9.8.08

Música pretérita


.............Com o movimento do mundo no peito, técnica mista s/papel,2007.

Música pretérita
.........................................'""Volta música pretérita ao bojo de tua flauta"
.......................................................................... Ruy Espinheira Filho
Há algo que não cala
um pouco que no fundo ainda fala
Sem mercúrio que sare.
Um toque
um resquício
um algo lá
que desaba numa noite qualquer
numa dose a mais
num dia parado
no caminho não desviado.

Uma lembrança que arranha
e se faz contra a vontade.
O último nó da sutura
que se esforça pra rebentar.
Há dias secos de nunca mais
de trazer engasgos
e entrar sem bater.
Não há sono que acalme.
Não há fuga que apague.
Sensação de mundo longe
de perguntar pra quê
Por quê?
Aqui ou ali?

E do impossível
do desejado
o mais dolorido.
Do inviável
mais sentido por assim ser.
Por ser não sendo
Pelo não ter sido.
Posto no devido
findo.

Mas há ainda um sim
que de repente te surpreende.
O outro dia
o lado esquecido há tanto
que num estalo ressurge.
Transparente
límpido.

Dois pés firmes sobre o chão
e os braços que se abrem a tudo.

E assim vamos em frente
com nossas mochilas às costas.
Carregando a matéria do tempo e da vida.

Agosto de 2008.

5.8.08

Heyk Pimenta

Gravura de Renina Katz



No clímax da obra vou cair no
....chãode duro e doido me
....contorcer fazendo cara de
....famintoc


Porque a raiva corta
....a fome ajuda
desenho mal feito de
....pastel acalma

Mas só van faltando um ou dois lugares
....Salva
Jesus nada


Trecho do livro Ladrão da Matriz, recitado recentemente num sarau na casa do poeta-marujo Isaac.

2.8.08

Hemisférios

....................................................................Ivan Serpa


Me aproximo de mim
.... a rua e
o sol vibram nos meus passos.

Sinto me como um que a tudo abraçaria.

Lua branca de verão

vontade incontrolável de dançar
até que as pernas peçam descanso.

De volta ao carrossel
.... que me tonteia os sentidos
paro e sigo
o corpo permanece no giro
e os olhos turvos
.... de todas as cores que se somam até o branco.

Agarro-me numa beirada de sorriso.
....Já não estou lá , já não estou aqui.
Tudo se move

e vagam as memórias em vôos astronáuticos.

Do livro Fragmentos do imaginário, previsto pra ser lançado ainda este mês.

O cerne

Empreendeu, por fim,
a grande viagem
Ao ponto mais austral de seu ser,
Suas experiências passadas mais traumáticas
(As boas e as ruins)
Lanhando-lhe o equilíbrio.
A náusea surda
De ascender ao cerne,
Que neste plano
Quem pode discernir
O dentro do fora?
“É um soco no estômago
Descobrir suas lacunas”, pensou
E a revelação última
Quando descobriu
Em Deus e no diabo
A mesma e única pessoa.
Ali seu limite.
“Uma coisa é a verdade,
Outra coisa é o que se quer enxergar”


(Aos 28 de janeiro de 2006, poema integrante do tomo IV "Jesus o nazareno", do livro "Acontecente")

28.7.08

Sentado à beira mágoa os montes vejo

.....Mais um poema do Grego - Rafael Huguenin - o poeta e filósofo camisa 10 dos sonetos ditos "independentes", e aqui não há pretensão alguma de cunhar termos nem introduzir divisões, até porque a poesia não pode ser certeiramente dividida entre alternativa e mainstream, como a música, por exemplo. Ou até pode, mas são outros os parâmetros.
.....Este belo poema traz uma carga forte de angústia e tem um acabamento belíssimo.
Abraços e presença !

- - -

Sentado à beira mágoa os montes vejo,
órgãos afiados que projetam cumes
e em cujos escarpados, feros gumes
encontro a mesma corda que ora arpejo.

Facas, espadas, dardos que dardejo
contra o céu que se fecha em mil negrumes
não bastam pra calar os pesadumes
que o coração me cortam, e assim doidejo.

As armas contra a dor de nada ajudam,
a cada golpe rudes se desnudam
diversos braços novos que não venço.

E só me restam lágrimas salgadas:
com sentimento tanto assim choradas
me lavam ao menos o meu rosto tenso.


(Rafael Huguenin)

24.7.08

Viver e devir

(pintura de tinta acrílica em papel comum, 2004)


A sua alopração é previsível, meu caro.
O seu desespero era esperado.
A trajetória parabólica que seus braços fazem
Enquanto você se debate,
Submerso nas suas mais úmidas dúvidas,
Do estado mais vulnerável do seu ser –
Alguém já pensou nela.
O que você se pergunta
Está no script que te entregaram, seu nome no campo "nome".
O volume de água que você chora
Já foi calculado antes.

E aí você vive sua primeira transa
(A redenção absurda do sexo),
Perde pela primeira vez um parente próximo,
Chora a primeira vez que te rejeitam,
Vê o sol se pôr a dois,
Interpreta as coisas, fica se perguntando
A validade do que foi e do por vir.

Dorme com um barulho desses, irmão.

(Do livreto "Viver e Devir, 2004. Rio de Janeiro, aos 15 de junho de 2003)

22.7.08

Uma pequena alegria

Fotomontagem,2005


Fecha o chuveiro.
Escorre pelo ralo o resultado de mais um dia de luta. No vestiário o último dos funcionários calça seu tênis e guarda a toalha molhada na mochila. Desce as escadas e ao bater o cartão percebe que já passa das onze. Um boa noite cabisbaixo é dado a empacotadora que lhe lembra uma antiga paixão da adolescência. Promete a si mesmo que amanhã a convidará para o cinema. Há duas semanas ele vem dizendo isso.
Pela economia de um vale-transporte começa sua caminhada, uma hora até encontrar o sono, no caminho decide contar quantos carros vermelhos avistará antes de chegar em casa. Conta até o terceiro, daí pra frente mergulha numa suspensão quase budista da qual só é expulso ao ser xingado por um idiota que passava na garupa de uma moto.
Ao atravessar a rua diante de um prédio modesto, repara na luz do abajur de um dos apartamentos e sua mente fantasiosa imagina que ali naquele momento há uma adolescente ninfomaníaca transando loucamente com algum primo mais velho. Olha pra trás e lamenta-se por nunca ter tido uma prima ninfomaníaca. E isso o faz lembrar-se das sextas feiras em que se escondia embaixo das cobertas diante da tv, esperando ansiosamente o início de mais uma pornochanchada, que o faria esquecer a sua frustração por não ser um Don Juan.
Ri sutilmente enquanto seus pés saltam pelo meio fio.No muro chapiscado avista uma antiga pichação de sua autoria, dos tempos em que botava a lata na cintura e saia pedalando pelas ruas à procura de diversão. Entristecido por reviver o passado decide se concentrar no caminho que ainda falta até chegar ao descanso que o corpo lhe pede. Ao aproximar-se da última esquina que o separa de sua rua, um carro estacionado na calçada dificulta a sua passagem, olha nos olhos da menina sentada no banco do carona, intimidada ela desvia o olhar, ele continua a caminhar, até que ouve o motor ser ligado e detém seus passos. Imediatamente vem à sua cabeça a lembrança de um conto, no qual um homem aparentemente normal saía à noite em seu automóvel, à procura de uma vítima pra atropelar.
Na sua contemplação àquele belo rosto, não observou quem estava ao volante, fica pensando que talvez a menina linda tivesse ao seu lado algum namorado ciumento que agora aceleraria e passaria por cima do seu corpo. Mas não foi o que aconteceu.
Lentamente o carro passou ao seu lado, adiante ele viu a menina colocar seu rosto pra fora da janela e com a ponta dos dedos junto aos lábios mandar um beijo em sua direção, ele sorriu enquanto o carro sumia na penumbra.
Naquela noite ele sonhou com os anjos.

Agosto de 2004.

20.7.08

Tédio




Uma tarefa maçante estaca
O tempo; faz de segundos milênios
E sela com o relógio convênios
Onde o ponteiro das horas empaca.

Ruminando em tal compasso isotônico
Cada instante tem duração de ano,
Superar o tédio draconiano
Exige então esforço faraônico.

A conclusão é sequer aturar
As chatices que virão te abordar:
Deixai-as pros estóicos per natura.

Que cada minuto de saco cheio
Dobra seu peso pra minuto-e-meio
Desperdiçado: lamento algum cura.


(Rio de Janeiro, aos 27 de junho de 2005)

18.7.08

Marujo

Abriu a garatuja,
o marujo.
Enigmático,
encheu o cachimbo de chumbo,
respiro plúmbeo,

próximo

ao tanque de diesel de boreste.
Entrópico, o navio
pelos ares
em mil pedaços desiguais
picotando os mares
de carne, sangue e metais


(Macaé, aos 06 de julho de 2008)

14.7.08

Degelo

Fotomontagem, 2005.

Que te abraço em devaneio e oscilação. Te elegi a musa dessas noites de cera quente sobre as pálpebras. Quanto durará? Tantas já se foram e não deixaram falta. Um dia, uma semana, mas enquanto permaneceram foram únicas. Agora é você, nos olhos, na memória. E solto pequenos cortejos e sonho e lanço ao longe, pra onde se faça mais difícil o alcance. Admirando sem tocar. E não há nisso inocência ou medo. E nado no mar do provável, do que poderia ser. E com tuas mãos me acaricia os cabelos. E brinco, e tento novamente como quem procura salvação mas tão logo a consiga, abdica.
É um querer indisposto, um sonhar desperto. E te levo comigo em noites de suor e te presenteio com flores de desculpas. No império devastado é a única estátua que ainda resiste.
E fico com os olhos postos em ti na indecisão de abraçá-la ou quebrá-la definitivamente.


