15.1.05

Pena

Éramos nós,
e mais nada,
nada além,
aquém,
só aquilo que éramos.

Fomos expulsos.
Nós, aquilo que éramos.
O que queríamos ser.
O que dizíamos,
as belas palavras.

Passaram-se os dias,
caíram as pétalas,
foi-se o perfume.

Criamos espinhos,
criamos mentiras,
criamos rotinas.
Críamos,
mas não mais.

Atamo-nos,
demos nas pontas, nós.
Ficamos sozinhos
na cama, enorme,
enormes,
e sós.

(Vinícius Perenha, Rituais de ver e olhar, 2003)

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O que me move a escrever este blog de poesias não é criar textos de reverência às poesias que gosto, de forma que possa influenciar os outros. E sim meramente me aprofundar nessas poesias que já li, digitá-las, conhecer suas esquinas e atalhos, perscrutar cada palavra e tentar tirar delas outros significados que porventura elas queiram passar.
Um poema de separação também é um poema de amor, se a separação é intrínseca ao amor, se amor e dor são faces de uma mesma moeda.
Este poema me é especialmente querido pela forma muito própria de abordar este assunto, tão familiar a quem já amou, quase revoltante pelo retrato simples mas, no fim, exuberante pela clareza do retrato.
O "Pena" está incluído na parte 3 do Rituais, e notar a interligação destas partes do livro também é uma viagem à parte, impossível de ser retratada aqui. Sugiro que os que gostam não se deixem acomodar e peçam o livro, já fora do mercado, aliás :)

Um comentário:

Caetano Penna, disse...

Cheguei aqui por indicação de uma amiga, a Renata. Gosto de poesia e me arrisco a escrever alguns versos infames de vez em quando. E gostei do que vi aqui, e desta poesia em especial. Parabéns!