.....Mais um poema do Grego - Rafael Huguenin - o poeta e filósofo camisa 10 dos sonetos ditos "independentes", e aqui não há pretensão alguma de cunhar termos nem introduzir divisões, até porque a poesia não pode ser certeiramente dividida entre alternativa e mainstream, como a música, por exemplo. Ou até pode, mas são outros os parâmetros.
.....Este belo poema traz uma carga forte de angústia e tem um acabamento belíssimo.
Abraços e presença !
- - -
Sentado à beira mágoa os montes vejo,
órgãos afiados que projetam cumes
e em cujos escarpados, feros gumes
encontro a mesma corda que ora arpejo.
Facas, espadas, dardos que dardejo
contra o céu que se fecha em mil negrumes
não bastam pra calar os pesadumes
que o coração me cortam, e assim doidejo.
As armas contra a dor de nada ajudam,
a cada golpe rudes se desnudam
diversos braços novos que não venço.
E só me restam lágrimas salgadas:
com sentimento tanto assim choradas
me lavam ao menos o meu rosto tenso.
(Rafael Huguenin)
28.7.08
24.7.08
Viver e devir
(pintura de tinta acrílica em papel comum, 2004)A sua alopração é previsível, meu caro.
O seu desespero era esperado.
A trajetória parabólica que seus braços fazem
Enquanto você se debate,
Submerso nas suas mais úmidas dúvidas,
Do estado mais vulnerável do seu ser –
Alguém já pensou nela.
O que você se pergunta
Está no script que te entregaram, seu nome no campo "nome".
O volume de água que você chora
Já foi calculado antes.
E aí você vive sua primeira transa
(A redenção absurda do sexo),
Perde pela primeira vez um parente próximo,
Chora a primeira vez que te rejeitam,
Vê o sol se pôr a dois,
Interpreta as coisas, fica se perguntando
A validade do que foi e do por vir.
Dorme com um barulho desses, irmão.
(Do livreto "Viver e Devir, 2004. Rio de Janeiro, aos 15 de junho de 2003)
22.7.08
Uma pequena alegria
Fotomontagem,2005
Fecha o chuveiro.
Escorre pelo ralo o resultado de mais um dia de luta. No vestiário o último dos funcionários calça seu tênis e guarda a toalha molhada na mochila. Desce as escadas e ao bater o cartão percebe que já passa das onze. Um boa noite cabisbaixo é dado a empacotadora que lhe lembra uma antiga paixão da adolescência. Promete a si mesmo que amanhã a convidará para o cinema. Há duas semanas ele vem dizendo isso.
Pela economia de um vale-transporte começa sua caminhada, uma hora até encontrar o sono, no caminho decide contar quantos carros vermelhos avistará antes de chegar em casa. Conta até o terceiro, daí pra frente mergulha numa suspensão quase budista da qual só é expulso ao ser xingado por um idiota que passava na garupa de uma moto.
Ao atravessar a rua diante de um prédio modesto, repara na luz do abajur de um dos apartamentos e sua mente fantasiosa imagina que ali naquele momento há uma adolescente ninfomaníaca transando loucamente com algum primo mais velho. Olha pra trás e lamenta-se por nunca ter tido uma prima ninfomaníaca. E isso o faz lembrar-se das sextas feiras em que se escondia embaixo das cobertas diante da tv, esperando ansiosamente o início de mais uma pornochanchada, que o faria esquecer a sua frustração por não ser um Don Juan.
Ri sutilmente enquanto seus pés saltam pelo meio fio.No muro chapiscado avista uma antiga pichação de sua autoria, dos tempos em que botava a lata na cintura e saia pedalando pelas ruas à procura de diversão. Entristecido por reviver o passado decide se concentrar no caminho que ainda falta até chegar ao descanso que o corpo lhe pede. Ao aproximar-se da última esquina que o separa de sua rua, um carro estacionado na calçada dificulta a sua passagem, olha nos olhos da menina sentada no banco do carona, intimidada ela desvia o olhar, ele continua a caminhar, até que ouve o motor ser ligado e detém seus passos. Imediatamente vem à sua cabeça a lembrança de um conto, no qual um homem aparentemente normal saía à noite em seu automóvel, à procura de uma vítima pra atropelar.
Na sua contemplação àquele belo rosto, não observou quem estava ao volante, fica pensando que talvez a menina linda tivesse ao seu lado algum namorado ciumento que agora aceleraria e passaria por cima do seu corpo. Mas não foi o que aconteceu.
Lentamente o carro passou ao seu lado, adiante ele viu a menina colocar seu rosto pra fora da janela e com a ponta dos dedos junto aos lábios mandar um beijo em sua direção, ele sorriu enquanto o carro sumia na penumbra.
Naquela noite ele sonhou com os anjos.
Agosto de 2004.
20.7.08
Tédio

Uma tarefa maçante estaca
O tempo; faz de segundos milênios
E sela com o relógio convênios
Onde o ponteiro das horas empaca.
Ruminando em tal compasso isotônico
Cada instante tem duração de ano,
Superar o tédio draconiano
Exige então esforço faraônico.
A conclusão é sequer aturar
As chatices que virão te abordar:
Deixai-as pros estóicos per natura.
Que cada minuto de saco cheio
Dobra seu peso pra minuto-e-meio
Desperdiçado: lamento algum cura.
(Rio de Janeiro, aos 27 de junho de 2005)
O tempo; faz de segundos milênios
E sela com o relógio convênios
Onde o ponteiro das horas empaca.
