1.3.07

Sem dizer nada, Helena se fechou entre quatro paredes. Junto do peito, a carta de amor manchada com gotas de vinho tinto seco. Ela chorou por alguns minutos, mas logo se refez. Passou a cantarolar uma música sem ritmo só com as vogais. Em um vestido de margaridas meio murchas, limpou as mãos molhadas de água e sal que caíam novamente dos olhos.

Começou a reler a carta. A letra, tremida, trazia lágrimas em versos - versos do vice-versa da vida. E vice-versa. Enquanto suas duas mil e cinco gotas arrancadas manchavam as linhas com a tinta da caneta, ela buscava uma razão para tudo aquilo lhe acontecer. Estava apaixonada e completamente assustada. Não sabia se podia continuar vivendo aquele sentimento. Preferia não saber de algumas coisas que a carta contava. Mas estava mais tranquila por tudo ter chegado a um ponto final.

Era domingo. Dia enfadado. Vestido de preguiça, de guarda-chuvas azuis. As camisas quadriculadas no varal, misturadas à vertigem, provocavam-lhe um estado ébrio e hipnótico. Ela havia desmembrado as palavras que lera, para ficar com a parte boa das coisas – doce, acaso, merda, interessantíssimo. Sabia que não havia para onde ir. Só havia a espera. Na carta, ele explicava que tinha um plano e já estava resolvendo todos os detalhes. Ela deveria se arrumar e esperar o próximo pôr-do-sol. Seria a hora.

Helena começou a preparar sua pequena mala vermelha que havia usado em uma viagem para o interior. Pôs duas calcinhas novas, um par de meias, um livro do Llosa, poeminhas para viagem, uma fita k7 com coleções de romancinhos, um casaquinho e um par de sandálias franciscanas - as mesmas sandálias que seu amor havia lhe dado no aniversário passado. Ela queria mostrar que amava. Mostrava com as sandálias. Coisas de ser humano.

No cair da noite, ele veio no velho Fusca do pai. O motor roncava alto. Ela trancou a porta da casa e jogou fora a chave. Decidiu seguir a vida como ele havia lhe pedido nas palavras - de olhos bem fechados, apenas sentindo as coisas com o tato. Fugiu com seu padastro para longe do peito da mãe, que nunca mais soube dos dois. Com um sonífero de tarja preta, deixaram-na sonhando com os jantares das noites de sábado e os romancinhos de sofá do começo do namoro.

Rio, fevereiro de 2007.

5 comentários:

vinicius disse...

interessante, apesar do estilo inconfundível, acho que a sequência lógica dos encaixes nesse texto saiu mais suave que de costume e, no entanto, isso não prejudicou em nada a dinâmica dos flashes tão característicos, ao contrário.

flechas com esse calibre não costumam sai assim em profusão.
mas no Presença é diferente...

renata, mais uma vez: Fodão!

renata disse...

Fato: sequência mto mais sutil que as de costume. Mais evidente e cadenciada, eu diria. Essas coisas aí.

Ó sábio eremita-guru, Vinicius Perenha, responda-me: COMO e QUANDO exatamente o ciúme compensa? hahahaahhaha.

Alguém sabe dizer pq a configuração dos posts está desse jeito agora, só aparecendo lá embaixo da página?

isaac disse...

as características inconfundíveis da prosa renatina, "vestido de margaridas meio murchas" e genialidades quejandas...

e não à toa: "Helena".
uma pérola.

vinicius disse...

"sábio eremita-guru", até você D. Renata?!

mas alguém tinha que assumir o papel...

hehehe.

Guto Leite disse...

Adorei, Rezinha. Concordo bastante com a sutileza apontada pelo "sábio-eremita-guru", rs... Muito, muito fino! Como diria a Sra. Arêas, o difícil da arte é o traço fino. Lindo, Re, parabéns!