19.5.08

Ribeirão,pedras, águas e rodeios com ursos gigantes.

Acrílica sobre tela 2005.

Era um rio liso, mais que isso, parecia estreito e raso com suas águas de molhar canelas, mas era largo e profundo como um mar de ondas calmas. Com os dedos dos pés escrevia versos sobre as águas daquele córrego. Que tempo era aquele? Que tempo? E com a ajuda das pedras e das mãos de meus primos construíamos represas. Queríamos parar as águas, queríamos criar lagos, por algum tempo conseguíamos. Por pouco tempo. Depois as águas nos venciam. Então soltávamos nossos barcos de folhas e os deixávamos desabar pelas cachoeiras. Olhávamos nossas mãos , dedos de velhos enrugados. Ríamos.
Pelas pontes de troncos voltávamos, cada qual trazendo sua história mirabolante. As contávamos ao chegar, os mais velhos riam e também nos contavam as suas; o suicida que se enforcou e bateu com a língua no chão, o cigano do rabo de cavalo, (não dos cabelos compridos e presos abaixo da nuca, mas de cauda eqüina), e a que mais me fascinava, do urso gigante. Até então eu nunca conseguira vê-lo, sempre íamos embora antes dele aparecer.
Na festa de São João eu perguntava;
- E o urso?
- Ainda vai demorar, fica pra outro dia.
Me confomava pois o sono já era grande, e resmungava ao lembrar das três horas de caminhada que teria que enfrentar até chegarmos em casa, no caminho o urso gigante me acompanhava , pensava na sua cor, se era marrom, branco, preto...
Pensava: Como tinha ido parar um urso gigante no interior de Minas Gerais? Me diziam que tinha fugido do circo, desconfiava, pois nunca tinha visto um circo por aquelas bandas. Todo barulho vindo do mato me assustava, seria ele? Aí meus olhos iam se fechando, o sono chegava e de repente o tio Ilisteu me sacudia – Acorda menino, tá dormindo andando? Despertava, nesse momento já tinha esquecido do urso, provavelmente ele também já estaria dormindo. Aí era contar os passos pra continuar acordado, assoviar pra chamar as corujas (que nunca nos atendiam) e ouvir histórias de lobisomem, até avistar a porteira torta e abrir um sorriso pro sono tão desejado, então me deitava no chão de terra batida da cozinha, e ficava a olhar os resquícios de brasa no fogão à lenha, e via na sombra que as chamas criavam um imenso urso, derrubando todos aqueles que o tentavam montar.

sem data.



Entre o vivido e o sonhado, o visto e o ouvido. Passeando por pontes de madeira sobre o rio dos dias, entre as margens de ontem e hoje. Recriando para não esquecer, mantendo vivo.

15.5.08

Atol

Sonho-te e nas brumas recendes

......................
O perfume assustador de quem

......................não está.

De quem ferve a doce índole do que fica

No fogo frio de um verde glauco;


..................................................Seco a testa de uma febre rica
..................................................Evaporando num amor incauto.


Transluzo nos olhos a minguante lua

...................Em gotas que se perdem nas bochechas,

...............................................Traduzo o silêncio dos que se esvaem


................................No gelo triste de um amor sem filhos


...................................Que justifica as lágrimas que caem
.........................................Na natureza dos andarilhos.


.............................................Fora dos trilhos, refrões vagos,
..........................................................Nesgas de versos sem legendas
.............................................Num amor fora de época,
.....................................................Encarnado. Dessemelhante.

....Vibrante mas... dissociado.



(Rio de Janeiro, aos 13 de maio de 2008)

12.5.08

Destilado

Above deep waters, pintura de Hans Hoffman



Então caminho trilhos
por fora.

Invado as janelas que meus olhos alcançam.
Visito livros, cinemas, multidões, horizontes de praia,
num qualquer coisa de esquecer-se.

Os dedos batucam impaciência.
Em bancos de espera,
pelo toque esperado que não toca.

Laço bondes.
Devoro ondas.
Crivo olhos a dentadas nas nuvens (que parecem dragões de lata).
Assisto almoços de família.
Desdenho pingando numa pontada
misto de ira e inveja.

Choro escondido
ao ver dois enamorados incrustando corações a canivete
na pele dura de uma amendoeira.

Rompo o azul , abarco o amarelo, comungo em vermelho.
Num relâmpago,
num vôo
entre os píncaros da euforia e os pastos fundos do abismo,
trezentos e sessenta e cinco anos ao dia.

Repiso o chão
onde os pés eram pares duplos .

Você pode estar na rua paralela
passar dois minutos depois ou uma curva acima.

Desencontro dado numa fração de segundo.

O presente- ausente trinca devaneios na minha ânsia.
Enfileiro um milhão de motivos
Trago rancores enumerados,
mas basta uma lembrança de sorriso e tudo se dissipa.

Em excesso de ti me afundo.
Adentro mares
estrangulo sereias
ofendo netuno
estou surdo.

E volto à terra arremessado contra as pedras.
Retorno ao dia da semana
ao passo calmo
a quase aceitação.
Até ser renovada a procura...
Até um novo mergulho atrás de um aceno
que já não diferencio se sonho ou realidade.

Embriaguez tumultuada,

O quase transe do inóspito.


E quem pode calar o irremediável chamado do coração?


Abril de 2008.

10.5.08

O touro e o toureiro

mais um soneto do "poesia pra toda obra", este um tanto sádico.
abraços a todos !

- - -

O grito uníssono, a arena repleta
E o toureiro adentra, em tom triunfal –
O implacável verdugo do animal
Insano: o touro, que a festa completa.

Chifres imensos, anel no nariz:
Por um instante o toureiro tem medo;
"Matando o touro, confirma-se o enredo;
Morrendo eu... um final infeliz"

O touro arranca em fúria hiperbólica
E, como uma ironia diabólica,
Rasga ao meio o amedrontado toureiro.

E a platéia, ensandecida, se apraz:
No fim, a tragédia nos satisfaz
Quando o próximo sucumbe primeiro.


(Rio de Janeiro, aos 01 de junho de 2005)

6.5.08

Limite

Virar para um lado
virar para o outro.

O atrito das costelas
o atrito das idéias.

Virar uma página
virar outra.
Um lado do disco
depois do outro.
Desejo de consolo,
desejo de calmaria.

De presente
suor e ranger de dentes.

Vira um copo
vira outro.

Buscar em todas as filosofias
Vasculhar no íntimo.
Pendurar fantasmas
Debater com o sórdido.

Esquiva-se
pra não se ver vestido do que recrimina.

O medo desce na penumbra
lento e decidido.

E ainda pode se levantar em fuga
ainda pode correr
(e quando não mais?).

E chorar e praguejar...

Ter os olhos vazados pela claridade.

A poeira baixando.

De repente
a realidade curvilínea que ofusca.

Encara o corpo nu no espelho.
Vira o rosto.
Procura por qualquer máscara que lhe cubra os olhos.

Dúvida
receio

Vontade de se encontrar
até se perder
e novamente...

E o desejo de afastar pro lado
o riso mesquinho que a cara pintada não esconde.

Ou a expressão débil que a fotografia lhe rouba.

E vê a pele cair
e tenta retê-la.


Os pés no trampolim
Momento sem desvio.


É a dor da mudança.
O salto no escuro.
Ponto culminante
onde não há recuo.

Abril de 2008.

Brisas

Pintura de Jack B. Yeats


Andei relendo alguns poemas que o Rafael me enviou há algum tempo e me deparei com este, brisas, um poema carregado de sensações e vivências comuns a todos nós. Um poema de passagens e ausências mas também com espaço para “o centeio bom” em meio ao “trigo estragado”. Brisa em dias de pés no chão.

“não somos mais que brisas! Tênues, estúpidas e frívolas brisas...”



Vão-se as coisas
palavras e suas pessoas
nelas encarnadas
nada resta
e vão apagar a lousa
a palavra amor escrita às pressas
deverá morrer no verde escuro
e os teus olhos amor, que absurdo!
pularão para fora do tempo
onde estiveram tão atentos
agora sós
tão cabisbaixos dentro em mim
Vão-se as coisas
os carros alegóricos - fantasmas d´uma vida
passagens solitárias nas ruas daquele filme
você deletará os e-mails,
apagará as mensagens,
e as fotografias digitais
que pesavam tua caixa de entrada
mas existe o centeio bom e o trigo estragado
para acelerar a perda, aquela perda estranha
que não se sente e só nos resta o ausente
a falta que parece estar doente
bebericando alguma sopa rala
falseando os dentes,
e os leões de nossa culpa
sob o castanho sol africano
ai, meu bem... não somos mais que brisas!
Tênues, estúpidas e frívolas brisas...


R. Elfe, sem data.

4.5.08

A brisa cisplatina

Segue um poema de 2005, que foi publicado no livreto "Poesia pra toda obra", lançado em outubro de 2005 em co-autoria com Vinícius Perenha.
Exemplares do livro encontram-se à disposição pelo Presença, a quem interessar possa.

- - -

Sibilou triste, a brisa cisplatina,
Varrendo as planícies continentais;
Os demais fenômenos naturais
Estranharam-lhe o choro de menina.

"Que tem a brisa?", perguntou a aurora.
A chuva respondeu "tem querer trágico
Por furacões, um amor hemorrágico
Por sopros que carregam tudo embora",

Que varram tudo e lhe levem também
Pelos raros e rubros céus do além,
Suspiros de mocinha apaixonada.

E advêm suas lágrimas do tornado
E de seu status de recém-casado
Alhures, com outra qualquer soprada.


(Macaé, aos 01 de junho de 2005)

1.5.08

Príncipe Míchkin

Aproveitando o ensejo do post #250 neste Presença e a iminência do lançamento do meu décimo livreto - "Iuri Gagarin e outros poréns" - posto aqui um poema inédito, que estará no livreto novo.
O poema é uma alusão ao protagonista do livro "O Idiota", de F. Dostoievski e a sua generosidade e ingenuidade, vistas aos olhos de todos como a mais pura idiotice, imbecilidade.
Abraços e presença !