Ruminando em tal compasso isotônico
Cada instante tem duração de ano,
Superar o tédio draconiano
Exige então esforço faraônico.
A conclusão é sequer aturar
As chatices que virão te abordar:
Deixai-as pros estóicos per natura.
Que cada minuto de saco cheio
Dobra seu peso pra minuto-e-meio
Desperdiçado: lamento algum cura.
(Rio de Janeiro, aos 27 de junho de 2005)
18.7.08
Marujo
Abriu a garatuja,
o marujo.
Enigmático,
encheu o cachimbo de chumbo,
respiro plúmbeo,
próximo
ao tanque de diesel de boreste.
Entrópico, o navio
pelos ares
em mil pedaços desiguais
picotando os mares
de carne, sangue e metais
(Macaé, aos 06 de julho de 2008)
o marujo.
Enigmático,
encheu o cachimbo de chumbo,
respiro plúmbeo,
próximo
ao tanque de diesel de boreste.
Entrópico, o navio
pelos ares
em mil pedaços desiguais
picotando os mares
de carne, sangue e metais
(Macaé, aos 06 de julho de 2008)
14.7.08
Degelo
Fotomontagem, 2005.
Que te abraço em devaneio e oscilação. Te elegi a musa dessas noites de cera quente sobre as pálpebras. Quanto durará? Tantas já se foram e não deixaram falta. Um dia, uma semana, mas enquanto permaneceram foram únicas. Agora é você, nos olhos, na memória. E solto pequenos cortejos e sonho e lanço ao longe, pra onde se faça mais difícil o alcance. Admirando sem tocar. E não há nisso inocência ou medo. E nado no mar do provável, do que poderia ser. E com tuas mãos me acaricia os cabelos. E brinco, e tento novamente como quem procura salvação mas tão logo a consiga, abdica.
É um querer indisposto, um sonhar desperto. E te levo comigo em noites de suor e te presenteio com flores de desculpas. No império devastado é a única estátua que ainda resiste.
E fico com os olhos postos em ti na indecisão de abraçá-la ou quebrá-la definitivamente.
Setembro de 2006.
11.7.08
Essa é uma das imagens que roubei do trabalho que tenho desenvolvido em Itaboraí.
"Vidro de perfume"
De atropelo é vida
nova cuspindo
campo.
É galo engolindo prédio,
velho
olhar rasteiro e espanto.
É prédio lançando lua,
gente lançando carma,
lançando.
Vidatropelada
avenidas derrapando em bocas,
e beijos engarrafados.
Amor
engolindo vidro
pia
de rachar silêncio.
De atropelo é vida
e é a morte
secando a rua.
7.7.08
Pósmodernice

Viva o nosso tempo!
Solidão , aids , alienação.
Não restou nada. Sem deus, sem crenças políticas, sem utopias... Porra, antes ainda havia esperança. Agora só esse gosto amargo do tédio e do cansaço. Uma desvontade terrível.
Olha àquela mesa, tem alguma coisa dentro daquelas cabecinhas? Tão modernos, tão rebeldes... No café da manhã cereal e chocolate quente. Depois se fantasiam e vêm pra cá posar de artistas.
Imediatismo, é só o agora meu irmão. Salve-se quem puder .
Sexo pra salvar a noite e dar uma aliviada na manhã seguinte, mas dura pouco, depois é o vazio e a sensação tão comum de estar só. E a tarde vai caindo e procura no armário algo pra beber, a dor aumenta, aumenta e aumenta e depois explode num ‘SOCORRO!!!’
Corre pro telefone liga pra ex-namorada e diz “por favor não me abandona, eu só tenho você”
E seguimos cada qual nadando no poço de seu próprio umbigo.
A menina dos sonhos não veio. Não há espaço pra românticos neste mundo meu querido. Essa princesa que você espera foi comida pelos jacarés quando tentava fugir do castelo.
A vida é o que a gente faz dela.
Sai da torre e oferece a cara pro mundo bater.
André Luis Pontes, diário sem floreios 1997.
Solidão , aids , alienação.
Não restou nada. Sem deus, sem crenças políticas, sem utopias... Porra, antes ainda havia esperança. Agora só esse gosto amargo do tédio e do cansaço. Uma desvontade terrível.
Olha àquela mesa, tem alguma coisa dentro daquelas cabecinhas? Tão modernos, tão rebeldes... No café da manhã cereal e chocolate quente. Depois se fantasiam e vêm pra cá posar de artistas.
Imediatismo, é só o agora meu irmão. Salve-se quem puder .
Sexo pra salvar a noite e dar uma aliviada na manhã seguinte, mas dura pouco, depois é o vazio e a sensação tão comum de estar só. E a tarde vai caindo e procura no armário algo pra beber, a dor aumenta, aumenta e aumenta e depois explode num ‘SOCORRO!!!’
Corre pro telefone liga pra ex-namorada e diz “por favor não me abandona, eu só tenho você”
E seguimos cada qual nadando no poço de seu próprio umbigo.
A menina dos sonhos não veio. Não há espaço pra românticos neste mundo meu querido. Essa princesa que você espera foi comida pelos jacarés quando tentava fugir do castelo.
A vida é o que a gente faz dela.
Sai da torre e oferece a cara pro mundo bater.
André Luis Pontes, diário sem floreios 1997.
