24.3.08

Contraponto

'As margens do Mae Nam Chao Phraya
Quisera jamais acordar deste sonho
De lembrar-te e tecer, risonho,
Mil venturas de nossa doce historia
De alvas nupcias 'a vil memoria
De mais um despertar sem te ter -
'As margens do Mae Nam Chao Phraya.

Aos pes do Wat Phra Keaw
Quisera largar minha toxica pena
Que ja sozinha te versa, morena,
E o opio destes versos tailandeses
Me inebriam repetidas vezes,
Quixotesca figura, respiro o incenso -
Aos pes do Wat Phra Keaw

Aos nao-desejos redentores de Buda
Contraponho, doente, meu desvario,
Rezo-lhe a ti mil preces e sorrio
Sorvendo estas sidarthicas calmas,
Planando na fusao de nossas almas,
Fervor shakespeariano que apresento -
Aos nao-desejos redentores de Buda.


(Rio Chao Phraya, Bangkok, aos 24 de marco de 2008)

20.3.08

Fabuleta

Estava no centro
pra onde convergiam as estradas de mão dupla.
Caiu de pára-quedas,
sem lembrar de onde vinha.
Era meia noite,
queria meio dia.
Descascava laranjas com um canivete enferrujado.
Uma após a outra
as frutas se mostravam apodrecidas.
Já havia descascado uma dúzia
e ainda insistia.
Ficou sentado pensando em qual caminho se arriscar.
Num seria rei
mas só havia um rainha.
No outro tinha sombra
se cansaria.
No outro sol
torraria.
Pensava em um e lembrava-se dos tantos outros que não teria.
Pensou
Pensou
pensou
Veio um caminhão e plaft.

2005

19.3.08

Valter Di Lascio, sempre

voltando às páginas deste "presença", Valter Di Lascio derrama sua redenção e seu idealismo andarilho. tenho encontrado verdadeiro alento nos versos deste poeta das antigas, que colheu os frutos e os espinhos de uma vida que sempre foi e ainda segue na estrada - ou nas estradas, porque como diz ele "pode me chamar de meio-fio; mundo temos dois: o de vocês e o nosso".

- - -

O novo liberta-se

De que adianta a vida
..........se não houverem riscos?
De que valeria a faca
..........se não cortássemos os artifícios?
De que adiantam as verdades empoeiradas?
Um palavrão preso na garganta
Um fato que poderia ser
..........mas ficou preso nas artimanhas
..........dos velhos grilhões
Com agilidade felina, o novo liberta-se
..........jogando-se da janela do sanatório.


(Valter DiLascio, do livreto "Biscoito com champagne")

15.3.08

Louco por ti

Escrevo-te flores
Planto-te versos
Fundo-te um quadro
Pinto-te um anel
Troco tudo
Louco-me os pronomes
Faço-te nuvens
Napoleonicamente apaixonado
Choro-te mel
Só pra te alimentar
Seco-te os olhos
Quando me vês caso perdido
Nadando em poças
Um soneto por hora
Um louco por ti
Mas doido de pedra
Inamável de tanto amor
Sorvete na testa
Insisto-te rimas
Destilo-te beijos
Esculpo-te estimas
“Toma toma
tudo para ti !”

Sorve-me
Acolhe-me
Conserta-me.


(Aos 14 de março de 2008)

13.3.08

Ver-te bis

Cá no mar
dias como peças de dominó
que surgem, cadenciados,
asiaticamente iguais,
vão pondo-se, glaciais,
e em fileira são tombados

Conto-os para ver-te nova vez
em tuas nuances sutis,
a expressão que tens nos olhos,
a matiz alva de tua tez…
conto-os para ver-te bis.

E se teus dias me põem à parte
ou aproximam-te ainda mais –
que febre me responde ?
Cingo-te em doces sonhos,
o frêmito da lira romaria
latino-minha de dedicar-te
esta nina e simples poesia.


(Rio, Aos 13 de março de 2008)

28.2.08

"Minha festa"

Há uma festa - já me devora,
vem na brancura dos que há muito não sinto
é toda dela a dor que me aflora
e a canção sem tom que só, danço em labirinto.

Da vesga fome me acelera
em andar pálido desalinho
ruindo em gracejos de marujo magricela
ao ar vou devolvendo bruto o carinho.

Sou dela o vão dos que mortos cospem
o dourado feno de um sol que nasce
deles, túmulos, por mais que mostre
mil vielas medrosas queimam na face.

Das palavras às palavras - minto
essa festa é o sangue todo deitando
vãos teus cães me adornam afoitos
como estrelas num céu de orelha e brinco.

A morte nos iguala - e sabes
que teu amor, rogado assim só,
não é regaço
precisa dos outros
e de muitos outros tantos
pra tornar o mover-se em amor,
desses que movem
e batem no peito, pra ser amor daqueles,
sem prantos.

(25 de fevereiro, 2008)

20.2.08

A matéria da noite é roseiral desprovendo cheio da noite e da rosa lilás que a oração mapeia
os olhos cegos deitam-se irmãos, mas são cavalos magros de caras vesgas
a matéria da noite não se topa, nem se golpeia
reluz como reluz o escuro dela dentro dela, pra outros escuros
como adentra o tempo sobre ele e pra dentro dele, cheio de incertezas e ponteiros pingando
comendo noite, sorvete, travesseiros...
a matéria da noite ao relento serve escada ao céu que gira
é o fantasma da mulher que foge e pira, aos berros ateia fogo nos cabelos
a matéria da noite vem do leite que bebem cedo no café, cheio dela com o cheiro deles
a feira que explode às quartas naquela rua pequena-subida
pira que acende as estrelas, a matéria insalubre
a matéria em desvãos dela que é a sina de ser densa-escura
não há medidas entre a luz e os homens, as cidades escondem-se nela
a matéria da noite é hipocondríaca, maníaca que repete nomes
é a irmã do filho que foi pra são paulo roubar crianças, os rins que florem
e na absurda e completa vez, a vez dela é de ser matéria e descer sobre tudo
travestindo em noite os segredos mais surdos
a muda ossada que envenena em fumaça dos canos que largam em nome de cristo
espinhos de matéria da noite, a testa que deflagra o culto
dançam irreais, carnavais de vampiros - comendo corrimãos sem luz descendo do décimo sétimo
amanhecendo na calçada, sem nenhum cometa de saliva
comentando sozinho no ouvido da manhã os silêncios que os olhos amaram
na matéria da noite trituram-me, dela aventuro qualquer volúpia
nenhuma réstia na boca do ácido da noite violenta que espera, a matéria
da noite é sedenta dela, a sede mais cã-dela sem peias
na veia sufoca um delírio que ela chupa, paixão ardendo em becos
ela resoluta, matéria da noite, da noite que não tem matéria, por não ser nada
fenômeno dos astros, hollywood de mentira, mas que morreram jovens
com suas cabeças de índios nos espelhos da rua 42, ondas de suor santo
e a matéria da noite encavalada, regurgitando fálica do jazz morto em setenta e três
e morrendo nos seios jovens entre os cassetes feéricos que provém os guardas
qualquer arregalada de olhos pode ser eterna, fuligem, eterna, matéria
a noite não se presenteia, não vaga comigo, me beija cheia de ódio, defendendo sua boca
rasteja no caesar park da avenida mil e três de acesos olhos de guria pedindo um troco
devotos de qualquer santo, a puta na parede fazendo cara de matéria da noite
o preto vendendo branco, o branco pagando o preto, o preto ascendendo
rádio patrulha da noite de matéria ipanema, de matéria copa, travesti e cinta-liga de ferro
matéria de noite no dente que cospe o dinheiro cheiro de cerveja e pólen
de aurora quente adormecendo na areia da praia da matéria da noite sacolejando
as redomas de estrelas da matéria da noite frias, desejando nunca o eterno pra sempre
que dançam nos filmes americanos quando tudo dá certo, beijando com os ombros
metralhando fotos cheias de pedaços de carne, com os cérebros ocos de carro e fama
a fama que ditam os celeiros de molestadas mentes, matéria de noite em jornais
anais da coisa negra que fazem nascer, brotando flores de forca e jardim de guimbas
matéria da noite em casas novas, interioranas, cheias de vida, cheias de tantas coisas cheias
matéria da noite nos comendo, varando especulações irradiando especulações nas bolsas do mundo
matéria da noite morta, na porta do empório suicida, rostos pacientados, ornados de merda
matéria da noite morta, nas costas da faca que fere, do ódio que lacera a alma, brotando amor
matéria tonta da noite temerosa, fuligem do sono, olhos que engendram manhãs coloridas
matéria tonta de noite, tonta de tudo, de tudo que perde
cenas dos últimos capítulos - a reprise inédita, matéria da noite escolhendo cartas
fazendo compras pro sexo dos ex-amantes que se casam pro eterno sempre de quase nunca
cenas dos últimos capítulos - o enterro das amigas mais chiques, os cisnes mudam de cor
nos cabelos o avental do passado, o drama que a trama fez cobrir de anseios meros
matéria da noite que escrevo entre solavancos no peito e tiros nos dedos
matéria da noite que se perde dentro dela, noite de todos nós, orando por Deus
Déis, réis, reais, real, cumprindo a solúvel matéria de que se deve cumprir, matéria
insolúvel pensar que devota o coração nos peitos dos desertos umbrais da igreja
matérias da noite que fogem, chorando pra sala de televisores acesos, chamando moscas
hitler sorrindo devora um livro em segundos, matéria da noite nos lábios, no bigode foice e estrela
matéria da noite cadavérica, criança leprosa chorando de rir na escola dos afazeres mórbidos
o fantasma me observa redigir a matéria da noite, o cão chora por dentro
não choro mais, ninguém mais
chora a matéria da noite em berços de ninar gasolina e óleo de cozinha queimado
chora a matéria da noite nela, que me deixou vencer o medo de sofrer e me deu uma coroa de ossos
chora a matéria da noite cantando sinatra pro demônio dormir, acendendo o mundo pelas pernas
chora de ser a matéria da noite, e chora quando me ouvi metralhar no plástico, serviçal
binário coração monetário e vácuo de desejos que se esvaem por dentro dos bits compassados
matéria da noite invadindo as redes, as paredes dos escritórios cheios de negras escórias
matéria da noite invadindo as carteiras dos patrícios, enfeites, juízos, renatas, magricelas contando deveres
matéria da noite convulsa enraizando tatuagens como o vulto que minha mãe mostra ao cruzar o quarto acelerando o medo
o escuro na matéria da noite chorando de luz que acende e apaga a lanterna girando no centro da sala, ouija-board pros kardecistas que morrem cada vez mais cedo
a lanterna que acende seu rosto dentro da matéria
da noite dentro de mim riscando um peso que não leva pra escola pra defender-se dos marginais no caminho
matéria da noite densa que de tão densa flutua o mar morto e os cavalos sem caras em sonhos que conspiram
nas fazendas nucleares que criaram galinhas sem cabeças, sem ovos, sem misérias de dedos cozidos em marmitas
nas fazendas nucleares que já estão nascendo da matéria da noite evocando águas e corujas em fios elétricos
fazendas nucleares que brotam ovelhas e jesuses cheios de formas cilíndricas
matérias, matérias da noite, matérias que chovem matérias em fazendas
que cospem bits, que cospem bytes, que aceleram o crescimento dos tomates nas cercas
os cervos que engordam involuntários que morrem involuntários dentro da matéria da noite tácita
cheia de outros sabores menores, cheias de outros maiores
matéria da noite caveira, matéria da noite oxítona, atônita, alérgica
matéria da noite morta que chora por seus mortos como chora por seus mortos que choram por ela
matéria da noite cheirando gases
flutuando entre o que fora e o que pudera ter sido, matéria da noite cozinhando
despelando ratos pra jantar na praça, junto dos corpos da cólera das fazendas nucleares
junto dos ratos subindo nos pratos das fazendas nucleares cheias de cobras comandando tratores, jatos infantis
matéria da noite que jorra matéria da noite que jorra olhos de lagartos sem rabo sem bichos pra comer
matéria da noite entre vozes sem ouvidos, sem orelhas que comeram as cobras das fazendas
o fantasma sorrindo em solilóquios terromicidas, nova iorque de um dia ameno às quatorze da tarde
os boings que fumaram o céu antes das quedas nas matérias das noites evocando
o silêncio das marcas nos trigais extraterrestres centopéias comendo feno e brincando de velhos aposentados fazendo armas pra matar homossexuais
jogos de armar em duques aquedutos, vias terrenas de vidas na matéria da noite matéria da morte da noite
matéria da noite da morteda vida da matéria da noite que não tem matéria