Setembro de 2006.

11.7.08

Cliquem na imagem para vê-la ampliada.
Essa é uma das imagens que roubei do trabalho que tenho desenvolvido em Itaboraí.


"Vidro de perfume"

De atropelo é vida
nova cuspindo
campo.

É galo engolindo prédio,
velho
olhar rasteiro e espanto.

É prédio lançando lua,
gente lançando carma,
lançando.

Vidatropelada
avenidas derrapando em bocas,
e beijos engarrafados.

Amor
engolindo vidro
pia
de rachar silêncio.

De atropelo é vida
e é a morte
secando a rua.

7.7.08

Pósmodernice


Viva o nosso tempo!
Solidão , aids , alienação.
Não restou nada. Sem deus, sem crenças políticas, sem utopias... Porra, antes ainda havia esperança. Agora só esse gosto amargo do tédio e do cansaço. Uma desvontade terrível.
Olha àquela mesa, tem alguma coisa dentro daquelas cabecinhas? Tão modernos, tão rebeldes... No café da manhã cereal e chocolate quente. Depois se fantasiam e vêm pra cá posar de artistas.
Imediatismo, é só o agora meu irmão. Salve-se quem puder .
Sexo pra salvar a noite e dar uma aliviada na manhã seguinte, mas dura pouco, depois é o vazio e a sensação tão comum de estar só. E a tarde vai caindo e procura no armário algo pra beber, a dor aumenta, aumenta e aumenta e depois explode num ‘SOCORRO!!!’
Corre pro telefone liga pra ex-namorada e diz “por favor não me abandona, eu só tenho você”
E seguimos cada qual nadando no poço de seu próprio umbigo.
A menina dos sonhos não veio. Não há espaço pra românticos neste mundo meu querido. Essa princesa que você espera foi comida pelos jacarés quando tentava fugir do castelo.
A vida é o que a gente faz dela.
Sai da torre e oferece a cara pro mundo bater.


André Luis Pontes, diário sem floreios 1997.

4.7.08

Quase topo

Na esteira das últimas leituras que tenho feito da poesia do Heyk, venho revisitando alguns escritos que lancei em 2006, com o foco, de então, de mostrar as possibilidades oriundas da sublimação da palavra, mostrar como a semântica pode gerar confusões que, na verdade, nem existem. Trilhos wittgensteinianos de então, dentro do parco compreendimento que tive da obra do grande filósofo.
Abraços a todos e presença !

- - -

O pouco que consigo tocar, Deus, como é frustrante estar sempre tocando o quase-topo,
aguardando a aprovação diletante do inexistente, como um baixo grave que entrará nos
ouvidos e nunca mais sairá, permeando sua tentativa na existência de fundo musical
eterno;
E tão geograficamente próximo da escuridão mais torcionária que pode haver, a câmara
estanque do absolutamente intolerável, a piração do incompreensível, do
semanticamente absurdo, como uma gota de eletricidade que num primeiro momento
não pode ser e num segundo momento, de assalto, coça o coldre para alvejar,
massacrante como uma incessante coceira de pena na sola do pé, o campo inteiro do
seu compreendimento, a coisa mais raiz que você pode carregar, comparável em âmago
somente ao toque da boca no seio da mãe.
E a dor mais aflitiva e pungente, o não ter como, o tergiversar, o derrubar dias como peças de
dominó, a torção do caule, a delação, o bug do milênio, ninguém atinge, ninguém sabe o
que é.
A um passo da plasticidade da mercadoria, a um passo do sol no quintal, uma grande noite de
12 anos, por estar tão perto e tão longe dos dois extremos, a noite do “a um passo de”,
a busca da chave do cofre que não existe – meu deus, pode algo ser tão diabolicamente
vil a ponto de não apresentar solução cognoscível?!
A má novidade – o seu limite do horrorizante está deveras mal-acostumado, o número irracional,
a incongruência mais severa, o negativo da segurança do dia-a-dia – estão muito aquém
do que sua pequena cabeça pode admitir.
É fogo no milharal, o necessário incêndio neurótico para conseguir voltar a caminhar, manejar a
cadeira de rodas com segurança, esta sim sua nova aquisição – não que precise mas o
desejo foi mais forte, o desejo da derrota rápida e indolor mediante o vislumbre da
chance zero da vitória, o desejo de ter o nome gravado pra sempre na insignificância
mais extrema, não incomodar nem ao nível da contra-indicação, ser uma bula de um
remédio inrastreável, fabricado por, interações medicamentosas, posologia,
medicamento fitoterápico tradicional, uso oral.
Um elogio – um novo sol. As pessoas são felizes porque são limitadas. Você, não. É tudo um
estado de espírito. O homem é fruto dos seus atos.
Sai, cara, sai dessa, exorciza, esquece todos os aniversários, não compra mais o modelo, sorve
a seiva da poesia sem te agredir, sem te mutilar com a concentração de sentimento por
centímetro quadrado. Toca a tela de cristal líquido, abrindo mais uma opção que nunca
será a derradeira, explode o labirinto com o brilho dos teus olhos, chora a lágrima mais
linda que a existência já testemunhou com a doçura dos teus olhos, sobe e desce, saiba
subir e descer, sorria por saber subir, salve o sorrir por saber subir, separe o “salve o
sorrir por saber subir” do truque métrico.
Tudo passou. É triste, mas tudo passou. Não vou me matar tentando permanecer na sua vida. O
triste mais intenso, o triste de te ver mudar, de não te reconhecer mais – esse triste se
avizinhou, o triste de perder a esperança, de perder a vontade de continuar seguindo, de
continuar te admirando.


(Do livreto "Reações ao Grande Absurdo - A Palavra", parte integrante de "Acontecente", lançado em 2006)

1.7.08

São Luís baby blue


O sorriso do gato ria alinhado as três marias
Ela os acompanhava com seus lábios de menina
e suas covas engraçadas.
Mas seus olhos traziam um fundo de tristeza.

Por buscas incessantes
Canções de despedida
e lágrimas contidas.

Naquele momento
A rasga mortalha varou o céu num grito.
Coruja branca talhando a noite.

Fenda de asas sonoras.

Acima do mercúrio
e do silêncio.

Maranhão, 2006 .
(Lua de fases, interferência digital, 2008.)

30.6.08

Feroz é o galo,
advento crucial da manhã.
Cruza de noite e luz.

Feroz todo mundo
dentro do mundo, feroz.

No bonde, no escuro às 6,
na padaria abrindo.
No raiar do poste elétrico, torturando o mendigo.

A primavera sonâmbula,
canhões crivados de sol.
O sideral volume espacial da aurora.
E teu cadarço frouxo, roxo,
amarrando tudo.

Feroz tua boca,
mordendo o ócio, travando o ofício.
Tua ferida cobrindo a falta.
O frio sem o lençol pra matar.

Feroz tua fuga desembestada,
tua verruga na cútis prata,
paupérrima tez mulata.

Feroz é a tv, cintilando na sala sem ninguém.
Teu pai morrendo no quarto.
Tua vó desenterrada.
Tua pá de ossos coloridos.
Teu filho viado.
Tua pasta de fígado de ganso.

Feroz é o pasto, roendo a terra.
A Terra tragando o pasto;
pastor comendo ovelha - prova óris do sistema.

Feroz é a tela, janela vomitando margem,
esconde-esconde à tarde.

Feroz é o galo,
rasgando a manhã.
Fantasmagórico trem amarelo,

fulgente,
advento crucial
do poema.

28.6.08

Passeio

Caros, de volta indefinidamente, saudoso destas páginas, vejo que o Presença cresceu em várias direções e manteve seus bravos pontos na poesia, com acréscimo de boa prosa vez por outra, novas trocas, novas pessoas, novas imagens (grande William!) e pouquíssimas lacunas. Quase dois anos de estrada, Presença. Avante!


Passeio


Em meia hora de procura tua
Rasgada, febril de suores
Inquieta de tripas
Olhei por você.

Quase te acho em Drummond
Perco teu rastro
por pouco
Na toalha úmida
No silêncio liso
No inverno mais frio.
Por pouco.

E lembro-me de ti no jardim
Vestido leve em paz com o sol
Abraço fácil de acordo
De toque, arrepio
Penumbra.

Mas não era o caminho.
Não houve o encontro.
Meu destino não foi o passeio.

Meia hora passou
Como tantas outras passaram
Por nós
Meus membros duros
Tuas curvas seda
Nosso cimo de tarde.

Passou. E eu
Num dos lados da cama já não procuro
Mas em versos
Te dissipo.

aos 27 de junho de 2008.

27.6.08

Pan

.........."Esse peixe é tão lento que até um sujeito analógico o pesca", menosprezou o cidadão-digital. Os peixes modernos, como tudo o que é contemporâneo, não dão conta das expectativas depositadas sobre eles – ou são as expectativas de hoje em dia que colapsam qualquer objeto de sua incidência, na medida da nanotecnologia e a ultrainformação condensada em uma impressão digital, acessível somente aos nervos, toda a cartografia de tudo que já se pensou em todos os segundos de todos os big-bangs desde o instante AA#B00345772-21.
..........Isto é obviamente uma piada, esta é a impressão que tenho, mas ao mesmo tempo é difícil, eu diria inatingível, se ver livre da correria que, quanto mais distante do epicentro, menos sentido tem. É um fenômeno de textura que, apresentando um padrão de mosaicos, na escala natural, revela imagens concomitantes em escala cotidiana, e se apresenta ao tato com sofreguidão e piedade, na escala macro, quanto mais macro, maior, por definição, e maior, linearmente, a palavra-semente, ruim, àspera, sobre a boa nova, que de nova tem o bilhar AA#B00345772-21 de anos.
..........A perdição e náusea vieram a galope para os visionários deste fato, os magros que andaram, andaram, andaram e andam, carregando em suas faces a face solta do fato dependente do tempo para ser fato; sem vértebras somos reféns da gravidade e não podemos andar para diante, talvez a condensação da informação e a rapidez que nos é exigida sejam a vértebra necessária – ou talvez a vértebra a mais que nos pune com um desequilíbrio do nosso centro de gravidade, quem sabe?, quem tem referencial suficientemente cósmico para afirmar? E aí estamos outra vez nos terreno pantanoso da dúvida eterna, eterna desde sempre, a contingência nunca utilizada, o continente pan, uno, a questão que nos é inseparável desde… e lá vem outra vez o "desde", o tempo, a informação, o labirinto, o desmembramento, pedaços cognoscentes de Deus e servos obedientes do Eu.

