicius perenha)

12.3.07

Apolíneo sob as rodas


No acerto final,

O significado nas terríveis sentenças,

A ferrugem nos membros,

O vazio no arbítrio,

Precisarão de fibras impossíveis.


O absurdo em cada escolha.

Breve e irreversível

Vão, mas indizível...


Nada nos manuais

Nem uma única forma segura de agir.

Sete imprevistos e um plano.

Três palpites antes da queda.


E mais dez anos passaram;

Fobias curadas,

Fantasias no sótão,

Espaços em branco.


Árdua tarefa; reunir peças,

Concatenar vexames pretéritos

Com orgulhos vazios.

Desenterrar verdades esquecidas

(o potencial do esquecimento...),

Traições não reveladas

E medo.


Medo de olhar e encontrar a chave

Do fundo do poço que abriga

As lâminas

E mantém sob controle o dark side.


Ferramentas de cólera,

Tempos de guerra.


Breves tempestades que arrancam

Raízes

Desnecessárias

E atrelam à mecânica do olhar

Visões oriundas da finitude.


Nalgum obscuro canto

A lógica do sentido

Zela pelas sentenças do porvir.

10.3.07

Madrigais








Caros, o primeiro lançamento do selo, como já anunciado pelo prório, foi o livreto Madrigais, do Isaac. Alguns poemas do livro já estamparam as páginas do presença, mesmo antes do lançamento, mas agora o filho tem cara, e é esta que aí vai, junto a um dos poemas que mais me chamou a atenção.

Divirtam-se!




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Desilusão



Encanto extemporâneo,
O meu que se choca
Em tua fortaleza de quês;
Na peanha teu busto cerrado,
Atribulado.
Não tarda e vejo fechares o tempo,
Em estampido de ira,
Despetalando minha cortesia,
Reduzindo-a a íon.

Feneço, entristecido,
Desaparecido - órfão.
Recolho-me ao sótão,
Respiro os versos que te dediquei -
Me pergunto onde errei,
Revejo rimas, refaço estimas,
Acalento a pequenina chama
Que inda me resta
E que para si reclama
A proximidade infesta
Da paixão que lhe inflama.

"Inexiste solução, vassalo",
Uma tua carta me versa.
Teu amor tergiversa,
Afunda-me em névoa
De angústia mordaz.
"Abdica", pede-me o coração;
"Escreve-te um foguete,
Vai-te embora para Plutão".

(Isaac Frederico)

9.3.07

Noivos

Guto Leite volta às páginas do Presença com "Noivos" cuja distribuiçao original de palavras no papel eu nao consegui manter, em virtude da ineficácia do control-ce-control-ve.

Guto irá lançar um livro por uma editora do Rio (Guto mora em SP), desconheço ainda os detalhes que envolvem este lançamento, mas desde já convido os demais "presentes" a abrir as portas das instalaçoes da Editora Presença para o estimado poeta, o que significa, talvez, a nossa cerveja de calçada e lua cheia na lapa.

presença !

* * *

Noivos

lenços anzóis
uns para cada lado
nem paralelos
nem perpendiculares
ao chão
suspenso
vão rimados no oculto
como promessas
as mãos superficiais
com medo
de furar a água
de mau jeito
trocam-se marolas
delicadas
até se deixarem corpos
desprevenidos
um do outro
luzes brancas
nas
velas da onda
refletindo infantes no equívoco
entrecaracolados
seguem lisos
do alarme
no ponto do tempo
em que podem
suas histórias fabulosas
no ápice
arfam estridências submersas
além da abóbada
celeste
do quarto que os envolve
para cansarem-se em instantes
novamente silêncios
lenços
azuis
demoras
rimados em dobra
sem destino pronto

(Guto Leite)