- - -

Um coração enorme e generoso,
Uma bondade ingênua,
Digna de nota
mas eis que aos olhos todos
não passas de um idiota,
benevolente e gentil,
motivo de riso –
Uma anedota!
Sem jeito e indeciso
que a todos queres bem…

......................Ah príncipe Míchkin…
........................Fosses tu a regra
..........e quantos não responderiam por seus atos,
.................gananciosos seriam escassos.
.....................À tua renúncia um ode
..................pois seríamos irmãos de fato,
...................riríamos de inteiro corpo
...........e pagaríamos nossas contas e extratos
...................com calorosos e genuínos



...............................Abraços.


(Rio de Janeiro, aos 24 de janeiro de 2008)

25.4.08

O Mekong e a pequena menina lao

filhos da viagem ...

- - -

A passos vacilantes
a pequena menina lao
desce de encontro ao Mekong;

em seu interior
orando a Buda que lhe ampare
entende que mesmo as calmas águas
da Pérola da Ásia
lhe são ameaçadoras.

A passos decididos
molha os pés na turva água
que boas-vindas lhe refresca
e lhe oferece
uma pequena flor de lótus,
vinda na correnteza,
sabe-se de onde.

Podia ser do norte
ou mesmo de Burma
ou mesmo da China,
flutuando forte
com o intuito quem sabe
de regalar, gentil,
a pequena menina lao.

Os ninos olhos de amêndoa
avistam a bela flor
que se aproxima,
alvoroça-se a pequena menina
deleita-se com a visão
da inesperada pérola
que vem lhe ter
aos joelhos imersos –
que a esta altura
a pequena já refrescou os pés
e adentrou até o limite
de seu delicado equilíbrio.

A pequena menina lao
resgata a flor
e diz “ korp jai lài lài ! “
e o Mekong se vai
infindo em seu curso,
enorme em seu encanto,
milênios de fluxo
abençoando a Ásia.


(Siem Reap, Cambodia, aos 01 de abril de 2008)

Agora 2

Um poema do Rafael sem meio termo. Um esbravejar de amor colérico, num cenário que varia das explosões cromáticas ao preto e branco, como cenas nonsenses de um filme de Buñuel .

"Agora 2"

Já ninguém mais lhe espera
filas de hospitais, reservas de restaurantes.
Ninguém mais te ferra!
Que passos de piolho burro!
Agora amassa o cão,
amai-vos vocês tão vãos!
Já ninguém mais te deseja assim
era tarde tão tarde que amanhecemos
Ninguém nas fotos abraçando-te
nem aqui, nem ali, nem em mim e nego.
E agora?
Que idiota vai te sorrir sempre?
Que imbecil vai te telefonar pra ouvir a tua voz - apenas.
Quem vai querer ver tua bílis golfada?
Quem vai arder por ti num inferno diário?
Quem vai vender tuas vendas tuas sendas imaginárias de algum porto lúdico
das tuas mentiras escrotas?
Quem vai ser o seu escroto e dor quando te chutarem?
É o amor meu bem!!
Quem vai vomitar tua cara no meio da sessão,
e levantar sorrindo suas pernas para lhe meter um taco de baseball
colorido te fazendo um filho?
Quem vai dizer que te gosta tanto que merecia uma vagina de cólera e
ligaria um fusca com tuas remelas vivas?
Sou tão inocente amor! Veja...
Aqui desenho tua goela.
Aqui marco tuas unhas... quero ser um santo!
Você trastejaria outras canções
não as minhas!
Quem te enfeitaria de músicas?
Compra outra moléstia... as minhas terminaram.
Quem?

R. Elfe , sem data.

22.4.08

Água lisa

Interferência digital sobre técnica mista, 2008.


Desce o riso pela nuca
Numa linha curva
E repousa entre a brancura das costas
E as coxas em que me deito

Levante de cílios
Abraço de mundo em fim

Canto de boca

Olhar úmido

Música de ponta de dedo

Nome em sussurro deslizando pelas orelhas

E sobre a mesa
descansam juntas as mãos

Entre os pratos dos nossos quereres.

2007.

18.4.08

a peste

the third hand, 1947- pintura de Hans Hoffman


Há algum tempo atrás reencontrei-me com os rituais de ver e olhar, e fiquei com alguns versos do poema a peste ressoando em mim, "não há esperança sem dor" e "só há o que se ama e o que se pode desesperar" são bons exemplos de versos certeiros deste que considero um dos melhores poemas do livreto. Assim como o último poema do Vinicius publicado aqui no Presença pelo Isaac, o título do poema também faz referência a um livro de Camus.
Consciência e revolta a favor da vida..

a peste



Somos todos assassinos, minha filha.
Só nos restam pequenas escolhas,
matemos portanto,
só os heróis.

Quando sabe-se muito,
e eu sei,
não há salvação,
não haverá salvação,
meu amor.

Mas trabalhemos na cura,
sem distração.
Cuidados com a contaminação,
felicidade sem termo, nem medo.

Os muros vão se abrir um dia,
Mas já está tudo aqui,
ao alcance.

Não posso esquecer o que amo,
nem um instante,
nem um momento,
não há esperança sem dor.

Eu e o flagelo
nos aproximamos demais.
Vi meus olhos vazados,
perdi a fé.
Não há sono nem descanso.
Só há o que se ama,
e o que se pode desesperar.

Vinicius Perenha, Rituais de ver e olhar, 2003.

15.4.08

Aos olhos verdes


Quisera eu há tempos

Ter aquilo que agora tenho

E um tanto acanhado de tanto contento

Ao incompreensível agora ascendo

Qual mal assola o fanfarrão?

Qual suposta força eu tinha até então?

Ao supreender-me a cada lance que te vejo

Furto-te minhas vistas por receio

De tão bela imagem que recebo

Venha a ser tudo aquilo quanto almejo

Sou então um barco - um bocado torto

Que da tempestade chega ao calmo porto

Desorientado e pouco descontraído

Acanhado como hóspede - com o ego reprimido

Não tenho medo de falar-te

Do quanto estou contido

Quero-te tanto!

Desejo-te!

Então, por fim - que tudo tenha

Qual não é o verniz que se acabe e mostre a vil madeira?

Da qual sou feito e não se empena

Quando exposta calma ao seu sereno

CONFESSO-TE

SINCERO-TE"

14.4.08

Visitação e enterro do eu ausente


Pintura de Milton Jeron

Visitação e enterro do eu ausente

“mudamos sempre mudamos para trás e para a frente sem fim à vista
não há memória memórias só há coisas que mudamos ou inventamos.”
Carlos Alberto Machado, Mito.


Amanheço
Atravesso pontes entre lados opostos

Banhos de sal

Mergulhos de chuva

Noites de agosto sem beijos de lua
Um edredom de nuvens sobre a cabeça

Véu de paisagens passadas
entre árvores de calçada
na calmaria das casas mudas
onde os cães preguiçavam de latir

Tardes de diaristas limpando vidraças

E zeladores com seus rádios de pilha.
e seus ouvidos de ouvir o mundo

(e olhos de regar canteiros)

Prédios de janelas adormecidas

Folhas secas sentadas no balanço enferrujado
Caminho com o movimento do mundo no peito
Paro em respiro
Colo as costas ao banco da praça
com os olhos ao alto
Sob uma árvore de cinco mil dedos
me dizendo sombra

Vaza por entre suas mãos
um céu azul de fogo

E assim me ponho
paralelo aos meus mortos
e os aceno em despedida

Pra que repousem serenos
no esquecimento preciso.

Abril de 2008.

"Últimas palavras"

Os meus?
Maus poetas!
Não andam por aí cobrindo falhas.

os amantes da escura escuna, de esqueletos,
vossos esqueletos, mortos - afundemos no verão.

os que não vieram,
não tiveram amigos ao redor farfalhando asneiras,
senão fantasmas de amigos que não existiram,
e a caveira de Cristo, senhor de todos nós -
mesmo que não queiram.

que não vieram, como Cristo,
mas amaram e morreram mastigando um ódio sujo de luz.

que não ousaram estradas turvas
pra dizer que foram turvos;
mas turvaram cada estrada marcada por seus passos
e desapareceram com a chuva.

que não deixaram de marchar pra morte
uma vez se quer, em toda vida.

e não escreveram poemas fáceis,
mas sonharam ser poemas fáceis.
e escreveram livros de porta de escola
desvendando os risíveis "poetas"
que facilmente se confundiam com poetas,
mas estes, jamais serão medíocres.
(não falo de pessoas que escrevem)

que não rimaram para não se assemelharem aos bons,
e rimaram pras urnas onde depositaram seus dedos,
com toda a maldade que Deus lhes oferecia.
e foram rimas inteiras, no sexo, nas traves do paraíso,
nas marcas da peste, nas antigas urticárias do espírito...
mesmo sentindo a maquinaria verbal enorme
e em segundos explodia, mil palavras iluminadas,
já rimava então, mais que vivia.

que falaram de Deus como uma força mágica
e tocaram Deus nas colheitas e nos invernos escuros -
e ninguém admitia, mas contaram histórias pequenas,
contra os pedaços de cabeças sitiadas.

foram deuses em cada inferno que inventaram
mas sempre com olhares venenosamente livres.
e jamais penderam da genialidade,
e da crença na genialidade.

e cogitaram duelar com qualquer um
com espadas de feno, olhos de tinta vermelha,
que chamaram todos para ver na lua seus escritos
e ninguém enxergava,
ninguém mais alto que eles.

que nebularam próximos,
tão próximos que morreram por longas distâncias.
e jamais saíram de casa;
e cuidaram dos irmãos, da mãe, das paredes...

Não ousaram brincar do que chamavam poema,
mesmo a pena mórbida que levaram até que o céu,
deitou sobre seus devotos ídolos.
que pisaram cabeças, que beberam cabeças sitiadas - novamente.

Os índios do oriente!
As crianças assombrosas!
nenhum deles fez com que o amor rejuvenescesse
mas optaram por navios de verdade, sem oceano algum.

que sob cascos e rascunhos de sóis, engendraram o cio real.
que foram os melhores amantes, com olhares de partida
que nunca ousaram suspender seus dedos temerosos contra a musa
dela, todo o ar que lhe faltaram, quando deixaram os primeiros
nacos de terra sobre os seus olhos.

Enfeitaram, queimaram e morreram, tão felizes...
agora, onde as flores gritam seus nomes esquecidos, escrevem poemas coloridos
acreditando e fazendo com que as cores sejam louvadas.
Qual de vocês pintaria uma flor?

13.4.08

A queda

um clássico de uma época de precisas penas do Vinícius, "A Queda" tem seu próprio cartão de apresentação.