(Aos 18 de janeiro de 2006, parte do livreto "Acontecente")

25.6.08

Trecho do diário sem floreios

“Me beija, me beija”. Fazia calor, ela tava tão pirada que tava pondo os peitos pra fora na frente de todo mundo. Eu falei pra ela maneirar. Ela disse “Vamo lá pra casa, minha mãe só volta amanhã”. Havia mais de um mês que eu não comia ninguém. Mas eu sabia que se trepasse com ela tudo ia voltar, as mesmas merdas de sempre. Eu lhe disse “É melhor não” Soltou um riso debochado e gritou “ Não gosta mais da fruta seu viadinho”
Tive vontade de dar um murro na cara dela. Ela se agarrou no meu pescoço e ficou “Vamo, vamo” .Eu disse não e ela continuou. Aí fiquei puto e dei um empurrão nela, ela bateu na vitrine e se esborrachou no chão, tentei ajudá-la a se levantar, ela deu um tapa no meu braço e começou a me xingar. Pedi desculpas, ela ficou histérica, virei as costas e a deixei lá. Atravessei a rua e peguei o ônibus. Fiquei mal pra cacete, achei que tinha exagerado, mas depois me perdoei , ela já tava passando dos limites. Do meu lado se sentou uma senhora que começou a falar sobre o desrespeito que sofriam os idosos por parte dos motoristas. Toda hora ela me perguntava o que eu achava de uma das suas colocações, a última coisa que eu queria naquele instante era conversar. Gostaria que existisse a pílula da invisibilidade pra poder tomar nesses momentos. E ainda tinha a minha mãe me esperando em casa pra mais um sermão. Puta que o pariu, eu realmente queria sumir. E a senhora do meu lado continuava “Não é mesmo, não é mesmo” eu concordava com um riso sem graça que escondia a minha vontade de mandá-la à merda abrir a janela de emergência e jogá-la de cima do viaduto. Tava no limite, a qualquer momento eu ia explodir, cólera, raiva de mim, incompreensão,falta de perspectiva, ódio pelo rumo que as coisas estavam tomando. Fechei os olhos para um cochilo pacificador. Acordei com o trocador me sacudindo “Ponto final”. Só faltava essa. O ônibus ficou uns quinze minutos parado. Do lado de fora uma mulher apertava incansavelmente o botão de uma máquina de refrigerantes, depois de muita insistência ela conseguiu a sua latinha, tinha o cabelo tingido e usava um salto alto comprado em algum brechó, eu fiquei secando os peitos dela, sempre tive tara por seios, nossa primeira fonte de prazer. Os dela eram fartos , daqueles de encher as mãos, fiquei pensando como deveriam ser os mamilos, rosados ou moreninhos? Aí ela percebeu que eu tava olhando e fez uma cara tão feia que me intimidou, o motorista deu a partida, só tinha eu e mais um estudante no ônibus.
(...)

André Luis Pontes, diário sem floreios, 1997.

O louco

O louco, enfurecido, correu
Todas as direções. O agudo grito
Megadecibélico do ultra-aflito
Todos planos cognitivos varreu.

O insano, irrefreável, destronou
Sua consciência do seu próprio império.
Tarefa hercúlea! E, sem maior mistério,
Irou-se, sorriu, chorou, acenou.

Não coube em si, de algo que não sabemos!
Ficou triste, corou, falou de Vênus…
Dividiu-se em múltiplas reflexões.

Abriu, por fim, os braços e, solene,
Pulverizou sua loucura perene.
Diluiu-se em todos nós, grãos milhões…


(Aos 15 de junho de 2003. Poema integrante do livreto "Viver e Devir", de 2004)

21.6.08

Mar de agora

....................aa Lígia Pinheiro.

- - -

Tento te trazer para perto
E vislumbro a dificuldade
Das relações, as represas de vergonha que temos.
Sorrio pra acalmar e sorvo seu olhar benevolente,
De pessoa em paz,
Barco sereno no mar de agora,
Como é bom saber caracterizar um high,
Saber boiar no ar e respirar na hora certa,
Sendo esta a hora do corpo,
For a da zona do raciocínio.

Te toco num abraço
E sinto toda a bênção de toda área tocada do teu corpo sorrir-me,
Sinto fluir a cura do toque saudável,
Do ser em paz.
Estou contigo e assim volto à infância,
Apenas porque assim é o mecanismo,
Regresso e sou aceito outra vez no ventre
E te aprovo e também redimo
Teu ser à luz da grande ordem
Que nos permite ter tudo que necessitamos
Para apenas acontecer em harmonia.

E é só.
Buscar muito mais que isso
É afogar-se em labirintos;
A volta completa é muito menor que imaginamos até agora,
Suspeito.
É só ser.
E é só.


(Aos 23 de janeiro de 2006)

19.6.08

A quimera que atravessou o céu depois do ocaso

Gravura de Marcello Grassmann


A bruma brilha sob luzes de mercúrio
Esquinas silenciam feito filhos deserdados
O tolo acompanha no assovio o badalo da igreja
Quatro faróis no meio fio
Quatro bêbados sentindo frio

A mulher imita a louca
E dança nua
Ofertando os seios ao luar

Ela diz:
-Vem me amar São Jorge!
(ou seria mamar?)
Traz pra mim o teu dragão
Vem aquecer o meu sono
Me dê tua mão
E descanse tua lança entre minhas coxas.

E tudo passa quando adormeço
E tudo esqueço quando desperto
É vago e estranho o que sinto

A noite foi
Ficou o inverno.

2002.

Liberto !

No átimo outrora esfalecido
Do meu questionável juízo
Encontro agora estabelecido
O fluir que nestes versos friso –
O acontecer que eternizo
Ao sorrir para o que há de ser.

No labirinto outrora untado
De cosmopolita negrume
Encontro agora pincelado
Nas tintas do anti-queixume
O retrato perfeito do nume
Que faz viver e faz morrer.

Liberto! De saber inconteste
A decorrência do meu ato –
“És as escolhas que fizeste
Pela liberdade de fato
Que possuis – És homem, não rato
Na peça épica do vir-a-ser”.


(Fernando de Noronha, 26 de novembro de 2006)

17.6.08

Cleiber Andrade

Diluído entre os tantos versos mineiros, surgiu-me esta poesia de Cleiber Andrade, velha guarda, versos amorosos, suaves e românticos, como convém à tradição de poetas-não-poetas, ventilando o bem-querer e encantando as moças - no caso a dona Irah.
O poema chama-se "Desejos de Cleibe Andrade para Irah", mais preciso impossível.

- - -

Peço-te, amor, para ficar guardado
com muito afeto, num dos livros meus,
como relíquia, mimo requintado,
um cacho loiro dos cabelos teus.

E, se amanhã a vista me faltar,
(nessa desgraça atroz, valha-me Deus!)
cego, serei feliz só em tocar
um cacho loiro dos cabelos teus.

E se, mendigo, eu for pedir esmola
à tua porta por amor de Deus,
dá para uma alma que não se consola
um cacho loiro dos cabelos teus.

E, na agonia, quando tudo findo,
cair a névoa sobre os olhos meus,
com os lábios frios, tremerei pedindo
um cacho loiro dos cabelos teus.

Quando eu morrer, na minha sepultura,
(amada, atende estes pedidos meus!)
quero na cruz de pedra, inerte e dura,
um cacho loiro dos cabelos teus.


(Cleiber Andrade, MG, data desconhecida)

10.6.08

André Luis

André Luis é uma figura ímpar que parece saída de algum livro, o conheci no segundo grau, tinha eu então quinze anos e ele quatorze, convivemos juntos por um ano, ele é daquelas pessoas que basta uma conversa de meia hora para te deixar sem chão. Desses caras que te fazem crescer ,que vêem pra te sacudir, te pôr do avesso e partem te deixando cheio de questionamentos, um cara que aos quatorze anos dizia coisas que só hoje entendo. As últimas notícias que tive dele datam de uns quatro anos atrás, continuava sua vida de andarilho, tinha então 22 anos e trabalhava como barman em Montevidéu.
O texto abaixo faz parte do seu “diário sem floreios”, foram os primeiros textos que ele me enviou, escritos quando ele tinha uns dezesseis anos.
Como ele dizia “literatura de baixo calão”, algo como um cruzamento juvenil de Dalton Trevisan e Bukowski (autores que na época acho que ele nem conhecia).
Raiva juvenil numa prosa seca e de cortes bruscos.