estamos todos por dentro, dentro...

13.2.08

Saudando Ginsberg

Agora somos nuvem sem céu,
deslocados.

Quem são os expoentes do nosso tempo?
Qual é o nosso tempo?

Atravessamos as horas de braços dados,
desviando os olhos,
ensaiando as próximas palavras.

Aqui nesta esquina sem ponteiros,
eu passo e tu permaneces.

Outubro de 2003

10.2.08

Mortalha

Veias abertas, esta manhã
pois que uma transfusão de sangue, apenas,
é o suficiente
para o seu caso.
Alimentar tuas todas células
com outro manjar


dormir a sesta
ao som diletante e heróico
dos ponteiros,
um ferruginoso entardecer
Basta,
para você.


Veias abertas
e caixa aberta
que uma nova alma vem tentar
No lugar da sua;
as minhas veias são os caminhos
para dentro de mim.
É uma sensação frugal,
ao som de um pince-nez quebrando
Abre-se-te a caixa torácica
Ao mesmo som diletante do meio-dia


E sentes como se estivesses pondo
Teu verbo para dormir.


(Aos 10 de janeiro de 2008, poema inédito a ser lançado em breve no livreto "Iuri Gagarin e outros poréns, Edições Presença)

29.1.08

Dentro

Alô PRESENÇA!!!
É com grande prazer que retomo às atividades!

*******************************************************

De pensar e falar
Não se faz binômio
Nem se conjulga um conjulgado
Pois cada força
Com cada qual intensidade
Empurra cada uma
Diametralmente para cada lado

Se a lixeira é o pai e destino
De todo pensamento reprimido
Para onde vai a fala
Senão ao descuidado ouvido
Dum outrem que então
Deixa o som passar
Desapercebido?

Portanto se pensa
E não se fala
Ou se fala
Aquilo que não se pensa
Pois viver das coisas que se tem por dentro
É sentenciar de morte
O invólucro que vêem de fora.



(Fábio dos Santos)

25.1.08

Enganador

Arteiro que sou,
Um fanfarrote sênior,
tapeio meus versos
prometendo-lhes a vida num poema
tanto-sílabo e royal
E eis que agora moram
no albergue bufonal
deste texto escaleno –
que nem a boas rimas se presta!
Pagaram caro, queriam fama,
A escalada literária!
De boas penas tinham ganas…
Mas foram postos, à moda pária
Por este hadoque doidivanas.


(Aos 24 de janeiro de 2008)

24.1.08

Heróis

São heróis
porque só versos,
desejosos
de preencher o alvo papel,
Antipáticos à idéia
De deixar passar
em branco
Mais uma folha
(que se for ano,
vai-se a vida
num vai-se que não-viu-se)


(Aos 10 de janeiro de 2008)

22.1.08

De volta

Retiro do baú um poema carregado de imagens e reminiscências da adolescência, esses tempos difíceis, de dúvidas e solidão que todos nós atravessamos, mas também tempo de grandes descobertas. Descoberta da amizade, do amor, da esperança e da possibilidade de transformar anseios e vendavais em poesia. Dedico este poema ao poeta e irmão Rafael Elfe, companheiro de presença, conversas Socráticas e porres de sabattini, que continua seguindo em frente carregando seu violão( máquina de matar fascistas)e sua mochila repleta de sonhos,vida adentro.
.

De volta

Na boca de Ella jaz a noite.
O copo vazio revala a embriaguez.
Nos ouvidos permanece a canção de um amigo,
de outros tempos,
outras noites.

Manhãs esquecidas entre livros não lidos.
Sorriso estilhaçados.
Poemas explodindo nos porres de sabattini.
Pés sutis pisando a areia suja,
filmes pra esquecera solidão,
e a triste arrogância pra fugir do desespero.

Amores ensaiados,
e inventados.

Tempos de sonho na mochila,
cola no banheiro,
conversas Socráticas no pedalar das bicicletas.

Restaram as lembranças
e um gosto estranho entre os dentes.
As cartas suicidas foram queimadas.
Colhemos o absurdo dos dias Kafkianos,
E também lírios,
tornando a vida suportável.
Despertando sorrisos do que outrora foram cacos.


Nesta escuridão de algumas luzes espaçadas,
o poema se encerra.
Inacabado,
indizível.
Um pequeno sopro de um eterno vendaval.

Se encerra sem fim.
Como a ânsia de um pintor,
que busca incansavelmente
o quadro definitivo.

Do libreto Entre tanto, fevereiro de 2004.

17.1.08

Nebuloso calendário do sono

Aloha presentes, segue novo poema da Luísa Muller, que já esteve por várias vezes nas páginas poéticas deste blog.
"Nebuloso calendário do sono" é poema recente da obra da Luísa, e chama a atenção pela sutileza e diversidade das sensações sugeridas. É um poema completamente palatável, sensorialmente falando.
Presença !

- - -

sentir o velho de novo –
sempre novo –
em forma de sonho
de bêbada noite.

como olhares que se cruzam
através de um castelo
que solidamente desmorona
por dentro e por fora
como mãos que se encostam
num copo esquecidas
aquecidas pelo encontro
que estremece o corpo inteiro
como os pés que tocados
arrepiam a alma
que sente o velho de novo
como se fosse novo –
e dorme feliz.

(e não se fala mais nisso)


(Luísa Muller, 2008)

13.1.08

Acampando

Acampando na relva
a tarde se fazendo valer
de suas gamas de tons de verde
.....do vivo
.....ao veste-se
do lindo
ao prefere-se,
a relva verde e o céu infinito
céu que cada hora um
e toda hora infinito.

Um brando lago azul
lindo que improvável,
de tal modo que
Mineralizar-se
.....é nele submergir;
acampado no meio
do meu acampando na relva,
o lago.

.....e tal o acontecer
que bastava ler linhas
do livro-de-dormir
para dormir e insaber
se estava despertando
ou, estranhamente,
indormindo.


(Aos 10 de janeiro de 2008)

12.1.08

Passional

E lhe beijava
com o fervor de cão em brasa
Era feito de véu,
Liso
E sem prumo.



Num momento romântico-dadaista de algum dia de algum ano.

11.1.08

"Numa caixa"

Cheia de funduras
ouro d´escuras aranhas
e o guindaste verde cheirando ouriços-arranha-céus...

ela-lá cheia de tralhas luminosas
fitando a bandeira de cal azul no topo
do armário,
aquele monstro negro que nunca escalei.

Esbarrava em clarões de pintar céus,
espinhos pra fechar feridas
Vasos de para-peitos nus
que o precipício vão de tuas mãos velhas
não trouxeram-na.
- Bença Vó!

Eu nascia lá dentro
pra recuperar o fôlego do café e o pão de outrora.
Fora, era lá fora, a tarde se fazia em pinho - zunia
noutras vezes, meu velho tio zé respirando
fazia barulhos de canoas barbeando sal
e eu que pensei nele tão morto - e realmente estava.
Sua morte havia morrido pra mim,
e percorrera a distância erma
do esquecimento.

Eu que não carrego vagões nos cílios colados
nem roupas largas de quem se foi
vejo minha infância num trem tardio
- apitando vago e cego
ninguém olhando pra trás enxergaria

dentro dela
estão meus pés
menores, sem pêlos
pequenos pés de cortar manhãs
que me vacilam nos olhos as cores sujas - rubras
ninguém olhando pra trás enxergaria

eu diria ao menos, se ouvisse
aquele menino chamando meu nome
e a casa não estaria morta nas mãos da árvore
nem o retrato mudo, respeitando o silêncio
eu crescia...

eu crescia pequeno, como franzindo olhos
pequenas tralhas encolhidas na caixa sobre o armário
aquele velho monstro negro que nunca escalei.

7.1.08

Perda, flor e espinho

As luzes do Vidigal
Chocam-se com a boca preta do mar.
O ácido foge sob a língua
O coração foge sob os panos
A mente procura por outros lábios
que abafam o frio de estar só.

Deixamos os rastros entre as palmas abertas do porvir.

Nos canteiros os espinhos abrem sorriso pro indefinido.

Surgem nuances absurdas
Ocre iluminado
Azul-marinho terroso
Magenta acinzentado.

O tempo assenta o disperso
E fica o que não conseguimos apagar.

O chão desloca-se
E deitamos sobre o passado

Distantes

Com os olhos úmidos do sereno.

Dezembro de 2007.

6.1.08

Valter Di Lascio

Conheci o Valter em Jericoacoara, um coroa bigodudo de seus 50 honestos anos, mediante a clássica abordagem "vocês gostam de poesia?"
Mas a figura que me abordava, nitidamente, não era nada "clássica".
Pés descalços, figura surrada, uma espécie de Dom Quixote com malícia. Após as apresentações iniciais, o velho me confidenciou que era retirante, mas no sentido filosófico do termo. Aos vinte e poucos, chutou o curso de História na UNESP, bicou o casamento, deixou mulher e 3 filhos, e pôs-se a andar, literalmente.
Fiscal de botequim, poeta e andarilho, Valter me trouxe um livreto chamado "Bis Coito Com Champagne" que me foi uma grata surpresa pelas poesias libertárias e carregadas de um espírito beat totalmente redentor.
De decepções com o amor, erotismo e rebeldia a juventude e versos lindos, o livreto foi uma bênção a minha pequena biblioteca de poesia de calçada - já naquele março de 2006.
Com vocês, o poeta.