4.7.08
Quase topo
Na esteira das últimas leituras que tenho feito da poesia do Heyk, venho revisitando alguns escritos que lancei em 2006, com o foco, de então, de mostrar as possibilidades oriundas da sublimação da palavra, mostrar como a semântica pode gerar confusões que, na verdade, nem existem. Trilhos wittgensteinianos de então, dentro do parco compreendimento que tive da obra do grande filósofo.
Abraços a todos e presença !
- - -
O pouco que consigo tocar, Deus, como é frustrante estar sempre tocando o quase-topo,
aguardando a aprovação diletante do inexistente, como um baixo grave que entrará nos
ouvidos e nunca mais sairá, permeando sua tentativa na existência de fundo musical
eterno;
E tão geograficamente próximo da escuridão mais torcionária que pode haver, a câmara
estanque do absolutamente intolerável, a piração do incompreensível, do
semanticamente absurdo, como uma gota de eletricidade que num primeiro momento
não pode ser e num segundo momento, de assalto, coça o coldre para alvejar,
massacrante como uma incessante coceira de pena na sola do pé, o campo inteiro do
seu compreendimento, a coisa mais raiz que você pode carregar, comparável em âmago
somente ao toque da boca no seio da mãe.
E a dor mais aflitiva e pungente, o não ter como, o tergiversar, o derrubar dias como peças de
dominó, a torção do caule, a delação, o bug do milênio, ninguém atinge, ninguém sabe o
que é.
A um passo da plasticidade da mercadoria, a um passo do sol no quintal, uma grande noite de
12 anos, por estar tão perto e tão longe dos dois extremos, a noite do “a um passo de”,
a busca da chave do cofre que não existe – meu deus, pode algo ser tão diabolicamente
vil a ponto de não apresentar solução cognoscível?!
A má novidade – o seu limite do horrorizante está deveras mal-acostumado, o número irracional,
a incongruência mais severa, o negativo da segurança do dia-a-dia – estão muito aquém
do que sua pequena cabeça pode admitir.
É fogo no milharal, o necessário incêndio neurótico para conseguir voltar a caminhar, manejar a
cadeira de rodas com segurança, esta sim sua nova aquisição – não que precise mas o
desejo foi mais forte, o desejo da derrota rápida e indolor mediante o vislumbre da
chance zero da vitória, o desejo de ter o nome gravado pra sempre na insignificância
mais extrema, não incomodar nem ao nível da contra-indicação, ser uma bula de um
remédio inrastreável, fabricado por, interações medicamentosas, posologia,
medicamento fitoterápico tradicional, uso oral.
Um elogio – um novo sol. As pessoas são felizes porque são limitadas. Você, não. É tudo um
estado de espírito. O homem é fruto dos seus atos.
Sai, cara, sai dessa, exorciza, esquece todos os aniversários, não compra mais o modelo, sorve
a seiva da poesia sem te agredir, sem te mutilar com a concentração de sentimento por
centímetro quadrado. Toca a tela de cristal líquido, abrindo mais uma opção que nunca
será a derradeira, explode o labirinto com o brilho dos teus olhos, chora a lágrima mais
linda que a existência já testemunhou com a doçura dos teus olhos, sobe e desce, saiba
subir e descer, sorria por saber subir, salve o sorrir por saber subir, separe o “salve o
sorrir por saber subir” do truque métrico.
Tudo passou. É triste, mas tudo passou. Não vou me matar tentando permanecer na sua vida. O
triste mais intenso, o triste de te ver mudar, de não te reconhecer mais – esse triste se
avizinhou, o triste de perder a esperança, de perder a vontade de continuar seguindo, de
continuar te admirando.
(Do livreto "Reações ao Grande Absurdo - A Palavra", parte integrante de "Acontecente", lançado em 2006)
Abraços a todos e presença !
- - -
O pouco que consigo tocar, Deus, como é frustrante estar sempre tocando o quase-topo,
aguardando a aprovação diletante do inexistente, como um baixo grave que entrará nos
ouvidos e nunca mais sairá, permeando sua tentativa na existência de fundo musical
eterno;
E tão geograficamente próximo da escuridão mais torcionária que pode haver, a câmara
estanque do absolutamente intolerável, a piração do incompreensível, do
semanticamente absurdo, como uma gota de eletricidade que num primeiro momento
não pode ser e num segundo momento, de assalto, coça o coldre para alvejar,
massacrante como uma incessante coceira de pena na sola do pé, o campo inteiro do
seu compreendimento, a coisa mais raiz que você pode carregar, comparável em âmago
somente ao toque da boca no seio da mãe.
E a dor mais aflitiva e pungente, o não ter como, o tergiversar, o derrubar dias como peças de
dominó, a torção do caule, a delação, o bug do milênio, ninguém atinge, ninguém sabe o
que é.
A um passo da plasticidade da mercadoria, a um passo do sol no quintal, uma grande noite de
12 anos, por estar tão perto e tão longe dos dois extremos, a noite do “a um passo de”,
a busca da chave do cofre que não existe – meu deus, pode algo ser tão diabolicamente
vil a ponto de não apresentar solução cognoscível?!
A má novidade – o seu limite do horrorizante está deveras mal-acostumado, o número irracional,
a incongruência mais severa, o negativo da segurança do dia-a-dia – estão muito aquém
do que sua pequena cabeça pode admitir.