Reveillon
Como um sorriso de dentes podres no horário nobre da tv. O incômodo. Algo que fedia no meio da aparente alegria do plástico brilhante e colorido. Toda espécie de párias, gente feia e solitária, bêbados e moleques de quinze anos balançando seus pintos murchos pra posar de iconoclastas. Mendigos cantando canções de verdade. Blues que vencia toda merda que era cuspida pelos autofalantes. Nem tudo era sol, algo de podre pairava no ar, algo que tentavam empurrar pra baixo do tapete. Voltariam pra casa trêbados, tocariam uma punheta ou chorariam, e alguns deles talvez dessem uma foda mal-dada e adormeceriam em seguida. E depois voltariam aos horários de empregados, ao esquecimento e ao sofrimento silencioso. Enquanto isso algum outro subiria num prédio bem alto, olharia para longe e soltaria uma gargalhada. Ou empurraria as paredes para o mais longe que pudesse e ergueria a cabeça na tentativa de engolir o máximo de ar que nos pulmões coubesse.


André Luis Pontes, diário sem floreios, 1997.

9.6.08

Flávia Motta

Trago às páginas do Presença a poesia de Flávia Motta, poeta de diálogo intenso e uma poesia tenra e repleta de recursos, permeada de nuances do dia (chuva caindo, tortas de limão, amores doces e vis - e "mis", se 1.000 tivesse plural!) e rimas abertamente gostosas e classudas, distantes das rimas fáceis que às tantas vemos por aí.

Como seria uma compra do mês, nos versos da Flávia ?
Como seria a descrição enciumada e forte da presença de outra fêmea ?
Confira em Cum Versare, o blog-marfim da moça (palavrasquecaminham.blogspot.com, apenas porque sou um ignorante em html).

Abaixo, o poema "T", um pequeno terremoto muito belo.

- - -

...............................A
..............................nu
.............................tua
...........................te leio
........................te escuto
.................tonta te remonto
.............é no corpo que te leio
........leio-te na ponta desta língua
..estudo a arquitetura do teu silencio
.......me desmonto em tuas letras
.........e me ofereço em sacrifício
.............................a ti
............como jogo de montar
.....teu quebra cabeça imaginário
.............teu tangram tátil
........................me tens
.........................te dou
............................tua
.............................tu
.............................T


(Flávia Motta, poema postado no blog "Cum Versare" em 13 de maio de 2008)

8.6.08

Recortes do tempo - parte V

Segue a parte final da reflexão épica "Recortes do tempo", do livreto homônimo de André Bentes. Cópias do livreto podem ser adquiridas mediante contato com o Presença.
Cerveja gelada e poesia de calçada !

- - -

Eu que aprendi com o passar da idade
que os acontecimentos reduzem-se a isso
Aquilo que eu vejo e o que quiser que eu sinta
Confesso cabisbaixo que não mais desejo
Sou cúmplice da vida ao dobrar esquinas

E sento nesse banco já extasiado
Reduzo um universo a mistério e química
E eis que o processo está encadeado
O que já foi sagrado agora se trafica
Os pajés pós-modernos até que cobram caro
O aroma da floresta cabe a quem respira

Em volta, espantado, sou tudo que vejo
Reflito-me na sombra de uma prostituta
Sou parte do processo e só me apercebo
Ao ver que a sua porta ainda esconde a rua

Um ato de coragem se tornou sorrir
Revoluciono o mundo pelas gargalhadas
Que dão-me o poder de criar imagens
algumas são sentidas, outras inventadas

Mas sinto certa pena dos que ainda esperam
Ao ansiar à morte que lhes traga vida
Espero estar bem morto quando enterrado
Sendo desnecessário uma despedida

O homem pensa por fazer história
É graças à memória que há o antigo
Sendo graças ao tempo necessário o mito
Deixando impressionado o que ainda é vivo.


(André Bentes, do livreto "Recortes do tempo")

7.6.08

Recortes do tempo - parte IV

De nada vale pôr-me à tarefa
De resgatar o que não mais existe
Se houve amor agora espero trevas
Percebo as coisas em sua medida

Pois nunca eu pus-me a andar
Sem pôr à prova o que dilacera
Jamais alguém viveu sem não matar
A pelo menos os eus que supera

Que é o tempo sem eu que destruo
As hastes pedidas pelo esquecimento?
Faço de minh’alma o meu próprio muro
Que pulo sorrateiro a cada momento


(André Bentes, do livreto Recortes do tempo)

6.6.08

Recortes do tempo - parte III

Incomodado estou pela existência
Por onde as coisas do silêncio falam
Vendo o processo do tempo me calo
Meio acuado a tanta violência

E tange o ranço híbrido que tive
Ao deslocar-me lúcido ao eterno
Herança minha deste instante terno
Ligado ao medo intenso de quem vive

Mas ao raiar a luz um pensamento
Sou obrigado a pôr-me logo ativo
Por ter certeza daquilo que crio

Como estivesse sob encantamento
Sendo por isso que ainda jogo dados
Incomodado por lentes de aumento


(André Bentes, do livreto Recortes do tempo)

4.6.08

Hércules

Miopizado pelas cifras,
Enrijecido pelo terno,
Acinzentado pelo monóxido,
Os lírios sem água,
Vivendo pretéritos,
Tetanizados os músculos
Pelo ferro das canetas,
Assinando os contratos,
Mineralizados os rins
Pela areia das lagostas,
Lances liquefeitos
Em negócios suspeitos,
Respostas polidas
De raivas contidas,
Em cada célula semi-seca
Semi-sem-voz garganta,
Aos berros nos bancos,
Apenas cifras e somas,
Comidas prontas,
Zeros à direita
Em inequívocas contas
Suiças setentrionais,
Salgadas e lacerantes,
Lanhando os mornos ventres
Dos brios tropicais.

Um épico. De aço.
Boca-hífen
No rosto branco.
Na manga de linho
O ás inequívoco
Da visita engatilhada:
A auto-bala certeira
Na cabeça arredondada.


(Macaé, aos 06 de junho de 2008)

3.6.08

Recortes do tempo - parte II

O que até aqui fora real
Jamais mostrado foi em prosa ou verso
Pois a estes cabe sempre o inverso
Posto que jogam ao vento um ideal

Prostrado está enquanto isso
O riso do ser ante a linguagem
Que faz do pensamento alguma imagem
Incapaz de retratar qualquer ser vivo

E no dorso dos motivos inventados
Impõem-se cavaleiros com as espadas
Fazendo jorrar sangue pelos prados

Trazendo um desejo de nada
Ao pobre do ser soterrado
Que roga... um copo de água


(Andre Bentes, do livreto "Recortes do tempo")

31.5.08

Recortes do tempo - parte I

Oriundo da geração de poetas que povoou o 9º andar da UERJ a partir de 2002, caracterizada pela diversidade de abordagem e profusão de idéias, André Bentes traz em seu último lançamento - "Recortes do tempo" - o poema homônimo de abertura, dividido em 5 partes (sendo as 3 primeiras sonetos) que irei postar aqui nas páginas do Presença, nos próximos dias.
O poema traz intensa reflexão, ora sombria ora mundana, sobre os recôncavos da existência

- - -

I

Confesso que desperto um certo nojo
Ao ver que a hipocrisia aqui impera
No lodo em que se vive, onde se espera
Que venha a se viver tudo de novo.

E põem-se a negar que suas trevas
São parte do que são, e luminoso
É o instante que se faz, como num jogo
Como no encontro vão de duas pernas

Ainda estás aqui meu caro amigo
Revela-te me então ao pé do ouvido
E isso provará que há o mistério

Mas enquanto retornar a luz que brilha
Limita-te a inspirar, depois expira
E isso mostrará o que é o eterno.


(André Bentes, do livreto "Recortes do tempo")

19.5.08

Ribeirão,pedras, águas e rodeios com ursos gigantes.

Acrílica sobre tela 2005.

Era um rio liso, mais que isso, parecia estreito e raso com suas águas de molhar canelas, mas era largo e profundo como um mar de ondas calmas. Com os dedos dos pés escrevia versos sobre as águas daquele córrego. Que tempo era aquele? Que tempo? E com a ajuda das pedras e das mãos de meus primos construíamos represas. Queríamos parar as águas, queríamos criar lagos, por algum tempo conseguíamos. Por pouco tempo. Depois as águas nos venciam. Então soltávamos nossos barcos de folhas e os deixávamos desabar pelas cachoeiras. Olhávamos nossas mãos , dedos de velhos enrugados. Ríamos.
Pelas pontes de troncos voltávamos, cada qual trazendo sua história mirabolante. As contávamos ao chegar, os mais velhos riam e também nos contavam as suas; o suicida que se enforcou e bateu com a língua no chão, o cigano do rabo de cavalo, (não dos cabelos compridos e presos abaixo da nuca, mas de cauda eqüina), e a que mais me fascinava, do urso gigante. Até então eu nunca conseguira vê-lo, sempre íamos embora antes dele aparecer.
Na festa de São João eu perguntava;
- E o urso?
- Ainda vai demorar, fica pra outro dia.
Me confomava pois o sono já era grande, e resmungava ao lembrar das três horas de caminhada que teria que enfrentar até chegarmos em casa, no caminho o urso gigante me acompanhava , pensava na sua cor, se era marrom, branco, preto...
Pensava: Como tinha ido parar um urso gigante no interior de Minas Gerais? Me diziam que tinha fugido do circo, desconfiava, pois nunca tinha visto um circo por aquelas bandas. Todo barulho vindo do mato me assustava, seria ele? Aí meus olhos iam se fechando, o sono chegava e de repente o tio Ilisteu me sacudia – Acorda menino, tá dormindo andando? Despertava, nesse momento já tinha esquecido do urso, provavelmente ele também já estaria dormindo. Aí era contar os passos pra continuar acordado, assoviar pra chamar as corujas (que nunca nos atendiam) e ouvir histórias de lobisomem, até avistar a porteira torta e abrir um sorriso pro sono tão desejado, então me deitava no chão de terra batida da cozinha, e ficava a olhar os resquícios de brasa no fogão à lenha, e via na sombra que as chamas criavam um imenso urso, derrubando todos aqueles que o tentavam montar.

sem data.