- - -

Viagem derradeira

Os anjos hoje anunciaram a minha partida
E tu meu irmão de Meiota em punho caberá
................................. reunir nossos guerreiros
Em breve pegarei a estrada
................................. levando muitas saudades
E vocês, irmãos de sangue e som, cuja mãe
.................................. deu-lhes o mesmo ventre
Que ao me ver partir batam forte o tambor
e distorçam a guitarra
Toquem fogo no meu nome !!!
Reconheçam-me pelo cheiro,
...................pela ousadia e rebeldia
"- Todo louco te de viver pouco,
...........mas intensamente, o suficiente."
Quero declarar aqui, todo meu amor,
.................meu rancor, meu furor
Quero ver todas as veias
................saltarem de meu corpo
Em meu vaso sanguíneo quero flores
.................diversas e todas as ervas


(Valter Di Lascio)

5.1.08

Bem-te-vi lírico

O pássaro passou
Atravessou o poema concreto
Quis ir adiante
Além do que era dado
Buscava mais que o impresso
Ser mais que o momento exato

Quis ter com as nuvens
Onde as palvras não tinham chão

Em espirais voava
E era observado
Os olhos que lhe viam
Dançavam junto as suas asas
E assim enlaçados
Pássaro e observador bailavam
Em olho-vôo-asa
Milhas acima
Da palavra estática

NOVEMBRO DE 2007

1.1.08

Num dos vagões do trem negro

Ninguém sabe...
ele escondeu - como se soubesse.

Em pequenos segredos -
os que sobrevivem

Pontes inteiras de amônia
cruzando espartilhos siderais
as irmãs menores observam -
ele atravessa devagar
cavalgando o furor de plástico
O que ficar, pode ser pra sempre.
Mas nada dura.

Um sobre o outro -
pequenos segredos,
os que sobrevivem.

O que ficar pode ser pra sempre.
Mas ninguém sabe.
No fundo, ninguém sabe.

(13:09)


Milhares de ingênuas razões
lagos de um sangue estranho
Era você! - agora mesmo...
já não é mais

O travesseiro afunda tua cara
nas margens sombrias.

O que é o silêncio?

É quando você acha que tem alguém,
e você já não tem.

O gigantesco trem-carruagem-cavalo atravessa os pesadelos
Desemboca na luz completa do sol,
onde Deus dá suas cartas
Quem blefa?

Eu quis voltar mais cedo
aprendi o que era tarde.

O que pode ser pior
que esse beijo quente?

A nuca espessa sente a ferrugem toda
destroços na luz.
São migalhas.

(13:13)

Guarda-chuva transparente

Ainda no resgate de alguns poemas antigos, serenidade pra 2008.
Abraços a todos.

- - -

Choro celeste vem em cheias gotas …
Milhões – infinitas! – elas explodem
Em contato com a sombrinha e eclodem
Em ondas de fantasia, marotas.

Sob a translúcida proteção olho
O exato instante em que se dá o toque;
Cada pingo e seu empolgado choque,
Tão sutil … me desconcerto e me molho !

Emana paz, o singelo espetáculo …
Subo e desço o solitário tentáculo
(O cabo) alternando a proximidade.

Até que cessa de chorar, o céu,
E eu recolho meu guarda-chuva-véu
Em desabrochada tranquilidade.


(Aos 13 de março de 2003)

28.12.07

Heyk Pimenta

Dono de uma inconfundível poesia, misto de plástico-pena-gema-placa-de-metal, meio concreta e inteira sensível, não é a primeira vez que Heyk aparece aqui nas páginas do Presença.

Durante o lançamento do livreto-presente "Elementar", em novembro passado, recebi em mãos um exemplar de seu belíssimo "Neuronóseles", então recém-lançado em outubro de 2007, que traz gratas surpresas da chamada poesia de rua.

A melhor poesia do dito livreto, "O pop", já foi postada aqui, se não me engano em setembro ou agosto deste ano.
as poesias são bastante diretas em sua expressão mas ao mesmo tempo carregam conclusões fundas e desconcertantes.
é como se fosse um tiro. de plástico.

Posto aqui, do supracitado livreto do Heyk (por enquanto o único lançado deste poeta mineiro de 20 anos, residente no rio), o poema "O bicho a gente"

- - -

Na sala
e em roda
que se fecha o ciclo
respirar conjunto

........o todo é um novo ser vivo
o esqueleto do bicho é o violão e o
.........................poema escrito

papel petisco copo de plástico com vinho
......o olhar brilhoso é que esquenta
......risada é batida do coração do bicho
o fluido fio dourado da paixão bem dito
................é o pé batendo
........................a palma o bom ouvido

........É um texugo tamanduá bonito
........forte gordo enquanto não termina o rito

........depois esquartejado
..................não morto
...........para ser montado
...........um outro
ao som de um novo
....poema poema organismo


(Heyk Pimenta, outubro de 2007)

27.12.07

Gasolina

Aloha Presença!
Aos que têm falta de combustível - e isso é sazonal, acreditem - nunca é demais um galão de "gasolina". Feliz 2008 !

- - -

Um tom me chama –
Um tom ou um silvo?
Ora me encanta,
Ora me agita
Em todos os dissonantes palatáveis
Do viver calmo.

É a estrada, senhores,
A estrada é a vida e é ávida
E clama por mim, ordens expressas
E pouco dóceis.
"Desancora que és partícula no rio,
Abre os braços, vai ao céu
Que a vida é uma só"

E das pedras que rolam
Cria-se a fagulha
À deprê inflamável
Do sentar e aceitar,
Milênio a milênio,
A mesma carroça, o mesmo apego,
A mesma curva pra distrair,
A mesma cura
Da doença que não há,
E sentar e cansar,
Paciência de druida –
1 bilhão de existências
De inerte aceitar.

(Aos 21 de janeiro de 2006)

23.12.07

A tempestade filosófica

Após o post # 200 neste blog - a pérola reflexiva do velho batuta Pedro Lermann - começo eu mesmo a escavar algum material antigo, como este soneto presente no livreto "Viver e devir", de setembro de 2004.

- - - - - - - - - - -

Em tempo, caros amigos:

desejo a todos boas festas e positivas vibrações pra 2008.

o momento da virada, tradicionalmente, nos inunda de reflexões, passa aquele filme na sua cabeça.
lembrem-se - e o digo sob o risco de parecer panfletário - a positividade interfere diretamente no curso dos fatos. se você pensar "que merda" mil vezes, então isso terá um peso na projeção do por vir, ainda que um "que bom!" posso anular de uma só tacada os negativismos.


feliz 2008 - cerveja gelada e poesia de calçada - Presença !

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A tempestade filosófica

Oh… lá vem a avalanche catastrófica
Das dúvidas que beiram a demência,
O vazio inerente à existência…
Mestres: a tempestade filosófica.

Do cerebelo, ligeira ela escorre
(E é tão bela, permita-me dizer),
A tempestade urgente de viver !
Instigante, como o olhar de quem morre.

Sou ? O QUE sou ? POR QUÊ ? Se sou, é vão?
Rebento do Acaso ? Uma chance ? Ou não ?
Desafia-me a leveza do Ser …

E eis a chave ! Meramente existir !!
Tudo é caos, a nevasca do Devir,
Ciclo infindo de viver e morrer.



(Aos 21 de fevereiro de 2003)

19.12.07

Meditação

De volta aos cadernos do embriagado profeta, uma meditação lermanniana.


Não aceito que acusem meus erros de não terem tentado.

Cada um deles teve a glória da tentativa

Enquanto houve a fantasia da possibilidade.

E cada um foi realidade

Enquanto a fantasia se dissipava.

Mas não carrego comigo cadáveres.

Fico apenas com a sorte da experiência

E a sensação boa do rastro.


Pedro Lermann - 1986

17.12.07

Pequeno

Praguejei assim ao vento
Palavras expectoradas e cuspidas
Na cara do santíssimo
Um desalento

E depois aceitado
Em desânimo demasiado
Sentei ao meio-fio
De todo resto destacado

Mas em pouco como deveria
Ser quebrada a monotonia
Ouvi o barulho das ondas do mar
E as aves que a esmo planavam

Então toda praga – o desencanto
Toda água que ao rosto é pranto
Secou-se pois me olhando descobri
Quão pequeno sou – não preciso ter pra onde ir

11.12.07

"Manhã expressa"

A espuma do café
risca a manhã
em teus lábios superiores.

Sopramos na ânsia
um beijo.

Toma-nos densa a espuma
frase em meus lábios - fica
e já não vejo
nos teus,
nem espuma
nem beijo.

Sopramos a manhã
no café.

Expressos,
passam por nós:
a ânsia, a espuma
e o desejo.

7.12.07

O nojo

E quando me canso
da enciclopédia de cumprimentos,
das rotinas estabelecidas,
niponicamente seguidas,
os hábitos que eu mesmo fiz

quando o caminho não mais é feito
de tijolos de ouro
e me deixo conformado
amargamente deitado
sob o sol de protocolos
onde, estático, me doiro

quando o bom-dia é peso-morto
lançado à revelia
nos peitos já sem resposta
dos pálidos colegas,
oitàscinco trajetórias
em escritórios glaciais

quando o cianureto não se faz
em cavalar tiro solucionático
mas de peça em cartaz,
pra todo sempre em cartaz,
em doses homeopáticas

e o orgasmo convulsivo,
outrora redentor,
passa sorrateiramente a ser
um mais-ou-menos prazer

aí então é fechado um ciclo,
o ciclo do nojo,
e ai de mim, irmãos,
não percebê-lo,
não acontecê-lo para, enfim,
renascer da abjeta lama,
o afiado mosqueteiro
trovador-fênix do eu a mim;

na esquerda o verbo,
na direita o rojão,
insolúvel como um anti
que se faz em paraíso
de mudança e levante.


(Isaac Frederico, aos 07 de dezembro de 2007)

6.12.07

Diálogos

- Vai sair?

- Sim, vou.

- E vai aonde?

- Descubro indo.

- Mas como assim?

- É.

- Mas fazer o quê?

- Continuar.

- E continuar o quê?

- Sendo.

- Mas que tipinho mais manjado esse... acordou dramático?

- Pensei nisso, mas acho que não.

- Algum problema, então?

- Os mesmos que aí já estavam.

- Não sei, isso tá estranho. Alguma coisa mudou?

- Claro; tudo.

- Tudo o quê, criatura?

- Tudo.

- Menos os problemas, que são os “mesmos”, certo?

- E com essa retórica se vai a algum lugar?

- Sim, claro.

- Aonde?

- Descobre-se indo.

[e continua, e continua, e continua...]

5.12.07

reflexões de um anfeta-jovem

O som da esperança é o barulho da mordida na maçã (18/12/2005)


Dezembro 2005
O fardo da atuação, vestido voluntariamente. Por quê a atuação? Por quê não só a contemplação? Que desejo tão intenso te levaria a sacrificar o corpo, a gastar tantas preciosas horas? É válido que haja tão intenso desejo?


