12.11.07

Remendos

Eu não dobrei as roupas, nem fiz a cama atrasado de olho na janela esperando o ônibus. Nem abandonei o copo de café pela metade, com a colher mergulhada pra mexer ainda o açúcar morto no fundo do copo. Nem dobrei o pão pra morder em duas vezes, quiçá uma. Fui deixado pra trás naquela manhã cheia de rodopios. Eu não fitei de cima meu corpo lá embaixo queimando, deveras, eu era um balão cheio d´água descendo do sétimo andar. Eu não resumi num segundo o papo de um dia inteiro e disse tchau com as costas, mudo. Minha mãe não ressentiu minha não presença, acordando com o som do portão fechando às pressas, nem com o silêncio estranho que explodiu depois. Fui deixado pra trás naquela manhã aberta, uma ferida concisa cheia de luz, a ruidosa luminosidade inicial de tudo. Dentro daquela manhã pequena, fui deixado pra trás, como uma lesma remoendo pedras. Os relógios denunciaram minha morte, às 8 e 45. Demitiram meus olhos, incineraram minha cara. Fui largado no carrocel d´água na pia da área de serviço, junto as roupas de ante-ontem e aos desejos de vida e sorte. Fui deixado pra trás na luminosidade estranha daquela manhã. Meu corpo removia-se antecipando o coito celeste, em esquinas de tempo, cruzaram adeuses. E a manhã corria cheia de pressa, e pregado no sofá, morto como o açúcar no fundo do copo, eu denunciava o que nunca havia sido.

Um comentário:

Agnes Amarantine disse...

Agnes gostou muito de seus escritos.
Resta saber se R.Elfe autoriza recebimentos de cartas.
De poeta para poeta...
Pois eu tamb�m escrevo sobre asas.