22.12.09

Lançamento do livreto " Torres Homem, 278 "












Fala rapaziada
Teremos hoje o lançamento do livreto de poesias " Torres Homem, 278 " pelo Presença, lá na praça São Salvador, perto do Lgo do Machado.
O evento rola a partir das 1830hs, daqui a pouco na verdade.
O livreto contém 5 poesias inéditas de cada um dos 3 autores - William Galdino, Vinicius Perenha e Isaac Frederico e conta ainda com 5 ilustrações do William.
Serão 30 cópias, distribuídos pelos presentes por ordem de ordem nenhuma.
Então,
O quê @ Lançamento de mais um livreto do Presença, "Torres Homem, 278" -
Onde @ pça S. Salvador, próxima ao Lgo do Machado -
Quando @ Hoje, 22 de dezembro de 2009, às 18:30hs -
- - -
Enganador
Arteiro que sou,
Um fanfarrote sênior,
tapeio meus versos
prometendo-lhes a vida num poema
tanto-sílabo e royal
E eis que agora moram
no albergue bufonal
deste texto escaleno –
que nem a boas rimas se presta!
Pagaram caro, queriam fama,
A escalada literária!
De boas penas tinham ganas…
Mas foram postos, à moda pária
Por este hadoque doidivanas.

10.12.09

Brasília, 19 horas
agarrada às asas do boing
de gravatas grita: - Fica!

Côncava, plana,
central, estranha, via deserta.

Brasília é a Barra da Tijuca à noite,
embora não saiba.

Brasília desdentada de ônibus-trem-elétrico
voltando.

Brasília é moderna,
embora não caiba nela mesma.

Embora não saiba,
é luz de abajour intelecto
janela sóbria em pequenos prédios - púlpitos suicidas.

É astrofóbica, filosófica...
- É coisa-e-tal, saca?

Brasília é mais cedo,
bala de festa.
Mais-tarde deixa Brasília tonta;
gira Brasília sem braços.

E Brasília têm filhos
e pais separados.
Aguarda adoção.

Brasília ambidestra.
Fala alemão, engole facas.
Agarrada aos fios, é uma criança pedindo colo.

Brasília tem nome,
ora não tem.

O céu quer Brasília mais alta,
chama por ela, que
nem da janela pisca.

Brasília é uma curva desfeita.

Brasília é alcoólatra, posta por conveniência.
É uma prancha e dois pratos.

Brasília é ela.
Que vai embora e chega,
retorna do inferno pro inferno.
Pra outra Brasília
que nunca pisei.
Distinta dela mesma,
de seus detritos.

Brasília que nunca estive,
e já nem sinto o quanto a amo.

Brasília ruiva, hippie e bela.

Agora,
Brasília inteira
é uma curva.

(2007)

9.12.09

Andanças por Mangaratiba

Na pedra um corte
veio aberto a dinamite
vaga -lumes tateiam as folhas
e os postes põem suas lâmpadas pra dormir.
A serra desce sobre o mar.
O vento venta na contramão dos meus olhos.

Não há fala.
Não há gente.

Tenho dois pés
que me levam por um caminho em que nunca passei.
Um cão me late hostil
adiante outro me abana o rabo.

Sobre o asfalto um caracol lança-se à sorte
se for seu dia chegará ao outro lado.

A noite não tem hora
não tem ponteiros.

A pedra transpira.

Há um breve momento
onde o corpo se desfaz
instante em que desato de mim.

Sou uma ave sobre um mourão
uma assombração aos olhos do passante

diante de um rochedo e de um mar que se move.

Amanhã
ao nascer do sol
não haverá o que há.
Será uma outra baía
um outro eu.
.
Tudo fica aqui
e passa
.
e passará.
.
Outubro de 2009

1.12.09

O MANTO

Camaradas, foi irresistível.


Segue, meus caríssimos irmãos de armas, que o pesado manto rubro-negro será, mais uma vez, içado sob o cântico de uma nação e, novamente, milhões de olhos estarão postos sobre a realeza desta tradição de proporções bíblicas que é o Flamengo.

O Flamengo que superando todos os adjetivos possíveis, tal como uma vez previu o grande Nelson Rodrigues, já não se conforma mais à idéia de time ou mesmo de comunidade esportiva. A legitimidade que não pode ser comportada por nenhuma noção que não a de uma força da natureza. De outra forma, a atitude dessa paixão seria coisa sobre ou anti-humana. Mas qualquer um poderá perceber nos olhos de um membro dessa fraternidade a evidência absoluta dos mais elevados sentimentos , a característica cristalina da entrega ao júbilo mais absurdo e ao sofrimento mais indescritível com a mesma certeza de que é nobre pertencer a essas cores em toda e qualquer circunstância.

Cantemos sempre todos os hinos, que de certa forma, todos eles nos pertencem. O ente Flamengo, gigante bicolor sem forma que, na representação da armadura rubro-negra, enverga bravio todos os nomes e rostos, todas as paixões e violências que o amor mais fanático de todos pode conter.

Sejamos gratos, nação. Estejamos à altura. O apocalíptico Flamengo é maior que qualquer homenagem.

O triunfo aguarda os próximos dias na respiração ansiosa e entrecortada de todos os homens. Será com respeito e veneração que o grito explodirá hoje e sempre em todas as bocas e lugares. Entre o carnaval de sorrisos e lágrimas não haverá mácula ou infidelidade que resista. Todo e qualquer homem vivo saberá que o Flamengo é campeão.



Vinicius Perenha, 01/12/2009.

27.11.09

14.11.09

Aprendo

Aprendo a ser melhor
que a cabra
que a ferramenta na caixa
que o dobre d´água.
Sendo pior que eles,
não sendo nada.

Aprendo a reconhecer o mau
nas aranhas que me esquecem
nas pessoas-porta-retratos que os suportam
os porta-retratos, sendo pessoas.
O mau que urge nas silenciosas caras
que aflige famílias, doenças graves
Aprendo sendo melhor que ele - o mau,
existindo como pessoa
despregada de paredes.

Aprendo a ser mais forte
que o sino
que o mar na manhã trêmula
que a faca sobre o dedo da velha
sobre o peso das costas
que a corda bamba de mendigos
muro de alcançar baixios.
Aprendo a ser mais
sendo menos,
tênue fio que se estanca.

Aprendo a resolver o meu medo
no escuro
mergulhado num mar de cinzas sonoras
tubarões e sacis me perseguem
agonizando entre terreiros de macumba
capas negras e vermelhas sob a fumaça dos caximbos
a orca, o vizinho queimado vivo, o desenterro do amigo
olhos mortos na pele que devora o riso.
Aprendo a ter coragem
não tendo, deixando que o monstro me alcance
tornando-me algum tipo de monstro.

Aprendo meu delírio
vivendo-o
no duro concreto da mais absurda realidade
meu mastro fundo, falo!
no ácido que me toma
estrelas-irmãs
telefonemas solitários
tudo pra um dia que não existe
Aprendo a delirar delirando
rasgando o que me parece ter algum resto de delírio.

O irreconhecível mente

Talvez não estivesse
exatamente vivo
exatamente desesperado - como pareceu
exatamente eu.

Talvez fosse apenas um outro.
Um desconhecido de mim, de você.
Desapegado desse instante, desentranhado.

Talvez nem tenha sido assim
vai saber?!
E discreto, talvez, nem tenham percebido.
E este eu, qual desconheço,
poderia estar mentindo,
fingindo-se passar por um outro de mim
que ainda não me chegou o momento exato de ser.

11.11.09

Impontual

Estou aqui,
com meus dracmas,
suei, cheguei,
dúzias e destinos depois,
disse-te, viria,
dramático, dodecadividido,
Mas puma,
Pontual, todo presente.