- Envelhecer é perceber que qualquer sofrimento é possível. A vida pode te trazer desgraças, das formas mais intensas. Amadurecer é perceber que isso não é nada pessoal.

- A devastadora imensidão de palavras, de possibilidades de combinações de palavras... e, no entanto, são só palavras. Tão ineficazes em comunicar o que quero, e até isso: será que há um “eu” que quer comunicar algo, anterior à linguagem?


Posando para fotos
Que nunca veremos
Não temos tempo…

rumo ao chile !

CORRENTEZAS SUJAS - I

Tudo bem mermão! Só não me encosta... - me estico na cadeira de molas espreguiçando um vácuo. Algum facho de pensar vai levar esse troço todo pra longe, eita peso danado! Já me fartei dessas contas. Nenhuma idéia é convincente até que passe gritando ao lado, no barco alheio, de calças-arriadas-mostrando-a-bunda-branca-de-fora, rabiscada em batom um - Foda-se! vermelho. Assim me veio na cara essa idéia do Chile, que me espera de alguma forma, por alguns segundos e dias e horas marchando por sobre ele - sem um tostão é claro - em qualquer uma daquelas bibliotecas antigas cheias de poetas novos mortos com olhos de tigres do Atacama. O caminho é o Chile! Até lá tantas coisas pra ver sem saber que vi ou sem entender pra que arregalar a tanto a vista. No fundo é me perder na américa mais latina que há – cansado des´ser tão latino. Porque latinidade é south mermão, tudo que é sul é pobre, tudo está pra baixo abaixo e debaixo de tudo, como se a bússola tomasse forma do dedo inquisitor de Cristo. Tudo bem mermão, já te falei! - devo parar de beber porque meu fígado resmunga mais que minhas tias juntas falando pelos cotovelos enquanto fumam entre dedos carnívoros e peles de puxar bochechas, um cigarro mata-rato desgraçado, e cospem sobre todas aquelas coisas de tias velhas e resmunguentas. Vou deixar de descascar abacaxis pros outros agora, e abrir minhas próprias portas, e quem sabe não me veja sorrindo pra mim mesmo numa delas, sentado à luz de Nietzsche, cheio de dentes concisos, cheio de pelos louros lindos entre os ricos colares de pedras de mármore do Casaquistão dos livos? Algumas revoluções começam no fígado. A minha tem começado, minha bílis começou a confabular um livro, talvez o novo manifesto, eu chamo de água barrenta. Ainda vivo me traindo, querer a morte por aqui é besteira, já se morre vivendo. E em que arte? A vida agora tem risco de maçã vagabunda, e temos qu´engolir na garganta sequinha. Qualquer coisa eu mudo de canal e fecho os olhos. Mas o Chile... é sim, o Chile ainda é o caminho.

29.11.07

“C o n v e r s a p o é t i c a”

(extraído de uma conversa via computador)

R. Elfe diz:
Vislumbras tão pequenas tíbias
R. Elfe diz:
que alfazemas cozem ante o céu majestoso.
R. Elfe diz:
Num redemoinho de cores
R. Elfe diz:
um jardim terno e bondoso.
R. Elfe diz:
Onde as cores vão surtir aos olhos
R. Elfe diz:
com o palatável aroma que percorre à brisa
R. Elfe diz:
e teus nomes são vários, comuns e tão plenos
R. Elfe diz:
quando nas flores, a flor assim me arrolho.
R. Elfe diz:
Vai bater tuas asas à gentil libélula
R. Elfe diz:
que repousa um beijo fractal ensimesmando
R. Elfe diz:
vai descer as lenhas dos afazeres, as crianças vêm arrancar-lhes as folhas.
R. Elfe diz:
Que o caule bom sirva aos pequenos de varinha que dança a fada
R. Elfe diz:
assim na magia podeis trazer teus olhos,
R. Elfe diz:
e em menina te formas, de flor os pés no barro
R. Elfe diz:
a voz que o vento alto vai cantar sobrevoando
R. Elfe diz:
assim algum toque divino e claro
R. Elfe diz:
das águas que rodeiam os vales
R. Elfe diz:
a flor que eras agora só em cores
R. Elfe diz:
traz o pensamento um riso que colores.

Segunda parte, “o agradecimento”:

R. Elfe diz:
tenro abraço terias de mim agora
R. Elfe diz:
sem vantagens do corpo
R. Elfe diz:
sem nada
R. Elfe diz:
queria voar pra longe
flor diz:
sem nada?
R. Elfe diz:
pr´algum monte cheio de luz
R. Elfe diz:
verde e céu baixo
R. Elfe diz:
para ter com o vento essas imagens
R. Elfe diz:
aqui onde pareço vivo
R. Elfe diz:
só morro.
R. Elfe diz:
e o morro que quero não me sustém
R. Elfe diz:
bateis as asas comigo se puderes
R. Elfe diz:
e leves nos deixemos como ventos de estação
R. Elfe diz:
o vinho mais novo, pisado por pés velhos
R. Elfe diz:
é esse o que quero ao coração.

Fantasmas

aloha presença !

após o sucesso do lançamento do "elementar", posto poesia do Rafael "grego", um dos poetas independentes mais talentosos de que tenho notícia, pelo conjunto virtuoso de sua obra.
segue o "Fantasmas". um grande abraço a todos.

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Fantasmas que fitais
na madrugada elétrica:
simples ruídos banais
que me cobrem de susto.
Em cada sombra, um rosto.
Em cada rosto, a dúvida.
Os passos baixos que oiço
decerto me perseguem.
Passos parar jamais
por becos becos becos
de um hálito sombrio.
Ai fantasmas tão sólidos
entre os dentes trincados!

24.11.07

Nada posso quanto ao poço.

Não aprendi acordar cedo. É uma prova da alma, lastimável até. Um vestibular completamente fora de hora, e eu sempre atrasado. Mas, como de costume, fui içado de sonhos abomináveis: chuvas torrenciais, enchentes, pessoas morrendo, trombas d´água, beijos afogados... Arregalei os olhos quando ainda lá, fui tragado por um poço travestido em poça d´água. Logo depois num golfo, como se voasse e voei, fui retirado. Foi quando percebi que a ponta do cobertor tocava o chão e, já tomada pela água da geladeira em degelo, intumescia. Um rio largo, desfilava do chão da cozinha, circundando o sofá sob a janela, até meus pés, agora quentes sobre o chão tenso e frio; como se toda aquela água tivesse jorrado de meus olhos, boca, ouvidos... Tive a leve impressão de que, se não acordasse àquele instante, morreria afogado pelas dobras úmidas do cobertor, como pequenos dedos enrugados.

Ainda tropeçava em sombras pela casa, quando percebi o ronco da sala, respirando, minha mãe ainda dormia. Meus irmãos estavam longe, no quarto. Um deserto se estendia até lá. Eu ainda era o filho, ainda era o irmão mais velho; de alguma forma me confortava saber. Estirei-me para o banheiro mais próximo. As sombras se multiplicavam pela casa. Meu medo era uma faca cheia de manteiga pronta a me acertar o pescoço. Nada demais pra quem, minutos depois, usou a mesma faca para abrir a caixa do leite e emplastrar o pão.

Com alguns livros prontos a serem devorados no parapeito da janela, reparei na cor da manhã. Repentina luz que rebentara, sem que meus olhos guardassem o ato. Cinza? Dentro do verde das eras que nervosas cobriam a janela, era branca e incisiva como o dedo escorregando até a virilha. E esfregava os olhos pra torcer o cinza e ajeitar um nome àquela luminosidade vaga. Nisso especulei sobre qual livro abriria meu dia. "Humilhados e Ofendidos" me veio à mente - saímos da confeitaria... o velho morrera, seu cão morrera; alugamos o quarto do velho. Não. Não queria àquela hora, adentrar o quarto do velho morto. Nem esperar por notícias suas em outros rostos. Abstive-me então em deixar o meu tocar o punhado de amarelo chumbo que brotava no cinza.

Meu irmão já acordara, rastejou pra dentro do breu, quase iluminado. Agora, cinco e trinta e cinco da manhã. Ele me pedira para acordá-lo quinze minutos depois dali. E estaria eu vivo? Sempre pensei em morrer como um Nosferatu, fulminado pelo sol sob a janela, com uma das mãos ao peito e outra tentando cobrir-me usando a inútil sobra que cinco dedos magros desenham. Preferi fechar um pouco a janela, o vento frio da madrugada ainda rasgava. Mas, rezei pra que a manhã soubesse como entrar pela casa. Pra garantir, deixei um fiapo de janela aberto. Um fiapo de morte pra mim. Como se esperasse algum amor tardio.

Entrei no quarto onde o computador se esconde, me escondi. Tornei a porta quase fechada. Na brecha, vi que o sol já cruzava toda a casa, tocando o vaso de vidro sobre o aparador antigo de madeira. Respirei aliviado. Coloquei Jeff Buckley pra cantar, junto dele "atravessei o jardim das meninas louras". Reli alguns textos. E com um gosto úmido e entre cortado de luz, escrevi este.

(O primeiro parágrafo do texto foi perdido entre o colar e o copiar do bloco de notas para o word. Mas reescrito às pressas, pra não deixar escapar uma imagem se quer, com o sabor das palavras ainda quentes sobre a língua rósea da mente.)

22.11.07

Frases que sobreviveram pra contar...

como foi o encontro do Presença!

"Somos muito pequenos pra tanta poesia."

"O vinho é uma navalha."

"Ainda há amor?"

19.11.07

Entre poetas...

R. Elfe diz:
é tu mesmo??????????????? rs
R. Elfe diz:
engraçado imaginar que eu possa estar falando com um cara que deu um estalo no meu cérebro
R. Elfe diz:
se for, ou se não for, é bom que saiba por mais uma pessoa que há aquela famosa compreensão da imagem que tu escreves
R. Elfe diz:
pois me espelhei
R. Elfe diz:
e sei que essa ponte pro autor é a maior coisa
R. Elfe diz:
também escrevo e estou me caçando há muito tempo, e teus rumos me deram maiores incentivos e melhores lumes surgiram nesse lodo
Fabrício Carpinejar diz:
obrigado, meu amigo
Fabrício Carpinejar diz:
lumes e lodo, bela combinação
R. Elfe diz:
é verdade
R. Elfe diz:
é de onde viemos né?
R. Elfe diz:
somos lumes no lodo
Fabrício Carpinejar diz:
a poesia fica cutucando
R. Elfe diz:
e vice-versa
R. Elfe diz:
demais
Fabrício Carpinejar diz:
tm um covelo largo de rio (deve ser: tem um cotovelo largo de rio)
R. Elfe diz:
rs
R. Elfe diz:
é verdade
R. Elfe diz:
e nos assombra
R. Elfe diz:
quando te li percebi o quanto te assombrava rs
Fabrício Carpinejar diz:
nunca farei uma queda-de-braço com o rio
R. Elfe diz:
pois estive nessas linhas
R. Elfe diz:
eheheh
R. Elfe diz:
nunca!
Fabrício Carpinejar diz:
prfiro boiar do que mostrar força (prefiro)
R. Elfe diz:
apesar de tentar ser uma pedra pra desviar às vezes os rumos
Fabrício Carpinejar diz:
risos
R. Elfe diz:
é mais sábio boiar
Fabrício Carpinejar diz:
vou lá, tenho que dar aula agora de tarde
Fabrício Carpinejar diz:
grande abraço
R. Elfe diz:
idem

18.11.07

Canção de Balthus

A ponta dos dedos
acende a boca de fala úmida

Abre-se o botão entocado

Desabrochar de flor vermelha

Torna-se fruto
Amadurece junto aoslábios

Faz-se roxa

Amora madura

Despenca em fuga
Um gemido

(corda esticada)

Prenúncio
do tenso e aberto sorriso.