Entre o vivido e o sonhado, o visto e o ouvido. Passeando por pontes de madeira sobre o rio dos dias, entre as margens de ontem e hoje. Recriando para não esquecer, mantendo vivo.

15.5.08

Atol

Sonho-te e nas brumas recendes

......................
O perfume assustador de quem

......................não está.

De quem ferve a doce índole do que fica

No fogo frio de um verde glauco;


..................................................Seco a testa de uma febre rica
..................................................Evaporando num amor incauto.


Transluzo nos olhos a minguante lua

...................Em gotas que se perdem nas bochechas,

...............................................Traduzo o silêncio dos que se esvaem


................................No gelo triste de um amor sem filhos


...................................Que justifica as lágrimas que caem
.........................................Na natureza dos andarilhos.


.............................................Fora dos trilhos, refrões vagos,
..........................................................Nesgas de versos sem legendas
.............................................Num amor fora de época,
.....................................................Encarnado. Dessemelhante.

....Vibrante mas... dissociado.



(Rio de Janeiro, aos 13 de maio de 2008)

12.5.08

Destilado

Above deep waters, pintura de Hans Hoffman



Então caminho trilhos
por fora.

Invado as janelas que meus olhos alcançam.
Visito livros, cinemas, multidões, horizontes de praia,
num qualquer coisa de esquecer-se.

Os dedos batucam impaciência.
Em bancos de espera,
pelo toque esperado que não toca.

Laço bondes.
Devoro ondas.
Crivo olhos a dentadas nas nuvens (que parecem dragões de lata).
Assisto almoços de família.
Desdenho pingando numa pontada
misto de ira e inveja.

Choro escondido
ao ver dois enamorados incrustando corações a canivete
na pele dura de uma amendoeira.

Rompo o azul , abarco o amarelo, comungo em vermelho.
Num relâmpago,
num vôo
entre os píncaros da euforia e os pastos fundos do abismo,
trezentos e sessenta e cinco anos ao dia.

Repiso o chão
onde os pés eram pares duplos .

Você pode estar na rua paralela
passar dois minutos depois ou uma curva acima.

Desencontro dado numa fração de segundo.

O presente- ausente trinca devaneios na minha ânsia.
Enfileiro um milhão de motivos
Trago rancores enumerados,
mas basta uma lembrança de sorriso e tudo se dissipa.

Em excesso de ti me afundo.
Adentro mares
estrangulo sereias
ofendo netuno
estou surdo.

E volto à terra arremessado contra as pedras.
Retorno ao dia da semana
ao passo calmo
a quase aceitação.
Até ser renovada a procura...
Até um novo mergulho atrás de um aceno
que já não diferencio se sonho ou realidade.

Embriaguez tumultuada,

O quase transe do inóspito.


E quem pode calar o irremediável chamado do coração?


Abril de 2008.

10.5.08

O touro e o toureiro

mais um soneto do "poesia pra toda obra", este um tanto sádico.
abraços a todos !

- - -

O grito uníssono, a arena repleta
E o toureiro adentra, em tom triunfal –
O implacável verdugo do animal
Insano: o touro, que a festa completa.

Chifres imensos, anel no nariz:
Por um instante o toureiro tem medo;
"Matando o touro, confirma-se o enredo;
Morrendo eu... um final infeliz"

O touro arranca em fúria hiperbólica
E, como uma ironia diabólica,
Rasga ao meio o amedrontado toureiro.

E a platéia, ensandecida, se apraz:
No fim, a tragédia nos satisfaz
Quando o próximo sucumbe primeiro.


(Rio de Janeiro, aos 01 de junho de 2005)

6.5.08

Limite

Virar para um lado
virar para o outro.

O atrito das costelas
o atrito das idéias.

Virar uma página
virar outra.
Um lado do disco
depois do outro.
Desejo de consolo,
desejo de calmaria.

De presente
suor e ranger de dentes.

Vira um copo
vira outro.

Buscar em todas as filosofias
Vasculhar no íntimo.
Pendurar fantasmas
Debater com o sórdido.

Esquiva-se
pra não se ver vestido do que recrimina.

O medo desce na penumbra
lento e decidido.

E ainda pode se levantar em fuga
ainda pode correr
(e quando não mais?).

E chorar e praguejar...

Ter os olhos vazados pela claridade.

A poeira baixando.

De repente
a realidade curvilínea que ofusca.

Encara o corpo nu no espelho.
Vira o rosto.
Procura por qualquer máscara que lhe cubra os olhos.

Dúvida
receio

Vontade de se encontrar
até se perder
e novamente...

E o desejo de afastar pro lado
o riso mesquinho que a cara pintada não esconde.

Ou a expressão débil que a fotografia lhe rouba.

E vê a pele cair
e tenta retê-la.


Os pés no trampolim
Momento sem desvio.


É a dor da mudança.
O salto no escuro.
Ponto culminante
onde não há recuo.

Abril de 2008.

Brisas

Pintura de Jack B. Yeats


Andei relendo alguns poemas que o Rafael me enviou há algum tempo e me deparei com este, brisas, um poema carregado de sensações e vivências comuns a todos nós. Um poema de passagens e ausências mas também com espaço para “o centeio bom” em meio ao “trigo estragado”. Brisa em dias de pés no chão.

“não somos mais que brisas! Tênues, estúpidas e frívolas brisas...”



Vão-se as coisas
palavras e suas pessoas
nelas encarnadas
nada resta
e vão apagar a lousa
a palavra amor escrita às pressas
deverá morrer no verde escuro
e os teus olhos amor, que absurdo!
pularão para fora do tempo
onde estiveram tão atentos
agora sós
tão cabisbaixos dentro em mim
Vão-se as coisas
os carros alegóricos - fantasmas d´uma vida
passagens solitárias nas ruas daquele filme
você deletará os e-mails,
apagará as mensagens,
e as fotografias digitais
que pesavam tua caixa de entrada
mas existe o centeio bom e o trigo estragado
para acelerar a perda, aquela perda estranha
que não se sente e só nos resta o ausente
a falta que parece estar doente
bebericando alguma sopa rala
falseando os dentes,
e os leões de nossa culpa
sob o castanho sol africano
ai, meu bem... não somos mais que brisas!
Tênues, estúpidas e frívolas brisas...


R. Elfe, sem data.

4.5.08

A brisa cisplatina

Segue um poema de 2005, que foi publicado no livreto "Poesia pra toda obra", lançado em outubro de 2005 em co-autoria com Vinícius Perenha.
Exemplares do livro encontram-se à disposição pelo Presença, a quem interessar possa.

- - -

Sibilou triste, a brisa cisplatina,
Varrendo as planícies continentais;
Os demais fenômenos naturais
Estranharam-lhe o choro de menina.

"Que tem a brisa?", perguntou a aurora.
A chuva respondeu "tem querer trágico
Por furacões, um amor hemorrágico
Por sopros que carregam tudo embora",

Que varram tudo e lhe levem também
Pelos raros e rubros céus do além,
Suspiros de mocinha apaixonada.

E advêm suas lágrimas do tornado
E de seu status de recém-casado
Alhures, com outra qualquer soprada.


(Macaé, aos 01 de junho de 2005)

1.5.08

Príncipe Míchkin

Aproveitando o ensejo do post #250 neste Presença e a iminência do lançamento do meu décimo livreto - "Iuri Gagarin e outros poréns" - posto aqui um poema inédito, que estará no livreto novo.
O poema é uma alusão ao protagonista do livro "O Idiota", de F. Dostoievski e a sua generosidade e ingenuidade, vistas aos olhos de todos como a mais pura idiotice, imbecilidade.
Abraços e presença !

- - -

Um coração enorme e generoso,
Uma bondade ingênua,
Digna de nota
mas eis que aos olhos todos
não passas de um idiota,
benevolente e gentil,
motivo de riso –
Uma anedota!
Sem jeito e indeciso
que a todos queres bem…

......................Ah príncipe Míchkin…
........................Fosses tu a regra
..........e quantos não responderiam por seus atos,
.................gananciosos seriam escassos.
.....................À tua renúncia um ode
..................pois seríamos irmãos de fato,
...................riríamos de inteiro corpo
...........e pagaríamos nossas contas e extratos
...................com calorosos e genuínos



...............................Abraços.


(Rio de Janeiro, aos 24 de janeiro de 2008)

25.4.08

O Mekong e a pequena menina lao

filhos da viagem ...

- - -

A passos vacilantes
a pequena menina lao
desce de encontro ao Mekong;

em seu interior
orando a Buda que lhe ampare
entende que mesmo as calmas águas
da Pérola da Ásia
lhe são ameaçadoras.

A passos decididos
molha os pés na turva água
que boas-vindas lhe refresca
e lhe oferece
uma pequena flor de lótus,
vinda na correnteza,
sabe-se de onde.

Podia ser do norte
ou mesmo de Burma
ou mesmo da China,
flutuando forte
com o intuito quem sabe
de regalar, gentil,
a pequena menina lao.

Os ninos olhos de amêndoa
avistam a bela flor
que se aproxima,
alvoroça-se a pequena menina
deleita-se com a visão
da inesperada pérola
que vem lhe ter
aos joelhos imersos –
que a esta altura
a pequena já refrescou os pés
e adentrou até o limite
de seu delicado equilíbrio.

A pequena menina lao
resgata a flor
e diz “ korp jai lài lài ! “
e o Mekong se vai
infindo em seu curso,
enorme em seu encanto,
milênios de fluxo
abençoando a Ásia.