Ilê, mas – cadê?

a sabendas não vens,
ou caminhas?

Impontualesces?


.....Fazes-me levêdo?

Estiveses e verias
Os caminhões atochados
de segundos, de sargaços,
de serviços e sonháculos
.....e outros levantiscos afins,
que nem eu sei mais o que são.



(Aos 6 de outubro de 2009)

4.11.09

A rua tempo

Na Voluntários passo
como eles
voluntário

há quanto tempo não me ligo
três nove setenta
quatro três sete cinco

mais que marginal
imaginário
ser a terceira margem do rio

**

Ao quererem-se nos Inválidos
invalidam-se e somem

e os sonhos bons
quem dera os fosse
são segundos

os primeiros
neles e no tempo
se acanham

e perduram
e perduram
e perduram

**

Os muros da escola atentos ao cego que voa
Nuvem bailarina no mar de eutanásia dos tempos

**

A Passagem aberta
doce
de portais de amêndoa

em raios da hora nova
é nos novos arranhões

o sono solda
tempos breves

e outubro passa
como música
no ônibus

poemas fruto das ruas Voluntários da Pátria, Inválidos e Passagem do Rio de Janeiro

27.10.09

Diário do México - final


Detalhes reveladores do Terrazo de los muertos, onde eram realizados os sacrifícios dos membros do time perdedor, no Gran Juego de Pelota, uma espécie de jogo de bola de pátio que existia


Observatório astronômico em Chitzén Itzá, repare nas semelhanças com os observatórios modernos (domo redondo)


Detalhes da aquitetura maia, muito mais elaborada e detalhada que a azteca



Evidência clara do sistema de pontuação do Gran Juego de Pelota, no pátio, onde o time que mais vezes passava uma bola por entre o aro, mais pontos fazia



Detalhe da arquitetura maia
# # #


.....07 jan

.....Conceito importante: na região da Cidade do México e arredores, os indígenas locais eram aztecas. Aqui na Península de Yucatán, não; aqui eram maias, outra raça, outra cultura, tudo diferente.

.....Os maias – inventores do conceito do zero, avançados astrônomos e matemáticos, artistas, filósofos e escritores sofisticados, arquitetos de alguns dos maiores monumentos conhecidos – criaram seus primeiros assentamentos no que hoje é a Guatemala, cerca de 900 a.C. Ao longo dos séculos a expansão maia se deu para o norte e por volta de 550 d.C. havia cidades-estado maias na parte sul da península de Yucatán.
.....A última das grandes capitais maias, Mayapán, começou a colapsar por volta de 1440 devido a lutas internas pelo poder. Em 1540 o conquistador espanhol Francisco de Montejo utilizou as tensões internas do império maia para subjugar a península de Yucatán.
# # #

.....Acordamos às 4hs da matina para pegar o vôo das 0620hs para Mérida, no aeroporto internacional Benito Juarez. Acho que, nesse momento, não havíamos ainda nos dado conta da importância de conhecer não apenas a cultura azteca, a principal do México, mas também a maia, que floresceu em toda a península de Yucatán.
.....O vôo saiu na hora mas pousou antes – e inesperadamente – em Campeche, devido a condições adversas de visibilidade no aeroporto internacional de Mérida. Às 1130hs, entretanto, já estávamos vagando pelo centro histórico de Mérida, em busca de um bom hotel a um preço satisfatório.

# # #
.....Francisco de Montejo fundou Mérida em 1542 e utilizou os nativos maias como mão-de-obra escrava; quando o México se tornou independente da Espanha em 1821, o território de Yucatán foi utilizado como largas plantações de tabaco e cana de açúcar. Embora legalmente livres, os maias eram escravos devido ao sistema das dívidas que criavam com os latifundiários.
.....Em 1847, após quase 300 anos de opressão, os maias se sublevaram, assassinando cidades inteiras de brancos; foi o início da Guerra das Castas, a rebelião mais organizada em todo o período de dominação espanhola. Finalmente, em 1901, a paz foi obtida mas ainda passaram-se 300 anos até que o estado Yucatán de Quintana Roo passasse novamente ao controle do governo.
.....A cidade de Mérida é a capital do estado de Yucatán, que abriga antigas cidades maias como Chitzén Itzá e Uxmal, bem como as coloniais Izamal e Valladolid. Mérida – antigamente a grande cidade maia T´hó, foi a principal cidade de contato com a Espanha da região de Yucatán, durante o período colonial; durante a Guerra das Castas apenas Mérida e Campeche foram capazes de resistir ao assédio dos rebeldes; nessa época Mérida recebia ordens apenas da Espanha e não da capital da colônia, a Cidade do México. Foi apenas com ajuda da capital colonial que Mérida conseguiu evitar a submissão aos rebeldes, durante a Guerra das Castas.
.....Nos chamou a atenção o clima daqui, quente e úmido, completamente diferente do clima seco da Cidade do México. Na verdade isso foi um certo alívio, para nossos padrões cariocas.
.....Aqui há simplesmente uma enorme quantidade de turistas, pudemos logo perceber em nossa busca por um hotel. Posteriormente, conversando com as pessoas, viemos a saber que há poucos turistas brasileiros; a maioria dos turistas aqui são americanos, canadenses, alemães e franceses, tomando a cidade inteira (centro histórico) e movimentando boa parte de seu comércio.
.....Achamos rapidamente um hotel em conta, não tão longe do centro histórico, e saímos pra almoçar e caminhar pela cidade, a fim de relaxar e coletar as primeiras impressões. Estávamos exaustos, em um estado semi-onírico, em virtude da madrugação de ontem e do desgaste do vôo.
.....E nesse misto de cansaço e confusão, fizemos uma andança. Percebemos de imediato uma certa mudança na fisionomia das pessoas, em relação ao povo da capital: todas igualmente indígenas mas de compleição mais atarracada e rosto mais redondo. Achamos os nativos mais simpáticos também, mas difícil dizer se isso tem origem na raça, na cidade bem menor em relação à capital ou simplesmente no fato de ser um lugar completamente orientado para o turismo.

.....Passamos pela Plaza Grande, coração da cidade, e vimos a Catedral de San Ildefonso, o Macay – Museo de Arte Contemporanea Atheneu de Yucatán, a casa de Montejo, que abrigou os familiares descendentes de Francisco de Montejo até cerca de 1970, o Palacio Municipal e Palacio Del Gobierno, onde compramos nossas passagens para Chitzén Itzá para amanhã, às 0630hs; passamos também pela Iglesia de Jesús, Teatro Peón Contreras e Universidade de Yucatán.
Pela tardinha tiramos um cochilo inevitável e deois saímos para jantar e comprar protetor solar para a jornada de amanhã. De noite caímos, esgotados.
# # #
.....O diário que fizemos termina aqui; a partir de Mérida, fizemos a viagem até Chitzén Itzá, ilustrada em algumas fotos acima, ficamos mais alguns dias em Mérida e depois regressamos à Cidade do México e em seguida ao Brasil.
.....Ainda que breve a viagem, pudemos coletar dados sobre a história, informações antropológicas e artísticas deste país interessantíssimo que é o México. A compleição das pessoas, de que forma os movimentos anteriores de sua história desembocavam na situação de hoje, o caráter passional de muitas partes da história do país, a pouca mistura das raças, ao contrário do Brasil, a também imensa influência da Igreja Católica, a base alimentar assentada no milho, os museus impressionantes, a pimenta em todas as comidas, o assombro e pesar com o resultado do choque de duas das maiores civilizações à sua época, os pensamentos vagando sobre o que poderia ter acontecido, fosse preservado o legado indígena dos Aztecas e Maias... Poderia ter havido tal encontro pacífico, tendo em vista o caráter colonialista dos espanhóis e o caráter beligerante dos aztecas ?
.....Gracias México !