Novembrode 2007.

17.11.07

Elementar

Caríssimos amigos e frequentadores das paragens do Presença, de volta ao blog depois de alguns meses fora do ar, anuncio com grande prazer um novo lançamento do coletivo, o livreto de poesias Elementar, com poesias minhas, de William Galdino e Isaac Frededrico.

A confraternização acontecerá no Arco-Íris da Lapa, a partir das 19h, na quarta (21/07) e todos estão convidados a comparecer e garantir seu exemplar, que tem tiragem limitada e custa o preço de uma gentileza - cerveja, é óbvio.

Reproduzo aqui o prefácio de Renata Dantas:

Este livro versa quatro elementos. Aqueles considerados desde a ciência antiga os componentes do universo físico. Água, fogo, terra, ar. Cada poeta – Vinícius, Isaac e William – nos apresenta sua versão sobre eles. De quebra, a introdução de André Gide, com um trecho de seu "Os novos frutos".

Dos quatro elementos, qual o mais essencial? A Terra, que dá chão, frutos, segurança? Destino final de toda raça humana. Terra que pode ser derrota, mas também bênção, como lembra Isaac. Terra que nos dá espaço para percorrer, mas nos mantém presos a esse solo. Pés fincados por "sapatos muito bem amarrados", diz William. Impedidos de alçar vôo (sonhar alto?), Vinícius lembra que "somos nada diante da firmeza de propósito do chão". O chão da Terra que bebe o ar.

Ar que relativiza. A pulverização. Fragmentação. Ou, segundo Vinícius, "a promessa do infinito". E, ao mesmo tempo, a frustração. O símbolo da incapacidade humana de levitar, de se ver "atravessado de ar", como sonha Isaac. O mesmo ar que nos ergue suspensos no espaço, faz a bailarina de William despencar no chão como pedra. Ar que alimenta o fogo.

"Utopista, o fogo é alma, só alma", esbraveja Isaac. Sem amarras, sem limites, sem controle. "Hipnose, ira, magia". Energia vital, força propulsora, motor que impulsiona o homem a se manter em constante movimento – eterno queimar dos pés, mesmo quando um outro recomeço parece impossível, enfatiza Vinícius. E chama que queima os pés, também faz arder a pele dos embriagados de paixão, como escolhe William. Chama de fogo que esfumaça a água.

Água que, como elemento químico descrito por Isaac, sacia a sede e dá vida aos oceanos. A mesma água que desmancha castelos humanos feitos de areia e afoga. A profundidade turva que atrai pelo mistério do desconhecido e assusta pela tentativa irresistível de sedução – o canto da sereia, remete William. Água que dá vida à Terra.

Dos quatro, qual o mais primitivo? Nenhum. São interdependentes. Estimulam um ao outro. Se retroalimentam.

Ar, terra, água, fogo. Oposição. Equilíbrio. Contradição. Harmonia. Primitivo. Complexo. Seria o homem a união desses elementos? Talvez nem todos carreguem em si essa elaborada quádrupla mistura. Mas nossos poetas sim. São elementares – não elementais. Como cada poema dessa pequena obra.

12.11.07

Remendos

Eu não dobrei as roupas, nem fiz a cama atrasado de olho na janela esperando o ônibus. Nem abandonei o copo de café pela metade, com a colher mergulhada pra mexer ainda o açúcar morto no fundo do copo. Nem dobrei o pão pra morder em duas vezes, quiçá uma. Fui deixado pra trás naquela manhã cheia de rodopios. Eu não fitei de cima meu corpo lá embaixo queimando, deveras, eu era um balão cheio d´água descendo do sétimo andar. Eu não resumi num segundo o papo de um dia inteiro e disse tchau com as costas, mudo. Minha mãe não ressentiu minha não presença, acordando com o som do portão fechando às pressas, nem com o silêncio estranho que explodiu depois. Fui deixado pra trás naquela manhã aberta, uma ferida concisa cheia de luz, a ruidosa luminosidade inicial de tudo. Dentro daquela manhã pequena, fui deixado pra trás, como uma lesma remoendo pedras. Os relógios denunciaram minha morte, às 8 e 45. Demitiram meus olhos, incineraram minha cara. Fui largado no carrocel d´água na pia da área de serviço, junto as roupas de ante-ontem e aos desejos de vida e sorte. Fui deixado pra trás na luminosidade estranha daquela manhã. Meu corpo removia-se antecipando o coito celeste, em esquinas de tempo, cruzaram adeuses. E a manhã corria cheia de pressa, e pregado no sofá, morto como o açúcar no fundo do copo, eu denunciava o que nunca havia sido.

Impressões

Não tinha nada a ver com isso. Ninguém tinha. Mas elas estavam lá, no meio da manhã sem dia, no meio do pátio sem pátio, dentro deles, que estavam lá, no meio delas, fora dali, dentro do ciclo que, invisível, nos tangia. Não tínhamos nada a ver, mas tínhamos. Elas estavam lá, no meio da manhã, no meio do pátio, dentro, livres, presas... Eu estive lá no meio delas. E no ciclo delas no chão, de joelhos, rimos, livres ali dentro pra rir se quiséssemos. Outras não. Outras fumavam, desencadeavam encadeadas, falas que num ciclo menor se perdiam. Outras não. Outras desapareciam, dentro de pequenos rostos, outros tantos - sumiam. E eu não tinha nada a ver com isso, mas tinha. Estava dentro delas, ajoelhado, desencadeando risos, rindo - livres, se quiséssemos. Mas não tinha nada a ver com isso, mas tinha, nada a ver, mas via.

Depois de mais uma visita ao JLA.
(Instituto feminino de correção para as menores infratoras)

10.11.07

Imperatriz

De sol a sol é o jogo
Efervescente do dia.
Os paranóicos irrompem
Em seus gastos de energia,
O trabalho e sua filosofia –
O sol-yang é o dia.

A noite é o escoar fino
E a lua sua força motriz,
A musa integralmente perfeita
E sua égide de giz,
Os cílios grandes, a tez pálida
Dos mistérios mil e, gélida –
Na abóboda os passos lisos
Da yin-imperatriz.


(Aos 05 de novembro de 2007)

6.11.07

Trecho

"Logo, a poesia tornara-se o poeta,
e o poeta a poesia.
Tornara o verso, uma mecha de cabelo,
uma estrofe algum gesto - sorrir vazio no espelho.
Logo, nasceram-lhe galhos, ramos e uma roseira.
E a poesia figurava no homem, assim como o poeta nas videiras.
Logo, a poesia tornara-se o poeta, amargamente,
e o poeta inteiro a poesia."

(publicado no Sem Digitais)

5.11.07

Lá Se Deram...

Não trovejei um segundo
não fui tempestade, nem sol
arquétipo de inverno trancado
e detestava as mais bonitas
era um ardor ser parte do grosso falatório
em que as bandeiras de maio inflaram
foram mais alto!

Reverdeci dessas cinzas, minas hercúleas...
meus risos me ataram
eram lenhadores enormes, fazendo sombra
algúrios que cantei mais baixo,
pra dormir repentino
e nada ser repetido,
muito menos essa vida cheia de vales.

Eis que parto prum sonho:

"Azaléias, mármores lunares nascendo
mil navios do futuro, balsâmicos
sob à minha língua sintética
um quarto de outros enormes sintetizadores
e a lua pareceu maior, menos morta...
Lá Se Deram em mim as vagas
areias cobrindo olhos, d´alguma foz ou gruta
cruzara no alto, um pássaro cinza - no instante
infâmias! eu, menor, cada vez mais...
chorava o indulto, nem pensava o quanto
acorrentado aos pés do céu
me atormentavam os riscos rápidos
das estrelas... fotografias modernas.

Lá Se Deram...
e fui ter comigo um papo eterno...
mas ecoaram sobre os ombros
minhas tétricas falas:
- Não! Não é a lua que se pendura lá, não é...
Não percebes? É um furo! Sim! - e ria medroso.
É um furo besta e ridículo,
mostrando a ponta do que há por trás!
Luz maior, pronta à nos cegar!
Não percebes? - erguia as mãos tentando rasgar
de vez o pano negro que cedia...
A lua é um buraco no céu! Não percebes?
É um buraco...

2.11.07

Que rima se esconde ?

Magnético enleio, estudo-te os olhos
E fico estático, escutando o elóquio
Silente do olhar que, ávido, estoco –
Poema visual de ausente escólio.

Alguns meros fonemas te dedico
E maiusculizo-os: ÊU-TÊ-Ã-MO;
São quase táteis, tamanho é o ânimo
Que me euforiza, exultante fico.

E se decassílabos me faltarem,
E se as rimas todas se evaporarem?
Que fim terá minha pequena ode?

Meu próprio arrebatamento responde
"A tão bela moça, que rima esconde
Sua aparição, que ao poeta acode?"


(Isaac Frederico)

12.10.07

Manhã de paz

Pensa na mulher amada... Claro
Como dia que raiou doirado agora
Cansado e a vista... Escura
Como as clausulas que te trouxeram
Ao contrato que assinou outrora.

Pensa no absurdo, e Nada
Que é sonho é realidade
Dois joelhos ralados - dobrados
E dos amigos deitados sem Vida
Que se vê e não se Chora

Sede honesto camarada
Valeu a pena?
Pena? do que?
Do EU jamais... nem do VOCÊ
É... esta manhã "Vitoriosa"

Os carros carregam as cruzes ENCARNADAS
Os hinos soam com glória
Não chora... sede homem!
Sede aquilo que não amou
Soldado.

(Fábio dos Santos)

10.10.07

Instruções.doc

Não sê Prometeu
Acorrentado a teus desejos,
Xeque-mateia teu ego
E seus sutis ensejos,
Enceta a compreensão
Do teu fundo interior
E salva o arquivo
No teu eu-computador.