- - -

Velocidade, vertiginosa decadência das fibras.
Os dejetos do homem,
prendem-se aos dedos
que acenam um último adeus...

Desmembrado garoto,
seco, sem lágrimas.
Arremessando memórias em fúria
contra um rosto envelhecido, e olhos opacos.

No fundo, o grito que antecede o derradeiro respirar, confunde-se
ao som de ossos partindo.
Desespero mudo,
infância,
memórias.

A carne berra a dor do consumo,
Os vermes (daqueles que riem) consomem.
A morte, e seus malditos minutos.

Salve a manhã!!
A louvável realidade do agora!!


(Vinícius Perenha, do livreto "Rituais de ver e olhar" lançado em 2003)

10.4.08

Brisa

A ponta do carvão arranha o papel em branco.
Madeira queimada desenhando em atrito.

Esboço de rosto em perfil
Batizado com sombra de verão.

Sol cru
Flor de cacto
Ou
Ipanema colorida de realidade photoshop
Com suas ondas desnudando seios

Perfeita visão do paraíso.

Do outro lado do asfalto
Cipó seco.

E dama do lotação

Te arrastando avenida adentro
Pro seu sagrado inferninho de cada dia.


Abril de 2008.

7.4.08

Re-feição

Devido ao sucesso da estréia da Carol no presença, posto aqui mais um pra mostrar que ainda há muito mais pra ser lido.


Sai o sapo da garganta
para devorar a mosca
que entraria em minha boca
já mais fechada
fachada para o medo de cantar
fichada na polícia da palavra
pois, mesmo muda,
não consigo me calar
diante da beleza ab-surda
deste seu olhar
que me fita com laços
com lapsos
- COLAPSO! -
e com lápis aquareláveis colorindo a lagri-mar.

Paixão que me alimenta
- alho, menta...
E você dando sopa
de meia-tigela
prá minha mosca pousar
ou para o sapo entalado
se a-brigar
no seu brejo breve beijo
de boca entreaberta
e soltar
o soluço salutar
a(s)saltar
roubando o silêncio
e segue o sal do olho cego, em pranto,
temperando a fluidez do paladar
- com louros louvo!
Pois, para nutrir meu canto,
eis asuafeição,
de novo...

Carolina O.

5.4.08

Estrelas

Te vejo
E as respiracao te ve
Pois que suspende
Sua calma atividade
Para ver-te passar
E em seguida ferver,
Ofegar
Sem pedir permissao,
Corar-me a face,
Esperar que passe
Sua musa-estimulo;

Nevasse estrelas
Menos me impressionaria
Pois que tu es luz
(Que mais serias?)
E estrelas a tua volta
Apenas mornas calorias.


(Cidade de Ho Chi Minh (Saigon), Viet Nam, aos 4 de abril de 2008)

1.4.08

Cantiga pra ninar tubarões


Litografia de Darel Valença


Sua embriaguez derrama delírios
Delira palavra.
A mão receia
Anseia.
O lobo feroz se solta na madrugada.
Rosna.
Canino à mostra.
Agarra decidida
Põe coleira de dentes.
O suspeito se confirma.
Aceita seca investida
Planta-flor-carnívora
Que pede mais e não sacia.

Fevereiro de 2008

Inebriante

leitores e poetas do presenca !
aproveitando a escalada no nosso rol de leitoras e ainda na serie de sucessivos poemas romanticos que aqui tenho postado - hora perfeita de lancar o "inebriante".
abracos a todos !

- - -

Era virgem.
Atè que, no limite,
Explodiram-lhe os hormonios.
Que libido resiste
Aos doces demonios
Clamando por sexo?

A primeira estocada
Abriu-lhe, dolorosa,
Os grandes làbios, inchados;
Tìmida mas fogosa
Gozou como se em guerra.

Estocou no ventre o fèrtil leite
Do macho que lhe fodeu
À alta madrugada;
E as gotas que lambeu
Da quente rola, jà cansada -
As poucas que sobraram.

Femea inebriante,
Linda mulher e jà completa,
Os bagos rocando-lhe as nàdegas,
Cadenciando a foda seleta
Dos gozosos e amantes seres,
Ofegantes nos tantos prazeres
Da còpula, de amor repleta.

Jà sem ar deitou-se, jeitosa,
Acomodou-se no peito parceiro,
Suspirou com uma graca felina
E fez-se um sonho fagueiro -
Total triunfo da Natureza,
Femea prenhe e feliz,
Em sua voluptuosa beleza.


(Siem Reap, Cambodja - aos 01 de Abril de 2008)

29.3.08

Gracil

caros leitores,
perdoem a acentuacao, eh simplesmente impossivel achar os acentos nos teclados daqui.
abracos a todos !

- - -

Bela como um momento de atencao,
de um arqueiro mirando o alvo
em absoluta concentracao;

Gracil como um trabalho concluido,
a certeza de ter feito o melhor -
um dever cumprido;

Forte como a fe inabalavel
mas leve como o ar que respiro:
embora nao me pertenca,
preenche-me no ciclo de minha respiracao,
na frequencia em que existo;

Fiel como o esforco
e doce como a vitoria -

Pensando-te sou forte,
Desejando-te sou uno,
Amando-te sou o proprio amor.


(Vientiane, Laos - aos 29 de Marco de 2008)

haikais casuais, parte 4

Luang Prabang, relaxada,
Beija o milenar Mekong,
Desdobrando-lhe a tarde abafada.

25.3.08

Apresentando Carol

Menina de olhar manso, sorrir quase mais manso que o olhar, junção matreira. Mescla de interior e megalópole; soluço e espanto em palavras afiadas, dentes em sílabas concisas. São-dalos em desconstruções humano-geniais, que me fizeram correr atrás, e corri suave, por essa existência candango-carioca. Em seu istmo poético virtual, vislumbrei vários poemas e afrescos que eu mesmo já quis escrever de alguma forma, ou simplesmente dizer. Por esses e outros mil motivos que ainda hei de descobrir, faço dela as minhas palavras, nesse pequeno halo de luz meio anti-ambi-ente enfumaçado, pois: "- o que se solta pela boca / despolui o coração."


"per-FUME"

Se já não quero viver
vem a fumaça
e consola
a respiração.

Sem um vício
é mais difícil...

Escândalo,
ex-sândalo:
fim cinzento da paixão.

Baforado,
esbaforido.

SIM:
perturbe
&
per-fume
o ambi-ente querido
- o que se solta pela boca
despolui o coração.

leiam mais em: http://engolecarole.blogspot.com/

24.3.08

Contraponto

'As margens do Mae Nam Chao Phraya
Quisera jamais acordar deste sonho
De lembrar-te e tecer, risonho,
Mil venturas de nossa doce historia
De alvas nupcias 'a vil memoria
De mais um despertar sem te ter -
'As margens do Mae Nam Chao Phraya.

Aos pes do Wat Phra Keaw
Quisera largar minha toxica pena
Que ja sozinha te versa, morena,
E o opio destes versos tailandeses
Me inebriam repetidas vezes,
Quixotesca figura, respiro o incenso -
Aos pes do Wat Phra Keaw

Aos nao-desejos redentores de Buda
Contraponho, doente, meu desvario,
Rezo-lhe a ti mil preces e sorrio
Sorvendo estas sidarthicas calmas,
Planando na fusao de nossas almas,
Fervor shakespeariano que apresento -
Aos nao-desejos redentores de Buda.


(Rio Chao Phraya, Bangkok, aos 24 de marco de 2008)

20.3.08

Fabuleta

Estava no centro
pra onde convergiam as estradas de mão dupla.
Caiu de pára-quedas,
sem lembrar de onde vinha.
Era meia noite,
queria meio dia.
Descascava laranjas com um canivete enferrujado.
Uma após a outra
as frutas se mostravam apodrecidas.
Já havia descascado uma dúzia
e ainda insistia.
Ficou sentado pensando em qual caminho se arriscar.
Num seria rei
mas só havia um rainha.
No outro tinha sombra
se cansaria.
No outro sol
torraria.
Pensava em um e lembrava-se dos tantos outros que não teria.
Pensou
Pensou
pensou
Veio um caminhão e plaft.

2005

19.3.08

Valter Di Lascio, sempre

voltando às páginas deste "presença", Valter Di Lascio derrama sua redenção e seu idealismo andarilho. tenho encontrado verdadeiro alento nos versos deste poeta das antigas, que colheu os frutos e os espinhos de uma vida que sempre foi e ainda segue na estrada - ou nas estradas, porque como diz ele "pode me chamar de meio-fio; mundo temos dois: o de vocês e o nosso".

- - -

O novo liberta-se

De que adianta a vida
..........se não houverem riscos?
De que valeria a faca
..........se não cortássemos os artifícios?
De que adiantam as verdades empoeiradas?
Um palavrão preso na garganta
Um fato que poderia ser
..........mas ficou preso nas artimanhas
..........dos velhos grilhões
Com agilidade felina, o novo liberta-se
..........jogando-se da janela do sanatório.


(Valter DiLascio, do livreto "Biscoito com champagne")

15.3.08

Louco por ti

Escrevo-te flores
Planto-te versos
Fundo-te um quadro
Pinto-te um anel
Troco tudo
Louco-me os pronomes
Faço-te nuvens
Napoleonicamente apaixonado
Choro-te mel
Só pra te alimentar
Seco-te os olhos
Quando me vês caso perdido
Nadando em poças
Um soneto por hora
Um louco por ti
Mas doido de pedra
Inamável de tanto amor
Sorvete na testa
Insisto-te rimas
Destilo-te beijos
Esculpo-te estimas
“Toma toma
tudo para ti !”

Sorve-me
Acolhe-me
Conserta-me.


(Aos 14 de março de 2008)

13.3.08

Ver-te bis

Cá no mar
dias como peças de dominó
que surgem, cadenciados,
asiaticamente iguais,
vão pondo-se, glaciais,
e em fileira são tombados

Conto-os para ver-te nova vez
em tuas nuances sutis,
a expressão que tens nos olhos,
a matiz alva de tua tez…
conto-os para ver-te bis.

E se teus dias me põem à parte
ou aproximam-te ainda mais –
que febre me responde ?
Cingo-te em doces sonhos,
o frêmito da lira romaria
latino-minha de dedicar-te
esta nina e simples poesia.