23.10.09

Diário do México - 11


Av. Paseo de la Reforma, com el Ángel


Outra obra de Gustavo Monroy, desta vez um autorretrato


Painel com aspectos da cultura mexicana, como Quetzacoátl, o deus-serpente, e o milho, pilar da cultura alimentar azteca até hoje (saindo de sua boca) e o sol


Pintura pré-hispânica, nas ruínas de Teotihuacán



Virgem de Guadalupe, padroeira do México

# # #


.....06 jan
.....Acordamos imbuídos de decidir nossos próximos passos, sem maiores delongas, já que o dia da passagem de volta se aproxima, aos poucos. Ficamos entre algumas opções, como Tula, Puebla, Oaxaca, Acapulco, Cancún – no fim decidimos mesmo por partir amanhã para Chitzén Itzá, na península de Yucatán, e voltar sexta à noite; sábado à noite é nosso vôo de volta para o Brasil.
.....Decidido isso partimos para compra as passagens e ver algum filme no cinema, a fim de descansar um pouco as pernas, doloridas das últimas andanças. Caminhamos pela Paseo de La Reforma até o escritório da Aeroméxico e, compradas as passagens, partimos para o shopping da Plaza Delta, perto da estação de metrô Centro Medico.
.....No shopping almoçamos e vimos um filme; depois do filme recapitulamos as coisas que vimos na capital, os traços indígenas das pessoas, a maior presença de brancos descendentes de espanhóis dentro dos shoppings, o frenesi e a poluição da capital, os museus 5 estrelas, a vívida arte local e os renomados artistas, a intrigante história das diversas civilizações pré-hispânicas e seu choque bizarro com os espanhóis, notadamente com a chegada de Hernán Cortés em 1519, a cultura alimentar baseada no milho desde os tempos dos aztecas, as relações com o vizinho do norte, os EUA, o sentimento das pessoas com relação ao passado colonial do país etc.
.....Compramos algumas lembranças e partimos de volta para o hotel; amanhã teremos que acordar por volta das 4hs para conseguirmos pegar o vôo para Mérida às 0620hs.

# # #
(Última parte do diário a ser publicada em 27.10.2009)

19.10.09

Diário do México - 10

Teotihuacán


Detalhes aquitetônicos

Calzada de los Muertos vista do topo da Pirâmide da Lua


A impressionante Pirâmide do Sol



Pirâmide da Lua, ao final da Calzada de los Muertos, vista do topo da Pirâmide do Sol

# # #

.....05 jan

.....Hoje acordamos bem cedo para ir conhecer as pirâmides de Teotihuacán, a cerca de 50km a norte da capital. Pegamos o metrô até a estação autobuses del norte e de lá pegamos um ônibus até a entrada do parque, aproximadamente 1h de viagem e r$ 6,00 cada pra entrar.

.....Logo ao avistar a magnânima Pirâmide do Sol, das planícies de Teotihuacán, já sentimos a vibração desta que foi uma das maiores cidades pré-hispânicas, com sua população tendo chegado a cerca de 200.000 habitantes em seu auge.
.....A Calzada de los Muertos, cortando a cidadela no eixo norte-sul, é circundada por enormes espaços planos e qItálicouadrados, por sua vez perimetrados por escadarias. A imponente Pirâmide da Lua, ao final da Calzada de los Muertos, é linda em sua meticulosidade, ainda que de menores dimensões que a Pirâmide do Sol.
.....Subimos ao topo desta e descansamos um pouco, estarrecidos pela energia do lugar e imersos nas reflexões sobre como deveria ser a vida ativa, sócio-econômica e religiosa desta cidadela; o trabalho e a energia gastos na erição das pirâmides, a acentuada religiosidade e oferendas e Quetzacoátl, os escambos... Ficamos felizes por estarmos compartilhando a energia juntos, mais esta viagem, mais estas reflexões antropológicas, mais esta ciência do quão pouco somos, mais este brainstorming da mente inserida em novas geografias, liberta das amarras das rotinas, sondando outras eras, uma espécie de portal no tempo e a oportunidade quase grotesca de olhar para nossos atuais e questionáveis caminhos e nos perguntarmos que tipo de inserção queremos ter.
.....O sol abrasador, a areia, os cáctus também me trouxeram uma espécie de torpor, a insolação me castigou, arrastei os passos, agradeci mil vezes a Avalokiteshvara pelo vagar vago e pela fata morgana confusa e ondulante saindo da areia quente e sufocante, levantando vôo e entrando nos pulmões, cegando os olhos, a experiência ao mesmo tempo triste e fascinante de facear aquelas estruturas e sentir um misto milenar de culpa, devaneio, humildade e entrega nas mãos do Devir; ao meio-dia estavam presentes Inti, Tláloc, Ganesha, Selasié e o mártir dos mártires Yeshua, fundindo as lembranças inolvidáveis de Mescal, Sidarta, o despertar de si mesmo, de uma simples postura ereta a um plano maior absoluto, a compreensão disso no eixo do tempo, e um simples roer de unhas à entrega de uma vida no fluxo incessante do vir-a-ser.
.....Confuso, com fome e feliz, vaguei de volta, ao lado da Lígia, para a entrada do parque onde pegamos, por volta das 15:30hs, o ônibus de volta para o centro.
.....Precisamos decidir os passos finais da viagem, os próximos dias, já que nossa reserva neste hotel termina amanhã; pintam como opções idas a Tula e Chitzén Itzá, mas ainda não estruturamos o lance direitinho.
.....Ainda passamos no Zócalo para ver alguns murais na Secretaria Pública de Educação mas estava fechada já que hoje é véspera do dia dos Três Reis Magos, importante data nacional. Voltamos a pé para o hotel empreendendo a longa jornada pela Benito Juarez e Paseo de la Reforma, ainda passei para usar a internet, cheguei no hotel como um supliciado, exausto e feliz, bobo, ausente. O Devir seja louvado.

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(Penúltima parte do diário a ser publicada em 23.10.2009)

16.10.09

Diário do México - 9

Eu e um vitral com o símbolo da gênese da civilização mexicana - a águia sobre o cáctus, devorando a serpente, no Castillo de Chapultepec.


"Las dos Fridas", um dos famosos quadros de Frida Kahlo, no Museu de Arte Moderno.


Painel retratando momento da História do México, no interior do Castillo.


Jardins no plateau superior do Castillo de Chapultepec.



Monumento a Los Niños Heroes, no bosque de Chapultepec.

