17.8.07

Fuligem e Fulgor - William Galdino

Fuligem e fulgor

Vermelho abria-se em sorriso à estupidez disfarçada. Fez de cego pros fatos. Horas mortas no corpo estático. Uma cadeira velha. Um dia de chuva. Pouco via. Há muito havia ido embora a compreensão. O mundo era do tamanho do que os olhos alcançavam e num quadrado minúsculo eles cegaram. A mente era um saco de retalhos. Uma imagem por segundo, não, muito mais que isso. Velocidade que impossibilitava qualquer assimilação. A náusea. O coração acelerado quando a sobriedade gritou mais alto e trespassou as barreiras dos artifícios. Por terra o muro que circundava o real. Incompreensão. Apenas tolices ditas para manter a conversa. E no fundo ele queria cair sobre ela e fodê-la com raiva. Era o corpo que não reagia às vontades. Era o cansaço e o som estridente dos garfos arranhando a parede. Era sul, era norte, era confusão. Não havia o certo, não havia o errado. No corredor do hospital ele a sentiu como há muito não sentia, a vida crua. Era preciso deixar o silêncio do esconderijo. Cair nos fatos. Chocar-se com o mundo.
Abandonar e entrar novamente.

William Galdino, Janeiro de 2006.

4 comentários:

isaac disse...

o william não quer saber, ele enfia a faca ...

Heyk disse...

'fodê-la com raiva'

quantos segundo é preciso ficar do lado de fora para esperar a fuligem baixar?

E nós? Entramos ou não novamente?

Muito bom.

william disse...

O eterno retorno rs, a eterna alternância da fumaça e do brilho, e foi no corredor de um hospital que eu vi a vida fulgurar novamente, e a abracei e entrei novamente.

FlaM disse...

Embora outra linguagem, tão denso, tão interno, tão sei lá o quêl, me lembrou clarice...
cara!