(Rio, Aos 13 de março de 2008)

28.2.08

"Minha festa"

Há uma festa - já me devora,
vem na brancura dos que há muito não sinto
é toda dela a dor que me aflora
e a canção sem tom que só, danço em labirinto.

Da vesga fome me acelera
em andar pálido desalinho
ruindo em gracejos de marujo magricela
ao ar vou devolvendo bruto o carinho.

Sou dela o vão dos que mortos cospem
o dourado feno de um sol que nasce
deles, túmulos, por mais que mostre
mil vielas medrosas queimam na face.

Das palavras às palavras - minto
essa festa é o sangue todo deitando
vãos teus cães me adornam afoitos
como estrelas num céu de orelha e brinco.

A morte nos iguala - e sabes
que teu amor, rogado assim só,
não é regaço
precisa dos outros
e de muitos outros tantos
pra tornar o mover-se em amor,
desses que movem
e batem no peito, pra ser amor daqueles,
sem prantos.

(25 de fevereiro, 2008)

20.2.08

A matéria da noite é roseiral desprovendo cheio da noite e da rosa lilás que a oração mapeia
os olhos cegos deitam-se irmãos, mas são cavalos magros de caras vesgas
a matéria da noite não se topa, nem se golpeia
reluz como reluz o escuro dela dentro dela, pra outros escuros
como adentra o tempo sobre ele e pra dentro dele, cheio de incertezas e ponteiros pingando
comendo noite, sorvete, travesseiros...
a matéria da noite ao relento serve escada ao céu que gira
é o fantasma da mulher que foge e pira, aos berros ateia fogo nos cabelos
a matéria da noite vem do leite que bebem cedo no café, cheio dela com o cheiro deles
a feira que explode às quartas naquela rua pequena-subida
pira que acende as estrelas, a matéria insalubre
a matéria em desvãos dela que é a sina de ser densa-escura
não há medidas entre a luz e os homens, as cidades escondem-se nela
a matéria da noite é hipocondríaca, maníaca que repete nomes
é a irmã do filho que foi pra são paulo roubar crianças, os rins que florem
e na absurda e completa vez, a vez dela é de ser matéria e descer sobre tudo
travestindo em noite os segredos mais surdos
a muda ossada que envenena em fumaça dos canos que largam em nome de cristo
espinhos de matéria da noite, a testa que deflagra o culto
dançam irreais, carnavais de vampiros - comendo corrimãos sem luz descendo do décimo sétimo
amanhecendo na calçada, sem nenhum cometa de saliva
comentando sozinho no ouvido da manhã os silêncios que os olhos amaram
na matéria da noite trituram-me, dela aventuro qualquer volúpia
nenhuma réstia na boca do ácido da noite violenta que espera, a matéria
da noite é sedenta dela, a sede mais cã-dela sem peias
na veia sufoca um delírio que ela chupa, paixão ardendo em becos
ela resoluta, matéria da noite, da noite que não tem matéria, por não ser nada
fenômeno dos astros, hollywood de mentira, mas que morreram jovens
com suas cabeças de índios nos espelhos da rua 42, ondas de suor santo
e a matéria da noite encavalada, regurgitando fálica do jazz morto em setenta e três
e morrendo nos seios jovens entre os cassetes feéricos que provém os guardas
qualquer arregalada de olhos pode ser eterna, fuligem, eterna, matéria
a noite não se presenteia, não vaga comigo, me beija cheia de ódio, defendendo sua boca
rasteja no caesar park da avenida mil e três de acesos olhos de guria pedindo um troco
devotos de qualquer santo, a puta na parede fazendo cara de matéria da noite
o preto vendendo branco, o branco pagando o preto, o preto ascendendo
rádio patrulha da noite de matéria ipanema, de matéria copa, travesti e cinta-liga de ferro
matéria de noite no dente que cospe o dinheiro cheiro de cerveja e pólen
de aurora quente adormecendo na areia da praia da matéria da noite sacolejando
as redomas de estrelas da matéria da noite frias, desejando nunca o eterno pra sempre
que dançam nos filmes americanos quando tudo dá certo, beijando com os ombros
metralhando fotos cheias de pedaços de carne, com os cérebros ocos de carro e fama
a fama que ditam os celeiros de molestadas mentes, matéria de noite em jornais
anais da coisa negra que fazem nascer, brotando flores de forca e jardim de guimbas
matéria da noite em casas novas, interioranas, cheias de vida, cheias de tantas coisas cheias
matéria da noite nos comendo, varando especulações irradiando especulações nas bolsas do mundo
matéria da noite morta, na porta do empório suicida, rostos pacientados, ornados de merda
matéria da noite morta, nas costas da faca que fere, do ódio que lacera a alma, brotando amor
matéria tonta da noite temerosa, fuligem do sono, olhos que engendram manhãs coloridas
matéria tonta de noite, tonta de tudo, de tudo que perde
cenas dos últimos capítulos - a reprise inédita, matéria da noite escolhendo cartas
fazendo compras pro sexo dos ex-amantes que se casam pro eterno sempre de quase nunca
cenas dos últimos capítulos - o enterro das amigas mais chiques, os cisnes mudam de cor
nos cabelos o avental do passado, o drama que a trama fez cobrir de anseios meros
matéria da noite que escrevo entre solavancos no peito e tiros nos dedos
matéria da noite que se perde dentro dela, noite de todos nós, orando por Deus
Déis, réis, reais, real, cumprindo a solúvel matéria de que se deve cumprir, matéria
insolúvel pensar que devota o coração nos peitos dos desertos umbrais da igreja
matérias da noite que fogem, chorando pra sala de televisores acesos, chamando moscas
hitler sorrindo devora um livro em segundos, matéria da noite nos lábios, no bigode foice e estrela
matéria da noite cadavérica, criança leprosa chorando de rir na escola dos afazeres mórbidos
o fantasma me observa redigir a matéria da noite, o cão chora por dentro
não choro mais, ninguém mais
chora a matéria da noite em berços de ninar gasolina e óleo de cozinha queimado
chora a matéria da noite nela, que me deixou vencer o medo de sofrer e me deu uma coroa de ossos
chora a matéria da noite cantando sinatra pro demônio dormir, acendendo o mundo pelas pernas
chora de ser a matéria da noite, e chora quando me ouvi metralhar no plástico, serviçal
binário coração monetário e vácuo de desejos que se esvaem por dentro dos bits compassados
matéria da noite invadindo as redes, as paredes dos escritórios cheios de negras escórias
matéria da noite invadindo as carteiras dos patrícios, enfeites, juízos, renatas, magricelas contando deveres
matéria da noite convulsa enraizando tatuagens como o vulto que minha mãe mostra ao cruzar o quarto acelerando o medo
o escuro na matéria da noite chorando de luz que acende e apaga a lanterna girando no centro da sala, ouija-board pros kardecistas que morrem cada vez mais cedo
a lanterna que acende seu rosto dentro da matéria
da noite dentro de mim riscando um peso que não leva pra escola pra defender-se dos marginais no caminho
matéria da noite densa que de tão densa flutua o mar morto e os cavalos sem caras em sonhos que conspiram
nas fazendas nucleares que criaram galinhas sem cabeças, sem ovos, sem misérias de dedos cozidos em marmitas
nas fazendas nucleares que já estão nascendo da matéria da noite evocando águas e corujas em fios elétricos
fazendas nucleares que brotam ovelhas e jesuses cheios de formas cilíndricas
matérias, matérias da noite, matérias que chovem matérias em fazendas
que cospem bits, que cospem bytes, que aceleram o crescimento dos tomates nas cercas
os cervos que engordam involuntários que morrem involuntários dentro da matéria da noite tácita
cheia de outros sabores menores, cheias de outros maiores
matéria da noite caveira, matéria da noite oxítona, atônita, alérgica
matéria da noite morta que chora por seus mortos como chora por seus mortos que choram por ela
matéria da noite cheirando gases
flutuando entre o que fora e o que pudera ter sido, matéria da noite cozinhando
despelando ratos pra jantar na praça, junto dos corpos da cólera das fazendas nucleares
junto dos ratos subindo nos pratos das fazendas nucleares cheias de cobras comandando tratores, jatos infantis
matéria da noite que jorra matéria da noite que jorra olhos de lagartos sem rabo sem bichos pra comer
matéria da noite entre vozes sem ouvidos, sem orelhas que comeram as cobras das fazendas
o fantasma sorrindo em solilóquios terromicidas, nova iorque de um dia ameno às quatorze da tarde
os boings que fumaram o céu antes das quedas nas matérias das noites evocando
o silêncio das marcas nos trigais extraterrestres centopéias comendo feno e brincando de velhos aposentados fazendo armas pra matar homossexuais
jogos de armar em duques aquedutos, vias terrenas de vidas na matéria da noite matéria da morte da noite
matéria da noite da morteda vida da matéria da noite que não tem matéria

estamos todos por dentro, dentro...

13.2.08

Saudando Ginsberg

Agora somos nuvem sem céu,
deslocados.

Quem são os expoentes do nosso tempo?
Qual é o nosso tempo?

Atravessamos as horas de braços dados,
desviando os olhos,
ensaiando as próximas palavras.

Aqui nesta esquina sem ponteiros,
eu passo e tu permaneces.

Outubro de 2003

10.2.08

Mortalha

Veias abertas, esta manhã
pois que uma transfusão de sangue, apenas,
é o suficiente
para o seu caso.
Alimentar tuas todas células
com outro manjar


dormir a sesta
ao som diletante e heróico
dos ponteiros,
um ferruginoso entardecer
Basta,
para você.


Veias abertas
e caixa aberta
que uma nova alma vem tentar
No lugar da sua;
as minhas veias são os caminhos
para dentro de mim.
É uma sensação frugal,
ao som de um pince-nez quebrando
Abre-se-te a caixa torácica
Ao mesmo som diletante do meio-dia


E sentes como se estivesses pondo
Teu verbo para dormir.


(Aos 10 de janeiro de 2008, poema inédito a ser lançado em breve no livreto "Iuri Gagarin e outros poréns, Edições Presença)

29.1.08

Dentro

Alô PRESENÇA!!!
É com grande prazer que retomo às atividades!

*******************************************************

De pensar e falar
Não se faz binômio
Nem se conjulga um conjulgado
Pois cada força
Com cada qual intensidade
Empurra cada uma
Diametralmente para cada lado

Se a lixeira é o pai e destino
De todo pensamento reprimido
Para onde vai a fala
Senão ao descuidado ouvido
Dum outrem que então
Deixa o som passar
Desapercebido?