É fogo no milharal, o necessário incêndio neurótico para conseguir voltar a caminhar, manejar a
cadeira de rodas com segurança, esta sim sua nova aquisição – não que precise mas o
desejo foi mais forte, o desejo da derrota rápida e indolor mediante o vislumbre da
chance zero da vitória, o desejo de ter o nome gravado pra sempre na insignificância
mais extrema, não incomodar nem ao nível da contra-indicação, ser uma bula de um
remédio inrastreável, fabricado por, interações medicamentosas, posologia,
medicamento fitoterápico tradicional, uso oral.
Um elogio – um novo sol. As pessoas são felizes porque são limitadas. Você, não. É tudo um
estado de espírito. O homem é fruto dos seus atos.
Sai, cara, sai dessa, exorciza, esquece todos os aniversários, não compra mais o modelo, sorve
a seiva da poesia sem te agredir, sem te mutilar com a concentração de sentimento por
centímetro quadrado. Toca a tela de cristal líquido, abrindo mais uma opção que nunca
será a derradeira, explode o labirinto com o brilho dos teus olhos, chora a lágrima mais
linda que a existência já testemunhou com a doçura dos teus olhos, sobe e desce, saiba
subir e descer, sorria por saber subir, salve o sorrir por saber subir, separe o “salve o
sorrir por saber subir” do truque métrico.
Tudo passou. É triste, mas tudo passou. Não vou me matar tentando permanecer na sua vida. O
triste mais intenso, o triste de te ver mudar, de não te reconhecer mais – esse triste se
avizinhou, o triste de perder a esperança, de perder a vontade de continuar seguindo, de
continuar te admirando.
(Do livreto "Reações ao Grande Absurdo - A Palavra", parte integrante de "Acontecente", lançado em 2006)
1.7.08
São Luís baby blue

O sorriso do gato ria alinhado as três marias
Ela os acompanhava com seus lábios de menina
e suas covas engraçadas.
Mas seus olhos traziam um fundo de tristeza.
Por buscas incessantes
Canções de despedida
e lágrimas contidas.
Naquele momento
A rasga mortalha varou o céu num grito.
Coruja branca talhando a noite.
Fenda de asas sonoras.
Acima do mercúrio
e do silêncio.
Maranhão, 2006 .
Ela os acompanhava com seus lábios de menina
e suas covas engraçadas.
Mas seus olhos traziam um fundo de tristeza.
Por buscas incessantes
Canções de despedida
e lágrimas contidas.
Naquele momento
A rasga mortalha varou o céu num grito.
Coruja branca talhando a noite.
Fenda de asas sonoras.
Acima do mercúrio
e do silêncio.
Maranhão, 2006 .
(Lua de fases, interferência digital, 2008.)
30.6.08
Feroz é o galo,
advento crucial da manhã.
Cruza de noite e luz.
Feroz todo mundo
dentro do mundo, feroz.
No bonde, no escuro às 6,
na padaria abrindo.
No raiar do poste elétrico, torturando o mendigo.
A primavera sonâmbula,
canhões crivados de sol.
O sideral volume espacial da aurora.
E teu cadarço frouxo, roxo,
amarrando tudo.
Feroz tua boca,
mordendo o ócio, travando o ofício.
Tua ferida cobrindo a falta.
O frio sem o lençol pra matar.
Feroz tua fuga desembestada,
tua verruga na cútis prata,
paupérrima tez mulata.
Feroz é a tv, cintilando na sala sem ninguém.
Teu pai morrendo no quarto.
Tua vó desenterrada.
Tua pá de ossos coloridos.
Teu filho viado.
Tua pasta de fígado de ganso.
Feroz é o pasto, roendo a terra.
A Terra tragando o pasto;
pastor comendo ovelha - prova óris do sistema.
Feroz é a tela, janela vomitando margem,
esconde-esconde à tarde.
Feroz é o galo,
rasgando a manhã.
Fantasmagórico trem amarelo,
fulgente,
advento crucial
do poema.
advento crucial da manhã.
Cruza de noite e luz.
Feroz todo mundo
dentro do mundo, feroz.
No bonde, no escuro às 6,
na padaria abrindo.
No raiar do poste elétrico, torturando o mendigo.
A primavera sonâmbula,
canhões crivados de sol.
O sideral volume espacial da aurora.
E teu cadarço frouxo, roxo,
amarrando tudo.
Feroz tua boca,
mordendo o ócio, travando o ofício.
Tua ferida cobrindo a falta.
O frio sem o lençol pra matar.
Feroz tua fuga desembestada,
tua verruga na cútis prata,
paupérrima tez mulata.
Feroz é a tv, cintilando na sala sem ninguém.
Teu pai morrendo no quarto.
Tua vó desenterrada.
Tua pá de ossos coloridos.
Teu filho viado.
Tua pasta de fígado de ganso.
Feroz é o pasto, roendo a terra.
A Terra tragando o pasto;
pastor comendo ovelha - prova óris do sistema.
Feroz é a tela, janela vomitando margem,
esconde-esconde à tarde.
Feroz é o galo,
rasgando a manhã.
Fantasmagórico trem amarelo,
fulgente,
advento crucial
do poema.
28.6.08
Passeio
Caros, de volta indefinidamente, saudoso destas páginas, vejo que o Presença cresceu em várias direções e manteve seus bravos pontos na poesia, com acréscimo de boa prosa vez por outra, novas trocas, novas pessoas, novas imagens (grande William!) e pouquíssimas lacunas. Quase dois anos de estrada, Presença. Avante!