5.3.07

O homem que não conseguia morrer

Arrastava as correntes e temia pelo barulho que elas poderiam fazer. A pele em atrito contra o muro sangrava, mas ele já não sentia a dor. Ser visto, esse era o seu maior receio.
Queria fundir-se a algo inerte. Queria deixar de ser. O peso das correntes curvava ainda mais o corpo ferido. Não lembrava qual era a cor do céu, há anos os olhos só vislumbravam o que estava abaixo de sua cabeça. Meteu nos bolsos as mãos sujas (por mais que as lavasse, elas nunca estavam limpas) e encontrou o pequeno espelho. Ao encará-lo, teve novamente diante de si uma imagem embaçada, indecifrável. E desta vez, resolveu encarar-se até o limite e assim fez até os olhos queimarem, mas de nada adiantou, os segundos a mais não lhe trouxeram novidades. Arremessou o espelho contra o chão e o que sobrou foram milhares de cacos minúsculos. Queria chorar, não conseguiu, estava seco. Agarrou com força o aço das correntes e num golpe brusco, as lançou contra o pé esquerdo. Soltou um grito assutador. O sangue manchou a calçada. Continuou a caminhar, dizendo coisas sem sentido. Ao chegar à ponte, a madeira rangeu, sob seus pés, em uma das tábuas, estava escrito uma frase: Ninguém se livra do que é. O corpo estremeceu, fechou os olhos e lançou-se ao precipício. A queda durou mais do que imaginara. Ao alcançar o solo, abriu os olhos e viu seus braços ilesos no centro da multidão. Ergueu o olhar e nada. Só haviam gargalhadas a lhe estuprarem os ouvidos.

Rio de Janeiro, abril de 2005.

3.3.07

Madrigais

Salve Presença !

lancei no dia 01 de março meu novo livreto, chamado "madrigais", uma espécie de homenagem aos poetas clássicos (na forma dos versos) e sobretudo à fantasia irrestrita, na forma dos conteúdos abordados.
na ordem numeral é meu sétimo libreto, contando os dois em parceria com o Vinícius Perenha.
vale lembrar que todos os libretos estão à disposição de quem interessar possa.

Imanifesto - Presença

Em nossa presença não será deflagrada a guerra por ou contra flâmula alguma. Nosso movimento é simples, fluido; porque consiste somente em mover-se. Se existe na empreitada algum mérito, este será então o fato de que simplesmente trocamos o que era antes pelo que é agora.

bom final de verão a todos !

1.3.07

Sem dizer nada, Helena se fechou entre quatro paredes. Junto do peito, a carta de amor manchada com gotas de vinho tinto seco. Ela chorou por alguns minutos, mas logo se refez. Passou a cantarolar uma música sem ritmo só com as vogais. Em um vestido de margaridas meio murchas, limpou as mãos molhadas de água e sal que caíam novamente dos olhos.

Começou a reler a carta. A letra, tremida, trazia lágrimas em versos - versos do vice-versa da vida. E vice-versa. Enquanto suas duas mil e cinco gotas arrancadas manchavam as linhas com a tinta da caneta, ela buscava uma razão para tudo aquilo lhe acontecer. Estava apaixonada e completamente assustada. Não sabia se podia continuar vivendo aquele sentimento. Preferia não saber de algumas coisas que a carta contava. Mas estava mais tranquila por tudo ter chegado a um ponto final.

Era domingo. Dia enfadado. Vestido de preguiça, de guarda-chuvas azuis. As camisas quadriculadas no varal, misturadas à vertigem, provocavam-lhe um estado ébrio e hipnótico. Ela havia desmembrado as palavras que lera, para ficar com a parte boa das coisas – doce, acaso, merda, interessantíssimo. Sabia que não havia para onde ir. Só havia a espera. Na carta, ele explicava que tinha um plano e já estava resolvendo todos os detalhes. Ela deveria se arrumar e esperar o próximo pôr-do-sol. Seria a hora.