Portanto se pensa
E não se fala
Ou se fala
Aquilo que não se pensa
Pois viver das coisas que se tem por dentro
É sentenciar de morte
O invólucro que vêem de fora.



(Fábio dos Santos)

25.1.08

Enganador

Arteiro que sou,
Um fanfarrote sênior,
tapeio meus versos
prometendo-lhes a vida num poema
tanto-sílabo e royal
E eis que agora moram
no albergue bufonal
deste texto escaleno –
que nem a boas rimas se presta!
Pagaram caro, queriam fama,
A escalada literária!
De boas penas tinham ganas…
Mas foram postos, à moda pária
Por este hadoque doidivanas.


(Aos 24 de janeiro de 2008)

24.1.08

Heróis

São heróis
porque só versos,
desejosos
de preencher o alvo papel,
Antipáticos à idéia
De deixar passar
em branco
Mais uma folha
(que se for ano,
vai-se a vida
num vai-se que não-viu-se)


(Aos 10 de janeiro de 2008)

22.1.08

De volta

Retiro do baú um poema carregado de imagens e reminiscências da adolescência, esses tempos difíceis, de dúvidas e solidão que todos nós atravessamos, mas também tempo de grandes descobertas. Descoberta da amizade, do amor, da esperança e da possibilidade de transformar anseios e vendavais em poesia. Dedico este poema ao poeta e irmão Rafael Elfe, companheiro de presença, conversas Socráticas e porres de sabattini, que continua seguindo em frente carregando seu violão( máquina de matar fascistas)e sua mochila repleta de sonhos,vida adentro.
.

De volta

Na boca de Ella jaz a noite.
O copo vazio revala a embriaguez.
Nos ouvidos permanece a canção de um amigo,
de outros tempos,
outras noites.

Manhãs esquecidas entre livros não lidos.
Sorriso estilhaçados.
Poemas explodindo nos porres de sabattini.
Pés sutis pisando a areia suja,
filmes pra esquecera solidão,
e a triste arrogância pra fugir do desespero.

Amores ensaiados,
e inventados.

Tempos de sonho na mochila,
cola no banheiro,
conversas Socráticas no pedalar das bicicletas.

Restaram as lembranças
e um gosto estranho entre os dentes.
As cartas suicidas foram queimadas.
Colhemos o absurdo dos dias Kafkianos,
E também lírios,
tornando a vida suportável.
Despertando sorrisos do que outrora foram cacos.


Nesta escuridão de algumas luzes espaçadas,
o poema se encerra.
Inacabado,
indizível.
Um pequeno sopro de um eterno vendaval.

Se encerra sem fim.
Como a ânsia de um pintor,
que busca incansavelmente
o quadro definitivo.

Do libreto Entre tanto, fevereiro de 2004.

17.1.08

Nebuloso calendário do sono

Aloha presentes, segue novo poema da Luísa Muller, que já esteve por várias vezes nas páginas poéticas deste blog.
"Nebuloso calendário do sono" é poema recente da obra da Luísa, e chama a atenção pela sutileza e diversidade das sensações sugeridas. É um poema completamente palatável, sensorialmente falando.
Presença !

- - -

sentir o velho de novo –
sempre novo –
em forma de sonho
de bêbada noite.

como olhares que se cruzam
através de um castelo
que solidamente desmorona
por dentro e por fora
como mãos que se encostam
num copo esquecidas
aquecidas pelo encontro
que estremece o corpo inteiro
como os pés que tocados
arrepiam a alma
que sente o velho de novo
como se fosse novo –
e dorme feliz.

(e não se fala mais nisso)


(Luísa Muller, 2008)

13.1.08

Acampando

Acampando na relva
a tarde se fazendo valer
de suas gamas de tons de verde
.....do vivo
.....ao veste-se
do lindo
ao prefere-se,
a relva verde e o céu infinito
céu que cada hora um
e toda hora infinito.

Um brando lago azul
lindo que improvável,
de tal modo que
Mineralizar-se
.....é nele submergir;
acampado no meio
do meu acampando na relva,
o lago.

.....e tal o acontecer
que bastava ler linhas
do livro-de-dormir
para dormir e insaber
se estava despertando
ou, estranhamente,
indormindo.


(Aos 10 de janeiro de 2008)

12.1.08

Passional

E lhe beijava
com o fervor de cão em brasa
Era feito de véu,
Liso
E sem prumo.



Num momento romântico-dadaista de algum dia de algum ano.

11.1.08

"Numa caixa"

Cheia de funduras
ouro d´escuras aranhas
e o guindaste verde cheirando ouriços-arranha-céus...

ela-lá cheia de tralhas luminosas
fitando a bandeira de cal azul no topo
do armário,
aquele monstro negro que nunca escalei.

Esbarrava em clarões de pintar céus,
espinhos pra fechar feridas
Vasos de para-peitos nus
que o precipício vão de tuas mãos velhas
não trouxeram-na.
- Bença Vó!

Eu nascia lá dentro
pra recuperar o fôlego do café e o pão de outrora.
Fora, era lá fora, a tarde se fazia em pinho - zunia
noutras vezes, meu velho tio zé respirando
fazia barulhos de canoas barbeando sal
e eu que pensei nele tão morto - e realmente estava.
Sua morte havia morrido pra mim,
e percorrera a distância erma
do esquecimento.

Eu que não carrego vagões nos cílios colados
nem roupas largas de quem se foi
vejo minha infância num trem tardio
- apitando vago e cego
ninguém olhando pra trás enxergaria

dentro dela
estão meus pés
menores, sem pêlos
pequenos pés de cortar manhãs
que me vacilam nos olhos as cores sujas - rubras
ninguém olhando pra trás enxergaria

eu diria ao menos, se ouvisse
aquele menino chamando meu nome
e a casa não estaria morta nas mãos da árvore
nem o retrato mudo, respeitando o silêncio
eu crescia...

eu crescia pequeno, como franzindo olhos
pequenas tralhas encolhidas na caixa sobre o armário
aquele velho monstro negro que nunca escalei.

7.1.08

Perda, flor e espinho

As luzes do Vidigal
Chocam-se com a boca preta do mar.
O ácido foge sob a língua
O coração foge sob os panos
A mente procura por outros lábios
que abafam o frio de estar só.

Deixamos os rastros entre as palmas abertas do porvir.

Nos canteiros os espinhos abrem sorriso pro indefinido.

Surgem nuances absurdas
Ocre iluminado
Azul-marinho terroso
Magenta acinzentado.

O tempo assenta o disperso
E fica o que não conseguimos apagar.

O chão desloca-se
E deitamos sobre o passado

Distantes

Com os olhos úmidos do sereno.

Dezembro de 2007.

6.1.08

Valter Di Lascio

Conheci o Valter em Jericoacoara, um coroa bigodudo de seus 50 honestos anos, mediante a clássica abordagem "vocês gostam de poesia?"
Mas a figura que me abordava, nitidamente, não era nada "clássica".
Pés descalços, figura surrada, uma espécie de Dom Quixote com malícia. Após as apresentações iniciais, o velho me confidenciou que era retirante, mas no sentido filosófico do termo. Aos vinte e poucos, chutou o curso de História na UNESP, bicou o casamento, deixou mulher e 3 filhos, e pôs-se a andar, literalmente.
Fiscal de botequim, poeta e andarilho, Valter me trouxe um livreto chamado "Bis Coito Com Champagne" que me foi uma grata surpresa pelas poesias libertárias e carregadas de um espírito beat totalmente redentor.
De decepções com o amor, erotismo e rebeldia a juventude e versos lindos, o livreto foi uma bênção a minha pequena biblioteca de poesia de calçada - já naquele março de 2006.
Com vocês, o poeta.

- - -

Viagem derradeira

Os anjos hoje anunciaram a minha partida
E tu meu irmão de Meiota em punho caberá
................................. reunir nossos guerreiros
Em breve pegarei a estrada
................................. levando muitas saudades
E vocês, irmãos de sangue e som, cuja mãe
.................................. deu-lhes o mesmo ventre
Que ao me ver partir batam forte o tambor
e distorçam a guitarra
Toquem fogo no meu nome !!!
Reconheçam-me pelo cheiro,
...................pela ousadia e rebeldia
"- Todo louco te de viver pouco,
...........mas intensamente, o suficiente."
Quero declarar aqui, todo meu amor,
.................meu rancor, meu furor
Quero ver todas as veias
................saltarem de meu corpo
Em meu vaso sanguíneo quero flores
.................diversas e todas as ervas


(Valter Di Lascio)

5.1.08

Bem-te-vi lírico

O pássaro passou
Atravessou o poema concreto
Quis ir adiante
Além do que era dado
Buscava mais que o impresso
Ser mais que o momento exato

Quis ter com as nuvens
Onde as palvras não tinham chão

Em espirais voava
E era observado
Os olhos que lhe viam
Dançavam junto as suas asas
E assim enlaçados
Pássaro e observador bailavam
Em olho-vôo-asa
Milhas acima
Da palavra estática

NOVEMBRO DE 2007

1.1.08

Num dos vagões do trem negro

Ninguém sabe...
ele escondeu - como se soubesse.

Em pequenos segredos -
os que sobrevivem

Pontes inteiras de amônia
cruzando espartilhos siderais
as irmãs menores observam -
ele atravessa devagar
cavalgando o furor de plástico
O que ficar, pode ser pra sempre.
Mas nada dura.

Um sobre o outro -
pequenos segredos,
os que sobrevivem.

O que ficar pode ser pra sempre.
Mas ninguém sabe.
No fundo, ninguém sabe.

(13:09)


Milhares de ingênuas razões
lagos de um sangue estranho
Era você! - agora mesmo...
já não é mais

O travesseiro afunda tua cara
nas margens sombrias.

O que é o silêncio?

É quando você acha que tem alguém,
e você já não tem.

O gigantesco trem-carruagem-cavalo atravessa os pesadelos
Desemboca na luz completa do sol,
onde Deus dá suas cartas
Quem blefa?

Eu quis voltar mais cedo
aprendi o que era tarde.

O que pode ser pior
que esse beijo quente?

A nuca espessa sente a ferrugem toda
destroços na luz.
São migalhas.