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.....04 jan

.....Mais um dia na Cidade do México! Vamos dedicar o dia de hoje ao Bosque de Chapultepec, o “morro dos gafanhotos”, na língua Náhuatl, o maior parque da capital, com mais de 4km quadrados, com lagos, um zoológico e alguns excelentes museus. Pegamos o metrô por volta das 0930hs e descemos na estação Chapultepec, de onde adentramos o parque andando, em direção ao castillo.
.....O Castelo de Chapultepec, no interior do bosque, foi construído em 1785 como residência para os vice-reis da Nova Espanha. Após a independência o castelo se tornou a Academia Militar Nacional e foi tomado em 1847, durante a invasão norte-americana; nesta ocasião, mais de 8000 tropas ianques avassalaram o local, quando se forjaram los niños heroes. O general mexicano Santa Anna liberou os cadetes de resistirem, vislumbrando o massacre, mas seis cadetes, de 13 a 20 anos, preferiram a morte resistindo do que o rendimento.
.....Após a execução de Maximiliano de Habsburgo, marcando o término do chamado Segundo Império mexicano, o castelo se tornou residência dos presidentes mexicanos até 1939, quando o então presidente Lázaro Cárdenas o transformou no Museu Nacional de História.
.....No caminho para o impressionante castelo passamos pelo monumento aos seis niños heroes. Chegamos ao castelo após a agradável caminhada e logo nos impresionamos com a vista esplêndida do local, a ~45m acima do nível do resto do parque. O castelo está muito bem cuidado e seus jardins impecavelmente podados; no seu interior encontram-se mais alguns dos tão caracteristicamente mexicanos murais, como o Painel da Independência (de Juan O´Gorman) e Do porfiriato à revolução, de Siqueiros.
.....O restante do museu é repleto de uma explanação excelente da história moderna do México, aproximadamente da Independência à presidência de Lázaro Cárdenas; foi fera para decantarmos os parcos conhecimentos que adquirimos estudando a história do México nos últimos dias.
.....Do castelo partimos para o Museu de Arte Moderno, isso ainda dentro do bosque.
O Museu de Arte Moderno não possui um vasto acervo mas possui algumas jóias impactantes, como o internacionalmente pop Las dos Fridas, de Frida Kahlo. Vimos ainda mais quadros dos consagrados Dr. Atl, Rivera, Siqueiros, Orozco, Tamayo e O´Gorman, além de uma exposição de Remedios Varo de tirar o fôlego, a surrealista veterana mexicana, foi excelente. Pensei no William e em como certamente estes nomes obras o agradariam.
.....Prosseguimos o passeio dominical pelo bosque que, já pelas 12hs, estava agora completamente tomado pelas famílias mexicanas, aproveitando o sol para passear, consumindo todo tipo de comidas locais, maquiando os niños com pinturas dos lutadores mais famosos de lucha libre e confraternizando aos milhares.
.....Passamos ainda pelo zoológico mas fomos desencorajados a entrar pela romaria homérica de pessoas na fila, afluindo de todos os lados, aproveitando a generosa gratuidade do local.
.....A esta altura, sentindo fome e um certo cansaço acumulado dos dias, partimos para o shopping de Coyoacán, onde almoçamos e tomamos um expresso revitalizante. Depois regressamos para a Zona Rosa, compramos alguns víveres e encerramos a caminhada de hoje; amanhã partiremos para conhecer as ruínas de Teotihuacán, a norte da capital, e certamente precisaremos das energias renovadas.

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(Continua em 20.10.2009)

13.10.09

Diário do México - 8

Arte mexicana contemporânea


Exposição sensacional de lucha libre


Itálico As ruas da capital, vistas da Torre Latinoamericana


Subcomandante Marcos, retratado pelo artista contemporâneo Gustavo Monroy



Outro do Monroy


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.....03 jan

.....Acordamos mais ou menos à mesma hora de sempre, a Lígia não conseguiu dormir tão bem, eu dormi tranquilo. Um pouco difícil se acostumar ao ar extremamente seco, que aos poucos nos vai abrindo rachaduras nos lábios e dedos.

.....Decidimos voltar ao Centro Histórico, desta vez de metrô, para percorrer alguns locais que não conseguimos visitar ontem. Pegamos o metrô na Pino Suárez, de onde fomos caminhando em direção ao Zócalo.

.....Nossa primeira parada foi o Museo de la Ciudad de Mexico, um discreto museu se comparado aos medalhões que aqui existem; lá vimos uma amostra sensacional sobre a luta livre de personagens (estilo telecasting), aquela com lutadores mascarados, muito popular por aqui desde os anos 30. A exposição retratou a teatralidade carnavalesca e bizarra da luta, a carreira de diversos lutadores ao longo dos anos que se tornaram mitos, muitas das máscaras e pintura utilizadas, bem como as participações catárticas do público.

.....Ainda neste pequeno museu, do qual pouco esperávamos, vimos uma exposição sobre o aspecto cultural, ainda muito presente em cidades menores, do enfeite e celebração dos mortos, com grandes altares adornados de fotos, frutas e flores, verdadeiras obras antropológicas em homenagem aos respectivos mortos, frequentemente nos lares mais modestos e humildes possíveis.

.....Também havia uma pequena explanação sobre vida e obra do arquiteto mexicano Luís Barragán (1902-1988). Nascido no estado de Jalisco e educado engenheiro civil, Barragán foi auto-didata em arquitetura; recebeu em 1980 o Pritzer Price, a mais elevada honra (prêmio) da arquitetura nacional.

.....Deste museu fomos em direção ao Zócalo e depois, tangenciando-o, viramos na conhecida calle Moneda.

.....Nossa primeira parada na Moneda foi o Museo de la Secretaría de Hacienda y Credito Publico, do qual, a julgar pelo nome, não sabíamos em absoluto o que esperar; o que vimos foi muito além do que esperávamos, um apanhado honestíssimo de artistas contemporâneos mexicanos. Logo na primeira sala havia uma excelente exposição de quadros de Gustavo Monroy, denominada Polítika-Ficción, com basicamente todos os quadros monstrando personagens da política mundial e nacional, como Osama bin Laden e o subcomandante Marcos, empunhando armas contra a própria cabeça, muitos dos quadros sendo autorretratos do pintor na mesma posição e secundando-o figuras e cabeças humanas cheias de chagas.

.....Este museu foi certamente um dos pontos altos do dia; também vimos uma exposição de Antônio Ruiz - el cuerzo - outro pintor mexicano contemporâneo de formas muito coloridas e proporções perfeitas entre as figuras, seus volumes e interações, ainda que de traços pouco fiéis à realidade estrita; sua obra me foi uma surpresa deliciosa, fiquei encantado com os quadros.

.....Vimos também uma pequena exposição de fotos de denúncia social de Ambra Polidori, com sua impactante frase "la infancia no es un juego para niños".

.....À parte disso havia as menos encantadoras mas igualmente agradáveis exposições de Maribel Portela (esculturas em cerâmica - "Jardim onírico" - retratando formas de vida imaginárias de plantas marinhas), Jorge Marín (esculturas fabulosas em bronze, de uma precisão estarrecedora) e também uma coleção menos atraente de ícones religiosos russos.

.....Saímos desanuviados do museu e, observando que nossa próxima parada - o Museo Nacional das Culturas - estava fechado para reforma, compramos uns sandubas (muito apimentados, claro, como fugir...) e comemos sentados na calçada, observando o incessante fluxo de pessoas comendo e consumindo, às vésperas do dia de los 3 Reyes Magos.

.....A quantidade de gente no Centro Histórico é algo surpreendente ao mais impassível dos observadores, algo como um Saara cheio (na Uruguaiana) multiplicado por 100; ali ficamos comendo quietos observando as romarias pra lá e pra cá.

.....Finda a improvisada refeição continuamos com nossa peregrinação de museus partindo para o Museo José Luís Cuevas, outro artista contemporâneo mexicano de grandíssima expressão.

.....Já passeando pelo museu, me peguei pensando nas diferenças de minhas viagens com a Lígia para minhas viagens em carreira solo, de antes. Jamais, nas ocasiões solo, eu ia a museus e exposições, uma vez que minha prioriade era sempre a interação franca com as pessoas, a conversa, o encantamento tête-a-tête, as conversas aleatórias com estranhos na rua, interações estas que me parecem pouco atraentes em ocasiões como a de agora; senti nostalgia mas não desejo de "regredir"; também tive lembranças da minha última viagem solo, ao Sudeste Asiático, onde senti uma árida solidão, em parte pelo momento que vivia, em parte pelas muitas vezes incontornáveis diferenças culturais - incluso o idioma - em relação aos locais.
As viagens-doideira de antes, dos meus 22 aos 26 anos, já não caberiam em meu ritmo atual - será forçoso admitir? Talvez, ainda que o devir atual, não o trocaria por nada.