Passeio
Em meia hora de procura tua
Rasgada, febril de suores
Inquieta de tripas
Olhei por você.
Quase te acho em Drummond
Perco teu rastro
por pouco
Na toalha úmida
No silêncio liso
No inverno mais frio.
Por pouco.
E lembro-me de ti no jardim
Vestido leve em paz com o sol
Abraço fácil de acordo
De toque, arrepio
Penumbra.
Mas não era o caminho.
Não houve o encontro.
Meu destino não foi o passeio.
Meia hora passou
Como tantas outras passaram
Por nós
Meus membros duros
Tuas curvas seda
Nosso cimo de tarde.
Passou. E eu
Num dos lados da cama já não procuro
Mas em versos
Te dissipo.
aos 27 de junho de 2008.
Passeio
Em meia hora de procura tua
Rasgada, febril de suores
Inquieta de tripas
Olhei por você.
Quase te acho em Drummond
Perco teu rastro
por pouco
Na toalha úmida
No silêncio liso
No inverno mais frio.
Por pouco.
E lembro-me de ti no jardim
Vestido leve em paz com o sol
Abraço fácil de acordo
De toque, arrepio
Penumbra.
Mas não era o caminho.
Não houve o encontro.
Meu destino não foi o passeio.
Meia hora passou
Como tantas outras passaram
Por nós
Meus membros duros
Tuas curvas seda
Nosso cimo de tarde.
Passou. E eu
Num dos lados da cama já não procuro
Mas em versos
Te dissipo.
aos 27 de junho de 2008.
27.6.08
Pan
.........."Esse peixe é tão lento que até um sujeito analógico o pesca", menosprezou o cidadão-digital. Os peixes modernos, como tudo o que é contemporâneo, não dão conta das expectativas depositadas sobre eles – ou são as expectativas de hoje em dia que colapsam qualquer objeto de sua incidência, na medida da nanotecnologia e a ultrainformação condensada em uma impressão digital, acessível somente aos nervos, toda a cartografia de tudo que já se pensou em todos os segundos de todos os big-bangs desde o instante AA#B00345772-21.
..........Isto é obviamente uma piada, esta é a impressão que tenho, mas ao mesmo tempo é difícil, eu diria inatingível, se ver livre da correria que, quanto mais distante do epicentro, menos sentido tem. É um fenômeno de textura que, apresentando um padrão de mosaicos, na escala natural, revela imagens concomitantes em escala cotidiana, e se apresenta ao tato com sofreguidão e piedade, na escala macro, quanto mais macro, maior, por definição, e maior, linearmente, a palavra-semente, ruim, àspera, sobre a boa nova, que de nova tem o bilhar AA#B00345772-21 de anos.
..........A perdição e náusea vieram a galope para os visionários deste fato, os magros que andaram, andaram, andaram e andam, carregando em suas faces a face solta do fato dependente do tempo para ser fato; sem vértebras somos reféns da gravidade e não podemos andar para diante, talvez a condensação da informação e a rapidez que nos é exigida sejam a vértebra necessária – ou talvez a vértebra a mais que nos pune com um desequilíbrio do nosso centro de gravidade, quem sabe?, quem tem referencial suficientemente cósmico para afirmar? E aí estamos outra vez nos terreno pantanoso da dúvida eterna, eterna desde sempre, a contingência nunca utilizada, o continente pan, uno, a questão que nos é inseparável desde… e lá vem outra vez o "desde", o tempo, a informação, o labirinto, o desmembramento, pedaços cognoscentes de Deus e servos obedientes do Eu.
(Aos 18 de janeiro de 2006, parte do livreto "Acontecente")
..........Isto é obviamente uma piada, esta é a impressão que tenho, mas ao mesmo tempo é difícil, eu diria inatingível, se ver livre da correria que, quanto mais distante do epicentro, menos sentido tem. É um fenômeno de textura que, apresentando um padrão de mosaicos, na escala natural, revela imagens concomitantes em escala cotidiana, e se apresenta ao tato com sofreguidão e piedade, na escala macro, quanto mais macro, maior, por definição, e maior, linearmente, a palavra-semente, ruim, àspera, sobre a boa nova, que de nova tem o bilhar AA#B00345772-21 de anos.
..........A perdição e náusea vieram a galope para os visionários deste fato, os magros que andaram, andaram, andaram e andam, carregando em suas faces a face solta do fato dependente do tempo para ser fato; sem vértebras somos reféns da gravidade e não podemos andar para diante, talvez a condensação da informação e a rapidez que nos é exigida sejam a vértebra necessária – ou talvez a vértebra a mais que nos pune com um desequilíbrio do nosso centro de gravidade, quem sabe?, quem tem referencial suficientemente cósmico para afirmar? E aí estamos outra vez nos terreno pantanoso da dúvida eterna, eterna desde sempre, a contingência nunca utilizada, o continente pan, uno, a questão que nos é inseparável desde… e lá vem outra vez o "desde", o tempo, a informação, o labirinto, o desmembramento, pedaços cognoscentes de Deus e servos obedientes do Eu.