(Siem Reap, Cambodia, aos 01 de abril de 2008)

Agora 2

Um poema do Rafael sem meio termo. Um esbravejar de amor colérico, num cenário que varia das explosões cromáticas ao preto e branco, como cenas nonsenses de um filme de Buñuel .

"Agora 2"

Já ninguém mais lhe espera
filas de hospitais, reservas de restaurantes.
Ninguém mais te ferra!
Que passos de piolho burro!
Agora amassa o cão,
amai-vos vocês tão vãos!
Já ninguém mais te deseja assim
era tarde tão tarde que amanhecemos
Ninguém nas fotos abraçando-te
nem aqui, nem ali, nem em mim e nego.
E agora?
Que idiota vai te sorrir sempre?
Que imbecil vai te telefonar pra ouvir a tua voz - apenas.
Quem vai querer ver tua bílis golfada?
Quem vai arder por ti num inferno diário?
Quem vai vender tuas vendas tuas sendas imaginárias de algum porto lúdico
das tuas mentiras escrotas?
Quem vai ser o seu escroto e dor quando te chutarem?
É o amor meu bem!!
Quem vai vomitar tua cara no meio da sessão,
e levantar sorrindo suas pernas para lhe meter um taco de baseball
colorido te fazendo um filho?
Quem vai dizer que te gosta tanto que merecia uma vagina de cólera e
ligaria um fusca com tuas remelas vivas?
Sou tão inocente amor! Veja...
Aqui desenho tua goela.
Aqui marco tuas unhas... quero ser um santo!
Você trastejaria outras canções
não as minhas!
Quem te enfeitaria de músicas?
Compra outra moléstia... as minhas terminaram.
Quem?

R. Elfe , sem data.

22.4.08

Água lisa

Interferência digital sobre técnica mista, 2008.


Desce o riso pela nuca
Numa linha curva
E repousa entre a brancura das costas
E as coxas em que me deito

Levante de cílios
Abraço de mundo em fim

Canto de boca

Olhar úmido

Música de ponta de dedo

Nome em sussurro deslizando pelas orelhas

E sobre a mesa
descansam juntas as mãos

Entre os pratos dos nossos quereres.

2007.

18.4.08

a peste

the third hand, 1947- pintura de Hans Hoffman


Há algum tempo atrás reencontrei-me com os rituais de ver e olhar, e fiquei com alguns versos do poema a peste ressoando em mim, "não há esperança sem dor" e "só há o que se ama e o que se pode desesperar" são bons exemplos de versos certeiros deste que considero um dos melhores poemas do livreto. Assim como o último poema do Vinicius publicado aqui no Presença pelo Isaac, o título do poema também faz referência a um livro de Camus.
Consciência e revolta a favor da vida..

a peste



Somos todos assassinos, minha filha.
Só nos restam pequenas escolhas,
matemos portanto,
só os heróis.

Quando sabe-se muito,
e eu sei,
não há salvação,
não haverá salvação,
meu amor.

Mas trabalhemos na cura,
sem distração.
Cuidados com a contaminação,
felicidade sem termo, nem medo.

Os muros vão se abrir um dia,
Mas já está tudo aqui,
ao alcance.

Não posso esquecer o que amo,
nem um instante,
nem um momento,
não há esperança sem dor.

Eu e o flagelo
nos aproximamos demais.
Vi meus olhos vazados,
perdi a fé.
Não há sono nem descanso.
Só há o que se ama,
e o que se pode desesperar.

Vinicius Perenha, Rituais de ver e olhar, 2003.

15.4.08

Aos olhos verdes


Quisera eu há tempos

Ter aquilo que agora tenho

E um tanto acanhado de tanto contento

Ao incompreensível agora ascendo

Qual mal assola o fanfarrão?

Qual suposta força eu tinha até então?

Ao supreender-me a cada lance que te vejo

Furto-te minhas vistas por receio

De tão bela imagem que recebo

Venha a ser tudo aquilo quanto almejo

Sou então um barco - um bocado torto

Que da tempestade chega ao calmo porto

Desorientado e pouco descontraído

Acanhado como hóspede - com o ego reprimido

Não tenho medo de falar-te

Do quanto estou contido

Quero-te tanto!

Desejo-te!

Então, por fim - que tudo tenha

Qual não é o verniz que se acabe e mostre a vil madeira?

Da qual sou feito e não se empena

Quando exposta calma ao seu sereno

CONFESSO-TE

SINCERO-TE"

14.4.08

Visitação e enterro do eu ausente


Pintura de Milton Jeron

Visitação e enterro do eu ausente

“mudamos sempre mudamos para trás e para a frente sem fim à vista
não há memória memórias só há coisas que mudamos ou inventamos.”
Carlos Alberto Machado, Mito.


Amanheço
Atravesso pontes entre lados opostos

Banhos de sal

Mergulhos de chuva

Noites de agosto sem beijos de lua
Um edredom de nuvens sobre a cabeça

Véu de paisagens passadas
entre árvores de calçada
na calmaria das casas mudas
onde os cães preguiçavam de latir

Tardes de diaristas limpando vidraças

E zeladores com seus rádios de pilha.
e seus ouvidos de ouvir o mundo

(e olhos de regar canteiros)

Prédios de janelas adormecidas

Folhas secas sentadas no balanço enferrujado
Caminho com o movimento do mundo no peito
Paro em respiro
Colo as costas ao banco da praça
com os olhos ao alto
Sob uma árvore de cinco mil dedos
me dizendo sombra

Vaza por entre suas mãos
um céu azul de fogo

E assim me ponho
paralelo aos meus mortos
e os aceno em despedida

Pra que repousem serenos
no esquecimento preciso.

Abril de 2008.

"Últimas palavras"

Os meus?
Maus poetas!
Não andam por aí cobrindo falhas.

os amantes da escura escuna, de esqueletos,
vossos esqueletos, mortos - afundemos no verão.

os que não vieram,
não tiveram amigos ao redor farfalhando asneiras,
senão fantasmas de amigos que não existiram,
e a caveira de Cristo, senhor de todos nós -
mesmo que não queiram.

que não vieram, como Cristo,
mas amaram e morreram mastigando um ódio sujo de luz.

que não ousaram estradas turvas
pra dizer que foram turvos;
mas turvaram cada estrada marcada por seus passos
e desapareceram com a chuva.

que não deixaram de marchar pra morte
uma vez se quer, em toda vida.

e não escreveram poemas fáceis,
mas sonharam ser poemas fáceis.
e escreveram livros de porta de escola
desvendando os risíveis "poetas"
que facilmente se confundiam com poetas,
mas estes, jamais serão medíocres.
(não falo de pessoas que escrevem)

que não rimaram para não se assemelharem aos bons,
e rimaram pras urnas onde depositaram seus dedos,
com toda a maldade que Deus lhes oferecia.
e foram rimas inteiras, no sexo, nas traves do paraíso,
nas marcas da peste, nas antigas urticárias do espírito...
mesmo sentindo a maquinaria verbal enorme
e em segundos explodia, mil palavras iluminadas,
já rimava então, mais que vivia.

que falaram de Deus como uma força mágica
e tocaram Deus nas colheitas e nos invernos escuros -
e ninguém admitia, mas contaram histórias pequenas,
contra os pedaços de cabeças sitiadas.

foram deuses em cada inferno que inventaram
mas sempre com olhares venenosamente livres.
e jamais penderam da genialidade,
e da crença na genialidade.

e cogitaram duelar com qualquer um
com espadas de feno, olhos de tinta vermelha,
que chamaram todos para ver na lua seus escritos
e ninguém enxergava,
ninguém mais alto que eles.

que nebularam próximos,
tão próximos que morreram por longas distâncias.
e jamais saíram de casa;
e cuidaram dos irmãos, da mãe, das paredes...

Não ousaram brincar do que chamavam poema,
mesmo a pena mórbida que levaram até que o céu,
deitou sobre seus devotos ídolos.
que pisaram cabeças, que beberam cabeças sitiadas - novamente.

Os índios do oriente!
As crianças assombrosas!
nenhum deles fez com que o amor rejuvenescesse
mas optaram por navios de verdade, sem oceano algum.

que sob cascos e rascunhos de sóis, engendraram o cio real.
que foram os melhores amantes, com olhares de partida
que nunca ousaram suspender seus dedos temerosos contra a musa
dela, todo o ar que lhe faltaram, quando deixaram os primeiros
nacos de terra sobre os seus olhos.

Enfeitaram, queimaram e morreram, tão felizes...
agora, onde as flores gritam seus nomes esquecidos, escrevem poemas coloridos
acreditando e fazendo com que as cores sejam louvadas.
Qual de vocês pintaria uma flor?

13.4.08

A queda

um clássico de uma época de precisas penas do Vinícius, "A Queda" tem seu próprio cartão de apresentação.

- - -

Velocidade, vertiginosa decadência das fibras.
Os dejetos do homem,
prendem-se aos dedos
que acenam um último adeus...

Desmembrado garoto,
seco, sem lágrimas.
Arremessando memórias em fúria
contra um rosto envelhecido, e olhos opacos.

No fundo, o grito que antecede o derradeiro respirar, confunde-se
ao som de ossos partindo.
Desespero mudo,
infância,
memórias.

A carne berra a dor do consumo,
Os vermes (daqueles que riem) consomem.
A morte, e seus malditos minutos.

Salve a manhã!!
A louvável realidade do agora!!


(Vinícius Perenha, do livreto "Rituais de ver e olhar" lançado em 2003)

10.4.08

Brisa

A ponta do carvão arranha o papel em branco.
Madeira queimada desenhando em atrito.

Esboço de rosto em perfil
Batizado com sombra de verão.

Sol cru
Flor de cacto
Ou
Ipanema colorida de realidade photoshop
Com suas ondas desnudando seios

Perfeita visão do paraíso.