.....Como descrever as obras de Cuevas? Sua posição na arte contemporânea mexicana é absolutamente merecida, seus traços simples mas inteiramente comunicativos nos tiraram o fôlego; as cores simples das obras e a parte erótica da exposição são sen-sa-cio-nais, muito viajantes, muito dialogantes, os rostos das figuras quase sem expressão, caregados de significado, entretano.

.....A outra surpresa fantástica deste museu ficou por conta de uma exposição de Pedro Friedeberg, uma espécie de cartesiano com aquarelas com detalhes e formas muito minuciosas e trabalhadas, de cores muito vivas e títulos das obras fabulosos; foi uma grande dádiva conhecer ao mesmo tempo, no mesmo museu, José Luís Cuevas e Pedro Friedeberg.

.....De lá partimos para outro museu, desta vez o Museo Nacional de Arte e, putasquiospariu, já estávamos um tanto de saco cheio de museus, a esta altura do campeonato !
.....O Museo Nacional de Arte possui um grande acervo de pinturas barrocas, pouco interessantes senão pelo legítimo aspecto histórico das obras; percorremos, abatidos, os corredores e mesmo os Velázquez, Siqueiros, Riveras, Orozcos, Tamayos e Montenegros que vimos não nos levantaram o ânimo.

.....Já exauridos, ainda passamos pela Torre Latinoamericana que, do 40 andar, oferece uma perspectiva bastante interessante de toda a Capital, uma mistura de megalópole com superlativos, com sua história tétrica e bonita, seu solo esponjoso, seu ar seco e poluído e seu trânsito inacreditavelmente congestionado, seus costumes hermosos.

.....Pegamos o metrô de volta e desabamos na cama, após um banho reconfortante; amanhã será a vez de explorar um pouco a área de Chapultepec. Obrigado, devir.


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(Continua em 16.10.2009)

9.10.09

Diário do México - 7

Águia sobre um cáctus, devorando uma serpente - o símbolo da bandeira do México, segundo a lenda, foi o sinal para a fundação de Tenochtitlán pelos aztecas.


Palacio de Belas Artes

Painel de Diego Rivera no Palacio Nacional, retratando a vida azteca em uma quantidade surpreendente de detalhes e beleza.


Catedral Metropolitana



Plaza de la Constituición - o Zócalo

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.....02 jan

.....Acordamos cedo e às 9hs já estávamos lentamente a caminho do centro histórico; a Lígia ainda sente dores no pé direito e eu ainda não estou 100% da dor das costas.
.....Tomamos um café quente na SevenEleven e pegamos a av. Paseo de la Reforma, rumo à av. Juarez, que nos levou até a Alameda, uma longa e gostosa caminhada. Chegamos por volta das 10:30hs à Alameda Central, um grande parque arborizado a menos de 1Km do Zócalo (o centro histórico – Plaza de la Constituición); criada no final do séc. XVI pelo vice-rei Luiz de Velasco, a Alameda é hoje um refúgio popular, particularmente aos domingos, quando fica repleta de famílias defeñas (da Cidade do México).
.....Da Alameda entramos no Museu Mural Diego Rivera, que nada mais é que um abrigo para o famoso mural de Diego Rivera entitulado “Sueño de uma tarde dominical em La Alameda”; pintado em 1947, o mural de 15m x 4m retrata diversos personagens-chave da história do México juntamente com figuras populares, como vendedores de doces e furtadores, bem como camponeses. A personagem central é o esqueleto Catarina, personagem de José Guadalupe Posada, o artista mexicano das famosas caveiras, de quem Diego foi admirador. O mural está muito bem conservado e o museu, por ser pequeno, proporciona uma experiência light.
.....De lá observamos o “Semi-círculo a Juarez”, um monumento na própria Alameda, a Benito Juarez. Varamos então a Alameda e chegamos ao Palácio de Belas Artes; o prédio que abriga o museu, uma construção absolutamente imponente cuja fachada inteira é de mármore, foi feito sob Porfírio Diaz, o ditador. Sua construção começou em 1905 e a situação começou a se complicar à medida que o elevado peso começou a afundar a construção no solo esponjoso da Cidade do México. Em 1910 estourou a Revolução Mexicana, de modo que o lugar ficou pronto apenas na década de 30.
.....O museu foi outro ponto alto da viagem, no dia de hoje, com obras belíssimas de Rufino Tamayo, David Alfaros Siqueiros, a obra de arte “A catarse”, de José Clemente Orozco e o mural absolutamente fascinante “El hombre em El cruce de caminos”, de Diego Rivera; este mural foi originalmente comissionado para o New York´s Rockefeller Center, mas os Rockefeller destruíram o original, pela forte temática socialista do mesmo, ilustrando o capitalismo acompanhado de suas guerras e o socialismo como opção de saúde e paz, com as figuras de Lênin, Trotsky, Marx e Engels. Posteriormente Rivera reconstituiu o mural, que agora se encontra aqui.
.....Ainda no Palácio minhas costas voltaram a doer, até que a dor se tornou bastante forte; tomei um tylenol mas não adiantou, comecei a ter novamente dificuldade em respirar fundo, estava mesmo incomodando. Senti tristeza de estar com esta dor durante uma viagem; passamos na farmácia e tomei uma injeção de neuroflax, que me aliviou.
.....Me sentindo melhor, rumamos para a Plaza de La Constituición, a famosa Zócalo, que significa “base”. A praça é uma das maiores praças urbanas do mundo, com seus 220m x 240m, e fica sempre abarrotada assustadoramente com milhares e milhares de consumidores, camelôs, performistas, turistas ou apenas cidadãos locais comuns. O formigueiro de gente impressiona até os mais acostumados, com todos recebendo uma espécie de bênção de uma bandeira hasteada do México, de proporções épicas.
.....Na face norte da praça fica a Catedral Metropolitana, cuja construção feita em cima de ruínas aztecas (por sua vez em cima das chinampas), faz com que o local afunde permanentemente alguns centímetros por ano, desde o início de sua construção, originando rachaduras no piso; há inclusive um prumo imenso, pendendo do teto da catedral, ilustrando o quanto a estrutura vem afundando, ao longo dos séculos.
.....Da catedral partimos para o Palácio Nacional, na face leste do Zócalo, outro prédio colossalmente imponente, como muitos do Centro Histórico da maior cidade do mundo.
O Palácio Nacional é o local de trabalho do presidente da república (Felipe Calderón, por ocasião desta viagem), bem como do Tesouro Federal. O Palácio também abriga diversos murais pintados por Diego Rivera entre 1929 e 1935, retratando a civilização mexicana desde a chegada de Quetzalcoátl, o deus-serpente dos mexicas, até o período pós-revolucionário; os murais são um verdadeiro achado e a visão de Rivera da antiga Tenochtitlán é incrivelmente detalhada e bela.
.....Não me sai da cabeça o processo histórico que se desenrolou nestas terras, desde o estabelecimento de grandes civilizações que, está provado, tiveram acentuados problemas com excesso populacional, escassez de água e desmatamento, e seu encontro absolutamente insólito com Hernán Cortés e sua trupe de bandidos... essa visão é mística, quase, pelo absurdo da coisa toda.