(Aos 18 de janeiro de 2006, parte do livreto "Acontecente")
25.6.08
Trecho do diário sem floreios
“Me beija, me beija”. Fazia calor, ela tava tão pirada que tava pondo os peitos pra fora na frente de todo mundo. Eu falei pra ela maneirar. Ela disse “Vamo lá pra casa, minha mãe só volta amanhã”. Havia mais de um mês que eu não comia ninguém. Mas eu sabia que se trepasse com ela tudo ia voltar, as mesmas merdas de sempre. Eu lhe disse “É melhor não” Soltou um riso debochado e gritou “ Não gosta mais da fruta seu viadinho”
Tive vontade de dar um murro na cara dela. Ela se agarrou no meu pescoço e ficou “Vamo, vamo” .Eu disse não e ela continuou. Aí fiquei puto e dei um empurrão nela, ela bateu na vitrine e se esborrachou no chão, tentei ajudá-la a se levantar, ela deu um tapa no meu braço e começou a me xingar. Pedi desculpas, ela ficou histérica, virei as costas e a deixei lá. Atravessei a rua e peguei o ônibus. Fiquei mal pra cacete, achei que tinha exagerado, mas depois me perdoei , ela já tava passando dos limites. Do meu lado se sentou uma senhora que começou a falar sobre o desrespeito que sofriam os idosos por parte dos motoristas. Toda hora ela me perguntava o que eu achava de uma das suas colocações, a última coisa que eu queria naquele instante era conversar. Gostaria que existisse a pílula da invisibilidade pra poder tomar nesses momentos. E ainda tinha a minha mãe me esperando em casa pra mais um sermão. Puta que o pariu, eu realmente queria sumir. E a senhora do meu lado continuava “Não é mesmo, não é mesmo” eu concordava com um riso sem graça que escondia a minha vontade de mandá-la à merda abrir a janela de emergência e jogá-la de cima do viaduto. Tava no limite, a qualquer momento eu ia explodir, cólera, raiva de mim, incompreensão,falta de perspectiva, ódio pelo rumo que as coisas estavam tomando. Fechei os olhos para um cochilo pacificador. Acordei com o trocador me sacudindo “Ponto final”. Só faltava essa. O ônibus ficou uns quinze minutos parado. Do lado de fora uma mulher apertava incansavelmente o botão de uma máquina de refrigerantes, depois de muita insistência ela conseguiu a sua latinha, tinha o cabelo tingido e usava um salto alto comprado em algum brechó, eu fiquei secando os peitos dela, sempre tive tara por seios, nossa primeira fonte de prazer. Os dela eram fartos , daqueles de encher as mãos, fiquei pensando como deveriam ser os mamilos, rosados ou moreninhos? Aí ela percebeu que eu tava olhando e fez uma cara tão feia que me intimidou, o motorista deu a partida, só tinha eu e mais um estudante no ônibus.
(...)
André Luis Pontes, diário sem floreios, 1997.
Tive vontade de dar um murro na cara dela. Ela se agarrou no meu pescoço e ficou “Vamo, vamo” .Eu disse não e ela continuou. Aí fiquei puto e dei um empurrão nela, ela bateu na vitrine e se esborrachou no chão, tentei ajudá-la a se levantar, ela deu um tapa no meu braço e começou a me xingar. Pedi desculpas, ela ficou histérica, virei as costas e a deixei lá. Atravessei a rua e peguei o ônibus. Fiquei mal pra cacete, achei que tinha exagerado, mas depois me perdoei , ela já tava passando dos limites. Do meu lado se sentou uma senhora que começou a falar sobre o desrespeito que sofriam os idosos por parte dos motoristas. Toda hora ela me perguntava o que eu achava de uma das suas colocações, a última coisa que eu queria naquele instante era conversar. Gostaria que existisse a pílula da invisibilidade pra poder tomar nesses momentos. E ainda tinha a minha mãe me esperando em casa pra mais um sermão. Puta que o pariu, eu realmente queria sumir. E a senhora do meu lado continuava “Não é mesmo, não é mesmo” eu concordava com um riso sem graça que escondia a minha vontade de mandá-la à merda abrir a janela de emergência e jogá-la de cima do viaduto. Tava no limite, a qualquer momento eu ia explodir, cólera, raiva de mim, incompreensão,falta de perspectiva, ódio pelo rumo que as coisas estavam tomando. Fechei os olhos para um cochilo pacificador. Acordei com o trocador me sacudindo “Ponto final”. Só faltava essa. O ônibus ficou uns quinze minutos parado. Do lado de fora uma mulher apertava incansavelmente o botão de uma máquina de refrigerantes, depois de muita insistência ela conseguiu a sua latinha, tinha o cabelo tingido e usava um salto alto comprado em algum brechó, eu fiquei secando os peitos dela, sempre tive tara por seios, nossa primeira fonte de prazer. Os dela eram fartos , daqueles de encher as mãos, fiquei pensando como deveriam ser os mamilos, rosados ou moreninhos? Aí ela percebeu que eu tava olhando e fez uma cara tão feia que me intimidou, o motorista deu a partida, só tinha eu e mais um estudante no ônibus.
(...)
André Luis Pontes, diário sem floreios, 1997.
O louco
O louco, enfurecido, correu
Todas as direções. O agudo grito
Megadecibélico do ultra-aflito
Todos planos cognitivos varreu.
O insano, irrefreável, destronou
Sua consciência do seu próprio império.
Tarefa hercúlea! E, sem maior mistério,
Irou-se, sorriu, chorou, acenou.
Não coube em si, de algo que não sabemos!
Ficou triste, corou, falou de Vênus…
Dividiu-se em múltiplas reflexões.
Abriu, por fim, os braços e, solene,
Pulverizou sua loucura perene.