Do outro lado do asfalto
Cipó seco.

E dama do lotação

Te arrastando avenida adentro
Pro seu sagrado inferninho de cada dia.


Abril de 2008.

7.4.08

Re-feição

Devido ao sucesso da estréia da Carol no presença, posto aqui mais um pra mostrar que ainda há muito mais pra ser lido.


Sai o sapo da garganta
para devorar a mosca
que entraria em minha boca
já mais fechada
fachada para o medo de cantar
fichada na polícia da palavra
pois, mesmo muda,
não consigo me calar
diante da beleza ab-surda
deste seu olhar
que me fita com laços
com lapsos
- COLAPSO! -
e com lápis aquareláveis colorindo a lagri-mar.

Paixão que me alimenta
- alho, menta...
E você dando sopa
de meia-tigela
prá minha mosca pousar
ou para o sapo entalado
se a-brigar
no seu brejo breve beijo
de boca entreaberta
e soltar
o soluço salutar
a(s)saltar
roubando o silêncio
e segue o sal do olho cego, em pranto,
temperando a fluidez do paladar
- com louros louvo!
Pois, para nutrir meu canto,
eis asuafeição,
de novo...

Carolina O.

5.4.08

Estrelas

Te vejo
E as respiracao te ve
Pois que suspende
Sua calma atividade
Para ver-te passar
E em seguida ferver,
Ofegar
Sem pedir permissao,
Corar-me a face,
Esperar que passe
Sua musa-estimulo;

Nevasse estrelas
Menos me impressionaria
Pois que tu es luz
(Que mais serias?)
E estrelas a tua volta
Apenas mornas calorias.


(Cidade de Ho Chi Minh (Saigon), Viet Nam, aos 4 de abril de 2008)

1.4.08

Cantiga pra ninar tubarões


Litografia de Darel Valença


Sua embriaguez derrama delírios
Delira palavra.
A mão receia
Anseia.
O lobo feroz se solta na madrugada.
Rosna.
Canino à mostra.
Agarra decidida
Põe coleira de dentes.
O suspeito se confirma.
Aceita seca investida
Planta-flor-carnívora
Que pede mais e não sacia.

Fevereiro de 2008

Inebriante

leitores e poetas do presenca !
aproveitando a escalada no nosso rol de leitoras e ainda na serie de sucessivos poemas romanticos que aqui tenho postado - hora perfeita de lancar o "inebriante".
abracos a todos !

- - -

Era virgem.
Atè que, no limite,
Explodiram-lhe os hormonios.
Que libido resiste
Aos doces demonios
Clamando por sexo?

A primeira estocada
Abriu-lhe, dolorosa,
Os grandes làbios, inchados;
Tìmida mas fogosa
Gozou como se em guerra.

Estocou no ventre o fèrtil leite
Do macho que lhe fodeu
À alta madrugada;
E as gotas que lambeu
Da quente rola, jà cansada -
As poucas que sobraram.

Femea inebriante,
Linda mulher e jà completa,
Os bagos rocando-lhe as nàdegas,
Cadenciando a foda seleta
Dos gozosos e amantes seres,
Ofegantes nos tantos prazeres
Da còpula, de amor repleta.

Jà sem ar deitou-se, jeitosa,
Acomodou-se no peito parceiro,
Suspirou com uma graca felina
E fez-se um sonho fagueiro -
Total triunfo da Natureza,
Femea prenhe e feliz,
Em sua voluptuosa beleza.


(Siem Reap, Cambodja - aos 01 de Abril de 2008)

29.3.08

Gracil

caros leitores,
perdoem a acentuacao, eh simplesmente impossivel achar os acentos nos teclados daqui.
abracos a todos !

- - -

Bela como um momento de atencao,
de um arqueiro mirando o alvo
em absoluta concentracao;

Gracil como um trabalho concluido,
a certeza de ter feito o melhor -
um dever cumprido;

Forte como a fe inabalavel
mas leve como o ar que respiro:
embora nao me pertenca,
preenche-me no ciclo de minha respiracao,
na frequencia em que existo;

Fiel como o esforco
e doce como a vitoria -

Pensando-te sou forte,
Desejando-te sou uno,
Amando-te sou o proprio amor.


(Vientiane, Laos - aos 29 de Marco de 2008)

haikais casuais, parte 4

Luang Prabang, relaxada,
Beija o milenar Mekong,
Desdobrando-lhe a tarde abafada.

25.3.08

Apresentando Carol

Menina de olhar manso, sorrir quase mais manso que o olhar, junção matreira. Mescla de interior e megalópole; soluço e espanto em palavras afiadas, dentes em sílabas concisas. São-dalos em desconstruções humano-geniais, que me fizeram correr atrás, e corri suave, por essa existência candango-carioca. Em seu istmo poético virtual, vislumbrei vários poemas e afrescos que eu mesmo já quis escrever de alguma forma, ou simplesmente dizer. Por esses e outros mil motivos que ainda hei de descobrir, faço dela as minhas palavras, nesse pequeno halo de luz meio anti-ambi-ente enfumaçado, pois: "- o que se solta pela boca / despolui o coração."


"per-FUME"

Se já não quero viver
vem a fumaça
e consola
a respiração.

Sem um vício
é mais difícil...

Escândalo,
ex-sândalo:
fim cinzento da paixão.

Baforado,
esbaforido.

SIM:
perturbe
&
per-fume
o ambi-ente querido
- o que se solta pela boca
despolui o coração.

leiam mais em: http://engolecarole.blogspot.com/

24.3.08

Contraponto

'As margens do Mae Nam Chao Phraya
Quisera jamais acordar deste sonho
De lembrar-te e tecer, risonho,
Mil venturas de nossa doce historia
De alvas nupcias 'a vil memoria
De mais um despertar sem te ter -
'As margens do Mae Nam Chao Phraya.

Aos pes do Wat Phra Keaw
Quisera largar minha toxica pena
Que ja sozinha te versa, morena,
E o opio destes versos tailandeses
Me inebriam repetidas vezes,
Quixotesca figura, respiro o incenso -
Aos pes do Wat Phra Keaw

Aos nao-desejos redentores de Buda
Contraponho, doente, meu desvario,
Rezo-lhe a ti mil preces e sorrio
Sorvendo estas sidarthicas calmas,
Planando na fusao de nossas almas,
Fervor shakespeariano que apresento -
Aos nao-desejos redentores de Buda.


(Rio Chao Phraya, Bangkok, aos 24 de marco de 2008)

20.3.08

Fabuleta

Estava no centro
pra onde convergiam as estradas de mão dupla.
Caiu de pára-quedas,
sem lembrar de onde vinha.
Era meia noite,
queria meio dia.
Descascava laranjas com um canivete enferrujado.
Uma após a outra
as frutas se mostravam apodrecidas.
Já havia descascado uma dúzia
e ainda insistia.
Ficou sentado pensando em qual caminho se arriscar.
Num seria rei
mas só havia um rainha.
No outro tinha sombra
se cansaria.
No outro sol
torraria.
Pensava em um e lembrava-se dos tantos outros que não teria.
Pensou
Pensou
pensou
Veio um caminhão e plaft.

2005

19.3.08

Valter Di Lascio, sempre

voltando às páginas deste "presença", Valter Di Lascio derrama sua redenção e seu idealismo andarilho. tenho encontrado verdadeiro alento nos versos deste poeta das antigas, que colheu os frutos e os espinhos de uma vida que sempre foi e ainda segue na estrada - ou nas estradas, porque como diz ele "pode me chamar de meio-fio; mundo temos dois: o de vocês e o nosso".

- - -

O novo liberta-se

De que adianta a vida
..........se não houverem riscos?
De que valeria a faca
..........se não cortássemos os artifícios?
De que adiantam as verdades empoeiradas?
Um palavrão preso na garganta
Um fato que poderia ser
..........mas ficou preso nas artimanhas
..........dos velhos grilhões
Com agilidade felina, o novo liberta-se
..........jogando-se da janela do sanatório.


(Valter DiLascio, do livreto "Biscoito com champagne")

15.3.08

Louco por ti

Escrevo-te flores
Planto-te versos
Fundo-te um quadro
Pinto-te um anel
Troco tudo
Louco-me os pronomes
Faço-te nuvens
Napoleonicamente apaixonado
Choro-te mel
Só pra te alimentar
Seco-te os olhos
Quando me vês caso perdido
Nadando em poças
Um soneto por hora
Um louco por ti
Mas doido de pedra
Inamável de tanto amor
Sorvete na testa
Insisto-te rimas
Destilo-te beijos
Esculpo-te estimas
“Toma toma
tudo para ti !”

Sorve-me
Acolhe-me
Conserta-me.


(Aos 14 de março de 2008)

13.3.08

Ver-te bis

Cá no mar
dias como peças de dominó
que surgem, cadenciados,
asiaticamente iguais,
vão pondo-se, glaciais,
e em fileira são tombados

Conto-os para ver-te nova vez
em tuas nuances sutis,
a expressão que tens nos olhos,
a matiz alva de tua tez…
conto-os para ver-te bis.

E se teus dias me põem à parte
ou aproximam-te ainda mais –
que febre me responde ?
Cingo-te em doces sonhos,
o frêmito da lira romaria
latino-minha de dedicar-te
esta nina e simples poesia.


(Rio, Aos 13 de março de 2008)

28.2.08

"Minha festa"

Há uma festa - já me devora,
vem na brancura dos que há muito não sinto
é toda dela a dor que me aflora
e a canção sem tom que só, danço em labirinto.

Da vesga fome me acelera
em andar pálido desalinho
ruindo em gracejos de marujo magricela
ao ar vou devolvendo bruto o carinho.