(06 de agosto de 2006, poema integrante do livreto "Absinto", publicado em setembro de 2006 parceria com Vinícius Perenha)

5.10.07

Guerra e convívio

O meu vizinho da porta da frente
O meu inimigo da casa ao lado
Penso no meu antro sossegado
De noite de luz – apagado

A potência nuclear com telhado
Um lar bi polarizado
Na cama eu e minha esposa
Cada um pra cada lado

Minha mesa de trabalho
O escritório entrincheirado
Olhares-morteiros, estilhaços
Na campanha do dinheiro desesperado

A batalha naval da piscina
No clube ao domingo ensolarado
Bombardeio nas em’costas’
Do companheiro subjugado

Meu pelotão de neurônios
Em conduta – silenciado
Por mais cautela que tivesse
De assalto fui tomado

É o revezamento um x outro
Passando os cajados do poder
Medindo forças na alarmante pista
Que dá voltas até não sei quando

1.10.07

Cata um, cada dois

Sei que você me olha de cantinho de olho, mas é como olho de furacão.

Das tempestades da minha cachola, sobraram umas três pequenas árvores de jabuticaba, peroba e juá. Miúdas. Também uma pequena casinha com movéis estranhos e umas paredes coloridas. Acabei achando uns três livros do Caio Fernando Abreu numa sala de leitura escura. Sem contar com uma pequena vila de amigos e uma fábrica de cerveja. Ufa! Pelo menos isso. Mas a tempestade também me levou os planos e até a tinta da minha caneta. Uns pensamentos positivos, quatro rolos de filme e cinco carteiras de cigarro. Matou meu cachorro e ainda me arrancou a máquina de pinball preferida do bar. Tenho três fichinhas aqui no meu bolso. Ah! Maldita tempestade. As roupas do varal, todas voaram. Minha regata, meu tênis azul e até uma blusa do Che Guevara autografada pela Coca-Cola. Raríssima. O grande problema é que, quando a tempestade veio, eu não estava nessa terra. Eu fui lá nos céus dos demônios, procurar paz em outros olhos, beber alguns ácidos e acabei por me encontrar perdida por lá. Me achei, me amarrei e resolvi voltar. Pobre de mim, que encontrei minha terra sem um fio de linearidade. Todas as cores invertidas, as palavras embaralhadas e vários sons de moscas cegas, que não vêem em que merda pisam. Agora que vejo o horizonte se formar, começo a erguer uma casinha simples no alto de um morro verde, com três girassóis na frente e quase mil nuvens com formatos diversos - feito biscoitos sortidos - flutuando no meu altar. Só preciso de um varal.
Renata Dantas, não sei quando

22.9.07

Poema de asas


O poema sente –
Uma urgência de anteontem,
Um desespero de fluir
Pois que é chegado seu tempo
De rebentar asas
E partir.

Asas ……………………………..….… asas

“Eu não aguento mais
Ser na jaula de um papel;
Inconseguir para sempre
Num parágrafo vil;
Nutro

Asas ………………………………….…………….. asas

Que arqueiam aos limites da folha”


Asas ….. asas
Asas asas ………. asas asas
ASAS ASAS ASAS ……………………….. ASAS ASAS ASAS


Ruflando,
O filho não-servil
Do absurdo das palavras
E da caneta que lhes pariu.





(Isaac Frederico, aos 14 de setembro de 2007)

14.9.07

"Som das luzes"

O som das luzes,
dos refrigeradores
aquecendo.
Você não funciona mais!
O som dos olhos revirando
a noite
fazendo sombras na mente.
O som que fica - some.
O som das luzes
que não se pode abafar.
E dormir sem saber como,
sem peso
a-morte-cer na queda
e revirar poucas palavras.

Você não funciona mais!
não é o refrigerador,
não é a luminária,
nem o poço de silêncio receoso
não é o torpor dos seguranças
no meio da madrugada,
rangendo os pés e te acordando:
- Senhor, infelizmente...

Você não funciona mais, obrigado!
não tem o ruído sinfônico e cruel das luzes,
não tem o valor numérico de Cristo
quando acelera a máquina fria da manhã que surge
você não funciona mais pra mim
velho jogo de armar
que eu já nem armo
Nem o som das luzes,
você nem brilha
e eu acordando
de um
em
um
minuto
de
cinco em
cinco segundos
s
e
g
u
i
d
o
s
olhos roendo outra semente
no vaguear
de moscas
e de passos leves,
pequenos elefantes mórbidos
que não existiam.

O velho rebuscava o espírito
os jovens giravam
a noite de trabalho, escalas...
mas os cigarros nos cantos dos bancos
não me abrigavam.
E você não funcionava ali

O samba etéreo e vago que ficou ecoando
quando, dos letreiros eu pude trocar a pele
vi descosturar
a sopa de estrelas
e resolvi ficar pra ver onde iria.
Vem lá o trem negro outra vez
E o som das luzes adormecendo
tic
tac
tic
e o violão serviu de encosto
e o corpo serviu de barco
o mercado mais familiar,
cemitério imenso
nós, fantasmas, só luzes ruidando.
É o som das luzes ofuscando
e você?
Não, obrigado...
não funciona mais.

* Escrito depois de uma noite em claro,
perambulando, e tentando achar um canto pra dormir
num hipermercado 24 horas, da linda e triste zona sul.

12.9.07

O Trem

Há poucos podres anos
Comprei a passagem do trem
E com ela na mão
Não pude embarcar

Insuficiente bagagem

Alguém me falou com podres dentes
Que um dia tentara alegremente
Mas acabou frustrado e deprimido
E hoje mostra aos outros seu sorriso contido

Excesso de bagagem

Então, vi antes da porta fechar
Um homem de terno adentrar
Ao vagão da primeira classe
Sentou-se e foi servido com uisque

Subornara o bilheteiro.

(Fábio dos Santos)

"Sem título"

Tenho aprendido.

Aprendi a guardar gotas d´água na barba
e dali gotinhas de luz entre os fios.
E que a barba é um segredo bobo,
mas as mulheres jamais terão. (algumas)
Aprendi que sou mais chato com fome que criança com sono,
e que com sono, sou uma criança com fome.
Aprendi a atravessar os dias um à um
assobiando alto, fazendo algum barulho com as mãos
pra alertá-los.
Para os relógios não gritarem no meio-dia:
- É hora de abraçar!
E eu não abraço.

Aprendi que a solidão é esse gostinho amargo
da vontade de estar junto,
e se não fosse, seria o estar junto,
esse gostinho amargo
de não estar só.

Tenho aprendido.
Que quase nunca aprendo nada.
A não ser o que escrevo e releio,
boa memória fotográfica, salvas ao cerebelo.
E das músicas que façopoucas vão pro disco,
poucas vão ser cantadas novamente.
E que felizes são as que não são cantadas.
Pois, cada dor sabe a dor que é,
se não sabe, dói assim mesmo.

Aprendi que apêndice
é dor. (pr´alguns)
E adendo.
Qualquer coisa que se adicione ao texto depois,
mesmo que essa adição não tenha lá tanto sentido.
Aprendi:
Encher é sempre esvaziar.

Aprendi que ela é uma menina
que ela quer ser uma menina
e sonha ser uma menina
até age como uma menina
mas ralha como uma velha mulher cheia de câncrios.
E que nenhuma de suas perucas esconderá sua vontade de ter cabelos.

Tenho aprendido.

Ensinando só desaprendo
aprender é fingir que sabe
Só se aprende mesmo quando não entende
que se está aprendendo algo
Aprender é solitário
e tudo que é solitário faz bem
pois não depende de outrém
Sem egoísmos, no fundo sabemos
que no fundo mesmo,
estamos sempre sozinhos.

Tenho aprendido.
Que aprender a amar
é aprender a aceitar que mesmo
com tanto tempo,
ela é a mesma pessoa que conheci aquela tarde
e que todas as vezes me parece uma diferente.
E que dentro dos risos que ela larga
eu me apego aos mais sem graças
que são os que deixam os ossos de fora
e que mesmo com tantas aparências
estamos sempre buscando o verso das pessoas.
Mesmo sabendo que pra cada verso claro,
um lado escuro está pra ser mostrado.

Tenho aprendido,
urgentemente
que escrever é um remédio ofegante
e que nenhuma palavra guarda segredo da outra
e estão sempre contando seus meios
já os fins, estes nós mesmos os ditamos.

11.9.07

Discurso de Jesus, o nazareno

Salve salve Presença, não sou o Código da Vinci mas eis que tive acesso a este discurso de Jesus, proferido aos seus discípulos que, pra variar, não entenderam nada das palavras do mestre, eis uma das raízes dos equívocos que se perpetuam até os dias de hoje.

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O grande erro é crer ser Deus bom associando sua bondade à tua pessoal boa-ventura e êxito, havendo conflito em tua fé quando há dor e tragédia em teu caminho e no dos teus, quando tantas vezes o êxito de uns depende do malogro de outros, todos filhos de Deus que somos.
Deus não é bondade na ventura; sendo Deus o Devir, ele é a punição ao estático, em forma de decaimento e doença – e tua dinâmica, que só de ti depende, é teu prêmio na medida em que permite que tuas fibras possam acontecer, ir de encontro às chaves que te faltam.
A bondade de Deus é a dinâmica = permitir que nada seja definitivo, nenhuma derrota, tampouco nenhuma vitória.
O castigo de Deus é o estático = o Diabo, isto é, não-Deus = a fermentação nociva nas águas paradas, o sucesso de outros organismos e fibras que parasitam as fibras sedentas de hábito e preguiça de ser.

9.9.07

Bodas de inchaço

Salve a simpatia solta dos lábios
Que, úmidos e anelantes, se beijam
A pulsante paixão eterna sejam
Em poucos minutos, se forem sábios.

Tocam-se os corpos e, por muitas vidas,
Serão estradas de um amor titânico
Que, tal um bom flerte copacabânico,
Não durará as eras prometidas

Sem que nisso haja o gérmen do fracasso !
Amo-te ! Sem as bodas de inchaço
Da longeva aturança inatural

Que se vende na TV – e compramos!
O desgaste das pessoas que amamos
Por um engessamento irracional.


(Poema integrante do livreto "Cânion", Rio de Janeiro, em 10 de dezembro de 2006)

8.9.07

Não deixam

Também de volta às páginas do Presença a poesia do Grego (Rafael Huguenin), que entre sonetos virtuosos e estudos sobre poética, também traz a simplicidade, como em "Não deixam", abaixo reproduzida.
Abraços a todos !

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Não deixam o poeta escrever
Não o querem
O trabalhoapenas o trabalho
é a parte que lhe cabe.
Afogado em folhas
ele busca afago
em um poema estreito
todo interno
todo entranha
que não é luta nem é fuga

É artimanha.


(Rafael Huguenin)

6.9.07

Póstuma

Já não era sem tempo a volta da poesia do Felipe "Abdul" Sandin ao Presença, porque ficar sem os versos deste camarada aqui é prescindir de poesia libertária indispensável e, acima de tudo, agradável, renovadora e simples.
Tudo flui, Presença !