.....Do Palácio, já um tanto esgotados pelas andanças e pela multidão atordoante, rumamos para o estarrecedor Templo Maior, as únicas ruínas aztecas ainda presentes na Capital. O templo é supostamente o local onde os aztecas avistaram a águia sobre um cáctus devorando uma serpente, o símbolo que hoje ilustra a bandeira do México, e que foi um presságio para a fundação de Tenochtitlán, segundo reza a lenda. Na crença azteca, este local seria, literalmente, o centro do universo.
.....Cada imperador azteca que iniciava seu reinado deveria encetar uma ampliação do Templo Maior, retratando a expansão e magnanimidade da civilização; cada ampliação dessas era acompanhada de sacrifícios em massa de guerreiros capturados de outras tribos, em homenagem ao patrono azteca, o deus Huitzilopochtli.
.....Ao ver as combalidas ruínas, de importância histórica absurda, não pude deixar de fazer uma comparação – desantajosa para o Templo Maior – com Machu Picchu, a cidade sagrada dos Incas, no Peru. Talvez a comparação não faça sentido, pelos diversos processos históricos envolvidos, mas por aqui realmente não sobrou pedra sobre pedra dos infortunados aztecas.
.....Finda a visita ao Templo Maior iniciamos a cansativa caminhada de volta para o hotel. Fizemos boa parfte da andança já escuro mas não tivemos a sensação de insegurança, as ruas ainda estavam bastante movimentadas; chamou-nos a atenção o internacionalmente (e negativamente) conhecido trânsito da Cidade do México. Chegamos exaustos no hotel, os olhos ardendo pela poluição, o nariz doendo pelo ar seco da altitude de ~2300m – onde se encontra a capital – e a barriga roncando, por volta das 20hs. Tomamos banho, jantamos e desabamos.


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(Continua em 13.10.2009)

6.10.09

Diário do México - 6

El sombrerón


Parte de um mural de Siqueros retratando Porfírio Diaz, que caiu em 1910 marcando o início da Revolução Mexicana



Parte de mural público de Diego Rivera, retratando aspectos da história do México.

O capeta, no canto superior esquerdo, é Hernan Cortéz.




Mariachis




Xochimilco mágico





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01 jan 2009 – Feliz Ano Novo !


.....O movimento liberal que depôs Santa Anna ficou conhecido como Reforma e sua figura-chave era um zapoteca de Oaxaca chamado Benito Juarez, que acabou sendo eleito presidente em 1861. Por essa época o México tinha pesadas dívidas com a Grã-Bretanha, França e Espanha, que enviaram uma força coletiva para arrecadar suas dívidas, mas Napoleão III foi mais além e tentou invadir o México.
.....Os franceses submeteram a cidade de Puebla e a Cidade do México em 1863 e no ano seguinte Napoleão III enviou Maximiliano de Habsburgo para ser imperador porém este foi logo assassinado por leais a Benito Juarez.
.....Juarez morreu em 1872 e em 1876 foi eleito Porfírio Diaz, que governou em uma ditadura sangrenta conhecida como o Porfiriato até 1910, quando teve início a Revolução Mexicana.
.....A chamada Revolução Mexicana foi um período de 10 anos de intensos embates de forças, alianças, traições e brigas pelo poder. Nas eleições convocadas para 1910, Francisco Madero era uma figura eminente mas foi preso por Porfírio Diaz; em sua reclusão ele clamou pela revolução, que se espalhou rapidamente pelo país.
.....Nessa ocasião, revolucionários sob a liderança de Francisco “Pancho” Villa tomaram a Ciudad Juarez em maio de 1911 e Porfírio Diaz renunciou; em novembro do mesmo ano Madero foi eleito presidente mas topou logo com as diversas brigas pelo poder no país, sendo o pólo mais oposto ao seu representado pelo líder radical camponês Emiliano Zapata, do famoso “Tierra y libertad !”

.....Madero foi deposto em 1913 e com a ajuda da embaixada dos EUA foi empossado Victoriano Huerta; no mesmo ano os revolucionários se uniram contra Huerta no chamado Plan de Guadalupe: Venustiano Carranza, Pancho Villa e Álvaro Obregón; Zapata também estava lutando contra Huerta.

.....Rapidamente Huerta foi derrotado e estourou a luta das facções revolucionárias pelo poder, tendo Carranza saído vitorioso. Carranza assassinou Zapata em 1919 mas no ano seguinte foi, por sua vez, assassinado por ordens de Obregón; Pancho Villa foi assassinado em 1923.

.....Os 10 anos de violenta guerra civil haviam deixado um saldo de 1,5 milhões de mortos e a economia do país em frangalhos; assumindo como presidente em 1920 (até 1924), Obregón empreendeu o esforço de reconstrução do país; nesta época, artistas famosos como Rivera, Orozco e Alfaros foram comissionados para decorar importantes prédios públicos com grandes e vívidos murais contendo temas histórico-sociais. Álvaro Obregón foi re-eleito em 1928 mas veio a ser assassinado.
.....Em 1934 Lázaro Cárdenas foi eleito presidente e sua memória é ainda hoje largamente cultivada em função de suas medidas populares, como a distribuição de terras e nacionalização de empresas petrolíferas estrangeiras que operavam no México.


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.....Acordamos cedo, ainda indecisos sobre o que fazer, em virtude do feriado e de quase todas as atrações e comércio estarem fechados. Ligamos para alguns museus e para o zoológico de Chapultepec mas ambos estavam fechados.

.....Decidimos sair pra caminhar e tomar café mas logo notamos que as ruas estavam completamente desertas. Trocamos idéia com um coroinha taxista que estava em frente ao hotel – señor Juan – que nos informou que em Xochimilco as atividades estavam rolando normalmente; já vínhamos estudando um bom dia para ir a Xochimilco, a Veneza do México, e aí estava a oportunidade perfeita, no dia 1, onde não haveria mesmo muitas outras atividades.

.....A cerca de 30Km a sul do centro da Cidade do México, Xochimilco é uma espécie de rede de canais circundados por jardins “flutuantes”, onde indígenas xochimilcas, através de técnicas de mistura de lama e vegetação nas águas rasas do lago Xochimilco, produziam seus alimentos. Suas avançadas técnicas de cultivo os tornaram alvos cobiçados dos aztecas em sua expansão nos arredores de Tenochtitlán.

.....Nos canais pode-se alugar gôndolas simpáticas e multicoloridas para percorrer os estreitos canais circundados pelas chinampas (terras de plantio). Saímos numa gôndola simpática e logo nos maravilhamos com o habitat; Xochimilco é muito tradicional para as famílias mexicanas de todo tipo, que alugam gôndolas para fazer pic-nics, comemorar aniversários de 15 anos e até casamentos, com até 20 pessoas por gôndola.
.....Nos surpreendemos com o clima do lugar, à medida que nossa gôndola ia avançando, diversas gôndolas indo e vindo, repletas de famílias, com música e comida, outras gôndolas de pessoas vendendo milho, maçã do amor, flores e grupos de mariachis, os tradicionais músicos mexicanos, estampando em nosso rosto um sorriso que não acabava, ora de alegria, ora do cômico que era ver aquelas figuras de largos bigodes, sombreiros e tocando músicas dramáticas e intensas, lindas mesmo.

.....Percorremos os canais por cerca de 2hs e compramos algumas músicas de uma gôndola de mariachis, uma experiência única de quase mijar nas calças de tão engraçados que as figuras eram, com alegria, jovialidade e riqueza cultural.

.....Mirávamos de canto de olho as diversas famílias em suas gôndolas, deslizando pelos canais, comemorando as bênçãos de seus devires; creio ter sido até agora nossa experiência mais mexicana – e mais engraçada, também.

.....Depois do passeio vi algumas fotos de Emiliano Zapata e Pancho Villa à venda e a Lígia comprou um vestido e uma camisa, bordados, bonitos e coloridos.