Sou dela o vão dos que mortos cospem
o dourado feno de um sol que nasce
deles, túmulos, por mais que mostre
mil vielas medrosas queimam na face.

Das palavras às palavras - minto
essa festa é o sangue todo deitando
vãos teus cães me adornam afoitos
como estrelas num céu de orelha e brinco.

A morte nos iguala - e sabes
que teu amor, rogado assim só,
não é regaço
precisa dos outros
e de muitos outros tantos
pra tornar o mover-se em amor,
desses que movem
e batem no peito, pra ser amor daqueles,
sem prantos.

(25 de fevereiro, 2008)

20.2.08

A matéria da noite é roseiral desprovendo cheio da noite e da rosa lilás que a oração mapeia
os olhos cegos deitam-se irmãos, mas são cavalos magros de caras vesgas
a matéria da noite não se topa, nem se golpeia
reluz como reluz o escuro dela dentro dela, pra outros escuros
como adentra o tempo sobre ele e pra dentro dele, cheio de incertezas e ponteiros pingando
comendo noite, sorvete, travesseiros...
a matéria da noite ao relento serve escada ao céu que gira
é o fantasma da mulher que foge e pira, aos berros ateia fogo nos cabelos
a matéria da noite vem do leite que bebem cedo no café, cheio dela com o cheiro deles
a feira que explode às quartas naquela rua pequena-subida
pira que acende as estrelas, a matéria insalubre
a matéria em desvãos dela que é a sina de ser densa-escura
não há medidas entre a luz e os homens, as cidades escondem-se nela
a matéria da noite é hipocondríaca, maníaca que repete nomes
é a irmã do filho que foi pra são paulo roubar crianças, os rins que florem
e na absurda e completa vez, a vez dela é de ser matéria e descer sobre tudo
travestindo em noite os segredos mais surdos
a muda ossada que envenena em fumaça dos canos que largam em nome de cristo
espinhos de matéria da noite, a testa que deflagra o culto
dançam irreais, carnavais de vampiros - comendo corrimãos sem luz descendo do décimo sétimo
amanhecendo na calçada, sem nenhum cometa de saliva
comentando sozinho no ouvido da manhã os silêncios que os olhos amaram
na matéria da noite trituram-me, dela aventuro qualquer volúpia
nenhuma réstia na boca do ácido da noite violenta que espera, a matéria
da noite é sedenta dela, a sede mais cã-dela sem peias
na veia sufoca um delírio que ela chupa, paixão ardendo em becos
ela resoluta, matéria da noite, da noite que não tem matéria, por não ser nada
fenômeno dos astros, hollywood de mentira, mas que morreram jovens
com suas cabeças de índios nos espelhos da rua 42, ondas de suor santo
e a matéria da noite encavalada, regurgitando fálica do jazz morto em setenta e três
e morrendo nos seios jovens entre os cassetes feéricos que provém os guardas
qualquer arregalada de olhos pode ser eterna, fuligem, eterna, matéria
a noite não se presenteia, não vaga comigo, me beija cheia de ódio, defendendo sua boca
rasteja no caesar park da avenida mil e três de acesos olhos de guria pedindo um troco
devotos de qualquer santo, a puta na parede fazendo cara de matéria da noite
o preto vendendo branco, o branco pagando o preto, o preto ascendendo
rádio patrulha da noite de matéria ipanema, de matéria copa, travesti e cinta-liga de ferro
matéria de noite no dente que cospe o dinheiro cheiro de cerveja e pólen
de aurora quente adormecendo na areia da praia da matéria da noite sacolejando
as redomas de estrelas da matéria da noite frias, desejando nunca o eterno pra sempre
que dançam nos filmes americanos quando tudo dá certo, beijando com os ombros
metralhando fotos cheias de pedaços de carne, com os cérebros ocos de carro e fama
a fama que ditam os celeiros de molestadas mentes, matéria de noite em jornais
anais da coisa negra que fazem nascer, brotando flores de forca e jardim de guimbas
matéria da noite em casas novas, interioranas, cheias de vida, cheias de tantas coisas cheias
matéria da noite nos comendo, varando especulações irradiando especulações nas bolsas do mundo
matéria da noite morta, na porta do empório suicida, rostos pacientados, ornados de merda
matéria da noite morta, nas costas da faca que fere, do ódio que lacera a alma, brotando amor
matéria tonta da noite temerosa, fuligem do sono, olhos que engendram manhãs coloridas
matéria tonta de noite, tonta de tudo, de tudo que perde
cenas dos últimos capítulos - a reprise inédita, matéria da noite escolhendo cartas
fazendo compras pro sexo dos ex-amantes que se casam pro eterno sempre de quase nunca
cenas dos últimos capítulos - o enterro das amigas mais chiques, os cisnes mudam de cor
nos cabelos o avental do passado, o drama que a trama fez cobrir de anseios meros
matéria da noite que escrevo entre solavancos no peito e tiros nos dedos
matéria da noite que se perde dentro dela, noite de todos nós, orando por Deus
Déis, réis, reais, real, cumprindo a solúvel matéria de que se deve cumprir, matéria
insolúvel pensar que devota o coração nos peitos dos desertos umbrais da igreja
matérias da noite que fogem, chorando pra sala de televisores acesos, chamando moscas
hitler sorrindo devora um livro em segundos, matéria da noite nos lábios, no bigode foice e estrela
matéria da noite cadavérica, criança leprosa chorando de rir na escola dos afazeres mórbidos
o fantasma me observa redigir a matéria da noite, o cão chora por dentro
não choro mais, ninguém mais
chora a matéria da noite em berços de ninar gasolina e óleo de cozinha queimado
chora a matéria da noite nela, que me deixou vencer o medo de sofrer e me deu uma coroa de ossos
chora a matéria da noite cantando sinatra pro demônio dormir, acendendo o mundo pelas pernas
chora de ser a matéria da noite, e chora quando me ouvi metralhar no plástico, serviçal
binário coração monetário e vácuo de desejos que se esvaem por dentro dos bits compassados
matéria da noite invadindo as redes, as paredes dos escritórios cheios de negras escórias
matéria da noite invadindo as carteiras dos patrícios, enfeites, juízos, renatas, magricelas contando deveres
matéria da noite convulsa enraizando tatuagens como o vulto que minha mãe mostra ao cruzar o quarto acelerando o medo
o escuro na matéria da noite chorando de luz que acende e apaga a lanterna girando no centro da sala, ouija-board pros kardecistas que morrem cada vez mais cedo
a lanterna que acende seu rosto dentro da matéria
da noite dentro de mim riscando um peso que não leva pra escola pra defender-se dos marginais no caminho
matéria da noite densa que de tão densa flutua o mar morto e os cavalos sem caras em sonhos que conspiram
nas fazendas nucleares que criaram galinhas sem cabeças, sem ovos, sem misérias de dedos cozidos em marmitas
nas fazendas nucleares que já estão nascendo da matéria da noite evocando águas e corujas em fios elétricos
fazendas nucleares que brotam ovelhas e jesuses cheios de formas cilíndricas
matérias, matérias da noite, matérias que chovem matérias em fazendas
que cospem bits, que cospem bytes, que aceleram o crescimento dos tomates nas cercas
os cervos que engordam involuntários que morrem involuntários dentro da matéria da noite tácita
cheia de outros sabores menores, cheias de outros maiores
matéria da noite caveira, matéria da noite oxítona, atônita, alérgica
matéria da noite morta que chora por seus mortos como chora por seus mortos que choram por ela
matéria da noite cheirando gases
flutuando entre o que fora e o que pudera ter sido, matéria da noite cozinhando
despelando ratos pra jantar na praça, junto dos corpos da cólera das fazendas nucleares
junto dos ratos subindo nos pratos das fazendas nucleares cheias de cobras comandando tratores, jatos infantis
matéria da noite que jorra matéria da noite que jorra olhos de lagartos sem rabo sem bichos pra comer
matéria da noite entre vozes sem ouvidos, sem orelhas que comeram as cobras das fazendas
o fantasma sorrindo em solilóquios terromicidas, nova iorque de um dia ameno às quatorze da tarde
os boings que fumaram o céu antes das quedas nas matérias das noites evocando
o silêncio das marcas nos trigais extraterrestres centopéias comendo feno e brincando de velhos aposentados fazendo armas pra matar homossexuais
jogos de armar em duques aquedutos, vias terrenas de vidas na matéria da noite matéria da morte da noite
matéria da noite da morteda vida da matéria da noite que não tem matéria

estamos todos por dentro, dentro...

13.2.08

Saudando Ginsberg

Agora somos nuvem sem céu,
deslocados.

Quem são os expoentes do nosso tempo?
Qual é o nosso tempo?

Atravessamos as horas de braços dados,
desviando os olhos,
ensaiando as próximas palavras.

Aqui nesta esquina sem ponteiros,
eu passo e tu permaneces.

Outubro de 2003

10.2.08

Mortalha

Veias abertas, esta manhã
pois que uma transfusão de sangue, apenas,
é o suficiente
para o seu caso.
Alimentar tuas todas células
com outro manjar


dormir a sesta
ao som diletante e heróico
dos ponteiros,
um ferruginoso entardecer
Basta,
para você.


Veias abertas
e caixa aberta
que uma nova alma vem tentar
No lugar da sua;
as minhas veias são os caminhos
para dentro de mim.
É uma sensação frugal,
ao som de um pince-nez quebrando
Abre-se-te a caixa torácica
Ao mesmo som diletante do meio-dia


E sentes como se estivesses pondo
Teu verbo para dormir.


(Aos 10 de janeiro de 2008, poema inédito a ser lançado em breve no livreto "Iuri Gagarin e outros poréns, Edições Presença)