Diluiu-se em todos nós, grãos milhões…
(Aos 15 de junho de 2003. Poema integrante do livreto "Viver e Devir", de 2004)
21.6.08
Mar de agora
....................aa Lígia Pinheiro.
- - -
Tento te trazer para perto
E vislumbro a dificuldade
Das relações, as represas de vergonha que temos.
Sorrio pra acalmar e sorvo seu olhar benevolente,
De pessoa em paz,
Barco sereno no mar de agora,
Como é bom saber caracterizar um high,
Saber boiar no ar e respirar na hora certa,
Sendo esta a hora do corpo,
For a da zona do raciocínio.
Te toco num abraço
E sinto toda a bênção de toda área tocada do teu corpo sorrir-me,
Sinto fluir a cura do toque saudável,
Do ser em paz.
Estou contigo e assim volto à infância,
Apenas porque assim é o mecanismo,
Regresso e sou aceito outra vez no ventre
E te aprovo e também redimo
Teu ser à luz da grande ordem
Que nos permite ter tudo que necessitamos
Para apenas acontecer em harmonia.
E é só.
Buscar muito mais que isso
É afogar-se em labirintos;
A volta completa é muito menor que imaginamos até agora,
Suspeito.
É só ser.
E é só.
(Aos 23 de janeiro de 2006)
- - -
Tento te trazer para perto
E vislumbro a dificuldade
Das relações, as represas de vergonha que temos.
Sorrio pra acalmar e sorvo seu olhar benevolente,
De pessoa em paz,
Barco sereno no mar de agora,
Como é bom saber caracterizar um high,
Saber boiar no ar e respirar na hora certa,
Sendo esta a hora do corpo,
For a da zona do raciocínio.
Te toco num abraço
E sinto toda a bênção de toda área tocada do teu corpo sorrir-me,
Sinto fluir a cura do toque saudável,
Do ser em paz.
Estou contigo e assim volto à infância,
Apenas porque assim é o mecanismo,
Regresso e sou aceito outra vez no ventre
E te aprovo e também redimo
Teu ser à luz da grande ordem
Que nos permite ter tudo que necessitamos
Para apenas acontecer em harmonia.
E é só.
Buscar muito mais que isso
É afogar-se em labirintos;
A volta completa é muito menor que imaginamos até agora,
Suspeito.
É só ser.
E é só.
(Aos 23 de janeiro de 2006)
19.6.08
A quimera que atravessou o céu depois do ocaso
Gravura de Marcello GrassmannA bruma brilha sob luzes de mercúrio
Esquinas silenciam feito filhos deserdados
O tolo acompanha no assovio o badalo da igreja
Quatro faróis no meio fio
Quatro bêbados sentindo frio
A mulher imita a louca
E dança nua
Ofertando os seios ao luar
Ela diz:
-Vem me amar São Jorge!
(ou seria mamar?)
Traz pra mim o teu dragão
Vem aquecer o meu sono
Me dê tua mão
E descanse tua lança entre minhas coxas.
E tudo passa quando adormeço
E tudo esqueço quando desperto
É vago e estranho o que sinto
A noite foi
Ficou o inverno.
2002.
Esquinas silenciam feito filhos deserdados
O tolo acompanha no assovio o badalo da igreja
Quatro faróis no meio fio
Quatro bêbados sentindo frio
A mulher imita a louca
E dança nua
Ofertando os seios ao luar
Ela diz:
-Vem me amar São Jorge!
(ou seria mamar?)
Traz pra mim o teu dragão
Vem aquecer o meu sono
Me dê tua mão
E descanse tua lança entre minhas coxas.
E tudo passa quando adormeço
E tudo esqueço quando desperto
É vago e estranho o que sinto
A noite foi
Ficou o inverno.
2002.
Liberto !
No átimo outrora esfalecido
Do meu questionável juízo
Encontro agora estabelecido
O fluir que nestes versos friso –
O acontecer que eternizo
Ao sorrir para o que há de ser.
No labirinto outrora untado
De cosmopolita negrume
Encontro agora pincelado
Nas tintas do anti-queixume
O retrato perfeito do nume
Que faz viver e faz morrer.
Liberto! De saber inconteste
A decorrência do meu ato –
“És as escolhas que fizeste
Pela liberdade de fato
Que possuis – És homem, não rato
Na peça épica do vir-a-ser”.
(Fernando de Noronha, 26 de novembro de 2006)
Do meu questionável juízo
Encontro agora estabelecido
O fluir que nestes versos friso –
O acontecer que eternizo
Ao sorrir para o que há de ser.
No labirinto outrora untado
De cosmopolita negrume
Encontro agora pincelado
Nas tintas do anti-queixume
O retrato perfeito do nume
Que faz viver e faz morrer.
Liberto! De saber inconteste
A decorrência do meu ato –
“És as escolhas que fizeste
Pela liberdade de fato
Que possuis – És homem, não rato
Na peça épica do vir-a-ser”.
(Fernando de Noronha, 26 de novembro de 2006)
17.6.08
Cleiber Andrade
Diluído entre os tantos versos mineiros, surgiu-me esta poesia de Cleiber Andrade, velha guarda, versos amorosos, suaves e românticos, como convém à tradição de poetas-não-poetas, ventilando o bem-querer e encantando as moças - no caso a dona Irah.
O poema chama-se "Desejos de Cleibe Andrade para Irah", mais preciso impossível.