.....O longo caminho de volta me fez lembrar novamente do gigantismo da capital e o arder nos olhos pela poluição da megalópole, a despeito de as ruas estarem vazias por causa do feriado. Chegamos ao hotel por volta das 16hs e ainda demos uma volta na Paseo para tomar um café, comer alguma coisa e comprar água.

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(Continua em 09.10.2009)

3.10.09

Diário do México - 5

Vitral espetacular no Castillo de Chapultepec


Jardins do Castillo de Chapultepec (tradução de Chapultepec: "morro dos gafanhotos")


Tacos, frijoles e pimenta pacarai !


A festiva Plaza Hidalgo



Tocador de realejo na Plaza Hidalgo


.....A multicolorida plaza Hidalgo estava em ar festivo, com diversos enfeites pomposos, adornando o coreto e o prédio principal, largo porém não alto. Logo ao chegarmos topamos com um tocador de realejo ! Depois viemos a verificar que não são raros, por toda a capital; havia também diversos vendedores de comida e artesanatos, alguns restaurantes e um clima agradável, talvez pela proximidade do ano novo ou pela proximidade do dia de Los Tres Reyes Magos, aos 6 de janeiro, onde tradicionalmente as crianças recebem muitos presentes, tradição mais forte, inclusive, que os presenteios natalinos.

.....Comemos em um restaurante local onde havia uma dupla de mariachis tocando e cantando para os comensais; comemos tacos e frijoles, a culinária local é simplesmente vasta demais para ser reduzida à imagem estereotipada dos nachos, burritos e tacos, é picante e também largamente baseada no milho e no chili.

.....Já era tardinha quando caminhamos da plaza Hidalgo para a estação Coyoacán e regressamos a pé, da estação Insurgientes, para o hotel, combalidos pelo cansaço e pelo fuso horário.

.....Felicidade em estar de volta à estrada e agora num país intenso e encantador como o México... Reproduzem-se em mim os sonhos mais intensos, as novas geografias embalando os pensamentos durante as caminhadas pela capital. Sensação absurdamente redentora de inserção, humildade, respeito às demais culturas, tolerância e compreensão.



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31 dez

.....Acordamos pelas 0730hs dispostos a retomar a caminhada, desta vez em direção ao Centro Histórico; porém um contratempo inesperado e bizarro mudou todos os planos, quando, ao sairmos do hotel, a Lígia pisou em falso e torceu o pé esquerdo.

.....Ao ajudá-la cingindo-a pelo ombro, a fim de tirá-la da rua, não tivemos sucesso, ela estava sentindo muita dor e não conseguia nem pisar de leve, desconfiamos que havia quebrado o pé.
Peguei-a nos braços e coloquei-a sentada numa mureta próxima à calçada, quando senti uma fisgada fortíssima na coluna, acompanhada de uma dor aguda que eu nunca havia sentido antes. Doía intensamente, só de respirar, tivemos ambos uma dificuldade quase cômica para voltar ali do lado de fora do hotel para o nosso quarto.

.....A dor não cessava, o pé da Lígia estava doendo menos mas em mim a dor continuava beirando o insuportável; tomei um tylenol e assim que a dor deu uma aliviada pegamos um taxi para um hospital em Roma Sur. Fizemos exames e nos passaram alguns analgésicos; felizmente a Lígia não havia quebrado o pé e eu não havia sofrido nada na coluna, mas apenas na musculatura.
Do hospital fomos à farmácia comprar alguns anti-inflamatórios e uma bengala ergométrica para a Lígia andar melhor.

.....Depois dessa cena inacreditável, nos benzemos e partimos para o fantástico Museu Nacional de Antropologia, no bosque de Chapultepec. Comemos um sanduíche e passamos a tarde inteira no museu; o mesmo é dividido em setores que correspondem às regiões mexicanas habitadas pelas civilizações pré-hispânicas e faz um estudo antropológico detalhado de todas elas, suas manifestações culturais, interações com as demais civilizações ao longo do tempo, trajes e conhecimentos astrológicos e, mais excitante, todo o processo de contato com os espanhóis, as interações e o extermínio ocorrido.

.....Ficamos absolutamente surpresos com o nível elevadíssimo do museu, que é considerado um dos melhores do mundo em sua área, com interações áudio-visuais, instalações espaçosas e limpas, explanação clara e inteligente do assunto, bem como sua abrangência.

.....Cansados pelo decorrer do dia e suas aventuras e ambos sentindo um pouco de dor, regressamos à Zona Rosa, compramos alguns víveres e regressamos ao quarto do hotel.
Que virada de ano, ai minhas costas, feliz 2010...


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(Continua em 06.10.2009)

29.9.09

Diário do México - 4

Painel de David Alfaro Siqueiros, retratando os mortos por ocaisão da invasão norte-americana


Monumento a los Niños Heroes, cadetes adolescentes heróis no episódio da tomada norte-americana da Cidade do México


Representação artística de indígenas aztecas, no Museu de Antropologia, um dos mais conceituados do mundo, na Cidade do México





.....Me chamou a atenção, na casa, a austeridade vivida (escolhida?) por Trotsky, os cômodos muito simples, bem como a mobília, a biblioteca com muitos volumes em diversos idiomas, a erudição de um dos mais presentes líderes da Revolução Russa de 1917.

.....Após subir ao poder, Stalin, paranóico e implacável, começou a perseguição a seus camaradas do Politburo, o comitê central do Partido Comunista da União Soviética. A partir desse momento caíram figuras de atuação eminente na revolução, como Kamenev, Zinoviev, Bukharin e Trotsky, considerado o herdeiro natural do poder de Lênin e que foi banido da antiga URSS e perseguido, tendo ao longo dos anos toda sua família sido assassinada aos poucos, filhos, sobrinhos, esposa, netos; após estar em constante rotatividade no exílio, passando por Cazaquistão, Noruega e França, Diego Rivera e Frida Kahlo intercederam junto ao então presidente mexicano Lázaro Cárdenas no sentido de conceder asilo ao perseguido revolucionário.
.....Após alguns ataques de agentes stalinistas, finalmente Trotsky foi assassinado em 1940 em sua casa por Ramón Mercader, um stalinista que havia se infiltrado no seio do restrito círculo de Trotsky, se envolvendo sentimentalmente com a moça que cuidava da casa. Mercader fingiu mostrar um documento a Trotsky e, enquanto este analisava-o, sacou de seu sobretudo uma picareta e cravou-a por trás do crânio de Trotsky.

.....Reavivadas estas memórias – no México, curiosamente – fomos caminhando pela calle Abasolo em direção à Plaza Hidalgo, que deve seu nome a Miguel Hidalgo, o padre que lançou a guerra pela independência do país.


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.....Seguida da queda de Tenochtitlán – rebatizada de “México” pelos espanhóis – a América Central também foi conquistada na década de 1520 por forças mexicanas e do Panamá e na década de 1540 a subjugação da Península de Yucatán estava completa; na década de 1550 foi abolida a escravidão indígena, que foi parcialmente substituída pela escravidão dos negros.
.....O lugar de uma pessoa na hierarquia social da sociedade colonial do México era determinada pela cor de sua pele, parentesco e lugar de nascimento; colonos nascidos na Espanha (chamados peninsulares) eram uma parcela ínfima da população mas estavam no topo e eram considerados nobreza, por pior que houvesse sido sua situação social na Espanha; em segundo lugar vinham os criollos, de pais espanhóis mas nascidos no México. Pelo século XVIII alguns criollos haviam feito fortunas na mineração, comércio e agricultura. Abaixo dos criollos estavam os mestiços, indivíduos de ancestralidade misturada e, por último, vinham os indígenas e os escravos africanos.