(13:13)

Guarda-chuva transparente

Ainda no resgate de alguns poemas antigos, serenidade pra 2008.
Abraços a todos.

- - -

Choro celeste vem em cheias gotas …
Milhões – infinitas! – elas explodem
Em contato com a sombrinha e eclodem
Em ondas de fantasia, marotas.

Sob a translúcida proteção olho
O exato instante em que se dá o toque;
Cada pingo e seu empolgado choque,
Tão sutil … me desconcerto e me molho !

Emana paz, o singelo espetáculo …
Subo e desço o solitário tentáculo
(O cabo) alternando a proximidade.

Até que cessa de chorar, o céu,
E eu recolho meu guarda-chuva-véu
Em desabrochada tranquilidade.


(Aos 13 de março de 2003)

28.12.07

Heyk Pimenta

Dono de uma inconfundível poesia, misto de plástico-pena-gema-placa-de-metal, meio concreta e inteira sensível, não é a primeira vez que Heyk aparece aqui nas páginas do Presença.

Durante o lançamento do livreto-presente "Elementar", em novembro passado, recebi em mãos um exemplar de seu belíssimo "Neuronóseles", então recém-lançado em outubro de 2007, que traz gratas surpresas da chamada poesia de rua.

A melhor poesia do dito livreto, "O pop", já foi postada aqui, se não me engano em setembro ou agosto deste ano.
as poesias são bastante diretas em sua expressão mas ao mesmo tempo carregam conclusões fundas e desconcertantes.
é como se fosse um tiro. de plástico.

Posto aqui, do supracitado livreto do Heyk (por enquanto o único lançado deste poeta mineiro de 20 anos, residente no rio), o poema "O bicho a gente"

- - -

Na sala
e em roda
que se fecha o ciclo
respirar conjunto

........o todo é um novo ser vivo
o esqueleto do bicho é o violão e o
.........................poema escrito

papel petisco copo de plástico com vinho
......o olhar brilhoso é que esquenta
......risada é batida do coração do bicho
o fluido fio dourado da paixão bem dito
................é o pé batendo
........................a palma o bom ouvido

........É um texugo tamanduá bonito
........forte gordo enquanto não termina o rito

........depois esquartejado
..................não morto
...........para ser montado
...........um outro
ao som de um novo
....poema poema organismo


(Heyk Pimenta, outubro de 2007)

27.12.07

Gasolina

Aloha Presença!
Aos que têm falta de combustível - e isso é sazonal, acreditem - nunca é demais um galão de "gasolina". Feliz 2008 !

- - -

Um tom me chama –
Um tom ou um silvo?
Ora me encanta,
Ora me agita
Em todos os dissonantes palatáveis
Do viver calmo.

É a estrada, senhores,
A estrada é a vida e é ávida
E clama por mim, ordens expressas
E pouco dóceis.
"Desancora que és partícula no rio,
Abre os braços, vai ao céu
Que a vida é uma só"

E das pedras que rolam
Cria-se a fagulha
À deprê inflamável
Do sentar e aceitar,
Milênio a milênio,
A mesma carroça, o mesmo apego,
A mesma curva pra distrair,
A mesma cura
Da doença que não há,
E sentar e cansar,
Paciência de druida –
1 bilhão de existências
De inerte aceitar.

(Aos 21 de janeiro de 2006)

23.12.07

A tempestade filosófica

Após o post # 200 neste blog - a pérola reflexiva do velho batuta Pedro Lermann - começo eu mesmo a escavar algum material antigo, como este soneto presente no livreto "Viver e devir", de setembro de 2004.

- - - - - - - - - - -

Em tempo, caros amigos:

desejo a todos boas festas e positivas vibrações pra 2008.

o momento da virada, tradicionalmente, nos inunda de reflexões, passa aquele filme na sua cabeça.
lembrem-se - e o digo sob o risco de parecer panfletário - a positividade interfere diretamente no curso dos fatos. se você pensar "que merda" mil vezes, então isso terá um peso na projeção do por vir, ainda que um "que bom!" posso anular de uma só tacada os negativismos.


feliz 2008 - cerveja gelada e poesia de calçada - Presença !

- - - - - - - -- - - - -

A tempestade filosófica

Oh… lá vem a avalanche catastrófica
Das dúvidas que beiram a demência,
O vazio inerente à existência…
Mestres: a tempestade filosófica.

Do cerebelo, ligeira ela escorre
(E é tão bela, permita-me dizer),
A tempestade urgente de viver !
Instigante, como o olhar de quem morre.

Sou ? O QUE sou ? POR QUÊ ? Se sou, é vão?
Rebento do Acaso ? Uma chance ? Ou não ?
Desafia-me a leveza do Ser …

E eis a chave ! Meramente existir !!
Tudo é caos, a nevasca do Devir,
Ciclo infindo de viver e morrer.



(Aos 21 de fevereiro de 2003)

19.12.07

Meditação

De volta aos cadernos do embriagado profeta, uma meditação lermanniana.


Não aceito que acusem meus erros de não terem tentado.

Cada um deles teve a glória da tentativa

Enquanto houve a fantasia da possibilidade.

E cada um foi realidade

Enquanto a fantasia se dissipava.

Mas não carrego comigo cadáveres.

Fico apenas com a sorte da experiência

E a sensação boa do rastro.


Pedro Lermann - 1986

17.12.07

Pequeno

Praguejei assim ao vento
Palavras expectoradas e cuspidas
Na cara do santíssimo
Um desalento

E depois aceitado
Em desânimo demasiado
Sentei ao meio-fio
De todo resto destacado

Mas em pouco como deveria
Ser quebrada a monotonia
Ouvi o barulho das ondas do mar
E as aves que a esmo planavam

Então toda praga – o desencanto
Toda água que ao rosto é pranto
Secou-se pois me olhando descobri
Quão pequeno sou – não preciso ter pra onde ir

11.12.07

"Manhã expressa"

A espuma do café
risca a manhã
em teus lábios superiores.

Sopramos na ânsia
um beijo.

Toma-nos densa a espuma
frase em meus lábios - fica
e já não vejo
nos teus,
nem espuma
nem beijo.

Sopramos a manhã
no café.

Expressos,
passam por nós:
a ânsia, a espuma
e o desejo.

7.12.07

O nojo

E quando me canso
da enciclopédia de cumprimentos,
das rotinas estabelecidas,
niponicamente seguidas,
os hábitos que eu mesmo fiz

quando o caminho não mais é feito
de tijolos de ouro
e me deixo conformado
amargamente deitado
sob o sol de protocolos
onde, estático, me doiro

quando o bom-dia é peso-morto
lançado à revelia
nos peitos já sem resposta
dos pálidos colegas,
oitàscinco trajetórias
em escritórios glaciais

quando o cianureto não se faz
em cavalar tiro solucionático
mas de peça em cartaz,
pra todo sempre em cartaz,
em doses homeopáticas

e o orgasmo convulsivo,
outrora redentor,
passa sorrateiramente a ser
um mais-ou-menos prazer

aí então é fechado um ciclo,
o ciclo do nojo,
e ai de mim, irmãos,
não percebê-lo,
não acontecê-lo para, enfim,
renascer da abjeta lama,
o afiado mosqueteiro
trovador-fênix do eu a mim;

na esquerda o verbo,
na direita o rojão,
insolúvel como um anti
que se faz em paraíso
de mudança e levante.


(Isaac Frederico, aos 07 de dezembro de 2007)

6.12.07

Diálogos

- Vai sair?

- Sim, vou.

- E vai aonde?

- Descubro indo.

- Mas como assim?

- É.

- Mas fazer o quê?

- Continuar.

- E continuar o quê?

- Sendo.

- Mas que tipinho mais manjado esse... acordou dramático?

- Pensei nisso, mas acho que não.

- Algum problema, então?

- Os mesmos que aí já estavam.

- Não sei, isso tá estranho. Alguma coisa mudou?

- Claro; tudo.

- Tudo o quê, criatura?

- Tudo.

- Menos os problemas, que são os “mesmos”, certo?

- E com essa retórica se vai a algum lugar?

- Sim, claro.

- Aonde?

- Descobre-se indo.

[e continua, e continua, e continua...]

5.12.07

reflexões de um anfeta-jovem

O som da esperança é o barulho da mordida na maçã (18/12/2005)


Dezembro 2005
O fardo da atuação, vestido voluntariamente. Por quê a atuação? Por quê não só a contemplação? Que desejo tão intenso te levaria a sacrificar o corpo, a gastar tantas preciosas horas? É válido que haja tão intenso desejo?


- Envelhecer é perceber que qualquer sofrimento é possível. A vida pode te trazer desgraças, das formas mais intensas. Amadurecer é perceber que isso não é nada pessoal.

- A devastadora imensidão de palavras, de possibilidades de combinações de palavras... e, no entanto, são só palavras. Tão ineficazes em comunicar o que quero, e até isso: será que há um “eu” que quer comunicar algo, anterior à linguagem?


Posando para fotos
Que nunca veremos
Não temos tempo…

rumo ao chile !

CORRENTEZAS SUJAS - I

Tudo bem mermão! Só não me encosta... - me estico na cadeira de molas espreguiçando um vácuo. Algum facho de pensar vai levar esse troço todo pra longe, eita peso danado! Já me fartei dessas contas. Nenhuma idéia é convincente até que passe gritando ao lado, no barco alheio, de calças-arriadas-mostrando-a-bunda-branca-de-fora, rabiscada em batom um - Foda-se! vermelho. Assim me veio na cara essa idéia do Chile, que me espera de alguma forma, por alguns segundos e dias e horas marchando por sobre ele - sem um tostão é claro - em qualquer uma daquelas bibliotecas antigas cheias de poetas novos mortos com olhos de tigres do Atacama. O caminho é o Chile! Até lá tantas coisas pra ver sem saber que vi ou sem entender pra que arregalar a tanto a vista. No fundo é me perder na américa mais latina que há – cansado des´ser tão latino. Porque latinidade é south mermão, tudo que é sul é pobre, tudo está pra baixo abaixo e debaixo de tudo, como se a bússola tomasse forma do dedo inquisitor de Cristo. Tudo bem mermão, já te falei! - devo parar de beber porque meu fígado resmunga mais que minhas tias juntas falando pelos cotovelos enquanto fumam entre dedos carnívoros e peles de puxar bochechas, um cigarro mata-rato desgraçado, e cospem sobre todas aquelas coisas de tias velhas e resmunguentas. Vou deixar de descascar abacaxis pros outros agora, e abrir minhas próprias portas, e quem sabe não me veja sorrindo pra mim mesmo numa delas, sentado à luz de Nietzsche, cheio de dentes concisos, cheio de pelos louros lindos entre os ricos colares de pedras de mármore do Casaquistão dos livos? Algumas revoluções começam no fígado. A minha tem começado, minha bílis começou a confabular um livro, talvez o novo manifesto, eu chamo de água barrenta. Ainda vivo me traindo, querer a morte por aqui é besteira, já se morre vivendo. E em que arte? A vida agora tem risco de maçã vagabunda, e temos qu´engolir na garganta sequinha. Qualquer coisa eu mudo de canal e fecho os olhos. Mas o Chile... é sim, o Chile ainda é o caminho.