Helena começou a preparar sua pequena mala vermelha que havia usado em uma viagem para o interior. Pôs duas calcinhas novas, um par de meias, um livro do Llosa, poeminhas para viagem, uma fita k7 com coleções de romancinhos, um casaquinho e um par de sandálias franciscanas - as mesmas sandálias que seu amor havia lhe dado no aniversário passado. Ela queria mostrar que amava. Mostrava com as sandálias. Coisas de ser humano.

No cair da noite, ele veio no velho Fusca do pai. O motor roncava alto. Ela trancou a porta da casa e jogou fora a chave. Decidiu seguir a vida como ele havia lhe pedido nas palavras - de olhos bem fechados, apenas sentindo as coisas com o tato. Fugiu com seu padastro para longe do peito da mãe, que nunca mais soube dos dois. Com um sonífero de tarja preta, deixaram-na sonhando com os jantares das noites de sábado e os romancinhos de sofá do começo do namoro.

Rio, fevereiro de 2007.

26.2.07

Pedro Lermann

Mais uma do velho e ácido Pedro Lermann. Um homem de sabotagens não menos herméticas que seus muitos textos.

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A Emboscada

Finalmente se lhe afigurava a áurea oportunidade pela qual tanto aguardara. A efêmera e raríssima presa de seus sonhos. Atravessara seu caminho tal qual um desfile cívico, uma procissão de almas. O desastre natural mais belo e assustador de sua não pouca experiência de observador atento.

Diante da pueril sensação de regresso às indóceis paixões de sua juventude, ele, um impulsivo e possante Mangalarga, pela primeira vez, hesitou. E enquanto hesitava, não dormiu, bebeu ou jogou. Seu espírito fora completamente subjugado pelo embrião do caçador que surgia, impaciente, dolorosa e silenciosamente.

E sob os auspícios imperiosos dessa gestação, crescia, então, um soldado. Meticuloso e hábil nas sutilezas e manhas da mesa onde, então, dispusera todas as suas fichas.

...

Eis que Tibério, implacável, se acerca de Úrsula e corajosamente balbucia seu ultimato:

DEVORA-ME OU TE DECIFRO.

Ela, felina, furtivamente diz sim e deixa que o vento leve os alçapões que não foram usados.

23.2.07

Nuance

Dormes.
Envolta em meus braços
Um cordeiro indizível de belo,
Um sono de tal ternura,
De uma graça tal que perdura
Minha vigília insistente,
Meus olhos lassos
Ninam-te o sono
Em paixão quase demente.

Dormes.
Tua nuca trescala o perfume
Dos meus sonhos de menino.
Aperto-te a cintura
Em toque de precisa brandura,
Ronronas ao gesto sentindo,
Murmuras mimoso queixume
E dás-me a mão, alvissareira,
Maliciosamente sorrindo…


(Rio de Janeiro, 14 de dezembro de 2006)

21.2.07

o homem que ri

abram na página 111 do "homem que ri"
e vejam ali a semente da contração de todos os músculos,
no carnaval somos todos músculos e suor, contrações,
tensão, carga, descarga, relaxamento -
a fórmula do orgasmo
a hemoglobina do espasmo
o fim do carnaval e seu fogo no milharal -
ano que vem somos nós
apenas um ano mais velhos.

14.2.07

Aparição

aloha, fantasia
...

* * *

Aparição

E, como só faltasse sorrires,
Sorriste;
O sorriso fulgurante
De quem domestica a fera
Pela candura,
De quem leva o razoável à loucura
Com um toque grácil,
Um trejeito airoso
Que rebomba no coração faltoso
De todo eu,
Imerso em querer-te posse.

E, como só faltasse (aconte)seres,
Foste;
Imarcescível,
Distinta,
Perjurando a premissa divina
De todos serem iguais,
Um sonho floral,
Alva e doce,
A revolução radical
Do meu tolo conceito
Do que vem a ser –
Meramente –
Perfeito.

(Rio de Janeiro, em 10 de dezembro de 2006)