12.1.05

Vinícius Perenha

A poesia em geral tem a propriedade única de, com poucas e precisas palavras, colocar diante da tela do nosso pensamento sensações "de fósforo": rápidas e intensas, que reconhecemos de imediato, como que levando uma pedrada na cabeça.

Os poetas que isto atingem, por si só, são talentosos. Não precisam se estender em palavras rebuscadas e muitas para nos tocar e impressionar.

Outros poetas, em nível acima daqueles, conseguem isto e ainda são capazes de nos proporcionar, com a mesma intensidade artisticamente fugaz, insights inteiramente novos, ou pelo menos antes inacessíveis mediante esforço consciente.

Eu posso aqui fazer descrições neutras sobre os poetas que mais gosto mas não tenho como fugir da parcialidade ao escrever sobre o poeta mais impactante que já li. Aqui, é claro que o impacto da poesia em cada um está diretamente ligado à similaridade de experiências vividas - ou percebidas.

A roupagem cinza do estilo particularmente seco do Perenha não deve ser encarada como pessimismo, interpreto eu. Ao contrário; seus dois livros "oficiais" - Rituais de ver e olhar (2003) e Magik (2004) - são muitas vezes um consolo, ao tirar-nos dos ombros a farse de que somos a raça campeã, num orgulho coletivo, ou o indivíduo sempre vencedor, no plano individual.

"Se eles venceram todos realmente os jogos,
porra,
aonde aqueles que, como eu, perderam alguns?"

Ganhar e perder, nascer e morrer, são lados da mesma moeda, e só pode ser dessa forma para tudo que está no Devir, ou tudo o que é.

Não quero prosseguir em descrições das viagens que a leitura constante de Perenha me traz. Isto seria estragar o caminho dos que ainda não o leram, ou dilacerar minhas próprias leituras de sua poesia. Quero, sim, tentar trazer a público o máximo de escritos que eu puder deste poeta, porque é a única coisa que me ocorre fazer diante do que se me afigura como uma estupefaciante obra, de inestimável valor filosófico e poético.

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Risíveis

Veja bem,
que não sei como proceder no meio do desfile.
Porque fatalmente,
sou um estúpido:
não compreendo a beleza dos modelos.

Fico sem ar com tantas cores,
e é incontrolável,
me irrito:
Todos sorriem !

Será que eu também vou ter que parecer um herói ?

O que me consola,
é sentir que algo cheira mal.
Se eles venceram todos realmente os jogos,
porra,
aonde aqueles que, como eu, perderam alguns ?

Sei que não têm culpa de dourar ao mesmo sol que me torra,
mas entediado me levanto,
e saio com a impressão de ter perdido o final da piada.


(Rituais de ver e olhar, parte 1)

5 comentários:

Abdul disse...

Certamente uma excelente poesia do Perenha, onde se pode enxergar claramente todo sarcasmo e sombriedade de suas construções. Um cínico de carteirinha, que não gosta de música dançante e alegre tipo Dave Matthews, mas grande poeta e amigo.
Leiam Vinícus Perenha, faz bem pra mente que se aliena !
Abração irmão
Abdul

Andréa Perenha disse...

Vinicios, seu avô chama-se Nemésio Perenha?

Vinicius disse...

Sim, esse é meu avô.

Você o conhece?

deixe um e-mail.

Anônimo disse...

Sim, se for o mesmo Nemésio, ele é irmão da minha avó Ruth. Logo você é o meu primo que não vejo desde que éramos crianças.
Abraços,
Andréa Perenha.

Andréa Cotrim Perenha disse...

Meu e-mail é:
andreacotrimrj@ig.com.br
Aguardo um retorno.
Andréa Cotrim Perenha