29.11.07

“C o n v e r s a p o é t i c a”

(extraído de uma conversa via computador)

R. Elfe diz:
Vislumbras tão pequenas tíbias
R. Elfe diz:
que alfazemas cozem ante o céu majestoso.
R. Elfe diz:
Num redemoinho de cores
R. Elfe diz:
um jardim terno e bondoso.
R. Elfe diz:
Onde as cores vão surtir aos olhos
R. Elfe diz:
com o palatável aroma que percorre à brisa
R. Elfe diz:
e teus nomes são vários, comuns e tão plenos
R. Elfe diz:
quando nas flores, a flor assim me arrolho.
R. Elfe diz:
Vai bater tuas asas à gentil libélula
R. Elfe diz:
que repousa um beijo fractal ensimesmando
R. Elfe diz:
vai descer as lenhas dos afazeres, as crianças vêm arrancar-lhes as folhas.
R. Elfe diz:
Que o caule bom sirva aos pequenos de varinha que dança a fada
R. Elfe diz:
assim na magia podeis trazer teus olhos,
R. Elfe diz:
e em menina te formas, de flor os pés no barro
R. Elfe diz:
a voz que o vento alto vai cantar sobrevoando
R. Elfe diz:
assim algum toque divino e claro
R. Elfe diz:
das águas que rodeiam os vales
R. Elfe diz:
a flor que eras agora só em cores
R. Elfe diz:
traz o pensamento um riso que colores.

Segunda parte, “o agradecimento”:

R. Elfe diz:
tenro abraço terias de mim agora
R. Elfe diz:
sem vantagens do corpo
R. Elfe diz:
sem nada
R. Elfe diz:
queria voar pra longe
flor diz:
sem nada?
R. Elfe diz:
pr´algum monte cheio de luz
R. Elfe diz:
verde e céu baixo
R. Elfe diz:
para ter com o vento essas imagens
R. Elfe diz:
aqui onde pareço vivo
R. Elfe diz:
só morro.
R. Elfe diz:
e o morro que quero não me sustém
R. Elfe diz:
bateis as asas comigo se puderes
R. Elfe diz:
e leves nos deixemos como ventos de estação
R. Elfe diz:
o vinho mais novo, pisado por pés velhos
R. Elfe diz:
é esse o que quero ao coração.

Fantasmas

aloha presença !

após o sucesso do lançamento do "elementar", posto poesia do Rafael "grego", um dos poetas independentes mais talentosos de que tenho notícia, pelo conjunto virtuoso de sua obra.
segue o "Fantasmas". um grande abraço a todos.

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Fantasmas que fitais
na madrugada elétrica:
simples ruídos banais
que me cobrem de susto.
Em cada sombra, um rosto.
Em cada rosto, a dúvida.
Os passos baixos que oiço
decerto me perseguem.
Passos parar jamais
por becos becos becos
de um hálito sombrio.
Ai fantasmas tão sólidos
entre os dentes trincados!

24.11.07

Nada posso quanto ao poço.

Não aprendi acordar cedo. É uma prova da alma, lastimável até. Um vestibular completamente fora de hora, e eu sempre atrasado. Mas, como de costume, fui içado de sonhos abomináveis: chuvas torrenciais, enchentes, pessoas morrendo, trombas d´água, beijos afogados... Arregalei os olhos quando ainda lá, fui tragado por um poço travestido em poça d´água. Logo depois num golfo, como se voasse e voei, fui retirado. Foi quando percebi que a ponta do cobertor tocava o chão e, já tomada pela água da geladeira em degelo, intumescia. Um rio largo, desfilava do chão da cozinha, circundando o sofá sob a janela, até meus pés, agora quentes sobre o chão tenso e frio; como se toda aquela água tivesse jorrado de meus olhos, boca, ouvidos... Tive a leve impressão de que, se não acordasse àquele instante, morreria afogado pelas dobras úmidas do cobertor, como pequenos dedos enrugados.

Ainda tropeçava em sombras pela casa, quando percebi o ronco da sala, respirando, minha mãe ainda dormia. Meus irmãos estavam longe, no quarto. Um deserto se estendia até lá. Eu ainda era o filho, ainda era o irmão mais velho; de alguma forma me confortava saber. Estirei-me para o banheiro mais próximo. As sombras se multiplicavam pela casa. Meu medo era uma faca cheia de manteiga pronta a me acertar o pescoço. Nada demais pra quem, minutos depois, usou a mesma faca para abrir a caixa do leite e emplastrar o pão.

Com alguns livros prontos a serem devorados no parapeito da janela, reparei na cor da manhã. Repentina luz que rebentara, sem que meus olhos guardassem o ato. Cinza? Dentro do verde das eras que nervosas cobriam a janela, era branca e incisiva como o dedo escorregando até a virilha. E esfregava os olhos pra torcer o cinza e ajeitar um nome àquela luminosidade vaga. Nisso especulei sobre qual livro abriria meu dia. "Humilhados e Ofendidos" me veio à mente - saímos da confeitaria... o velho morrera, seu cão morrera; alugamos o quarto do velho. Não. Não queria àquela hora, adentrar o quarto do velho morto. Nem esperar por notícias suas em outros rostos. Abstive-me então em deixar o meu tocar o punhado de amarelo chumbo que brotava no cinza.

Meu irmão já acordara, rastejou pra dentro do breu, quase iluminado. Agora, cinco e trinta e cinco da manhã. Ele me pedira para acordá-lo quinze minutos depois dali. E estaria eu vivo? Sempre pensei em morrer como um Nosferatu, fulminado pelo sol sob a janela, com uma das mãos ao peito e outra tentando cobrir-me usando a inútil sobra que cinco dedos magros desenham. Preferi fechar um pouco a janela, o vento frio da madrugada ainda rasgava. Mas, rezei pra que a manhã soubesse como entrar pela casa. Pra garantir, deixei um fiapo de janela aberto. Um fiapo de morte pra mim. Como se esperasse algum amor tardio.

Entrei no quarto onde o computador se esconde, me escondi. Tornei a porta quase fechada. Na brecha, vi que o sol já cruzava toda a casa, tocando o vaso de vidro sobre o aparador antigo de madeira. Respirei aliviado. Coloquei Jeff Buckley pra cantar, junto dele "atravessei o jardim das meninas louras". Reli alguns textos. E com um gosto úmido e entre cortado de luz, escrevi este.

(O primeiro parágrafo do texto foi perdido entre o colar e o copiar do bloco de notas para o word. Mas reescrito às pressas, pra não deixar escapar uma imagem se quer, com o sabor das palavras ainda quentes sobre a língua rósea da mente.)

22.11.07

Frases que sobreviveram pra contar...

como foi o encontro do Presença!

"Somos muito pequenos pra tanta poesia."

"O vinho é uma navalha."

"Ainda há amor?"

19.11.07

Entre poetas...

R. Elfe diz:
é tu mesmo??????????????? rs
R. Elfe diz:
engraçado imaginar que eu possa estar falando com um cara que deu um estalo no meu cérebro
R. Elfe diz:
se for, ou se não for, é bom que saiba por mais uma pessoa que há aquela famosa compreensão da imagem que tu escreves
R. Elfe diz:
pois me espelhei
R. Elfe diz:
e sei que essa ponte pro autor é a maior coisa
R. Elfe diz:
também escrevo e estou me caçando há muito tempo, e teus rumos me deram maiores incentivos e melhores lumes surgiram nesse lodo
Fabrício Carpinejar diz:
obrigado, meu amigo
Fabrício Carpinejar diz:
lumes e lodo, bela combinação
R. Elfe diz:
é verdade
R. Elfe diz:
é de onde viemos né?
R. Elfe diz:
somos lumes no lodo
Fabrício Carpinejar diz:
a poesia fica cutucando
R. Elfe diz:
e vice-versa
R. Elfe diz:
demais
Fabrício Carpinejar diz:
tm um covelo largo de rio (deve ser: tem um cotovelo largo de rio)
R. Elfe diz:
rs
R. Elfe diz:
é verdade
R. Elfe diz:
e nos assombra
R. Elfe diz:
quando te li percebi o quanto te assombrava rs
Fabrício Carpinejar diz:
nunca farei uma queda-de-braço com o rio
R. Elfe diz:
pois estive nessas linhas
R. Elfe diz:
eheheh
R. Elfe diz:
nunca!
Fabrício Carpinejar diz:
prfiro boiar do que mostrar força (prefiro)
R. Elfe diz:
apesar de tentar ser uma pedra pra desviar às vezes os rumos
Fabrício Carpinejar diz:
risos
R. Elfe diz:
é mais sábio boiar
Fabrício Carpinejar diz:
vou lá, tenho que dar aula agora de tarde
Fabrício Carpinejar diz:
grande abraço
R. Elfe diz:
idem

18.11.07

Canção de Balthus

A ponta dos dedos
acende a boca de fala úmida

Abre-se o botão entocado

Desabrochar de flor vermelha

Torna-se fruto
Amadurece junto aoslábios

Faz-se roxa

Amora madura

Despenca em fuga
Um gemido

(corda esticada)

Prenúncio
do tenso e aberto sorriso.

Novembrode 2007.

17.11.07

Elementar

Caríssimos amigos e frequentadores das paragens do Presença, de volta ao blog depois de alguns meses fora do ar, anuncio com grande prazer um novo lançamento do coletivo, o livreto de poesias Elementar, com poesias minhas, de William Galdino e Isaac Frededrico.