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Se a traça não devorar,
Se o fogo não consumir,
Se a água não desfizer
Minhas palavras serão a lembrança
De minha existência,
E poderão conhecer-me postumamente
E mesmo que ninguém se importe,
Elas ecoarão mudas pelo mundo
Não porque seja eu
Mais transcendente do que outros,
Mas porque o que estou sendo,
Basta como espelho de qualquer alma
As trilhas que meus pés fizeram,
A paisagem que mudei,
A energia que dissipei,
Tudo que sofri e as lágrimas que evaporei,
Ainda serão a contínua passagem invisível de meu espírito
Nesta terra oca de significados
Descobrirão que não há teleologia, não há verdade,
Não há matéria sem magia, e assim exaltarão os antepassados sem glória
Que conquistaram os dias tentando encontrar a si mesmos
Assim, minhas palavras farão o sentido que toda busca evoca;
Encontrar-se enfim,
Pleno com a vida que pulsa pelos séculos,
Em nós e no Universo.
PANTA REI ! TUDO FLUI !


(Felipe Sandin, do livro "Poesias ao vento", ainda por ser reproduzido e lançado)

3.9.07

Poema mecânico

Alo Presença !!
Da série "sonetinhos que eu compunha quando tinha 20 anos", saco este "poema mecânico", que escrevi para uma professora da faculdade.
Os sonetos desta época não são brilhantes, mas já eram todos decassílabos e fazem parte do aperfeiçoamento ao longo da trajetória.
A título de curiosidade, o poema foi entregue à minha musa acadêmica de então e ...
Vida longa !!

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Polimento, densidade, dinâmica,
Fluidez, resistência ao ar e à corrosão...
Estudo, porém dói-me o coração:
Sem ti estou neste mundo da mecânica.

Revendo temperatura e pressão
Fracassado sou na missão titânica
(Por entre aço inox, cimento e cerâmica)
De te esquecer e prestar atenção.

Vejo passarem lentos os segundos
E os escombros de estudos, moribundos,
Vazam com eles, desapercebidos.

E nada mais consigo imaginar
Senão tu, em tanta graça a me encantar,
Matando os raciocínios concebidos.


(Isaac Frederico, aos 06 de janeiro de 1999)

28.8.07

Cronologia

Joelhos ao solo
E as palmas das mãos
Chupeta e mamadeira
Ensinamento é aceitação

O corpo de pé
E os pés no chão
Dedo no umbigo e meleca
Pensamento em formação

Entusiasmo orgiástico
Amizades e diversão
Mãos nas vergonhas
Mito e repressão

Brinco na orelha
Tatuagem de dragão
Faculdade e bebedeira
Fumaça e revolução

De terno e gravata
Sapato lustrado - anel por convenção
Dinheiro e agenda
Filhos e preocupação

Serenidade aparente
Saudade e desilusão
Vontade de voltar no tempo
Impotência perante a vida

Caixão.

(Fábio dos Santos)

27.8.07

Analógico

“Esse peixe é tão lento que até um sujeito analógico o pesca”, menosprezou o cidadão-digital. Os peixes modernos, como tudo o que é contemporâneo, não dão conta das expectativas depositadas sobre eles – ou são as expectativas de hoje em dia que colapsam qualquer objeto de sua incidência, na medida da nanotecnologia e a ultrainformação condensada em uma impressão digital, acessível somente aos nervos, toda a cartografia de tudo que já se pensou em todos os segundos de todos os big-bangs desde o instante AA#B00345772-21.
Isto é obviamente uma piada, esta é a impressão que tenho, mas ao mesmo tempo é difícil, eu diria inatingível, se ver livre da correria que, quanto mais distante do epicentro, menos sentido tem. É um fenômeno de textura que, apresentando um padrão de mosaicos, na escala natural, revela imagens concomitantes em escala cotidiana, e se apresenta ao tato com sofreguidão e piedade, na escala macro, quanto mais macro, maior, por definição, e maior, linearmente, a palavra-semente, ruim, àspera, sobre a boa nova, que de nova tem o bilhar AA#B00345772-21 de anos.
A perdição e náusea vieram a galope para os visionários deste fato, os magros que andaram, andaram, andaram e andam, carregando em suas faces a face solta do fato dependente do tempo para ser fato; sem vértebras somos reféns da gravidade e não podemos andar para diante, talvez a condensação da informação e a rapidez que nos é exigida sejam a vértebra necessária – ou talvez a vértebra a mais que nos pune com um desequilíbrio do nosso centro de gravidade, quem sabe?, quem tem referencial suficientemente cósmico para afirmar? E aí estamos outra vez nos terreno pantanoso da dúvida eterna, eterna desde sempre, a contingência nunca utilizada, o continente pan, uno, a questão que nos é inseparável desde… e lá vem outra vez o “desde”, o tempo, a informação, o labirinto, o desmembramento, pedaços cognoscentes de Deus e servos obedientes do Eu.

(Escrito do livreto "Reações ao Grande Absurdo - A Palavra", parte 2 da obra Acontecente)

20.8.07

O PoP - Heyk Pimenta

Dando prosseguimento à seqüência Heyk-William de textos, rs.
Mais uma vez, o blogger não me permite a diagramação original do poema. Uma pena. Todos os poemas do Heyk têm diagramação muito bonita e marcante, mas, infelizmente, os leitores terão que ficar exclusivamente com o conteúdo. Eu ia escrever "apenas" ao invés de exclusivamente, mas, nesse caso, não é apenas, é coisa demais!
Presença!
*********
O PoP

A Semana de Arte Moderna não foi
popular
o pipoqueiro não entrou pra ver
A inconfidência mineira não foi popular
o escravo o capitão do mato e a gentalha
não pediram bis

A semana de vinte e dois vanguardista
popular como pele de chinchila
de massas como o aldente venesiano
que custa 80 euros na praça San Marco
não foi vista nem lida

Os homens descalços não puderam entrar
e nem leram nos jornais
já que eram iletrados

A inconfidência do ouro mineiro
30 dinheiros daqui para o além
não incluiu mucamas nas fileiras

o iluminismo só reluz em quem tem
dourado no corpo

Dependurado pelo pescoço
qualquer homem é santo
reconhecido o herói depois de morto
é mais claro que é heroísmo
e é só em vida
os tropeços na forca não predizem
a futura aceitação magistral do herói

Como antes foi o filho do jogador
das peças brancas e pretas do xadrez
depois o médico argentino
no meio o hindu embrulhado no lençol
ainda cairão heróis por terra

Será que os soldados da guerra santa da
cocaína
serão embalsamados à bronze
e postos em cima de cubos de mármore?
exemplos de
bravura e
paixão
para o próximo século

Minha vida continuará a mesma
pacatos só são heróis na bíblia

Popular era o angu a mandioca e a couve
hoje são os copos de guaravita
o cimento nas calçadas com ou sem
papelão
e as capas de revista
investimento gratuito
parar na banca para ler a manchete
ela é popular
a gata da hora é popular

Um real não salva a vida do homem
com as costas na urina
unhas encravadas
sorriso preto às oito da noite
cabelo encebado atrás da orelha
Mas garante a cana o solvente a gata da
hora
um
outro
ou outro

Um real não é herói

Uma semana é popular
a semana de fevereiro
a semana de um ano inteiro
por voto ela fica
a que não quer passar
abre as portas do ano
dos heróis
do sorriso preto

herofagismo com arte
um real é popular
Heyk Pimenta

17.8.07

Fuligem e Fulgor - William Galdino

Fuligem e fulgor

Vermelho abria-se em sorriso à estupidez disfarçada. Fez de cego pros fatos. Horas mortas no corpo estático. Uma cadeira velha. Um dia de chuva. Pouco via. Há muito havia ido embora a compreensão. O mundo era do tamanho do que os olhos alcançavam e num quadrado minúsculo eles cegaram. A mente era um saco de retalhos. Uma imagem por segundo, não, muito mais que isso. Velocidade que impossibilitava qualquer assimilação. A náusea. O coração acelerado quando a sobriedade gritou mais alto e trespassou as barreiras dos artifícios. Por terra o muro que circundava o real. Incompreensão. Apenas tolices ditas para manter a conversa. E no fundo ele queria cair sobre ela e fodê-la com raiva. Era o corpo que não reagia às vontades. Era o cansaço e o som estridente dos garfos arranhando a parede. Era sul, era norte, era confusão. Não havia o certo, não havia o errado. No corredor do hospital ele a sentiu como há muito não sentia, a vida crua. Era preciso deixar o silêncio do esconderijo. Cair nos fatos. Chocar-se com o mundo.
Abandonar e entrar novamente.

William Galdino, Janeiro de 2006.

16.8.07

A Bula da Ordem - Heyk Pimenta

Não conheço quase nada da história do Heyk. Só sei da acidez de sua poesia. Ao vivo é melhor ainda. Tentei manter a diagramação original do poema, mas o blogger não deixou =(
*******
A BULA DA ORDEM

Como como como
só vomito
me perdi no tempo
mas entendi o ciclo
sensivelmente duro
me tornei pacífico
e regurgito gaivota
porque sardinha fabrico

pra me livrar de tantas vezes
em que meu tesão intensifico
faço pausa pro bom grado
e os outros homens imito

então corro corro corro
porque não há tempo
e assim contemplo

o que como como como e vomito

Heyk Pimenta

14.8.07

"Risos"

Vou preparar um riso
amargo
destes esquecidos

sob guarda-chuvas,
atravessando a rua
para sempre.

Prepararei este riso
amargo
povoado de outras menores
doçuras,

cheio de outras delicadezas...
dessas pequenas mentiras.

um riso amargo
para ferir tudo
o que ainda
não fui capaz de sentir.

13.8.07

"Operários"

Gira o torno
gira o ponteiro mais veloz
uma e meia numa tarde absurda
operamos dinheiro dentro das máquinas
operamos o tempo
gira o torno e torna a girar
o sangue frio nos tubos de aço
um riacho vermelho e prata
éramos ópera
cantávamos o apito das dezoito
a noite banhava o sol
uma lua de sabão em pó já apertava os olhos
cantávamos às solas de sapato no barro
a ópera moderna
girava o torno noutro turno
nós a caminho de casa
a família e os filhos da janela
comemos do pão pela manhã
durante o dia o estômago quente
agora a noite, uma sopa do almoço
o p e r á r i o s
mordemos os lábios numa reza vaga
apagamos as sextilhas, deixamos os versos
noutra manhã manchada, marchamos em frente
operários de o p e r á r i o s
vamos operar a rota validez do esforço
o ignóbil agir no arado escravo
e festejar as sombras
beber nesse escuro vão entre as casas
que a noite esconde nos quintais
onde podemos ver a vida mais leve
onde podemos entender os cães
a atirar-lhes estrelas
e ajeitar-nos no sofá remendado
para um momento de paz
operamos o inferno
o p e r á r i o s
operamos um decênio
o p e r á r i o s
operamos as máquinas
e matamos nossos corações maquinários
operários surdos
operam seus dedos
nessas letras
nessas teclas
opero por vocês
que me operam
e operam minha voz

Anônimo

Teu corpo nu - branco
rio verde de pequenas veias
salientes
para fora da pele,

sob a penugem amarela
e magra
a cobrir-te na extensão
que és tu agora,
quando penso.

Avisto que tua boca
sela neste resquício o que dizes
sem por muitos me focar - sufoca-me.
No que não pensas?

