
.............Com o movimento do mundo no peito, técnica mista s/papel,2007.
cerveja gelada e poesia de calçada

Gravura de Renina Katz
....................................................................Ivan Serpa
(pintura de tinta acrílica em papel comum, 2004)
Fotomontagem,2005
Fotomontagem, 2005.

O louco, enfurecido, correu
Todas as direções. O agudo grito
Megadecibélico do ultra-aflito
Todos planos cognitivos varreu.
O insano, irrefreável, destronou
Sua consciência do seu próprio império.
Tarefa hercúlea! E, sem maior mistério,
Irou-se, sorriu, chorou, acenou.
Não coube em si, de algo que não sabemos!
Ficou triste, corou, falou de Vênus…
Dividiu-se em múltiplas reflexões.
Abriu, por fim, os braços e, solene,
Pulverizou sua loucura perene.
Diluiu-se em todos nós, grãos milhões…
(Aos 15 de junho de 2003. Poema integrante do livreto "Viver e Devir", de 2004)
Gravura de Marcello GrassmannDe nada vale pôr-me à tarefa
De resgatar o que não mais existe
Se houve amor agora espero trevas
Percebo as coisas em sua medida
Pois nunca eu pus-me a andar
Sem pôr à prova o que dilacera
Jamais alguém viveu sem não matar
A pelo menos os eus que supera
Que é o tempo sem eu que destruo
As hastes pedidas pelo esquecimento?
Faço de minh’alma o meu próprio muro
Que pulo sorrateiro a cada momento
Miopizado pelas cifras,
Enrijecido pelo terno,
Acinzentado pelo monóxido,
Os lírios sem água,
Vivendo pretéritos,
Tetanizados os músculos
Pelo ferro das canetas,
Assinando os contratos,
Mineralizados os rins
Pela areia das lagostas,
Lances liquefeitos
Em negócios suspeitos,
Respostas polidas
De raivas contidas,
Em cada célula semi-seca
Semi-sem-voz garganta,
Aos berros nos bancos,
Apenas cifras e somas,
Comidas prontas,
Zeros à direita
Em inequívocas contas
Suiças setentrionais,
Salgadas e lacerantes,
Lanhando os mornos ventres
Dos brios tropicais.
Um épico. De aço.
Boca-hífen
No rosto branco.
Na manga de linho
O ás inequívoco
Da visita engatilhada:
A auto-bala certeira
Na cabeça arredondada.
(Macaé, aos 06 de junho de 2008)
Sonho-te e nas brumas recendes
......................O perfume assustador de quem
......................não está.
De quem ferve a doce índole do que fica
No fogo frio de um verde glauco;
..................................................Seco a testa de uma febre rica
..................................................Evaporando num amor incauto.
Transluzo nos olhos a minguante lua
...................Em gotas que se perdem nas bochechas,
...............................................Traduzo o silêncio dos que se esvaem
................................No gelo triste de um amor sem filhos
...................................Que justifica as lágrimas que caem
.........................................Na natureza dos andarilhos.
.............................................Fora dos trilhos, refrões vagos,
..........................................................Nesgas de versos sem legendas
.............................................Num amor fora de época,
.....................................................Encarnado. Dessemelhante.
....Vibrante mas... dissociado.
(Rio de Janeiro, aos 13 de maio de 2008)
Above deep waters, pintura de Hans Hoffman
Pintura de Jack B. Yeats
Interferência digital sobre técnica mista, 2008.
the third hand, 1947- pintura de Hans HoffmanTer aquilo que agora tenho
E um tanto acanhado de tanto contento
Ao incompreensível agora ascendo
Qual mal assola o fanfarrão?
Qual suposta força eu tinha até então?
Ao supreender-me a cada lance que te vejo
Furto-te minhas vistas por receio
De tão bela imagem que recebo
Venha a ser tudo aquilo quanto almejo
Sou então um barco - um bocado torto
Que da tempestade chega ao calmo porto
Desorientado e pouco descontraído
Acanhado como hóspede - com o ego reprimido
Não tenho medo de falar-te
Do quanto estou contido
Quero-te tanto!
Desejo-te!
Então, por fim - que tudo tenha
Qual não é o verniz que se acabe e mostre a vil madeira?
Da qual sou feito e não se empena
Quando exposta calma ao seu sereno
CONFESSO-TE
SINCERO-TE"

Veias abertas, esta manhã
pois que uma transfusão de sangue, apenas,
é o suficiente
para o seu caso.
Alimentar tuas todas células
com outro manjar
dormir a sesta
ao som diletante e heróico
dos ponteiros,
um ferruginoso entardecer
Basta,
para você.
Veias abertas
e caixa aberta
que uma nova alma vem tentar
No lugar da sua;
as minhas veias são os caminhos
para dentro de mim.
É uma sensação frugal,
ao som de um pince-nez quebrando
Abre-se-te a caixa torácica
Ao mesmo som diletante do meio-dia
E sentes como se estivesses pondo
Teu verbo para dormir.
(Aos 10 de janeiro de 2008, poema inédito a ser lançado em breve no livreto "Iuri Gagarin e outros poréns, Edições Presença)