13.1.10

Barcarola nuvem

Hoje é quase dezembro*
e não chove nem há sol
o lusco-fusco se põe entre os dias.

Hoje é quase dezembro
e o seu barco de madeira já não vejo.

As árvores de natal já não fazem sentido.

As ameixas reluzem em sumo sobre a mesa
e o sabor é uma memória que lateja.

Três vezes em guerra
a se debater
a empurrar
e a falar pros teus ouvidos

espirais coloridas

tulipas de algodão.

E o que poderás entender do que tenho visto?
Riscos de antemão.
Luzes incessantes percorrendo pautas musicais.

Segredos costurados nos travesseiros.

E o medo

e o mijo nas calças
ao ver os fantasmas do porão
e não havia porão em tua casa
e não havia porão em minha-tua-nossas casas.

e o eco te sobe pelas pernas
e o que verás?

Teus são teus olhos
e o que chamas de vermelho
para um outro talvez não seja.

Há uma mesma tarde no tempo

distinta para cada um de nós.



*verso roubado de algum poema que não me recordo

3 comentários:

R. Elfe disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
R. Elfe disse...

Há uma mesma tarde no tempo
distinta para cada um de nós.

Ferreira-Gullardiano... rs
Muito bom Wille!

Parece a saudade que eu tenho da Ilha; gosto de ódio misturado num amor quase infantil.

Isaac Frederico disse...

feroz, meu amigo ville... os versos continuam afiados como sempre, desta vez retratando esta tempestade.
a fusão dos sentidos, nestes versos, tem a presença de sempre.
abraços