Assim, o nu de teu corpo
no branco lácteo de meus pequenos dentes
instala-se avaro
como o gosto da carne

e aquele cheiro
cheio de suavidades
vem demonstrar que eu ainda preciso
dentro dessa minha força raquítica

abrigar o desejo obeso de
te esquecer.

10.8.07

É fogo

ilê presença !
posto nova poesia do saudoso presente Vinícius Perenha.
este poema já é posterior ao lançamento do seu último livreto, o "Levante", do início deste ano.
abraços a todos !

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Aceno
Com meus sonhos e idiossincrasias.

Projeto a vitória quando seus olhos antecipam que
Vai sorrir
E responder meu aceno
Com seus sonhos e idiossincrasias mais.

Vai chegar perto
E
Trezentosessentagraus-ear
A ordem lógica das coisas.


Com um aceno tão simples descubro que
Seeuparardevocê
Me afogo.


(Vinícius Perenha, agosto de 2007)

6.8.07

Regresso

Bom, esse poema retrata o regresso de um jovem cadete ao seus aposentos numa escola militar.
************************************************************************************

Desliguei a luz do farol
Acendi a luz interna do carro
Aproximando-me lentamente
Do sentinela ali parado

"Identifique-se por favor"
Interpelou-me
Mostrei-lho um documento
Autorizou-mo

Adentrei ao lugar
Olhei novamente o documento
Guardei-o
Não sabia ainda quem eu era.

(Fábio dos Santos)

O primeiro último encontro

Quisera ficar mais alguns minutos
Ao leito quente onde sonhava seguro
Quimeras de amores feitos
À língua mole e coração duro

Mas pedregoso céu ainda escuro
Na janela onde ia à passos curtos
Decretou mora ao cobrado juro
À bagunçada cama onde dormiam juntos

Enquanto se realizava a aurora
Que doirava os olhos pequenos e molhados
Vermelhos tristes que tinha à hora
Aumentava-se a distância dos braços dados

Há muito seus atos foram julgados
Revés dos perdões que teve outrora
Punido pela rotina e desleixo conjugados
Refugiados na bebida agora chora

Fora um belo caso
Que quisera a corrente do rio
Terminasse raso
Terminasse frio

Fora apenas uma noite
Navio que desatraca do cais
Não merecia esse adeus - maldito açoite!
Não merecia... um até mais.


(Fábio dos Santos)

5.8.07

Catecismo

minha descrição predileta do poeta Afonso Nives sempre começa com "egresso das fileiras da poesia pós-modernista sul-africana..." mas o velho poeta e então bôer rasga-me as definições e se coloca de forma pouco propícia a dúvidas de quaisquer gêneros.

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Ave, bispo.
Seca a lágrima vespertina,
Vã,
Libertina,
Do sofrimento arrebanhador,
A bata puída,
A crença grávida
De fervente louvor,
Prenhe de párias
Do deus-dor,
Sofricêntrico.

Pendura no varal
O gafanhoto descido da cruz,
O ídolo hanseníaco
De tão castigado
Que carimbaste com "J.C.",
INRI,
Ri
O vicário das mucosas abertas,
Sacerdote desconexo
Da punição limítrofe
Do anti-sexo.


(Johanesburgo, aos 10 de dezembro de 2006)

2.8.07

23.7.07

Sexta-feira Lúcia - William Galdino

Sexta-feira Lúcia
Estou aqui te observando enquanto você caminha pele orla, com as mãos nos bolsos desenhando percursos sobre as linhas da calçada. Vejo-te brincando com as chaves pra aliviar as mãos tensas, sorrindo sem graça pro vizinho que te cumprimenta. Então você pára de repente, indecisa entre água de coco e refrigerante, e escolhe o mais barato. Guarda o troco e senta-se com os olhos baixos diante do orelhão, pensando se deve ou não ligar pra ele. Mas como sempre você pensa demais, acha que está sendo inconveniente, insistente, e prefere desistir, sem saber o quanto ele espera pelo seu telefonema.

Seus dedos bailam no ar, e você sente uma tristeza fria como estas noites de agosto. Dói tanto, mas não há pranto, você já não sabe chorar, as lágrimas endureceram e ficaram cravadas no fundo d’alma, e como pesam. Ergue o corpo e segue na caminhada. Não sabe se volta pra casa ou continua andando, não sabe. Estanca o movimento, sente o mundo girando e tem de vontade de gritar, mas não grita, silencia e volta ao lar. Eu te sigo. Ao chegar os cães lhe fazem festa e você os enxota aos pontapés, sente raiva de si, sente demasiadamente. Curva-se e os acaricia numa tentativa de desculpas, e eles as aceitam. Entra no quarto, tira as roupas e as arremessa sobre a cama, deita-se nua no chão frio, sem saber o que fazer desta noite e assim fica, imóvel por um longo tempo.

Na sua memória passeiam as lembranças de todos aqueles que pareciam te olhar de uma maneira diferente, e realmente alguns deles te olhavam. Mas você sempre se achando indesejável, sem-sal, embora no fundo desconfiasse que as outras não tinham um terço do seu valor. Você tinha um mundo no peito, mas parecia não haver ninguém para ouvi-la. De uma daquelas tardes distantes, ressurge a imagem do cara que esbarrou contigo na saída do cinema. Seus olhares se encontraram e naquele segundo vocês pareciam descortinados um para o outro, mas as palavras não saíram, e ele se perdeu no meio da multidão. Desde então aquele rosto nunca mais se apagou da sua lembrança. E vieram outros verões, alguns encontros, bem menos que desencontros, e a terrível sensação do tempo que passou sem ser vivido.

Na buzina de um automóvel, você desperta das lembranças e volta ao presente. Observa a luz do poste que invade o quarto e pousa sutil no bico do seu seio, decide levantar-se e diante do espelho solta um riso discreto. É hora de voltar à vida. Escolhe o seu vestido mais bonito e sai mais uma vez à procura de uma noite diferente.
William Galdino, 2005.

19.7.07

Um só (comotodos)

E foi assim...
Parti de um simples traço vertical
Em direção ao infinito
No sentido contrário do que se é
Subvertendo a ordem da imposta
Rotina onde meu cansado corpo se encosta

Do simples saber que não se é
Aquilo que minha mãe julgava eu ser
O óbvio que o mundo esperava ver
É que tive a grande iluminação
Apenas mais um milho
Apenas mais um grão

E o seu doutor advogado
Policial civil, militar ou o viciado
Exercem cegos suas funções de merda
Esperando que a glória os alcance
Tolos! Ainda não sabem que a morte
É um instantâneo - um rápido lance.

Sorte minha que descobri
Que parte de mim ficou aqui
Nestas linhas simples e sem sentido
Para aqueles que só aprendem com os ouvidos
E nunca sentirão o que senti
Eu sou parte de você e o mundo é de mim.

E envolvi com os braços
Aquela fria coluna de mámore
Como se fosse ela minha irmã.

(Fábio dos Santos)

18.7.07

O encontro das águas - William Galdino

Uma lua quase plena
Arranha-se na quina do edifício.
Enquanto um brinda
O outro se atira.
Há um cão em cada esquina
E talvez um deles cheire
E coma aquele beijo de despedida
Que desabou no chão.

O marujo holandês sorri por suas escolhas.
Renúncia do leito em troca do mar.

Bocas falam vitórias
Criando suas próprias medalhas.

O enamorado dança.
Como a única coisa a ser feita.
Ter os olhos e os pés dados.
Salva-vidas pros dias de naufrágio.
Clariceano, anseia uma morte bonita.
Daquelas de se fechar os olhos e partir levando o melhor.

Sobre as calçadas da Lapa
Desinteressadas
As cobras-voadoras
Seguram na boca a luz da noite

Banhando as barbas sujas de alguém que já sonhou.

William Galdino, julho de 2007

14.7.07

Renascimentos

A poesia do Leonardo Schuery já esteve presente aqui, por duas ocasiões, com os excelentes "Mundo real" e "Reflexões do interior".
Poesia sempre densa e reflexiva, retrata estados sutis, a percepção do próprio ser não apenas enquanto cognição sentimental, mas como um conjunto onde o corpo desempenha papel essencial e participante.
A poesia que posto hoje, "Renascimentos", é carregada porém muito bela e traz um sentimento pujante de vigor e superação especiais.

________________________________________________

O encontro dos corpos cansados
Tocando a morte material
Na face destruída pela dor
Da consternação de saber que não há mais vida

Pelo ar o odor fúnebre das lamentações
Acúmulo de restos, resquícios dos destratos
Na alma conspurcada pelas desilusões
Não há mais nada

E refaz-se o corpo
Milagre inesperado da regeneração natural
Sem deturpações e torpores inconsistentes
É possível o amor

Dorme fundo em auspiciosos sonhos
Mesmo cercado de perigo
Faz amanhã um abrigo
De luz própria e nada mais.


(Leonardo Schuery, em 26 de junho de 2006)

9.7.07

Homenagem aos pais ausentes

Por ocasião da minha formatura, fui responsável pela homenagem a ser feita aos pais falecidos, inclusive o meu próprio.
Resolvi fazer um soneto, que acabou se tornando o primeiro poema que declamei em público. Este poema não está em nenhum dos livretos que lancei.


As luzes do ambiente se esvaecem,
Moléculas de ar brecam o som;
Denso se torna este festivo tom
E nossos olhos, lassos, umedecem.

Este é um momento particular:
A recordação do abraço ausente,
A perda repentina de um parente –
Segundos de caráter secular

O olhar triste sucumbe à gravidade;
O açoite inexorável da saudade
É elevado à última dimensão.

Mas é hora dos passos adiante,
Essa sim é a homenagem gigante
Aos que conosco não mais estão.


(Isaac Frederico, em 2002)

6.7.07

nO silênciO um pOnto. um pequenO furO nO espaçO. nO perfeitO cantO. um pOnto no silênciO. O fim de tudO. a bOca calada. a pOrta fechaDa. um risO de fachaDa. uma cOr sOlúvel. um chá intRagável. uma dOr impaGável. um rOsa incOntrOlável. um varal suspensO. um sOnho no asfaltO. um assaltO. cOraçãO declaradO.

5.7.07

Balcão

Qual segredo esconde o vale
Que daqui de fora vejo
Por onde anseio passear a língua
Encardida de desejo?

Tamanho encanto te deste a sorte
Ao sem querer nascer com tal sorriso
Onde querem tocar meus lábios
Ansiosos submissos

Gaguejo ao interpelar-te
Quando chega em mim a fila
Transformando um coração
Que é de pedra em argila

Queria eu ver-te completa nua
Ver rosar teu rosto augusto
Pois definir a crueldade - para mim
É ver-te só o vestido busto

("São quatro reais, senhor."
Diz-me sem emoção
A mulher da padaria
Por detrás do seu balcão)

E então, pago-lha com o cobre!!!
E desço a rua sorrindo... feliz só de ver.

(Fábio dos Santos - para o livro LASCIVO)