18.4.08

a peste

the third hand, 1947- pintura de Hans Hoffman


Há algum tempo atrás reencontrei-me com os rituais de ver e olhar, e fiquei com alguns versos do poema a peste ressoando em mim, "não há esperança sem dor" e "só há o que se ama e o que se pode desesperar" são bons exemplos de versos certeiros deste que considero um dos melhores poemas do livreto. Assim como o último poema do Vinicius publicado aqui no Presença pelo Isaac, o título do poema também faz referência a um livro de Camus.
Consciência e revolta a favor da vida..

a peste



Somos todos assassinos, minha filha.
Só nos restam pequenas escolhas,
matemos portanto,
só os heróis.

Quando sabe-se muito,
e eu sei,
não há salvação,
não haverá salvação,
meu amor.

Mas trabalhemos na cura,
sem distração.
Cuidados com a contaminação,
felicidade sem termo, nem medo.

Os muros vão se abrir um dia,
Mas já está tudo aqui,
ao alcance.

Não posso esquecer o que amo,
nem um instante,
nem um momento,
não há esperança sem dor.

Eu e o flagelo
nos aproximamos demais.
Vi meus olhos vazados,
perdi a fé.
Não há sono nem descanso.
Só há o que se ama,
e o que se pode desesperar.

Vinicius Perenha, Rituais de ver e olhar, 2003.

Um comentário:

isaac disse...

foi composto por influência direta do livro creio, que acompanhou o autor por um tempo.
este poema não tem versos vãos, é um clássico do tiro certeiro e da revolta orwelliana a favor (?) da vida