25.11.06

Rafael Elfe

Rafael é um amigo de longas datas, com quem compartilhei muitas afinidades literárias e musicais , além de alguns porres e tardes ao violão, entoando canções punks contra os domingos tediosos de nossas adolescências. Poeta de visões românticas e carregado de imagens simbolistas, caminha junto as palavras de Gullar e aos versos-visões de Rimbaud e Flávio Murrah, influências confessas, que enriquecem seu universo poético sem tirar o mérito de sua poesia, rica e segura pelos anos de constante criação e pelo inegável talento no trato com as palavras.


"Brioso Bocejo"
Geme o aquecedor
A casa, os prédios ao redor
Gemem as cadeiras solitárias na área
No fundo a alma geme junto, assim tão baixinho
E os segundos vão gemendo, passando...
Quem vê?
Enxergam fundo e vão urgindo em passos finos
Geme o cão na cozinha sob a cômoda de mogno
Os pratos gemendo de frio
A sopa na panela nem mais geme, ingerida fora, antes.
No estômago se espraia para do intestino germinar.
Fora da casa gemem as colunas de ar
O vento seco nos muros - pés de pixações
e passamos sem notar... ali grita um nome tremendo:
G E R M E S
facção do amor urbano,
irritavelmente abafado
vão indo atrás das colunas de ar - sulcos de luz
Antenas e sombras de vizinhos que na correria
subvertem a ordem,
e gemem sorrindo nos carros novos
Que inveja faz da glória um caminho?
Enquanto ela gemia, o mundo pairava exangüe
e ainda gemem:
pias,
manhãs brotando,
avenidas de tempo derretendo em relógios,
ali, aqui,
em cada ambulância estacionada - um silêncio,
assim gemia a alma bem no fundo, grosseiramente.
E ela nem percebia que n´um brioso bocejo,
sacolejava o mundo.


"Primeiro e último haicai"

Quando ela sonha
emudando a noite
varre as estrelas

14 comentários:

vinicius disse...

Num primeiro olhar, parece que o Rafael tem um imaginário bem particular; a conexão entre alguns elementos do poema me escaparam, acho.
Em duas ótimas imagens, ao final, me surgiu a dúvida, sobre o viés mais adequado à leitura.

"Enquanto ela gemia, o mundo pairava exangüe
e ainda gemem:
pias,
manhãs brotando,
avenidas de tempo derretendo em relógios,
ali, aqui,
em cada ambulância estacionada - um silêncio,
assim gemia a alma bem no fundo, grosseiramente.
E ela nem percebia que n´um brioso bocejo,
sacolejava o mundo."

O impacto produzido, em mim, fica muito mais por conta da "musicalidade" que a composição carrega e da semântica em cada grupo de palavras, isoladamente, do que pelo significado contido do conjunto de imagens.


Espero poder conhecer mais coisas do Elfe, mais um conterrâneo insular.

isaac disse...

tive uma impressão semelhante, uma musicalidade muito ... quase literal.
"os pratos gemendo de frio" é som, além da poesia.

isaac disse...

acho que a página do "comments" da poesia da drika travou ... não estou conseguindo abri-la para postar um comentário.
a poesia é indiscutivelmente carregada de beleza, de imagens belas.
achei um pouco pessoal demais, no sentido de conseguir entrar pouco nela, não o quanto gostaria.

R. Elfe disse...

O poema fala sobre o mundo dentro do passar silencioso e "gemente" de um bocejo. O silêncio da ambulância gemendo "ocorrer" de algo que gemerá, para sacolejar o próprio silêncio onde ela se aflige. A personagem paira numa hora em que parece uma segunda-feira, lá pras 14 e 30, onde todos, depois do almoço sentem algum tipo de solidão... mas é conveniente ao poeta senti-la. Não há profundidade alguma, e nem alguma força maior para mudar o mundo, ou existencialmente o poema não se refere a nenhum contexto literário, nem semântico, nem nada... simplemente é um quadro sobre um pedaço de tempo. Subjetivo ou não, dá margem a milhares de correntes de cores e sugestões...

R. Elfe disse...

Afinal eu nunca escrevi apoiado a nenhum movimento, nem a qualquer regra. Realmente só obedeço o rítimo, mas não o rítimo das palavras, obedeço o rítimo que me explodem as imagens. Esrever sempre foi pra mim algo bastante primitivo, completamente instintivo, onde eu não penso em absolutamente nada... só vejo e sinto. Depois posso dissecar as imagens, e dar conotações que não são as reais, mas é aí que eu vejo a graça da coisa toda. Mesmo que no fim eu esteja rindo sozinho, é uma excelente fuga.

Mandy disse...

Por que não apreciar a poesia deixando, por um momento, todas as questões que implicam em regras ausentes de uma formulação de opinião? As poesias, com seu lirismo diáfano e envolvente, devem ser lida, talvez somente, com a alma - isso resultaria em um livre-pensamento, ou basicamente o abandono de toda a camada de pensamentos, regras e ditos pré-formulados dentro da literatura.

Mandy disse...

Ah! Pelo que conheço do R. Elfe ele está longe de ter uma essência Parnasiana exarcebada que o prende à estética, construção e forma. Creio que falamos de um poeta que tem, sobretudo, uma maneira subjetiva de apresentar o mundo sem, com isso, forçar a colocação das palavras. Noto que com ele cada sílaba ganha um poder e uma suavidade inquestionáveis, o que faz de suas poesias não um jogo exato com forma inaplicável, mas construções humanas e, sem dúvida, VERDADEIRAS.

vinicius disse...

Mais embreagem na descida, srta. Mandy.
Não há uma linha fazendo referência a essas estranhíssimas coisas supracitadas.
Não confundir uma tentativa honesta de adentrar o poema, seja ele qual for, com um desejo qualquer de restringir as possibilidades do poeta, neste caso, o Rafael; é só uma idéia.

"essência Parnasiana exarcebada que o prende à estética, construção e forma."
"um jogo exato com forma inaplicável"
ãhnn?!

:)

renata disse...

eu entro no coro: hããã??? égua, como assim????

vinicius disse...

É verdade, sobre o post da Drika. A parte de comentários travou mesmo.

R. Elfe disse...

Eita!
É só um "textínculo", ou um só um silencioso bocejo, mas sem brio algum.

R. Elfe disse...

corrigindo:
Eita!
É só um "textínculo"... eheheh um silencioso bocejo, no fundo, no fundo, se houver, sem brio algum.

isaac disse...

po o poema é bom, eu espero mesmo poder ler mais coisas do rafael aqui.

FlaM disse...

lindo!
bela estréia!