24.7.08

Viver e devir

(pintura de tinta acrílica em papel comum, 2004)


A sua alopração é previsível, meu caro.
O seu desespero era esperado.
A trajetória parabólica que seus braços fazem
Enquanto você se debate,
Submerso nas suas mais úmidas dúvidas,
Do estado mais vulnerável do seu ser –
Alguém já pensou nela.
O que você se pergunta
Está no script que te entregaram, seu nome no campo "nome".
O volume de água que você chora
Já foi calculado antes.

E aí você vive sua primeira transa
(A redenção absurda do sexo),
Perde pela primeira vez um parente próximo,
Chora a primeira vez que te rejeitam,
Vê o sol se pôr a dois,
Interpreta as coisas, fica se perguntando
A validade do que foi e do por vir.

Dorme com um barulho desses, irmão.

(Do livreto "Viver e Devir, 2004. Rio de Janeiro, aos 15 de junho de 2003)

4 comentários:

Guto Leite disse...

Este é afiado, hein, poeta! Sem mais palavras...

FlaM disse...

mas Isaac
assim como o sol poente
é o mesmo de amanhã nascente,
a última transa,
a mais recente e cara,
é sempre a verdadeira
e a primeira
e anuncia a próxima
a última é sempre mais
primeira

adorei isso seu!
O negócio é envelhecer sempre se assuntado com o por do sol a dois como se fosse o primeiro, rasgando eternamente o script, chorando e rindo além do aceitável ou previsível, e fazendo do sexo sempre a redenção absurda de uma eterna primeira vez! Né?
bj, querido! F.

carlos muzilli disse...

....ok Isaak, acertou de primeira a leitura do morrer (reflexo triste) e renascer (pássaros cantantes), resta só uma dúvida, o certo é o incerto, o certo é uma palavra reta, de vez em quando acerto, depois tropeço no meio da linha. Abraços poéticos.

william disse...

O velho movimento dos braços, o desejo de ir além.Debaixo do sol não há nada de novo.
É só a vida e durma com um barulho desses...