.....Em 1810 o criollo Miguel Hidalgo y Costilla lançou o grito de independência “Morte aos espanhóis!” e a rebelião cresceu, tomando diversas cidades; Hidalgo, porém, hesitou em tomar a capital. Em 1811 Hidalgo e os líderes do movimento foram capturados e executados; Hidalgo é hoje um dos heróis nacionais, como Pancho Villa, Zapata e Cauthémoc.

.....José Maria Morelos v Pavón, ex-aluno de Hidalgo, assumiu as rédeas, bloqueando a Cidade do México por diversos meses e realizando um congresso onde foram debatidas as linhas gerais do movimento, mas em 1815 foi também capturado e executado.

.....Em 1821 o general das forças reais Agustín de Iturbide conspirou com os rebeldes e foi declarada a independência do México em relação à Espanha; Iturbide se tornou o primeiro e único rei do México, em 1822, pois logo em 1823 um exército rebelde liderado por Antonio Lopez Santa Anna o depôs. Em 1824 uma nova constituição estabeleceu o México como uma república federativa.

.....Santa Anna recebeu certa glória após rechaçar uma nova tentativa de invasão espanhola em 1829 mas é atualmente recohecido como o presidente que ajudou a perder vários territórios do México para os EUA; inicialmente foi o estado do Texas. Entre 1846-1848 ocorreu a guerra mexicana-americana e os EUA capturaram a Cidade do México. Ao fim da guera, o México cederia aos EUA não apenas o Texas mas a Califórnia, Utah, Colorado e grandes partes do New Mexico e Arizona. Santa Anna veio a cair em 1855.




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(Continua em 02.10.2009)

25.9.09

Diário do México - 3

fotos enquanto jovem de Trotsky, que foi assassinado no México em 1940.


Altar para Frida Kahlo







.....Na metade do século XV os Aztecas, também conhecidos como mexica, formaram uma tríplice aliança com outros dois estados do Vale do México – Texcoco e Tlacopan, a fim de guerrearem contra Tlaxcala e Huejotzingo, estados a leste do vale. Data desta época a tradição de oferecerem os guerreiros aprisionados ao deus Huizilopochtli em verdadeiros sacrifícios em massa, a fim de manter a ascensão do sol dia após dia, como era crença corrente.
.....A tríplice aliança, ainda que não tenha conseguido subjugar Tlexcala, atingiu o controle sobre uma população estimada em 5 milhões de indígenas; o propósito do império, voltado inteiramente para a guerra e culto de seus deuses, era coletar tributos como jade, turquesa, algodão, papel, tabaco, borracha e cacau, necessários para a glorificação da elite asteca.

.....À ocasião da chegada de Hernán Cortés na costa do Golfo do México, em 1519, o imperador asteca era Moctezuma II Xocoyotzin, um personagem reflexivo e supersticioso que acreditou, de forma fatal, que Cortés poderia ser Quetzalcoátl, o deus-serpente de plumas. Desse encontro traumático surgiu o México moderno.

.....Os espanhóis foram bem recebidos nas comunidades de Zempoala e Quiahuiztlán, ressentidas pelo domínio azteca. Cortés montou então o assentamento de Villa Rica de La Vera Cruz, onde deixou 150 homens, e rumou para Tenochtitlán.

.....No dia 8 de novembro de 1519 Cortés adentrou Tenochtitlán com 6.000 aliados indígenas; a capital do império Azteca era então maior que qualquer cidade espanhola. Foram recebidos com luxo e pompa de deuses, por um Moctezuma ainda hesitante, a despeito dos relatos de barbaridades dos espanhóis com povos locais e da destruição de ídolos aztecas pelos espanhóis.

.....Com os espanhóis há cerca de 6 meses em Tenochtitlán, chegou em Villa Rica uma nova esquadra, enviada pela Espanha para prender Cortés; este deixou 140 homens em Tenochtitlán e rumou para Villa Rica, onde destroçou os homens enviados por Diego Velázquez, cujos sobreviventes se juntaram a ele. Cortés retornou então a Tenochtitlán com seu novo contingente e pôde se juntar aos homens que havia deixado, sendo logo em seguida presos, todos.

.....Encarcerado, Cortés convenceu Moctezuma a acalmar seu povo mas este foi logo assassinado, não se sabe se pelo povo descontente ou pelos próprios espanhóis. Os espanhóis foram varridos de Tenochtitlán em 30 de junho de 1520, quando muitas centenas de espanhóis e alguns milhares de indígenas aliados foram assassinados, no episódio cohecido como La Noche Triste.
Os espanhóis restantes se reagruparam em Tlexcala e prepararam o contra-golpe, contando desta vez com cerca de 100.000 aliados nativos, ressentidos pelo domínio azteca.

.....O imperador azteca então no poder era um dos sobrinhos de Moctezuma, o hoje herói nacional Cauthémoc que resistiu aos espanhóis mas foi mantido prisioneiro e torturado para que revelasse a locação de um suposto colossal tesouro azteca escondido.

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.....Chegamos à Cidade do México por volta das 0530hs após longa e cansativa rotina alfandegária, de imposição norte-americana em seu eterno pesadelo contra o consumo de drogas de seu próprio mercado interno, trocamos alguma plata e pegamos um taxi para o Hotel Bristol, na zona Rosa. Entre a apreensão pelo tenso momento da ida do aeroporto para o hotel, em virtude do medo do desconhecido, e alguns papos sobre a copa de 70, chegamos ao Bristol e ficamos aliviados pelo quarto limpo e agradável, após a noite de cansaço do vôo.

.....Arrumamos as coisas e após algumas dúvidas sobre pra onde rumar decidimos ir pra Coyoacán, bairro que abriga os museus que foram as casas de Frida Kahlo e Leon Trotsky.
.....Pegamos o metrô estação Insurgentes; o metrô cobre uma extensa parte da grande capital e recebe um imenso fluxo de pessoas, não tão sentido, porém, neste final de ano, com as férias e feriados. Os nomes das estações remetem a aspectos históricos do México, como Cauthemóc, Niños heroes e Balderas; os vagões e as estações não primam pela limpeza.

.....Ali pudemos ter um pouco mais de contato antropológico direto com o grosso da população; os traços são em sua maioria absoluta indígenas, em algum grau similares ao que eu já havia observado na Bolívia e no Peru. A maioria das pessoas têm uma constituição baixa e forte, atarracada. Notamos diversos vendedores ambulantes, de CDs de música local, lanternas, doces etc. A certa altura vimos também uma performance de salteado dentro do vagão onde estávamos, de um rapaz com uma pequena plataforma quadrada de madeira, que ficava na piso do vagão, na mochila um pequeno sound system e caixa de som. Foi muito tocante ver a performance e coragem do rapaz, que após a dança ganhou muitos pesos.

..... A cena me chamou a atenção pela relação do característico machismo latino com a elevada aceitação a gays e lésbicas, em especial na chamada zona rosa, dos bairros mais badalados da capital.

.....Em Coyoacán andamos um pouco e logo chegamos à casa onde Frida Kahlo viveu seus últimos anos de vida, em companhia de Diego Rivera.
A Lígia estava em estado de êxtase; o museu estava bem cheio, turistas europeus e orientais. Na casa, espaçosa e com jardins, pintada toda de azul e vermelho, hava alguns trabalhos da Frida (poucos), esboços, correspondências com Diego e personalidades como Einstein e Trotsky, objetos do casal, de forte inclinação socialista.

Em seguida rumamos para o museu da antiga casa de Trotsky. Foi então minha vez de cair numa espécie de torpor, relembrando a história incrível deste velho revolucionário, na acepção mais puramente bolchevique do termo.



(Continua em 29. 09. 2009)