28.11.06

Presságio ultra-romântico

muito bom ter encontrado estas poesias aqui. tem coisas muito boas circulando, na boa.
prossigo numa aproximação mais

Presságio ultra-romântico

Recolho-me frente à chama insuficiente
E arisca desta vela, o lúmen granzoal,
Imperador no atro arcabouço incomburente
Do asmático porão que me acolhe –e, demente,
Seco a testa, de uma febre insurrecional.

Lanço-me como um parvo ao tento irracional
De exilar de uma vez por todas a moente
Dúvida que me janta e noto, inaugural,
Empurrando-me, ultrajante, ao ato final,
A chuva que se precipita, consistente.

Que sangue espirro em tosse? Estou tuberculoso?
Que peste calcina minha saúde errática?
Que escrófula mina-me a defesa linfática
E traduz-se neste esforço assaz ominoso?

Que já tenho em simples respiração apática...
Revolto-me, amarguro-me em ódio nodoso
Inconformo mas, como um presságio tinhoso,
A vela – horror – responde: se apaga, enigmática.

Desespero-me ao inequívoco sinal,
Segundos grávidos de silêncio latente
E eis que o fogo, súbito, revive contente,
Ígneo permisso prum respiro inda normal.


(Recife, 27 de novembro de 2006)

6 comentários:

Juiz de Fora disse...

Tentativa frustrante e forçada de unir algumas palavras... Como diria Raul: "Tente outra vez..."

Guto Leite disse...

Discordo do "Juiz de Fora", acho que tem belas imagens e remonta a idéia a que se propõe, em agluns momentos mais, noutros meninos, mas disse a que veio. Tenho pensado muitos em suas referências, Isaac, lendo teus poemas. No primeiro tempo hábil te escrevo. Abraço aos demais poetas!

vinicius disse...

O poema "Presságio ultra-romântico" remete, creio, às leituras mais recentes que tem feito, certo?
é novo - dentro da tua produção - esse viés menos "rústico", por assim dizer, de fazer poesia - me refiro à métrica alexandrina e à própria linguagem utilizada - e, tanto quanto qualquer outra maneira que venha a ser descoberta em fases adiante, válida pelo jogo de sensações que desenha com os meios que cada processo abarca dentro das suas possibilidades; algumas exclusivas, note.
O adorno, desde que não se confunda com a situação adornada - e este não é o caso - é mais um elemento possível, mais uma ferramenta das que estão por aí disponíveis.

sobre o rapaz do martelinho brincando lá fora... dá nem pra chamar de pica pau, hein samana?
hehehe.

clara disse...

Eu adorei. Me lembrou dum "escarra na boca que te beija"

william galdino disse...

Baixou o caboclo tísico com cara de anjo dos tempos do Azevedo.

isaac disse...

ilê, rapeize

guto e vinícius, valeu pela apreciação da poesia. o intercâmbio institui-se, fértil, por aqui. novos libretos do presença em breve..

"juiz de fora", sua colocação constrói. eu já vi esse poema sob o ângulo de um amontoado de palavras, e posso te entender.

também já o vi sob o ângulo de uma descrição ultra-romântica dos perrengues de um tísico.

um abraço e presente !