1.2.09

Rarefeito

esqueci
tarde pra voltar àquela hora
não tinha sobras
a ponte, esquecida,
lembrou-se de errar meus passos
perdi-me
tão convencido que o real avançaria
e o mundo recolheu-se em minhas mãos,
pequenas arando hemisférios
o sol varava nos dedos,
chegava aos olhos, o sumo da castanha de caju
meu varal de lábios sentia o amargo
a ponte, esquecida, varejava minha sombra
estudava leve: balões não sopram oceanos
fui levado, soprei a pele
não tinha sobras pra catar,
nada que refizesse o nome
lembrei-me,
desfiz teu rosto, coberto de alagoas
o mar desceu teus ombros,
esqueci novamente
voltar o passado é sediar milhas de nada
volto para arrancar meu posto, vigília de planta
lacustres, os olhos naufragam
enxergar?
lembrei
a visão estava morta sob a porta,
e um batalhão de formigas marchava sinuoso
um menino espreitava o silêncio morto do avô
a rua respirava cheia, era o bloco secando os copos
as palavras, esqueci
fui rarefeito
numa caneca com sabão e água
flutuando segui, preso à goiabeira,
vôo translúcido, o vento me liberta
deixo o ar me segurar, a simetria circular dum fantasma menino
agora o estouro esperado e
ploc!
a ponte deseja meu peso, e eu passo
passo por passo tuas vertebras,
costela arqueada, logo toco o lado de lá
revejo as sobras, encontro meus filhos,
minha vida!
meu jardim está repleto de lembranças
começo o caminho pelo fim.

2 comentários:

isaac disse...

o "rarefeito" tem status de meiota, porque 1 quartinho já seria pouco, neste caso particular.
o poema viaja solto, é característica dos últimos teus (poucos) que tenho lido, o acontecer transita entre relações com objetos (como pontes) e si mesmo em interações apenas possíveis através dos versos.
muito bom, maior viagem ese poema.

Minina disse...

o poema começa e termina com a ponte. algo como o mesmo caminho em que se perde, é o mesmo em que se acha... senti assim... adorei essaqi:
"a ponte deseja meu peso, e eu passo"... peso/passo. peso do passo. é como o passo que compreende o caminho e o caminho compreende o peso do pé. sabedoria, talvez... adorei adorei o poema... pensei mil, a mente foi longe, folgando e apertando os parafusos...