10.12.06

Rafael Elfe

Ercília, minha estrela

Eu que diria de tuas falas esmaecidas
Mil chuvas cobrindo na janela à vista cinza
Eu que diria das manhãs voltando da escola
E em tua boca fina o cigarro pendurado,
fantasmas na fumaça - miasmas
E minha mãe à milhas dali, num escritório fundo.

Que diria de tuas roupas, a fossa no quintal
Eu tive um castelo aos pés do muro
Funeral de um playmobil e duas bolas de gude.
O que dirão delas?

O que diria teus cabelos sob o lenço, arredios?
Os guaranis berravam em teus olhos!
Índios de palavras tão doces quanto tuas ordens;
E eu me perdia com a vizinha atrás da casa...

À tardinha o café tão preto e solitário
e o pão sem manteiga...
O que diria desse gosto?
Era desgosto, e gosto afincados
Trancafiava tuas horas em mim, ai vó!
Eles sabem o que eu sinto, mas não me entendem.
O que diriam de você e suas velhas coisas
em suas velhas caixas sobre o armário de mogno

antigo?
Eles não sabem o que você sentiu àquela noite
vendo a casa ir abaixo... eles souberam nos jornais.
Souberam na patrulha do rádio, que ouvias pela

casa...
O vizinho de cima, Clóvis, o diabo em pele...
ateara fogo ao corpo, e esfaqueara a mulher...
Hoje os filhos são pastores - cheiro de carne humana

queimando.
As peles sobre o cimento riscado da cisterna.
Um punhal quase acerta o Zé.
Eu me lembro...

E o medo das noites de estrelas?
Algum ovni pousara naquele morro... à esquerda.
Enquanto, imóveis, dois móveis, sofás
dentro da sala pequena
em paredes pintadas de cal e xadrez azul,
gritavam a agonia de uma vida cheia de ínfimas

alegrias.

Lembro da moeda que engoli, ou bala soft?
Quanta falta de ar vó!
A senhora ainda me ouve?
E o telhado?
Ainda florindo o negro musgo?
Passei a infância ali de cima,
observando o mundo.
- Rafael!! Vem tomar banho! - e eu descia por uma

madeira oca e cheia de pregos...

Que diriam de mim vó?
A senhora, Ercília, nome tão lindo!
- "Bença" vó?
- Deus te abençoe...

10 comentários:

isaac disse...

soberano !
é repleto de imagens bem-descritas... a separação das palavras finais da estrofe anterior, a partir da 5a, produz um efeito sensacional.

po, adorei esse...

vinicius disse...

Fodão, fodão mesmo.

Um belo poema, no sentido de que retrata experiências pessoais de forma bem vívida. muito bonito.

Rafael, deixe o e-mail, pra eventuais trocas cujas dimensões não se apliquem ao blog.

valeu!

R. Elfe disse...

Vamos sim... precisamos conversar mais sobre as impressões que por ventura provocamos uns nos outros né?
Me adicionem: rafaelelfe@hotmail.com
ou mandem e-mail: rafaelelfe@gmail.com

É nessa poesia, toda vez que eu leio, eu me vejo no quintal da minha vó, lá no morro do Booggie Wooggie, com os cabelos repartidos ao meio, vendo o dia rasgar o céu... quando escrevi, confesso que chorei.
abraços!

isaac disse...

anotado, rafael !
trovadores, cervejinha pré-natal na lapa, como sugeriu o william ... ?

renata disse...

"confraternização" do Presença confirmada, pelo menos da minha parte.
vou estar enrolada com as noites da semana que vem, preparando as coisas pra partida pra santarém.
mas eu sugiro a terça (19) ou a quarta (20), mesmo horário. e pode ser o mesmo local tbm, preferido do vinícius.
beijos

vinicius disse...

Tô dentro.

mas não dá pra ser na quinta (21) ou sexta (22)?

HO HO HO

renata disse...

gente, eu viajo na sexta de manhã cedo. por isso não queria farrear mto na quinta, pra arrumar a mala e não chegar estragada lá.
mas, se for a única noite disponível pra ti, vi, pode ser na quinta, então.
beijos

vinicius disse...

Nesse caso fiquemos com a quarta mesmo.

fechamos então:

quarta (21), 20h, no "cachaça" (r. riachuelo, em frente ao sinuca)

até lá!

Presença!

vinicius disse...

PS. Rafael Elfe, reforço o convite do Isaac: Apareça!

thales disse...

Parabéns Rafael, seu poema é belíssimo, estou sem palavras!
Perdi-me nesses versos, foi como se tivesse revivido os meus momentos de infância também.

valeu um abraço!