A confraternização acontecerá no Arco-Íris da Lapa, a partir das 19h, na quarta (21/07) e todos estão convidados a comparecer e garantir seu exemplar, que tem tiragem limitada e custa o preço de uma gentileza - cerveja, é óbvio.

Reproduzo aqui o prefácio de Renata Dantas:

Este livro versa quatro elementos. Aqueles considerados desde a ciência antiga os componentes do universo físico. Água, fogo, terra, ar. Cada poeta – Vinícius, Isaac e William – nos apresenta sua versão sobre eles. De quebra, a introdução de André Gide, com um trecho de seu "Os novos frutos".

Dos quatro elementos, qual o mais essencial? A Terra, que dá chão, frutos, segurança? Destino final de toda raça humana. Terra que pode ser derrota, mas também bênção, como lembra Isaac. Terra que nos dá espaço para percorrer, mas nos mantém presos a esse solo. Pés fincados por "sapatos muito bem amarrados", diz William. Impedidos de alçar vôo (sonhar alto?), Vinícius lembra que "somos nada diante da firmeza de propósito do chão". O chão da Terra que bebe o ar.

Ar que relativiza. A pulverização. Fragmentação. Ou, segundo Vinícius, "a promessa do infinito". E, ao mesmo tempo, a frustração. O símbolo da incapacidade humana de levitar, de se ver "atravessado de ar", como sonha Isaac. O mesmo ar que nos ergue suspensos no espaço, faz a bailarina de William despencar no chão como pedra. Ar que alimenta o fogo.

"Utopista, o fogo é alma, só alma", esbraveja Isaac. Sem amarras, sem limites, sem controle. "Hipnose, ira, magia". Energia vital, força propulsora, motor que impulsiona o homem a se manter em constante movimento – eterno queimar dos pés, mesmo quando um outro recomeço parece impossível, enfatiza Vinícius. E chama que queima os pés, também faz arder a pele dos embriagados de paixão, como escolhe William. Chama de fogo que esfumaça a água.

Água que, como elemento químico descrito por Isaac, sacia a sede e dá vida aos oceanos. A mesma água que desmancha castelos humanos feitos de areia e afoga. A profundidade turva que atrai pelo mistério do desconhecido e assusta pela tentativa irresistível de sedução – o canto da sereia, remete William. Água que dá vida à Terra.

Dos quatro, qual o mais primitivo? Nenhum. São interdependentes. Estimulam um ao outro. Se retroalimentam.

Ar, terra, água, fogo. Oposição. Equilíbrio. Contradição. Harmonia. Primitivo. Complexo. Seria o homem a união desses elementos? Talvez nem todos carreguem em si essa elaborada quádrupla mistura. Mas nossos poetas sim. São elementares – não elementais. Como cada poema dessa pequena obra.

12.11.07

Remendos

Eu não dobrei as roupas, nem fiz a cama atrasado de olho na janela esperando o ônibus. Nem abandonei o copo de café pela metade, com a colher mergulhada pra mexer ainda o açúcar morto no fundo do copo. Nem dobrei o pão pra morder em duas vezes, quiçá uma. Fui deixado pra trás naquela manhã cheia de rodopios. Eu não fitei de cima meu corpo lá embaixo queimando, deveras, eu era um balão cheio d´água descendo do sétimo andar. Eu não resumi num segundo o papo de um dia inteiro e disse tchau com as costas, mudo. Minha mãe não ressentiu minha não presença, acordando com o som do portão fechando às pressas, nem com o silêncio estranho que explodiu depois. Fui deixado pra trás naquela manhã aberta, uma ferida concisa cheia de luz, a ruidosa luminosidade inicial de tudo. Dentro daquela manhã pequena, fui deixado pra trás, como uma lesma remoendo pedras. Os relógios denunciaram minha morte, às 8 e 45. Demitiram meus olhos, incineraram minha cara. Fui largado no carrocel d´água na pia da área de serviço, junto as roupas de ante-ontem e aos desejos de vida e sorte. Fui deixado pra trás na luminosidade estranha daquela manhã. Meu corpo removia-se antecipando o coito celeste, em esquinas de tempo, cruzaram adeuses. E a manhã corria cheia de pressa, e pregado no sofá, morto como o açúcar no fundo do copo, eu denunciava o que nunca havia sido.

Impressões

Não tinha nada a ver com isso. Ninguém tinha. Mas elas estavam lá, no meio da manhã sem dia, no meio do pátio sem pátio, dentro deles, que estavam lá, no meio delas, fora dali, dentro do ciclo que, invisível, nos tangia. Não tínhamos nada a ver, mas tínhamos. Elas estavam lá, no meio da manhã, no meio do pátio, dentro, livres, presas... Eu estive lá no meio delas. E no ciclo delas no chão, de joelhos, rimos, livres ali dentro pra rir se quiséssemos. Outras não. Outras fumavam, desencadeavam encadeadas, falas que num ciclo menor se perdiam. Outras não. Outras desapareciam, dentro de pequenos rostos, outros tantos - sumiam. E eu não tinha nada a ver com isso, mas tinha. Estava dentro delas, ajoelhado, desencadeando risos, rindo - livres, se quiséssemos. Mas não tinha nada a ver com isso, mas tinha, nada a ver, mas via.

Depois de mais uma visita ao JLA.
(Instituto feminino de correção para as menores infratoras)

10.11.07

Imperatriz

De sol a sol é o jogo
Efervescente do dia.
Os paranóicos irrompem
Em seus gastos de energia,
O trabalho e sua filosofia –
O sol-yang é o dia.

A noite é o escoar fino
E a lua sua força motriz,
A musa integralmente perfeita
E sua égide de giz,
Os cílios grandes, a tez pálida
Dos mistérios mil e, gélida –
Na abóboda os passos lisos
Da yin-imperatriz.


(Aos 05 de novembro de 2007)

6.11.07

Trecho

"Logo, a poesia tornara-se o poeta,
e o poeta a poesia.
Tornara o verso, uma mecha de cabelo,
uma estrofe algum gesto - sorrir vazio no espelho.
Logo, nasceram-lhe galhos, ramos e uma roseira.
E a poesia figurava no homem, assim como o poeta nas videiras.
Logo, a poesia tornara-se o poeta, amargamente,
e o poeta inteiro a poesia."

(publicado no Sem Digitais)

5.11.07

Lá Se Deram...

Não trovejei um segundo
não fui tempestade, nem sol
arquétipo de inverno trancado
e detestava as mais bonitas
era um ardor ser parte do grosso falatório
em que as bandeiras de maio inflaram
foram mais alto!

Reverdeci dessas cinzas, minas hercúleas...
meus risos me ataram
eram lenhadores enormes, fazendo sombra
algúrios que cantei mais baixo,
pra dormir repentino
e nada ser repetido,
muito menos essa vida cheia de vales.

Eis que parto prum sonho:

"Azaléias, mármores lunares nascendo
mil navios do futuro, balsâmicos
sob à minha língua sintética
um quarto de outros enormes sintetizadores
e a lua pareceu maior, menos morta...
Lá Se Deram em mim as vagas
areias cobrindo olhos, d´alguma foz ou gruta
cruzara no alto, um pássaro cinza - no instante
infâmias! eu, menor, cada vez mais...
chorava o indulto, nem pensava o quanto
acorrentado aos pés do céu
me atormentavam os riscos rápidos
das estrelas... fotografias modernas.

Lá Se Deram...
e fui ter comigo um papo eterno...
mas ecoaram sobre os ombros
minhas tétricas falas:
- Não! Não é a lua que se pendura lá, não é...
Não percebes? É um furo! Sim! - e ria medroso.
É um furo besta e ridículo,
mostrando a ponta do que há por trás!
Luz maior, pronta à nos cegar!
Não percebes? - erguia as mãos tentando rasgar
de vez o pano negro que cedia...
A lua é um buraco no céu! Não percebes?
É um buraco...

2.11.07

Que rima se esconde ?

Magnético enleio, estudo-te os olhos
E fico estático, escutando o elóquio
Silente do olhar que, ávido, estoco –
Poema visual de ausente escólio.

Alguns meros fonemas te dedico
E maiusculizo-os: ÊU-TÊ-Ã-MO;
São quase táteis, tamanho é o ânimo
Que me euforiza, exultante fico.

E se decassílabos me faltarem,
E se as rimas todas se evaporarem?
Que fim terá minha pequena ode?

Meu próprio arrebatamento responde
"A tão bela moça, que rima esconde
Sua aparição, que ao poeta acode?"


(Isaac Frederico)

12.10.07

Manhã de paz

Pensa na mulher amada... Claro
Como dia que raiou doirado agora
Cansado e a vista... Escura
Como as clausulas que te trouxeram
Ao contrato que assinou outrora.

Pensa no absurdo, e Nada
Que é sonho é realidade
Dois joelhos ralados - dobrados
E dos amigos deitados sem Vida
Que se vê e não se Chora

Sede honesto camarada
Valeu a pena?
Pena? do que?
Do EU jamais... nem do VOCÊ
É... esta manhã "Vitoriosa"

Os carros carregam as cruzes ENCARNADAS
Os hinos soam com glória
Não chora... sede homem!
Sede aquilo que não amou
Soldado.

(Fábio dos Santos)

10.10.07

Instruções.doc

Não sê Prometeu
Acorrentado a teus desejos,
Xeque-mateia teu ego
E seus sutis ensejos,
Enceta a compreensão
Do teu fundo interior
E salva o arquivo
No teu eu-computador.


(06 de agosto de 2006, poema integrante do livreto "Absinto", publicado em setembro de 2006 parceria com Vinícius Perenha)

5.10.07

Guerra e convívio

O meu vizinho da porta da frente
O meu inimigo da casa ao lado
Penso no meu antro sossegado
De noite de luz – apagado

A potência nuclear com telhado
Um lar bi polarizado
Na cama eu e minha esposa
Cada um pra cada lado

Minha mesa de trabalho
O escritório entrincheirado
Olhares-morteiros, estilhaços
Na campanha do dinheiro desesperado

A batalha naval da piscina
No clube ao domingo ensolarado
Bombardeio nas em’costas’
Do companheiro subjugado

Meu pelotão de neurônios
Em conduta – silenciado
Por mais cautela que tivesse
De assalto fui tomado

É o revezamento um x outro
Passando os cajados do poder
Medindo forças na alarmante pista
Que dá voltas até não sei quando