- - -
Peço-te, amor, para ficar guardado
com muito afeto, num dos livros meus,
como relíquia, mimo requintado,
um cacho loiro dos cabelos teus.
E, se amanhã a vista me faltar,
(nessa desgraça atroz, valha-me Deus!)
cego, serei feliz só em tocar
um cacho loiro dos cabelos teus.
E se, mendigo, eu for pedir esmola
à tua porta por amor de Deus,
dá para uma alma que não se consola
um cacho loiro dos cabelos teus.
E, na agonia, quando tudo findo,
cair a névoa sobre os olhos meus,
com os lábios frios, tremerei pedindo
um cacho loiro dos cabelos teus.
Quando eu morrer, na minha sepultura,
(amada, atende estes pedidos meus!)
quero na cruz de pedra, inerte e dura,
um cacho loiro dos cabelos teus.
(Cleiber Andrade, MG, data desconhecida)
O poema chama-se "Desejos de Cleibe Andrade para Irah", mais preciso impossível.
- - -
Peço-te, amor, para ficar guardado
com muito afeto, num dos livros meus,
como relíquia, mimo requintado,
um cacho loiro dos cabelos teus.
E, se amanhã a vista me faltar,
(nessa desgraça atroz, valha-me Deus!)
cego, serei feliz só em tocar
um cacho loiro dos cabelos teus.
E se, mendigo, eu for pedir esmola
à tua porta por amor de Deus,
dá para uma alma que não se consola
um cacho loiro dos cabelos teus.
E, na agonia, quando tudo findo,
cair a névoa sobre os olhos meus,
com os lábios frios, tremerei pedindo
um cacho loiro dos cabelos teus.
Quando eu morrer, na minha sepultura,
(amada, atende estes pedidos meus!)
quero na cruz de pedra, inerte e dura,
um cacho loiro dos cabelos teus.
(Cleiber Andrade, MG, data desconhecida)
10.6.08
André Luis
André Luis é uma figura ímpar que parece saída de algum livro, o conheci no segundo grau, tinha eu então quinze anos e ele quatorze, convivemos juntos por um ano, ele é daquelas pessoas que basta uma conversa de meia hora para te deixar sem chão. Desses caras que te fazem crescer ,que vêem pra te sacudir, te pôr do avesso e partem te deixando cheio de questionamentos, um cara que aos quatorze anos dizia coisas que só hoje entendo. As últimas notícias que tive dele datam de uns quatro anos atrás, continuava sua vida de andarilho, tinha então 22 anos e trabalhava como barman em Montevidéu.
O texto abaixo faz parte do seu “diário sem floreios”, foram os primeiros textos que ele me enviou, escritos quando ele tinha uns dezesseis anos.
Como ele dizia “literatura de baixo calão”, algo como um cruzamento juvenil de Dalton Trevisan e Bukowski (autores que na época acho que ele nem conhecia).
Raiva juvenil numa prosa seca e de cortes bruscos.
Reveillon
Como um sorriso de dentes podres no horário nobre da tv. O incômodo. Algo que fedia no meio da aparente alegria do plástico brilhante e colorido. Toda espécie de párias, gente feia e solitária, bêbados e moleques de quinze anos balançando seus pintos murchos pra posar de iconoclastas. Mendigos cantando canções de verdade. Blues que vencia toda merda que era cuspida pelos autofalantes. Nem tudo era sol, algo de podre pairava no ar, algo que tentavam empurrar pra baixo do tapete. Voltariam pra casa trêbados, tocariam uma punheta ou chorariam, e alguns deles talvez dessem uma foda mal-dada e adormeceriam em seguida. E depois voltariam aos horários de empregados, ao esquecimento e ao sofrimento silencioso. Enquanto isso algum outro subiria num prédio bem alto, olharia para longe e soltaria uma gargalhada. Ou empurraria as paredes para o mais longe que pudesse e ergueria a cabeça na tentativa de engolir o máximo de ar que nos pulmões coubesse.
André Luis Pontes, diário sem floreios, 1997.
O texto abaixo faz parte do seu “diário sem floreios”, foram os primeiros textos que ele me enviou, escritos quando ele tinha uns dezesseis anos.
Como ele dizia “literatura de baixo calão”, algo como um cruzamento juvenil de Dalton Trevisan e Bukowski (autores que na época acho que ele nem conhecia).
Raiva juvenil numa prosa seca e de cortes bruscos.
Reveillon
Como um sorriso de dentes podres no horário nobre da tv. O incômodo. Algo que fedia no meio da aparente alegria do plástico brilhante e colorido. Toda espécie de párias, gente feia e solitária, bêbados e moleques de quinze anos balançando seus pintos murchos pra posar de iconoclastas. Mendigos cantando canções de verdade. Blues que vencia toda merda que era cuspida pelos autofalantes. Nem tudo era sol, algo de podre pairava no ar, algo que tentavam empurrar pra baixo do tapete. Voltariam pra casa trêbados, tocariam uma punheta ou chorariam, e alguns deles talvez dessem uma foda mal-dada e adormeceriam em seguida. E depois voltariam aos horários de empregados, ao esquecimento e ao sofrimento silencioso. Enquanto isso algum outro subiria num prédio bem alto, olharia para longe e soltaria uma gargalhada. Ou empurraria as paredes para o mais longe que pudesse e ergueria a cabeça na tentativa de engolir o máximo de ar que nos pulmões coubesse.
André Luis Pontes, diário sem floreios, 1997.
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